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Teori

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Dona Magnólia é dessas mulheres que nos surpreendem à medida que delas nos aproximamos. No passado, encantada que estava com a sua neta, a Menina do Rap Ametista e com Verbena, eu nem reparava direito naquela senhora que por vezes eu encontrava sentada em um cadeira de balanço em um pedaço de sala. Mal sabia eu do quão forte e surpreendente era a história daquela mulher. Ela é negra, tem 58 anos, 7 filhos, é recicladora na ASCAJAN -

cooperativa da qual já foi coordenadora –, e por acompanhar ativamente a vida política da

filha Verbena, participa indiretamente do Movimento Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis.

Quem a vê às vezes hoje em dia, bonita e animada – como por exemplo, quando saiu para a eleição na qual iria concorrer novamente à presidência da cooperativa –, não imagina os desafios que ela teve que enfrentar por toda a vida, principalmente na infância. Tivemos alguns encontros ao longo da pesquisa, o primeiro deles, por acaso, após uma pequena conversa com Verbena, a qual acabou por me informar que naquele dia sua mãe estava aniversariando. Na hora levantei-me e aproximei-me cumprimentando-a. Ao abraçá-la, a mulher caiu em um pranto profundo. “A única coisa boa que tenho na vida são os meu filhos.” O que dizer em um momento como esse, onde as lembranças pareciam ter ido longe e acessado um local ainda habitado por feridas abertas? Quase nada. O que mais fiz foi escutá-

la brevemente, pois já era tarde e fiquei de reencontrá-la, dessa vez em seu local de trabalho –

o galpão que sedia a ASCAJAN, dentro da usina de reciclagem.

As anotações do diário de campo partilhado a seguir, mostram inicialmente minhas impressões sobre o trajeto até a usina e sobre o momento e o cenário em que a reencontrei:

Ao atravessar a pista e subir a calçada ao lado da Escola Delma Hermínia, pegando a rua chamada Estrada do Itapery, fui também atravessada por um fio de medo. Aquele era um caminho praticamente desconhecido por mim. A entrada do Gereba, território que eu conhecia mais de perto, ficava a uma rua depois, após um longo quarteirão, e o trajeto até a usina não era tão curto, o que me fazia sentir, de fato, uma estrangeira naquele momento. Ainda no início do meu caminho dava pra ver uma unidade de saúde (policlínica) e um projeto social (FAC). O barulho de crianças indicava que ali também funcionava uma creche, mas o que mais havia ali eram depósitos. Só depois de andar um bom pedaço, cheguei ao galpão onde funciona a ASCAJAN, no final do complexo que envolve a usina. Cumprimentei D. Magnólia. Ela estava em pleno trabalho de reciclagem. Com um sorriso no rosto, o cabelo preso e uma bermuda vermelha avisou-me que em poucos minutos entraria no intervalo e poderia começar a conversar comigo. Pedi para ficar ali observando o local e aproveitei para dar uma volta pelo galpão [...] Havia vários trabalhadores, a

maioria mulheres, realizando o processo de reciclagem. Um sistema de som amenizava a dureza do trabalho. Algumas mulheres cantavam, outras, vez por outra riam com algum comentário, ou talvez um pensamento. (Diário de Campo, 05 de maio de 2017).

Figura 37 – Dona Magnólia e outra recicladora na ASCAJAN

Fonte: Arquivo da pesquisadora (05/10/2017).

O barulho da sirene indicou o horário da pausa para a refeição. Dona Magnólia veio conversar comigo. Conseguiu uma cadeira e fez de um galão menor um banco. Insistiu para que eu ficasse com a cadeira de plástico. Constrangida, aceitei. Enquanto ela pegava a comida, vi passarinhos voando pelo galpão, às vezes sobre o próprio lixo, e não deixei de achar curioso elementos tão diferentes fazendo parte da mesma cena. Dois cachorros se aproximaram atraídos pelo cheiro do lanche, dando um toque de ternura ao ambiente. Brinquei com um deles, admirando a sua beleza. Dona Magnólia dá um pedaço do seu salgado para cada um. (Diário de Campo, 05 de maio de 2017).

Dona Magnólia começa me falando um pouco do funcionamento do local. Diz que ali trabalham 30 mulheres e 11 homens. O material já era para chegar lá sem lixo, só com o que deveria ser reaproveitado, mas na prática, isso não acontecia. Ela conta que gosta do que faz, mas assim como acontecia com as outras mulheres com as quais eu costumava conversar, também tem saudade do antigo trabalho na rampa:

Eu sinto falta do tempo do lixão. A gente aqui ganhou uma maior qualidade de vida? Ganhou. Mas o ganho é muito pouco. Aqui é cheio de mãe de família, de pai de família, mas ninguém tira o seu sustento só daqui, porque se tirar o sustento só daqui, passa fome [...] Quando começou a usina, passou 11 anos com as esteiras. Do jeito que tá, sem elas, vai fazer 11 anos também. Com as esteiras era melhor, a gente tinha menos trabalho, mas a prefeitura achou que o gasto era muito caro. (Dona Magnólia. Entrevista em 05 de maio de 2017).

Ao longo de sua vida Dona Magnólia conhecera outros aterros além do Jangurussu. Essa é uma história densa, que remonta a sua infância e a difícil relação que teve com os pais, mas que pela riqueza de elementos e a interface com o modo dela contribuir hoje com a comunidade, passo a compartilhar, ainda que o relato seja longo:

Minha mãe me jogou em cima do lixão da Barra do Ceará. Eu nunca brinquei de boneca. Uma vez a gente teve que ir morar na casa de uma tia nossa, porque meu pai tava bebendo muito. Lá eles jogavam baralho até umas 10, 11 horas da noite e nós dormia bolado nos cantos das paredes porque não tinha rede pra todo mundo né? A minha mãe começou a trabalhar de empregada doméstica e o meu pai, diz que era engraxate. Ele ia pra rua todo dia, mas só chegava bebo e sem nenhum tostão pra alimentar a gente. A minha mãe trabalhava em casa de família. Todo dia trazia uma panela de comida, fazia um bolão e botava na boca de cada um dos filho.

Um dia a minha irmã mais velha me chamou pra pedir esmola e eu disse “vamo!” Ela me chamava de Nenê e eu chamava ela de Ieiê. Aí pegamo umas sacolinhas e saímo no meio do mundo pedindo. O que aconteceu foi que nós encontremo um lixão na Barra do Ceará. Eu nunca vi um lixão como aquele e eu tô com 58 anos! Daqui ele foi pro Buraco da Gia, de lá foi pro Henrique Jorge, do Henrique Jorge pra cá, daqui pro Maranguape, de Maranguape voltou pra cá de novo, e hoje é uma associação. São duas coisas na minha vida que eu vi e sei que não volta mais: Eu já assisti uma chuva de piaba! Lá no Croatá. A gente apanhou umas piaba e elas vinham da chuva. A coisa mais engraçada, caia do chão e a gente ajuntando. Caia da chuva. Gostosa as piaba. E depois lá na Barra do Ceará ... eu não sei se era começo de lixão, eu só sei que era uma coisa muito rica! Vinha umas carrocinha que parecia o Trem da Alegria. Cada uma empilhada na outra e cada uma vinha com um tipo de carne diferente. Ossada, toicinho, carne de gado, sarrabulho, a gente levava pra casa o tanto que a gente quisesse. Antes da gente encontrar esse lixão a gente passou muita fome, mas depois, acabou a necessidade! Foi assim que eu aprendi a mascar fumo, que eu até hoje masco. Na terça ia o carro do Araquém. Você levava cigarro pra casa que dava pra fumar o ano inteiro assim você quisesse. Na quarta era o carro da Fábrica Fortaleza. Bolacha e pão a gente levava de todo jeito. Aí na quinta ia um carro abençoado que ia com uns baldes desse tamanho (mostra com a mão) cheio de sorvete. Do que você quisesse. Menina! a gente levava pra casa, passava era a semana, até chegar no dia de novo. Na sexta feira era que vinha lixo. No sábado vinha o carro da CEASA com todo tipo de fruta. Eu enchia um caçuá tão grande que eu tinha que botar no chão 3 vezes até chegar em casa. A minha irmã comia um pouquinho lá e trazia o resto pra comer em casa. Eu tinha 9 anos. Aí eu chamei a minha mãe. Eu disse: “Lelé (porque eu não chamo ela de mãe, até hoje), vamo ali conhecer um canto que nós encontrou? Lá tem muita comida. “Que canto é esse menina?” –“Vamo lá pra senhora ver! Não vá trabalhar hoje não!” Aí quando chegou lá, a minha mãe viu, gostou e aí fez uma barraca no pé do morro, chamava até Buraco da Tapuia, na Barra do Ceará. Aí fumo morá dentro. Porque ela também se encantou-se com a fartura. (Dona Magnólia. Entrevista em 05 de maio de 2017).

Após ter traçado um quadro de uma infância de algumas alegrias (vividas principalmente no lixão da Barra do Ceará, hoje desativado) e muitas dificuldades, Dona Magnólia começa a discorrer sobre a chegada da adolescência nesse mesmo cenário, o agravamento dos problemas com os pais – sendo a negligência da mãe e o abuso sexual

provocado pelo pai, possivelmente os mais severos –, e a primeira gravidez:

Aí eu fui crescendo jogada em cima do lixo. Eu dormia e acordava em cima do lixo, eu ficava de pé descalço, eu não ia pra escola, eu não tomava banho, eu pelava a minha cabeça porque eu achava bonito. Eu comia tudo de dentro do lixo, e me

acostumei nisso. Eu aprendi a mascar fumo, eu provei cachaça e não gostei. Nisso eu fiquei com 12 anos. O meu pai vivia bebo e a minha mãe começou a namorar outros homi . Ela deixava a gente sozinha em casa mais o papai. As irmãs mais velhas foram saindo de casa e eu fui ficando. Ele queria mexer comigo, esfregava as parte dele na minha rede. Eu corria dele e depois apanhava.

Minha mãe danou-se a namorar, já não tava mas “nem aí” pra gente! Minha mãe teve uma menina nesse tempo e jogava a menina pra cima de mim, mode eu cuidar. Era a menina nos meus braços e o papai bebo botando boneco. E o pior era que o papai ainda queria ter as coisa comigo, e eu não queria. Com doze anos de idade eu vi um homem jogando sinuca e eu me apaixonei de uma tal forma que eu me ofereci pra ele. Ele era um marginal muito conhecido. Puxou 14 anos de cadeia e tinha mais de 20 mortes. Só uma vez que eu fiquei com ele eu engravidei. Foi só aquilo. Eu fiquei sozinha e tive o meu primeiro filho. O pai dele acabou morrendo. Eu tive ao todo 7 filhos, o mais novo tem 22 anos. (Dona Magnólia. Entrevista em 05 de maio de 2017).

Que impactos Dona Magnólia, a mulher que na infância nunca tivera uma boneca, teria sofrido em sua subjetividade e autoestima, no modo de perceber-se no mundo, perceber o seu corpo (seu primeiro mundo), após crescer no lixo e vivenciar a profunda negligência dos pais e os sucessivos abusos sexuais? A líder comunitária continua a discorrer sobre a complexa relação com os homens, os novos ciclos de abandono e pobreza, a problemática das

drogas no ambiente familiar e os maus tratos pelos parentes – alguns dos desafios que Dona

Magnólia teve que enfrentar na sua precoce vida adulta:

Eu acabei me apaixonando por outro homem. Um homem casado, que tinha 5 mulheres além da mulher dele. Eu não enxergava mais nada na minha frente, esse homem pra mim era a coisa mais linda do mundo. Eu cheguei ao ponto de me oferecer pra esse homem também. Hoje eu sei que ele foi um canalha, um covarde. Eu peguei um bucho, também já na primeira vez, com pouco mais de 12 anos. O papai descobriu, me deu uma surra, eu bati a barriga no canto de um baú que a gente tinha e eu perdi essa criança. Com isso eu fiquei doente, passei 2 anos muito doente. Até 28 anos eu morava com a minha mãe. Aí meus irmão começou a crescer, começou a beber, começou a usar droga. E eu já com 4 filhos morando comigo lá. Tudo o que eu pegava era pra dentro de casa. Quando eu tinha dinheiro eu era bem tratada, quando eu não tinha eu era espancada. Aí resolvi fazer uma barraca na beira do rio. Quase na época que eu fui ter a Verbena. Lá eu passava muita fome. Eu comia muito barro pra matar a minha fome e bebia água porque não tinha comida. (Dona Magnólia. Entrevista em 05 de maio de 2017).

Possivelmente nenhuma outra narrativa tenha me emocionado tanto quanto a daquela mulher. Boa parte de seus relatos ficarão para o próximo capítulo e outros,

igualmente fortes, para o tópico que fecha este, que versará sobre “como é ser mãe e mulher

no Gereba”. Saber que ela tinha transmutado parte das suas dores, tornando-se uma

importante liderança comunitária, se realizado como mãe e agora como avó – que assistia a

entrada da neta na faculdade -, tudo isso trazia um certo alívio nos momentos de maior tensão, nos quais, por vezes, parávamos por alguns segundos, para então continuar. As anotações do

diário de campo que se seguem, mostram uma interrupção na entrevista daquele dia, coincidentemente no momento em que Dona Magnólia mais se emocionara:

A sirene tocou avisando o final do intervalo. Agradeci pela atenção e pedi para observar mais um pouco, sentada de onde estava, aproveitando para refletir, me recompor emocionalmente e fazer algumas anotações sobre a conversa. Como ao chegar não identifiquei-me formalmente para o grupo, com o intuito de não atrapalhá-las, uma ou outra mulher às vezes vinha perguntar quem eu era. Uma delas quis saber se eu iria falar com mais pessoas – soube depois tratar-se da atual presidenta da associação. Acabei conversando também com a assistente social que trabalhava no local, informando-lhe sobre a minha pesquisa e o motivo de estar ali. (Diário de Campo, 05 de maio de 2017).

O encontro posterior com Dona Magnólia foi um pouco mais animado. Ela contou-me sobre as suas alegrias e astúcias, sobre a vida que resiste, se reinventa e ainda produz encantamentos:

Aquele seria um dia puxado realmente. Após uma manhã envolvida com outros afazeres, eu iria de ônibus até o terminal de Messejana, almoçaria cedo e retornaria a ASCAJAN antes do trabalho recomeçar. O sol era muito forte, na volta às 12:30h. Somente naquele momento, reparei, ao entrar novamente na usina, na grande quantidade de flores perto do prédio da administração. Um fluxo de ternura invadiu- me. Lembrei-me do quanto fiquei feliz quando a antiga gestão municipal passou a utilizar a pintura de grandes e belas flores nos caminhões que faziam a coleta na cidade. O movimento da tarde parecia estar mais intenso. Um caminhão trouxera mais material para a usina. [...]

Dona Magnólia começa a conversa num tom militante: “A gente pra conseguir as coisas, pra garantir a nossa sobrevivência, tem que lutar, lutar muito! Essa manifestação Fora Temer (porque ela tá acabando com a vida dos brasileiros), um canto aqui, que nem nós, uma associação organizada, isso aqui era pra ter fechado as portas e ido todo mundo! Porque a luta não é só minha, a luta é de todos. Tem muita gente que diz que eu falo muito, mas eu falo mesmo! Eu não tenho é dinheiro, mas tenho a boa vontade de falar, de trabalhar, eu ainda trabalho é muito! Eu sou honesta. Eu nunca pensei em vender uma balinha de maconha, ou uma pedra. Eu compro fiado, se eu achar quem me venda. A gente não é beneficiada pelo governo. Nós somo agente ambiental, nós não somo rampeiro! E isso de dar palestra pela associação é pra esclarecer pro poder público que a gente existe. A gente não é transparente! [...]

Eu vivo do lixo até hoje. A gente só melhorou o sol, porque o ganho não melhorou. Aqui foi o lixo onde eu vi mais morrer gente. Tanto de bala, como atropelado. “Lá era a lei do murici, cada um por si, mas a gente se esforçava mais; agora nesse galpão, como tudo é dividido em partes igual, o esforço é menos.” Aqui tudo é dividido entre a gente e tem uns que ganham uma porcentagem a mais. Tem a secretária, a presidente, o pessoal do caminhão; a gente tira o das despesas, aí tem refeitório, e a parte menor fica pra quem trabalha mais. Certo que aqui a gente não tá levando chuva, não tá levando sol, lá a gente ficava sujeito a levar uma furada de prego, ficava exposto a um câncer de pele, muita coisa poderia acontecer. Diminuiu mais a gravidade do risco da gente, mais o ganho piorou muito.

O que a gente ganha aqui não dá pra gente se alimentar direito, pra pagar água, pagar luz. A gente tenta dar o nosso jeito. Tem muita gente que diz: “Mulher tu anda de ônibus de graça?”, eu digo: “Eu ando”. Sabe por quê? Porque eu trato todo mundo bem. Eu mostro a minha identidade pro motorista e quando eu vou descer eu digo: “Meu filho, Deus te dê muita paz e saúde, que o teu dia seja muito abençoado.” O que ele fez por mim eu retribuí com uma boa palavra. Muitos deles

dizem que tem gente que sobe com uma cara tão ruim que dá vontade de não parar mais pra aquela pessoa. (Dona Magnólia. Entrevista em 05 de maio de 2017).

Junto com o trabalho e a vida política, a qual será melhor detalhada mais adiante, assim como os afetos em família e as astúcias para enfrentar o dia-a-dia, Dona Magnólia passa a revelar outra importante dimensão que marca o seu existir:

Eu tenho muita fé em Deus. A gente tem que rezar, se recomendar a Deus. Se uma pessoa faz o mal pra mim eu baixo a cabeça e digo: “Senhor, tu toma de conta.” Eu já passei por tantos problemas na minha vida, só ele resolveu. A gente deve pedir o que for bom pra gente e pros outros. Uma vez eu passei uma grande aflição, mas um mês depois eu pedi pra uma filha minha tentar uma aposentadoria pra um filho que eu tenho. Ela foi lá e o pedido foi aprovado de cara! Taí! O menino aposentado há 20 anos! Porque Deus faz essas obras na minha vida? Porque eu não desejo o mal a ninguém e nem faço o mal [...] Nem meu pai nem minha mãe não me ensinaram a rezar. Eu ouvia falar por aí que rezar era bom. Até hoje eu não sei rezar uma Salve Rainha, com 58 anos. Mas o Pai Nosso eu aprendi e a Ave Maria. Toda vez que eu passo em frente a uma igreja eu sinto um pensamento bom. Uma vez um velhinho me ensinou uma coisa que é uma verdade verdadeira: “Basta dizer no coração 3 vezes, não precisa nem falar – “Deus por mim, nada contra mim. Você atravessa o mundo com isso!” (Dona Magnólia. Entrevista em 05 de maio de 2017).

O final da entrevista teve a espiritualidade como tema. Ela parecia ser uma importante chave capaz de abrir portais diante dos contínuos ciclos de vida-morte-vida pelos quais passara aquela mulher. A última vez que vi Dona Magnólia ela estava radiante em um vestido longo e colorido. Maquiada e com adereços que realçavam a pele negra, ela iria ser entrevistada por jovens educadores que preparavam um documentário sobre a comunidade. Abraçou-me em meio a um evento organizado pelas mulheres mães que são voluntárias na associação D. Aloísio Lorscheider, várias delas participantes da nossa pesquisa. Nele pude ver

em diferentes momentos a avó, a mãe e a neta – mulheres no Gereba – que por meio de seus

saberes, suas astúcias e suas artes de fazer e de dizer, suas resistências, fazem daquela família, algo tão parecido quanto à família de tantas outras mulheres naquela comunidade, e ao mesmo tempo, tão único.

Eis o registro de mãe filhas juntas num momento de militância:

Figura 38 – Dona Magnólia segurando a bandeira do MNCR, vestida

com a blusa da ASCAJAN, ao lado da filha Verbena em uma manifestação

Fonte: facebook da integrante do MNCR (25/03/2018).

A minha vida é essa. Eu ainda acho que eu tenho uma vida muito abençoada, tenho a minha vida, tenho os meus filho, tenho a minha casinha e eu ainda tenho muita coisa pra dar pra frente. Se Deus quiser eu vou viver muitos anos de vida e eu ainda vou fazer muita coisa por muita gente, e vou achar muita gente que faça por mim também. Essa fé eu tenho naquele Pai! (Dona Magnólia. Entrevista em 05 de maio de 2017).

3.5 “Eu morri e depois voltei”. Lótus, mulher de muitas quedas e muitos voos

O que dizer de início? Lótus, 37 anos, ex recicladora. Tem 4 filhas ainda

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