Os escravos Manoel e Luiza compareceram na Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte no dia vinte e sete de março do ano de 1814. Nesse dia, eles se tornaram pais espirituais de Joaquim, que na ocasião, segundo o Cura Antonio Jose Lopes, contava com 216 meses de vida, ou seja, aproximadamente 18 anos de idade. Ao receber os santos óleos na pia batismal, Joaquim se tornou o primeiro escravo africano a ser batizado em Santa Maria da Boca do Monte.29
De acordo com José Roberto Góes,
os africanos, como se sabe, são em certo sentido, uma invenção americana. Trazidos dos mais diferentes lugares do „continente negro‟, foi nas fazendas e cidades americanas que milhões de homens e mulheres, oriundos de diversas sociedades e tradições culturais, foram levados a se fazerem africanos. A fôrma do africano foi a escravidão e o material usado [...] foram as tradições culturais específicas que traziam da África (2003, p. 206). [grifos do autor]
Assim como na grande maioria dos assentos de batismos de indivíduos africanos, no registro de Joaquim não consta informações relevantes como, por exemplo, a sua etnia africana. Circunstância essa que, devido às fragilidades das informações de que dispomos sobre o meio social onde forjaram-se as orientações valorativas desses sujeitos, dificulta bastante as reflexões qualitativas sobre as experiências históricas desses agentes sociais. Contudo, a partir de algumas obras de referência sobre a África, a escravidão e o tráfico negreiro podemos nos aproximar, ou ao menos conceber uma ideia-representação, dessas experiências.
Segundo Florentino (2010), eram três as principais áreas de procedência dos negreiros aportados no Rio de Janeiro, o porto brasileiro pelo qual entraram as mais vultosas somas de africanos, entre 1795 e 1830: África Central, Ocidental e Oriental. Foi da primeira dessas áreas de procedência – África Central Atlântica – que provieram cerca de 90% da população africana que se espalhou pelo Sul-Sudeste da América portuguesa e posteriormente do Império do Brasil. Nesse contexto, para Slenes (1999) e Góes (2003), o tronco linguístico
banto era um dos elementos culturais comuns a todas as sociedades dessa área africana. Situação essa que, por consequência, segundo esses autores, pode ter possibilitado a formação de uma identidade, ou até mesmo uma proto-nação, banto entre os indivíduos que compunham a população africana radicada compulsoriamente no Brasil. Além disso, pesquisas recentes vêm mostrando que, em uma vasta região da África Central, “a cultura é menos heterogênea e menos particularista do que geralmente se supõe” (CRAEMER apud SLENES, 1999, p. 143).
Assim sendo, apesar de não termos base empírica, não é descabido tentar imaginar a trajetória percorrida por Joaquim antes de ele ter sido levado a receber o primeiro sacramento católico. A partir dos argumentos dos autores citados acima podemos presumir que Joaquim tenha passado significativa parte de sua vida em alguma tribo do interior da África Central. Também não é difícil imaginar que ele tivesse sido um lavrador, ou então que se dedicava ao pastoreio. Por outro lado, salvo alguma condição excepcional, possivelmente, Joaquim teria sido um dos guerreiros de sua tribo, e do mesmo modo que muitos outros integrantes desta, pode ter sido escravizado após a derrota em uma contenda tribal, ou ter sido alvo de uma expedição de apresamento de escravos promovida pelos grandes reinos africanos litorâneos.
O caminho percorrido por Joaquim do interior da África até a longínqua paragem de Santa Maria da Boca do Monte, possivelmente, começou por longos dias de percurso terrestre pelo interior do continente negro em direção a alguma localidade portuária do litoral. Dali, após ter sido negociado com traficantes de escravos, ele acabou sendo embarcado em um dos navios negreiros que rumavam à América. Por conseguinte, após algumas semanas da travessia atlântica, provavelmente, Joaquim tenha desembarcado no porto de São Sebastião do Rio de Janeiro. Nesta altura de seu trajeto como cativo, é plausível crer que Joaquim já teria passado por intensas experiências como a abrupta apartação de sua família e o próprio desterro compulsório. Além disso, no decorrer da insalubre viagem nos porões negreiros ele teria também visto inúmeros de seus companheiros de cativeiro sucumbirem devido a doenças, fome ou aos maus tratos.
Já em território luso-brasileiro, Joaquim acabou sendo separado da maioria dos parceiros africanos, os quais haveriam de seguir às plantations do sudeste e nordeste. Por sua vez, após algum tempo em poder de um mercador de escravos, seu destino acabou sendo selado: rumaria em direção aos confins meridionais da América portuguesa. Desta forma, mais uma vez, teria de passar pela sina de uma embarcação que transportava escravos, no entanto, esta, possivelmente, realizava a navegação de cabotagem pelo litoral do Brasil.
Partindo do Rio de Janeiro em sentido austral, após mais algumas semanas, e depois de ter atracado em diversos entrepostos, o navio que transportava Joaquim deve ter chegado à última localidade luso-brasileira ao sul da América, a povoação de Rio Grande.
Mas como sabemos, a longa marcha de Joaquim não teria fim ali. Indiferente dos diversos episódios que devem ter marcado a trajetória de nosso protagonista, podemos presumir que para chegar até Santa Maria da Boca do Monte, provavelmente, em Rio Grande tenham-no colocado noutra embarcação, a qual seguindo via Lagoa dos Patos desembarcaria, em poucos dias, na localidade de Porto Alegre. De lá, após outra mudança de embarcação, ele seguiria seu percurso, em direção oeste, pelo rio Jacuí até a povoação de Rio Pardo. A partir dali, seria preciso deslocar-se por terra até as proximidades do sopé da Serra Geral, local aonde se situava Santa Maria da Boca do Monte e, provavelmente, encontravam-se as propriedades de Thomaz Cardoso, seu senhor.30
Essa pode ou não ter sido a trajetória de Joaquim desde o interior da África até o extremo meridional da América portuguesa. Mas provavelmente, muitos dos eventos superficialmente narrados aqui fizeram parte da trajetória de muitos dos africanos que chegaram a esses confins de que tratamos. Desde que foram escravizados até chegar a pia batismal da Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte, Joaquim e outros cento e trinta e dois africanos31 tiveram que superar condições de existência extremamente inóspitas. Na verdade, essa narrativa não tem por finalidade vitimizar esses indivíduos. Muito antes pelo contrário, o que realmente pretendemos é mais uma vez afirmar que, as intensas experiências vividas por esses africanos, embora lhes infligisse um abissal sofrimento, acabava também os obrigando a elaborarem estratégias para que antes de qualquer coisa pudessem sobreviver.
Como já colocamos nesse estudo, entendemos que os africanos possuíam um arcabouço cultural que lhes provia de recursos, com os quais compreendiam o cativeiro e suas próprias condições de cativos. Nesse sentido, todas as experiências pelas quais passavam os escravos africanos, ao longo de todo o trajeto desde seu continente natal até os mais remotos rincões da América, também se tornavam elementos que enriqueciam, de forma bastante dolorosa, o lastro cultural de cada indivíduo. Além disso, as violentas vivências as quais esses sujeitos eram submetidos passavam, imediatamente, a servir como elementos para
30 Fonte: arquivo da Cúria Diocesana de Santa Maria, livro 1 de batismos, folha 2.
31 Dos 133 africanos batizados na dita Capela, no período que abordamos, dois deles não foram discriminados como escravos. No restante do trabalho trataremos apenas dos 131 africanos que foram identificados como cativos.
enfrentarem as difíceis demandas da escravidão em um contexto bastante distinto do africano.32
Enfim, a significativa presença de africanos nos assentos de batismos, além de constatar que os produtores da região de Santa Maria da Boca do Monte recorriam ao tráfico negreiro para a reincorporação de mão de obra cativa, pode nos contar mais sobre o caráter hierárquico daquela sociedade.