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1 Innledning

“- Não entendo nada, falar consigo é o mesmo que ter caído num labirinto sem portas, Ora aí está uma excelente definição da vida. Você não é a vida.

- Sou muito menos complicada que ela.”

José Saramago, 2005

Não raro também encontramos pessoas que referem «viver bem» estando separada da sua família, mantendo encontros pontuais ou, às vezes, nem isto. Não raro está na família a fonte da doença, a raiz da moléstia de um (con)viver patológico, onde o adoecer de um dos membros traz para a família a – utópica – sensação de salubridade dos demais. E o sentimento de abandono destas pessoas em quando estão nas suas casas corrói mais a pele, parece mais ácido do que quando estão «esquecidas» na Casa de Saúde, o que torna, para muitas, este lugar preferido. Uma das funções essenciais que a família desempenha, «a

da construção da identidade e do sentido para a existência» (M.E. Leandro, 2001:89)

dos indivíduos, passa a ser da competência das instituições.

Ter contacto com a família já não é mais percebido como fazer parte do seio familiar. E perceber outras pessoas também ‘abandonadas’ por seus entes acaba por, de certa forma, minimizar um sofrimento colectivo que percorre um

montanhoso caminho entre curvas e picos, variando entre momentos de saudade aguda e desprezo crónico, onde as pessoas experimentam ou revivem a miséria do esquecimento e, como defesa pessoal, desenvolvem um forte apego à Casa de Saúde, às suas actividades, aos funcionários, às demais pessoas em tratamento. E o não receber este amor não as impede amar ao próximo. E os laços atados entre as pessoas que partilham as Unidades ou o quarto ou a mesa das refeições ou actividades de trabalho ou lazer ou mesmo o ócio a acompanhar o voo dos colibris, acabam por tornar-se forte razão de se viver. Parcerias inseparáveis, alimentadas de cumplicidade, de bem-querer ou mesmo apenas do silêncio da companhia, trazem consigo a imagem da certeza de não se estar só.

Não é difícil atinar para o que dizia Goffman (2005) ao lembrar-nos que tanto a loucura quanto o comportamento doentio atribuídos às pessoas com doenças mentais são, constantemente, derivados da distância social entre aqueles que lhes atribuem isto e a situação em que esta pessoa está assentada, não resumindo-se fundamentalmente a um produto da doença mental.

E, de maneira a ilustrar esta premissa, trago o comentário de uma das pessoas da Clínica (Grupo II), após ouvir uma história: «A minha mãe deveria

estar aqui para ouvir esta história. Foi ela quem não me deu o carinho e o afecto que eu precisava na infância e agora adoeço por causa dela. Eu sou carente, eu sei que sou carente, mas sou porque não tive carinho de mãe (choros). E quero ser para a minha filha uma mãe muito diferente. E é isto que me dá forças para querer melhorar logo e voltar para casa. A depressão não vai me vencer. O carinho que preciso dar à minha filha é muito mais forte» (Márcia, 29 anos)47.

E ainda um outro exemplo nada exemplar, no dia em que na CSBJ, esteve a mãe de uma das participantes do Grupo de Histórias e Expressão Dramática e, ao apresentar-me a ela como Contadora de Histórias e sua professora de Teatro, elogiei o desempenho da filha no palco. E, enquanto brilhavam os olhos da filha, a mãe tratou de ofuscá-los a dizer: «É, ela não quer nada com a vida, só

gosta de brincadeiras. Mas se tiver que trabalhar, já reclama que não pode. Teatro é com

ela mesma, trabalho é que não!48» E é assim que sonhos são podados,

independentemente de aproximar-se a primavera ou não. E as famílias, frutos primários do adoecer mental, muitas vezes esquivam-se do apoio, da vibração, da valorização daquela pessoa enquanto produtora de atitudes de mudança e aproxima-se para cobrar-lhe posturas quando o seu movimento de afastamento pode ter sido a seiva que nutriu uma doença que apenas cavava um espaço para brotar.

A doença mental é fruto de um movimento para fora do familiarismo em direcção à autonomia. É este o verdadeiro perigo da sua verdade e a causa da estúpida repressão a que está subordinada. A sociedade deveria ser como uma imensa família feliz, com hordas de doces crianças. É preciso adoecer para não se querer um estado de coisas tão apetecível. É-se punido pela doença (Cooper, 1978).

Cada vez mais esquece-se a família da sua importância – e da importância da escola na infância – enquanto formadores de laços sociais entre as pessoas desde a primeira idade, principalmente quando a criança recebe pouco – ou nenhum – estímulo da família para responder às actividades ligadas à aprendizagem, crianças carentes de normas e valores sociais em suas casas, em sua comunidade. Facilmente estas crianças irão deparar-se com sentimentos hostis por parte dos companheiros de escola, por parte da vizinhança. Desta maneira, podem desenvolver estratégicas agressivas de respostas, sobretudo alimentadas pela sensação de fracasso, dados os baixos resultados escolares. E a mesma família que, outrora, alimentava a criança com ‘doses homeopáticas’ de afecto, a mesma família que ofertava-lhe atitudes de violência, começa a ver nesta pessoa os contornos de dificuldades, porque contempla agora alguém sem objectivos, sem gana de viver a vida. E, principalmente, esquece-se esta família do princípio básico de que não é possível dar o que não se tem, portanto não se é possível amar sem ter-se recebido amor.

Esquece-se a família que a pessoa que vive com doença mental é o «depositorium» das frustrações, dos desacertos familiares. Desconhece a família –

e que quero crer que seja realmente assim – a perplexidade somada ao medo que uma pessoa se depara ao passar por processos esquizofrénicos. A tentativa de enfrentar o que passou a ser, somada à perda do que já foi, isto é, «a

incapacidade de se ser humano – uma impossibilidade de ser qualquer coisa que a pessoa possa respeitar como sendo valiosa» (Goffman, 2005:113), a perda da referência

daquela imagem anterior ao adoecer como sendo sua.

Mas do outro lado das montanhas também nasce o sol, também planam os colibris e também percebem-se algumas famílias num movimento de cuidado, de afecto, de proximidade construtiva. Em menor número do que deveria ser, é bem verdade, mas em número suficiente para não deixar morrer a esperança. Há famílias que são sim incentivadoras, que reconhecem não só os limites, mas as possibilidades humanas das pessoas em tratamento à doença mental, sua sensibilidade, sua criatividade. E as pessoas percebem este movimento e cuidam para que os seus gestos enobreçam suas famílias, alimentem o orgulho que têm de si, como nos conta a Anabela (39 anos)49: «Eu

fico feliz com estas actividades e os meus familiares também. Meus pais perceberam os meus talentos para o teatro e dão-me muita força para continuar em frente com isto. Eu não herdei o meu talento, é meu mesmo, de mim própria e eles sabem. Eles reconhecem que é meu e incentivam para eu me aprofundar nesta arte. Eles sabem que eu tenho muitas ideias interessantes para o teatro, eu estou sempre a inventar alguma coisinha e eles divertem-se muito comigo. Os meus pais têm muito orgulho do que eu faço e sempre penso neles quando tenho ideias. Eles adoram assistir às peças, ficam sempre muito contentes e orgulhosos».

É sabido que o número de pessoas acometidas de doenças mentais, sobretudo a depressão e as que estão ligadas ao consumo abusivo de álcool e drogas é cada vez mais largo. Aproxima-se a cada dia do círculo de relações e o que anteriormente era apenas notícia de jornal, hoje já começa a ser comunicação de família. E negar o facto de que estas doenças alargam-se e aproximam-se não traz consigo nenhuma utilidade. Fica cada vez mais claro que nós, enquanto humanidade, fazemos parte de uma mesma teia social, na

medida em que influenciamos e somos influenciados por toda a trama social que a amarra.

Neste sentido, buscar alternativas para a recuperação destas pessoas, de maneira que a sua reintegração social possa acontecer de forma salutar e coerente a partir da reintegração à família, de modo que a exclusão passe a tornar-se atitude arcaica parece ser, se não a única, mas uma vereda que necessita da mobilização de todos nós enquanto humanos a lidar com humanos.

AS HISTÓRIAS LITERÁRIAS, MOVENDO PAPÉIS NA