4. Presentasjon av funn og drøfting
4.4. Tilstedeværende voksne i barnas vennskapsrelasjoner
O grande e bonito sorriso é o traço mais marcante da moça negra de 27 anos que no ano de 2010 deixaria o interior de Pernambuco para vir morar em Fortaleza, após casar-se. Flor é mãe de três filhos pequenos e assim como Dona Orquídea não trabalha com reciclagem. Ela participa ativamente das ações sociais desenvolvidas na sede da antiga associação de moradores e moradoras do Gereba e foi uma das mulheres mães a desenvolver o projeto Amo Cuidar na comunidade. No ano de 2017 Flor decidiu dedicar-se exclusivamente a dois outros projetos: o fortalecimento do grupo de mulheres e a criação da biblioteca comunitária. Dada a sua simpatia e disponibilidade para com os assuntos referente à pesquisa, não tardou a tornar-se uma importante informante. Ela é uma mulher tão terna quanto determinada. Aos poucos foi despontando como uma liderança social na comunidade.
Sua grande paixão? O trabalho com as crianças, sobre o qual falará durante o relato sobre a sua trajetória.
Após alguns contatos feitos durante as atividades realizadas na associação, ela iria
nos receber em sua casa em uma manhã de outubro de 2017, para conversarmos melhor – uma
entrevista aberta na verdade. Na véspera, porém ela entrou em contato comigo para avisar que a creche na qual os filhos estudavam tinha sido assaltada duas vezes, somente naquela semana – fato esse depois amplamente divulgado pela mídia. Em virtude disso, ela estava fazendo uma campanha de arrecadação de material, principalmente de cozinha, e perguntou-me se podia contar com a minha ajuda. O encontro não fora desmarcado. Na manhã seguinte, ainda um pouco apreensiva, dado o fato das crianças estarem sem aula, ela me recebeu. Na cozinha de sua casa, enquanto fazia café para os filhos começou a contar a sua bonita história:
Faz 7 anos que eu estou aqui. Eu me casei e como a família do meu esposo era daqui a gente veio pra cá. A minha infância foi maravilhosa. Eu tinha meus irmãos, minha mãe sempre ao meu lado, tinha muitas amizades. A única coisa que foi ruim foi porque o meu pai abandonou a minha mãe e ela teve que criar 9 filhos sozinha. Depois de um tempo ele ficou doente e aí lembrou que tinha família. Eu ajudei no que foi possível. Quando ele morreu eu não senti como se ele fosse um pai, pra mim. Eu chorei [...] mas não foi como chorar por um ente querido não, eu chorei porque ali tinha uma pessoa que tava sofrendo. Minha mãe criou os 9 filhos trabalhando num lugar que eles chamam de Maré. Pegando frutos do mar pra vender. Ele não dava nada pra gente. A minha mãe é uma guerreira. O modelo de pai que eu tinha em casa era o meu irmão mais velho. Eu não senti falta do meu pai porque a minha mãe fazia esse papel muito bem. (Flor. Entrevista em 18/10/2017).
Assim como aconteceu com outras mulheres pesquisadas, as primeiras lembranças de Flor remontam inicialmente a uma infância de alegrias, mas também de pobreza e dificuldades, no interior Pernambucano – dentre as quais, a complexa relação familiar –,
cenário de afetos e conflitos.De tanto ouvir relatos fortes sobre a infância das mulheres mães
no Gereba, muitas vezes cheguei a pensar também nas trajetória das avós... Mas isso será tratado ao final do capítulo, a partir da análise de falas mais específicas dessas mulheres sobre como é ser mãe e mulher na comunidade Gereba. Por enquanto, apenas mais um relato de Flor sobre a família, a relação com a mãe e a afetividade que vem sendo cultivada em sua vida:
A gente mora longe, a gente se vê só uma vez por ano, mas eu tô sempre no celular com ela. De primeiro eu não dizia que eu amava ela, quando eu era adolescente principalmente. E eu não conseguia explicar o porquê. Hoje em dia é a palavra que eu mais digo. Eu ligo pra ela e primeiro eu peço a benção. No final da minha ligação eu sempre digo que eu amo ela. Antes ela dizia: Flor! te amo! Aí eu dizia: “Tá certo, tchau!” Hoje em dia, antes dela dizer “eu te amo” eu digo: “Ei mãinha! Eu te amo, viu?” Eu aprendi a dizer eu te amo. Eu digo pra todos os meus irmãos: “Eu te amo!” Até com as minhas melhores amigas daqui eu digo eu te amo. Aí eu digo brincando:
“Mas não vai pensar que é porque eu gosto de mulher não!” - Diz rindo. (Flor. Entrevista em 18/10/2017).
Ao final de sua fala, como vimos, Flor enfatiza os vínculos de amizade no bairro. A seguir ela nos fala sobre como é morar na comunidade e aponta os atuais desafios do Gereba:
Eu acho que eu não gosto daqui, eu me acostumei. Não pretendo ficar muito tempo aqui. Não que aqui não seja bom, mas tem essa violência. Piorou de uns seis meses pra cá. Antes a gente tinha mais paz. Aqui era um lugar bom de se viver. Não tinha essa influência de gente de fora. (Refere-se aqui a disputa territorial). Hoje você tá em frente à sua calçada e de uma hora pra outra chega um carro atirando! A gente não pode mais tá na porta da nossa casa, tem que tá todo mundo trancado! [...] Aqui também tem essa ruma de mato aí, eu acho perigoso. Não dá pra viver tranquilo. Teve a morte dos 2 meninos que marcou muito aqui. Um tava jogando dominó e o outro foi comprar suco. A gente fica se perguntando: “Porque isso meu Deus?” Quando eles vêm de lá eles não querem saber quem é. Se é homem, se é mulher, se é criança, se deve, se não deve. Eles querem saber de deixar alguém no chão. (Flor. Entrevista em 18/10/2017).
Provavelmente, se o fato envolvendo a creche onde os filhos estudam não tivesse acontecido tão recentemente, Flor apresentaria uma diversidade maior de elementos em sua narrativa. Ressalto que a maior parte de seu relato, todavia, alude ao fato de ser mãe, à relação com os filhos e a conciliação que tenta fazer entre a vida doméstica e o trabalho social
desenvolvido na associação – elementos que eu faço a opção de só apresentar em detalhes
mais a frente. Ela continua a discorrer sobre os problemas no Gereba, dentre os quais, a questão da drogadição. Flor sinaliza também o que existe de bom e relata o que tenta fazer para ajudar a comunidade:
Outro dia eu tava conversando aqui do lado de fora, chegou um menino de uns 6 anos com um vidro de cola na mão. Eu pensei: “E se esse menino fosse meu filho?” Aí ele disse que tava com fome, pediu dinheiro pra comprar uma coxinha e eu fui e dei uma coxinha pra ele. Eu me virei pra falar com o meu filho e aí quando eu olhei de novo ele já tinha saído correndo com o vidro de cola na mão e a coxinha na outra. Aqui é assim! [...]
Mas a nossa comunidade é unida. Ninguém mexe em nada de ninguém. O que é ruim é a violência. Se não fosse isso era maravilhoso. O que tem de melhor aqui é o projeto. Torna as crianças mais focadas. A capoeira por exemplo, por eles tinha todo dia, hoje tá tendo menos.. (Flor. Entrevista em 18/10/2017).
Uma das coisas que Flor mais valoriza na comunidade são as amizades. Ela diz que em relação a isso o Gereba a transformou:
Meu marido falava assim antes: “Quando tu andar nos cantos, tu anda um pouquinho mais rindo porque senão as pessoas vão pensar que tu é chata, ignorante, e tu não é.” Teve mulher que chegou pra mim e disse: “Tu era tão besta e hoje em dia tu só sabe tá rindo!” [...]
Eu era mesmo muito tímida. Não falava com ninguém. Meu marido agora diz:” Se você sair candidata a vereadora você ganha!” Ele nem quer mais sair comigo no Gereba porque fica todo mundo me chamando!” (risos) ( Flor. Entrevista em 18/10/2017).
Vendo a vida transformar-se a partir do trabalho voluntário Flor vai abrindo brechas para “cuidar da família e da comunidade”. Processo esse nem sempre fácil, como ela começa a nos contar - mas somente após ir atrás do filho mais velho (9 anos). Uma vizinha viera avisar que o vira brincando na rua.. A comunidade estava ainda um tanto agitada dado o assalto da véspera e por isso era melhor trazê-lo logo:
Conciliar as coisas de casa e do projeto é difícil, é complicado. Tem dia que eu amanheço estressada, aí vou fazer o almoço, vou fazer as coisas, nem quero sair pra canto nenhum, aí me lembro que tenho que fazer divulgação de alguma coisa, ou que tenho que estar na associação porque vão precisar de mim [...] No dia que eu falto uma reunião, o pessoal vem logo pra cá pra saber porque eu faltei! [...] É difícil até fazer as coisas em casa às vezes. Aqui tem dia que sai uma pessoa e chega outra. Acontece de eu ter que lavar a roupa “a prestação”, porque a gente começa a conversar e não vê o tempo passar. Eu brinco dizendo que vou mudar a sede do projeto pra cá! (diz rindo) Eu já pensei em deixar o grupo de dança, mas o padre falou pra eu continuar e eu continuei. Elas gostam tanto! Vem correndo tudinho pra cá quando é dia de ensaio, pedem pra eu ir abrir logo a associação. (Flor. Entrevista em 18/10/2017).
Na vez em que fui encontrá-la novamente, ela estava fazendo uma arrecadação de
roupas usadas para o natal – inclusive para os próprios filhos. Sentadas na calçada de uma
vizinha conversamos sobre o trabalho voluntário e sobre os seus planos futuros: ‘Eu estou pensando sair do projeto. Tá tendo muitos problemas. As coisas aqui em casa também não estão muito bem. Tô pensando em ficar só no grupo de mulheres e no de artesanato. E começar a ajudar na criação da biblioteca da associação!” (Flor. Entrevista em 13/11/2017).
No início de 2018 Flor deixaria as ações do projeto Amo Cuidar. Juntamente com Dona Orquídea estava se dedicando a conseguir parcerias para os novos projetos da associação. Ela estava enfrentando problemas no casamento, mas afirmou que não deixaria o trabalho voluntário: “Eu amo o trabalho com as crianças. Por isso quero tanto que a biblioteca
seja criada. Aqui eu aprendi a rir. As mulheres da associação são a minha segunda família! –
eu até disse isso no almoço que teve do grupo de mulheres – todas nós choramos nesse dia.”
(Flor. Entrevista em 30/01/2018).
No mês de janeiro de 2018 a biblioteca era implantada no Gereba, como parte das atividades da associação. Com a ajuda de Dona Orquídea, Flor ficaria responsável pelo controle e liberação de livros. Pouco tempo depois, as atividades envolvendo crianças e leitura também passariam a acontecer.
Figura 43 – Crianças em atividade na biblioteca do Gereba
Fonte: Acervo cedido pela organizadora do projeto da biblioteca (09/02/2018).
“Tá tendo a maior polêmica aí na associação. Querem saber quem vai cuidar da
biblioteca, porque dizem que vai dar muito trabalho. Eu cuido!” (Flor. Entrevista em
20/01/2018).
Figura 44 – Flor com crianças na biblioteca da associação de moradores e
moradoras no Gereba
As mulheres que são voluntárias na associação participaram, cada qual a sua maneira, do processo de implantação da biblioteca. Artistas e jovens educadores, moradores e moradoras de periferia também, alguns do próprio Jangurussu. Todos sensibilizados com o impacto na comunidade da problemática do narcotráfico e da disputa entre facções. Juntos fizeram uma grande mobilização nas redes sociais. Em pouco tempo começou a chegar doações de livros de várias partes da cidade. Cada vez mais eu via Flor “desabrochar” – assumir-se como sujeito, como fonte de iniciativa, responsabilidade e compromisso. De uma
ação de abrir-se, outras aberturas podem vicejar – ela nos mostrava.