Para constituir os nossos corpora, escolhemos discursos de personalidades com experiência universitária. Estes discursos configuram explicações verbais magistrais. A justificação para esta escolha assenta fundamentalmente nas seguintes circunstâncias. A selecção dos locutores dos discursos obedeceu a um critério de exigência de excelência (“expertise”). Este conceito de excelência tem vindo a ser utilizado recorrentemente na actualidade, na investigação, mas também “em diversos domínios da sociedade” (Monteiro, 2012, p.2). O conceito de “excelência”9 constitui, por exemplo, um dos pilares da teorização da Psicologia Positiva.
Adoptamos a concepção de “excelência/expertise ” como “manifestação de treino e prática intensiva” (ibidem, p. 35), em linha com a proposta de Karl Ericsson (Ericsson & Smith, 1991; Ericsson et al., 1993; Ericsson & Charness, 1994; Ericsson & Lehman, 1996; Ericsson, 2005). Adoptamos os seguintes parâmetros para a atribuição da “expertise” aos nossos participantes:
Aplicação da regra “dos dez anos” de experiência nos seus domínios de conhecimento.
Aplicação dos 30 anos de idade, critério válido para as actividades cognitivas (Ericsson & al., 2009; Ward, Hodges, Starkes, & Williams, 2007, citados por Monteiro, 2012, p. 36).
Consideramos ainda que a “expertise” dos autores seleccionados foi institucionalmente escrutinada de forma fiel e exigente. O reconhecimento institucional advindo das funções e cargos que exercem, pressupõem terem sido submetidos a regras de selecção exigentes (num dos casos pela Universidade e no outro caso pela plataforma “Ted”).
No caso do docente universitário foi também determinante o facto de autorizar que o seu discurso fosse gravado. No caso do discurso retirado da plataforma “TED”, a autorização foi dispensada, uma vez que se encontra em regime de acesso livre, no canal “YouTube”.
A nossa investigação, sob a forma de estudo de caso, desenvolve-se a partir de dois corpora tradutivos, compostos cada um por um discurso: um discurso corresponde a uma aula “magistral” e o outro corresponde a uma conferência magistral de divulgação de conhecimento científico. Os discursos seleccionados têm ambos características expositivas. Apresentam características de enunciação próprias e consequentemente quadros interacionais específicos, entre emissor e destinatários: existência ou inexistência de co-presença, existência ou inexistência de reciprocidade real.
O material recolhido tem a seguinte proveniência:
Uma aula de um docente da Faculdade de Psicologia da Universidade de Salamanca, sobre “Sexologia”, com a duração de 35 minutos. O quadro institucional da interação é o de uma aula em instituição universitária. Neste quadro, embora os interactantes estejam co-presentes espácio-temporalmente, existe pouca reciprocidade. Os papéis interacionais dos participantes estão amplamente determinados por este quadro. Assim o quadro participativo e os estatutos participativos dos interactantes, estão marcadamente condicionados por um modo de relação assimétrica. À partida, a relação de cada interactante com a enunciação é profundamente desigual: por um lado temos o docente a quem corresponde o papel de locutor privilegiado, porque a ele cabe institucionalmente a “pilotagem” da interação em situação de aula; por outro lado, temos os alunos que integram a turma, a quem corresponde o estatuto de alocutários e papel de locutores condicionados. Este discurso ilustra um episódio da docência universitária, em que se admite a existência de uma “história interacional” prévia e de uma “história discursivo-conversacional” também prévia, moldadas neste tipo de enquadramento institucional, mas também co- construídas pelas partes participantes em aulas anteriores. Cabe por isso admitir a existência de alguma relação de “familiaridade” e de estabilidade interacional, já que a interação discursiva ocorreu num contexto de comunicação in
praesentia, embora acentuadamente unidirecionada. À partida, os alunos
poderão ter alguma participação.
A proveniência do outro discurso, não é universitária. É retirado da plataforma “Ted” onde figura com o título “How to escape education's death valley”, de Ken Robinson. O quadro institucional da interação corresponde ao de uma conferência patrocinada e produzida pela plataforma “Ted”, uma organização sem fins lucrativos, dedicada à popularização de conhecimentos com impacto
científico e cultural universal. As conferências promovidas por esta fundação decorrem ao vivo perante uma plateia de público.
Figura 1. Formato de realização da conferência retirada da plataforma “Ted”
A interação inerente a este tipo de conferência desenvolve-se a dois níveis, tal como representámos na Figura anterior. São filmadas para posterior divulgação no canal “TEDx YouTube”. Têm a duração de 18 ou menos minutos.
A nossa investigação considera apenas o nível 1. Os papéis interacionais estão condicionados por este formato. Também, neste caso, o quadro participativo está condicionado por um modo de relação assimétrica: por um lado temos o autor da conferência, a quem corresponde o papel de locutor privilegiado, e a plateia que apenas participa responsivamente com aplausos, silêncios e risos. Não existe à partida nenhuma relação de proximidade familiar entre os interactantes, isto é, os interactantes envolvidos não co-construíram alguma “história interacional”, nem “história conversacional”. Apenas podemos supor que estão familiarizados com este tipo de evento discursivo.
Estratificámos os nossos dados em dois corpora tradutivos da forma seguinte:
1. Um corpus tradutivo que indexamos ao Estudo 1. Nesta condição, incluímos o discurso da Faculdade de Psicologia.
2. Um corpus tradutivo que indexamos ao Estudo 2. Nesta condição incluímos o outro discurso, a conferência do Professor Ken Robinson.
Oral e visual
Distância espácio-temporal Oral e visual
Distância espácio-temporal Ausência total de reciprocidade
Nível 2: visionamento no YouTube Promotor/Emissor:
Plataforma TED
Receptor: Público de YouTube
Locutor: Destinatário Conferente Público da plateia
Oral.
Co-presença espácio- temporal
Pouca reciprocidade Nível 1: conferência
Resumindo, é nestas respectivas condições estatutárias que a interação discursiva se desenvolve.
5.3 Instrumentos
No nosso estudo utilizamos versões tradutivas das transcrições dos discursos originais.
Na condição A (Estudo 1), a tradução foi feita por um licenciado em Filologia Portuguesa (Ministério da Educação Espanhol), com conhecimentos também ao nível da análise do discurso, da pragmática textual e da psicologia cognitiva.
O que nos levou a utilizar versões tradutivas (língua alvo) de discursos proferidos numa língua fonte?
A resposta prende-se com a forma dialógica como perspectivamos uma tese de doutoramento. Uma tese de doutoramento resulta de um esforço colectivo. Uma tese de doutoramento constitui um episódio polifónico, porque nela ecoam vozes de muitas mentes: a do autor material da tese certamente, mas também dos orientadores, das pessoas a quem se pediu aconselhamento, dos autores das fontes consultadas, etc., etc. . Mas não é só a este nível que existe heterogeneidade.
A mesma acontece ao nível dos destinatários. Podemos, no mínimo, considerar existirem dois destinatários. Um grupo de destinatários tem uma natureza institucional, e corresponde ao Exmo. Júri. O outro grupo, menos nitidamente identificável, e que gostaríamos que fosse numeroso, é constituído por todos quantos possam vir a interessar-se pela nossa tese, para a criticarem, para nela se inspirarem, em suma para a melhorarem, entrando numa relação dialógica com ela. Pensamos que numa perspectiva de popularização da informação, a utilização da nossa língua mãe pode facilitar a “compreensão responsiva” de possíveis destinatários, no sentido que Bakhtin (2003) dá a esta expressão:
De fato, o ouvinte que recebe e compreende a significação (linguística) de um discurso adopta simultaneamente, para com este discurso, uma atitude responsiva activa: ele concorda ou discorda (total ou parcialmente), completa, adapta, apronta- se para executar, etc., e esta atitude do ouvinte está em elaboração constante durante todo o processo de audição e de compreensão desde o início do discurso, às vezes já nas primeiras palavras emitidas pelo locutor (s.p).
Se uma tese pode apresentar uma orientação dialógica, não é menos verdade que os procedimentos utilizados não podem colidir com os valores de validade e fiabilidade dos dados empiricamente investigados. Interessa pois avaliar a utilização de versões tradutivas
nesta última perspectiva. Esta problemática10 não é especificamente nossa, já que, como
dissemos, tem alimentado reflexões e alguma investigação (Vanderschuren, 2007; Pasqualini, 2011; Pasqualini & al., 2011; Pasqualini & al., 2014), em quadrantes diversos (Linguística computacional, pragmática etc. .).
Na “Condição A” (Estudo 1), as traduções foram efectuadas, tendo o tradutor conhecimento prévio dos resultados das investigações sobre as traduções e o programa de linguística computacional, Coh-Metrix.
Tendo em conta o exposto na parte teórica relativamente à “traduzibilidade” e à utilização de “corpora tradutivos”, procedemos do seguinte modo, ao efectuarmos as nossas traduções do Espanhol para o Português (“Condição A”/ Estudo 1):
Perfil do tradutor: procurámos um tradutor bem habilitado bi-linguisticamente, com conhecimentos ao nível da análise do discurso, da pragmática textual e da psicologia cognitiva.
Preservação da matriz pragmático-textual ou composicional da transcrição na língua fonte (espanhol), na versão tradutiva na língua alvo (português).
Preservação da matriz ilocutória, ou seja a matriz referente aos actos de fala, também na transcrição da língua fonte para a versão tradutiva na língua alvo. Na “Condição B” (Estudo 2), em que a versão tradutiva na língua alvo (português) foi retirada do canal “YouTube”, procuramos garantir igual preservação.