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Nas últimas décadas do século XIX observou-se uma alteração na forma de encarar o equilíbrio político internacional por parte de várias potências europeias, através de um novo olhar sobre África: o historiador Eric Hobsbawm definiu este período como a «Era do Império»606. Portugal, pelas suas frágeis condições económicas, poucas possibilidades tinha de rivalizar em termos coloniais com potências como o Reino Unido, a França ou a Alemanha. O conflito de interesses que nestas circunstâncias se desenvolveu tinha da parte dos ingleses a justificação do projecto de construção de uma via ferroviária que ligasse o Cairo à Cidade do Cabo, os extremos continentais africanos, enquanto os portugueses argumentavam com direitos históricos e expedições que vinham a ser realizadas desde 1877607.

O aumento da tensão entre as duas nações era visível nos círculos diplomáticos, e Portugal sentiu a necessidade de assegurar apoios. Em nota ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Henrique de Barros Gomes, Casal Ribeiro dava conta da aprovação que se fazia sentir em Espanha: “A imprensa d’este paiz semn distincção de matizes politicos, mostra-se sympaticha a Portugal e reconhecendo o nosso direito na questão pendente com Inglaterra sobre extensão de dominios territoriaes em Africa Oriental”608.

Apesar dos apoios internacionais, o chamado Ultimatum inglês de 11 de Janeiro de 1890 não deixou outra opção aos portugueses senão ceder às exigências e retirar as forças militares do território em disputa609. Face às muitas críticas da oposição e a uma opinião pública agitada, o governo Progressista em funções foi forçado a pedir a demissão, sendo sucedido por um executivo Regenerador que tentou assinar um acordo com o Reino Unido em Agosto desse ano. A população, principalmente em Lisboa, saiu

605 Idem, Dispersos, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1923, vol.I, p.92. 606 HOBSBAWM, E. J., A Era do Império: 1875-1914.

607 TEIXEIRA, Nuno Severiano, O Ultimatum Inglês: política externa e política interna no

Portugal de 1890, Lisboa, Alfa, 1990, pp.46-57.

608 AHD/CLM, cx.133, mç.9, ofício de 17 de Dezembro de 1889. 609 TEIXEIRA, Nuno Severiano, O Ultimatum Inglês, pp.60-62.

de novo às ruas para exigir medidas patrióticas. Por pressão da ala mais radical, denominada Liga Liberal, o governo demitiu-se em Outubro, deixando nas mãos do Rei a difícil tarefa de encontrar novos ministros. Do outro lado da fronteira, ao contrário do que acontecera em 1881, Casal Ribeiro não abandonou as suas funções de ministro em Madrid com a saída dos Progressistas do poder.

Com o objectivo de formar um governo extra-partidário, D. Carlos decidiu recorrer aos dois velhos senhores do liberalismo, Martens Ferrão e Casal Ribeiro610. Para esse efeito o monarca enviou a Casal Ribeiro uma carta em que lhe declarava “Desejo e desejo muito que entre para o Ministerio, que eu encarreguei o Martens de formar. Peço-lhe em nome da sua amizade por mim e em nome d’aquillo que nós todos devemos ao nosso paiz n’este momento bem difícil que atravessamos”611. Para o persuadir a aceitar, o Rei afirmava: “Hoje os que valem como o Conde, ainda que afastados da politica, não devem recuar, em entrar de novo n’ella, ainda que momentaneamente, para prestar um serviço à sua Patria e ao seu rei. É um dever”612. Apesar do forte apelo aos princípios patrióticos, Casal Ribeiro opôs-se à ideia. Em resposta, confessava ao Rei “(…) a intima convicção de que, se alguma aptidão tive em antigos tempos, de todo me falece hoje; e por isso pressinto que longe de prestar utilidade a tam nobre e ardua empresa acaso lhe proviria danno da minha entrada no gabinete que váe crear-se (…)”613. Ainda que recusasse a oferta, deixava claro que ao novo ministério “(…) desde já afirmo quanto concurso caiba nos meus actuaes apoucados recursos, concurso se não valioso, incondicional, sincero e enthusiasta”614.

Esta solução ministerial fora, vários anos antes, objecto de consideração por parte de Oliveira Martins. Como confirmara em carta a António Cândido, “O ministério não pode deixar de formar-se tendo como núcleo o João Crisóstomo, provavelmente ladeado (porventura presidido) pelo Martens ou pelo Casal. Estes três nomes são o triângulo da nova situação em que eu, a ser convidado, entrarei apesar dos perigos”615. O governo extra-partidário não chegou a concretizar-se, uma vez que Martens Ferrão

610 RAMOS, Rui, D. Carlos: 1863-1908, Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2006, p.81. 611 ACR, carta de D. Carlos, [Setembro/ Outubro, 1890].

612 Idem.

613 ANTT/ CCR, cx.7426, cap.904 A, doc.46, carta de Casal Ribeiro para D. Carlos, [1890] e ACR, minuta de Casal Ribeiro, [1890].

614 Idem.

615 Carta de 1885 in Correspondência de J. P. Oliveira Martins, Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1926, p.71.

comunicou ao Rei que lhe fora impossível reunir os membros necessários; a tarefa foi então passada a João Crisóstomo de Abreu e Sousa.

Depois de fazer mais uma longa viagem pela Europa616, Casal Ribeiro dirigiu-se a D. Carlos, em Janeiro de 1891, aproveitando as felicitações pelo novo ano para lhe fazer recomendações políticas, num gesto que revelava a autoridade de que o conde gozava em relação ao Rei. Depois de afirmar que eram necessários novos rumos e orientações para a política portuguesa, apresentava aquelas que eram, em sua opinião, as razões para o estado actual do país: “(…) por culpas collectivas, sobretudo dos homens que se podem chamar dirigentes do movimento social, não temos empregado proporcionados esforços contra a decadencia em força material e pecuniaria, e mais ainda em força moral, que é urgente levantar á maior altura”617. O caminho seguido ao longo de várias décadas não havia sido o mais correcto, para os príncipios que Casal Ribeiro defendia: a “(…) politica sem norte, de mesquinho opportunismo (…)”618, só podia trazer consequências negativas.

Resumia os acontecimentos políticos em Espanha, e mais uma vez dissertava sobre a necessidade de cordialidade entre os países peninsulares, deduzindo que todos os benefícios para a monarquia espanhola seriam reflectidos em Portugal. Debruçava-se também sobre a questão africana, satisfeito por terem sido encontradas soluções que pusessem um fim à agitação social. Apesar da crítica à atitude inglesa, recomendava os maiores esforços na diplomacia: “Com a Inglaterra convem pôr-nos de bem, como de bem nos cumpre estar com todas as nações. Com Inglaterra amizade mais ou menos constrangida, sem alardes de imaginarias hostilidades (…)”619. Era importante não esquecer os acontecimentos do ano de 1890, para não cometer novamente o erro de confiar excessivamente na aliança inglesa. Como contrapeso, emergia assim a importância do apoio que Espanha podia garantir, e as vantagens de uma aproximação. Casal Ribeiro terminava num tom abatido: “(…) Senhor; pressinto que se alquebrará em mim de vez o animo para a vida publica, e não ficará ponto de resistência contra a

616 Com passagem pela Alemanha; BNP, Espólio Luís Augusto Palmeirim, N55, cx.2, carta de Casal Ribeiro para Luís Augusto Palmeirim de 4 de Dezembro de 1890.

617 ANTT/CCR, cx.7426, cap.904 A, doc.47, carta de Casal Ribeiro para D. Carlos de 4 de Janeiro de 1891.

618 Idem. 619 Idem.

attracção para o canto obscuro do lar domestico, onde levarei a certeza de para nada prestar já no serviço de meu Rei e da minha patria”620.

Em nova epístola ao Rei, Casal Ribeiro lamentava não ter existido em Portugal um político semelhante a Canovas del Castillo em Espanha, cuja acção enquanto governante lhe parecia sem dúvida a mais acertada para os problemas políticos e sociais que o país enfrentava621. O comentário servia-lhe para criticar o falecido Fontes Pereira de Melo: “(…) que misera herança nos legou esse nosso… único homem d’estado, que o poderia ter sido a valer, se para tanto tivesse talhe, por ser quem durante largo periodo governou sem rival em analogia de circumstancias, gosando por seus meritos alias reaes sob outros pontos de vista, a omnimoda confeança da Corôa”622. Censurava também os membros dos dois partidos monárquicos por se revelarem incapazes de solucionar os graves problemas da sociedade, da fazenda, do exército e da diplomacia.

Da mesma forma pensava Oliveira Martins, que lhe comunicava as últimas novidades em Portugal: “O governo mantem-se por exclusão de partes. Não ha força em ninguem. Não ha chefes nem homens com prestigio”623. Para Casal Ribeiro, a solução mais eficaz para todos os problemas que Portugal atravessava passava por uma reabilitação moral da nação, intimamente ligada à religião.