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Apesar da sua proposta de reforma para a Câmara dos Pares ter sido aprovada praticamente na totalidade, a relação entre Casal Ribeiro e os Regeneradores não voltou a ser o que fora nos primórdios da Regeneração. Descontente com a política seguida, Casal Ribeiro lançou duras críticas ao governo. Primeiro, aquando do debate sobre a «questão Paiva de Andrada», o antigo ministro Regenerador associou-se à larga maioria política que se opunha à concessão de territórios coloniais portugueses a uma entidade privada. Usando de ironia, questionava: “O que faria o nobre ministro se não existisse neste mundo o sr. Paiva de Andrada?... (...) Tinha de mandar apregoar em praça, por algum pregoeiro da sua secretaria (…) «Quem quer a Zambezia?!... »”479. Segundo Marques Gomes, Casal Ribeiro virava-se contra o partido que antes integrara, sem contudo apoiar os Progressistas, que eram também alvo de admoestações480.

Casal Ribeiro acusava o ministério de ter manipulado as eleições de Novembro de 1878, mobilizando as forças da autoridade para intimidar os eleitores, fazendo detenções ilegais e adulterando as contagens481. Também o apoio às candidaturas republicanas, em Lisboa, e em especial à de Elias Garcia, lhe motivava alguns ataques. Apesar de respeitar a ideologia que aquele político pudesse defender, Casal Ribeiro não concordava com o apoio oferecido pelo poder instituído, por fragilizar a credibilidade

477 ALMEIDA, Pedro Tavares de (org.), Legislação Eleitoral Portuguesa, pp.307-311 e idem,

Eleições e caciquismo no Portugal oitocentista (1868-1890), Lisboa, Difel, 1991, pp.83-92. A lei eleitoral de 1878 praticamente duplicou o eleitorado; ALMEIDA, Pedro Tavares de (org.), Legislação Eleitoral

Portuguesa, p.xix. Casal Ribeiro foi um dos membros da comissão da Câmara dos Pares que aprovou o projecto de lei; AHP, Pareceres de comissões da Câmara dos dignos Pares, 1878, parecer nº319.

478 FERNANDES, Paulo Jorge, Mariano Cirilo de Carvalho. O «Poder Oculto» do liberalismo

progressista (1876-1892), pp.76-77. 479 DCP, 15-1-1879, p.83.

480 GOMES, Marques, Historia de Portugal, vol.XII, p.489.

481 RIBEIRO, Conde do Casal, Discursos do Conde do Casal Ribeiro no debate da resposta ao

do regime monárquico: não era possível “(...) admitir que scientemente ou inconscientemente o governo esteja ali fazendo republicanismo n’aquellas cadeiras” 482.

Mas o tema que parecia mais importante na sua concepção política era o pariato. Menos de um ano depois de aprovada a nova lei do pariato, Fontes Pereira de Melo tentara obter do rei a nomeação de sete novos pares, e este consentira483. Poucos meses antes, em carta ao seu genro, Lourenço António de Carvalho, à data ministro das Obras Públicas no governo de Fontes Pereira de Melo, Casal Ribeiro dizia-se um “(…) amigo sincero do Governo e affeiçoadissimo amigo do Fontes (…)”484, mas mostrava-se desconfiado das acções do Presidente do Conselho: “Se se pensa em nomeiar dois, quatro, seis Pares cuidadosame escolhidos nas categorias da nova lei, não vejo objecção valiosa. Se porem a nomeação toma o caracter de fornada, acho-a inopportuna, impolitica, perigosa (…)”485. Casal Ribeiro opunha-se à nomeação, considerando que se tratava apenas de uma questão de conveniência política: os escolhidos tinham competências para o cargo, mas a promoção em conjunto causava estranheza486. Ficava em causa o prestígio da monarquia, uma vez que a Câmara dos Pares era um dos pilares do sistema político.

Embora louvasse os objectivos que o Partido Regenerador defendera aquando da sua constituição, o sistema interno que o partido desde então desenvolvera merecia-lhe agora a mais dura crítica, por depender unicamente de uma figura, o que se tornara evidente em comparação com o recém-formado Partido Progressista. Por esse motivo, Casal Ribeiro não pressagiava um futuro promissor aos Regeneradores: “Que vemos nós na epocha actual? Vemos, em vez do culto dos princípios, o culto dos homens, em vez da religião das idéas, o fetichismo das personalidades. E quando os partidos chegam a esta situação, morrem fatalmente!”487. Finalizava lançando avisos ao governo quanto à posição que pretendia adoptar no futuro: “Hoje, ámanhã, e sempre, aqui me encontrará o governo, para examinar as suas responsabilidades, para corrigir as suas falsas doutrinas, para sustentar os nossos direitos quando nos forem disputados. (…) Contra a teimosia

482 Idem, ibidem, p.82.

483 Diário Popular, 3-12-1878, p.1.

484 BNP, Cartas dirigidas a António Maria de Fontes Pereira de Melo, cx.2, cap. «56 cartas», carta de Casal Ribeiro de 30 de Novembro [1878].

485 Idem.

486 RIBEIRO, Conde do Casal, Discursos do Conde do Casal Ribeiro no debate da resposta ao

discurso da coroa, pp.7-9. 487 Idem, ibidem, p.63.

do vosso egoísmo politico, encontrareis aqui de frente a constancia das nossas consciências”488.

Em resposta, Fontes Pereira de Melo mostrou-se muito magoado com as opiniões de Casal Ribeiro: “A camara póde imaginar quanto me tem pungido o coração o discurso do meu nobre amigo o sr. conde do Casal Ribeiro. Se o digno par teve esse intuito conseguiu-o, porque profundamente me feriu no que tenho de mais intimo nos meus sentimentos de homem publico e de particular”489. Como reflexo esperado, a oposição ao governo fontista mostrou-se muito satisfeita com a condenação feita por Casal Ribeiro. Mariano de Carvalho, através do Diário Popular afirmava que “O discurso do sr. conde de Casal Ribeiro excedeu toda a expectativa, e sem lisonja, nem paixão, se póde dizer que há muitos annos se não pronuncia no parlamento outra oração como aquella. Nem ainda o sr. conde de Casal Ribeiro na sua vida fez outra discurso assim”490.