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A psicometria é um ramo da psicologia que fundamenta medidas em ciências sociais e é a base epistemológica da elaboração de instrumentos psicológicos de uso comum necessários às pesquisas científicas. Estabelece, portanto, o percurso metodológico para se obter um instrumento revestido de qualidades métricas válidas para o que se espera, ou seja, caracteriza-se por expressar o fenômeno psicológico por meio de números (PASQUALI, 1999; 2003). Para tanto, a psicometria lida com a teoria e o desenvolvimento de instrumentos de mensuração (questionários) ou técnicas de medição (ferramentas de observação) (LOBIONDO-WOOD; HABER, 2001).

O ponto de partida para a construção de instrumentos para medir uma variável é a operacionalização de seus indicadores clínicos. Para mensuração, faz-se necessário, portanto, mover a variável do abstrato para o concreto, através da identificação e operacionalização das propriedades ou atributos que caracterizam esse construto. Nesse contexto, operacionalizar atributos significa especificar indicadores empíricos que serão usados para comunicar um significado, assim como os procedimentos que serão usados para medi-lo. O foco da mensuração é quantificar as características do conceito a ser mensurado e a psicometria, fundamentada nas teorias da medida, guia o alcance desse foco (BRAGA; CRUZ, 2006).

Logo, a psicometria é o ramo da estatística composto por um conjunto de técnicas empregadas para mensurar, de forma adequada e comprovada experimentalmente, comportamentos ou conceitos (LOBIONDO-WOOD; HABER, 2001). Assim, para investigar a validade das definições conceituais e dos referentes empíricos desenvolvidos, foi utilizado o referencial metodológico da psicometria (PASQUALI, 1999), já que os resultados de enfermagem da NOC são dispostos em forma de escalas que mensuram atributos físicos, psíquicos, sociais, entre outros.

Sobre esse aspecto, a psicometria notadamente se propõe a fundamentar a construção e a validação de escalas, uma vez que a própria medida escalar constitui uma das várias formas em que a medida psicométrica pode assumir grandes polos: teórico, empírico (experimental) e analítico (estatístico) (PASQUALI, 1997), conforme apresentado na Figura 2.

Figura 2 – Diagrama para elaboração de medida psicológica

Fonte: PASQUALI, 1998, 1999.

Do polo teórico são enfocadas várias etapas (PASQUALI, 1998, 1999):

1ª Etapa (sistema psicológico): Estabelecimento da teoria sobre o construto com base no

referencial bibliográfico, reflexões e interesse do pesquisador. • 2ª Etapa (propriedade): Definição das propriedades do construto.

3ª Etapa (dimensionalidade): Explora a estrutura interna e semântica do construto.

4ª Etapa (definição): Estabelecimento das definições conceituais e referentes empíricos

com base na literatura específica, na análise de conteúdo realizada por especialistas e na experiência do pesquisador. Inicia-se aqui a construção do instrumento piloto, que deve ser claro e preciso. Aqui devem ser construídos tanto os referentes empíricos quanto as definições conceituais.

5º Passo (operacionalização): Construção dos itens que integrarão o instrumento de

medida. Para se cobrir a totalidade ou a maior parte ou, pelo menos, grande parte da extensão semântica do construto, normalmente exige-se, no instrumento final, um número razoável de itens. O passo da construção dos itens do instrumento se compõe das tarefas que as pessoas deverão executar para que se possa avaliar a magnitude de presença do construto (atributo). Os critérios para a construção e avaliação dos itens escolhidos para este estudo foram:

a) Critérios para a construção dos itens

1. Critério comportamental: O item deve expressar um comportamento, não uma abstração

ou construto. O item deve poder permitir à pessoa uma ação clara e precisa, de sorte que se possa dizer: Vá e faça.

2. Critério de objetividade ou de desejabilidade: Os itens devem cobrir comportamentos de

fato, permitindo uma resposta do tipo certo ou errado.

3. Critério da simplicidade: Um item deve expressar uma única ideia. Itens que introduzem

explicações de termos ou oferecem razões ou justificativas são normalmente confusos porque introduzem ideias variadas e confundem o respondente.

4. Critério da clareza: O item deve ser inteligível até para o estrato mais baixo da população-

meta; daí, utilizar frases curtas, com expressões simples e inequívocas. Frases longas e negativas incorrem facilmente na falta de clareza. Preocupa-se com a compreensão das frases.

5. Critério da relevância (pertinência, saturação, unidimensionalidade, correspondência): A expressão (frase) deve ser consistente com o traço (atributo, fator,

propriedade psicológica) definido e com as outras frases que cobrem o mesmo atributo. Isto é, o item não deve insinuar atributo diferente do definido.

6. Critério da precisão: O item deve possuir uma posição definida no contínuo do atributo e

ser distinto dos demais itens que cobrem o mesmo contínuo.

7. Critério da variedade: Dois aspectos especificam este critério: I. variar a linguagem: uso

dos mesmos termos em todos os itens confunde as frases e dificulta diferenciá-las, além de provocar monotonia, cansaço e aborrecimento; II. no caso de escalas de preferências: formular a metade dos itens em termos favoráveis e metade em termos desfavoráveis, para evitar erro da resposta estereotipada à esquerda ou à direita da escala de resposta.

8. Critério da modalidade: Formular frases com expressões de reação modal, isto é, não

utilizar expressões extremadas, como “excelente”, “miserável”, etc.

9. Critério da tipicidade: Formar frases com expressões condizentes (típicas, próprias,

inerentes) com o atributo.

10. Critério da credibilidade: O item deve ser formulado de modo que não apareça como

ridículo, despropositado ou infantil. Itens com esta última caracterização fazem o adulto sentir-se ofendido, irritado ou coisa similar.

b) Critérios referentes ao conjunto dos itens (o instrumento todo)

11. Critério da amplitude: Este critério afirma que o conjunto dos itens referentes ao mesmo

12. Critério do equilíbrio: Os itens do mesmo contínuo devem cobrir igual ou

proporcionalmente todos os segmentos (setores) do contínuo, devendo haver, portanto, itens fáceis, médios e difíceis (para aptidões) ou fracos, moderados e extremos (no caso das atitudes).

6º Passo (análise teórica dos itens): É feita por especialistas e ela comporta dois tipos

distintos de especialistas, consoante se a análise incide sobre a compreensão dos itens (análise semântica) ou sobre a pertinência dos itens ao construto que representam (propriamente chamada de análise dos juízes). Assim, antes de partir para a validação final do instrumento piloto, este deve submetido a uma análise teórica dos itens através da análise semântica e análise dos juízes.

Na análise de conteúdo, os especialistas devem ter conhecimento específico na área do construto, pois sua tarefa consiste em ajuizar se os itens estão se referindo ou não ao traço em questão. Uma concordância de, pelo menos, 80% entre os especialistas pode servir de critério de decisão sobre a pertinência do item ao traço a que teoricamente se refere (PASQUALI, 1998).

Com o trabalho dos especialistas, ficam completados os procedimentos teóricos na construção do instrumento de medida, os quais comportaram a explicitação da teoria do(s) construto(s) envolvido(s), bem como a elaboração do instrumento piloto, que constitui a representação comportamental desses mesmos construtos e que se põe como a hipótese a ser empiricamente testada (validação do instrumento), tarefa que será iniciada com os procedimentos experimentais, os quais consistem em coletar informação empírica válida e submetê-la às análises estatísticas pertinentes em psicometria.

No polo empírico ou experimental definem-se as etapas e técnicas da aplicação do instrumento piloto e da coleta da informação para proceder à avaliação da qualidade psicométrica do instrumento. Neste polo seleciona-se a população e define-se a amostra dos sujeitos que serão convidados a participar do estudo. É realizada análise da dificuldade, da discriminação e da validade dos itens, a partir dos dados coletados de uma amostra de sujeitos representativa da população para a qual o instrumento está sendo construído, utilizando-se análises estatísticas (PASQUALI, 1998).

Dois passos compõem os procedimentos empíricos que, acrescidos aos procedimentos teóricos de construção do instrumento e validade de conteúdo, constituem o início do processo de validação:

7º Passo (planejamento da aplicação): Determinação de uma amostra representativa da

população-alvo, preparação de instruções a serem dadas à amostra, definição do formato do instrumento piloto e condutas de aplicação. Recomenda-se que o instrumento seja pré- testado para assegurar sua compreensibilidade.

8º Passo (aplicação e coleta): Operacionalização da coleta de dados segundo o

planejamento do passo anterior. Os dados obtidos darão origem a um banco de dados utilizado durante os procedimentos analíticos.

O polo analítico inclui os procedimentos de análises estatísticas a serem efetuados sobre os dados para estimar a validade e confiabilidade do instrumento produzido e, se pertinente, para estabelecer sua normatização. Esses três conjuntos de procedimentos indicarão a solidez psicométrica da ferramenta e permitirão avaliar a coerência do seu conteúdo com o conceito (PASQUALI, 1998). Tais procedimentos são constituídos por quatro passos:

9º Passo (dimensionalidade): Essa análise é para verificar se o instrumento

construído é unidimensional ou não. Recomenda-se proceder à análise fatorial para determinar quantos fatores o instrumento de fato está medindo, para então definir a dimensionalidade do instrumento (PASQUALI, 1997).

10º Passo (análise dos itens): Análise empírica dos dados com base na Curva

Característica do Item (ICC), conhecida também como Teoria da Resposta do Item (TRI), com base nos dados coletados de uma amostra de sujeitos representativa da população para a qual o teste está sendo construído. Para isso, são utilizados procedimentos estatísticos para analisar a dificuldade, a discriminação e a resposta aleatória.

Dificuldade – refere-se à magnitude do traço latente que o sujeito deve ter para acertar

e aceitar um item, ou seja, a dificuldade do item é definida pela proporção de sujeitos que dão respostas corretas ou de acordo / preferência com o item;

Discriminação – capacidade de diferenciar os sujeitos com escores altos dos com

escores baixos; assim, através dela, avaliamos o poder de um item em diferenciar sujeitos com magnitudes diferentes de traços dos quais o item constitui a representação comportamental;

11º Passo (precisão da escala): Avalia-se aqui a fidedignidade, precisão e confiabilidade

do instrumento. Para tanto, podem-se utilizar técnicas estatísticas: estabilidade, constância, equivalência, consistência interna.

A fidedignidade estima a extensão em que um instrumento é consistente com o que se pretende medir. Isso significa que o instrumento produz os mesmos resultados sobre medidas repetidas, portanto, a correlação entre duas medidas é igual a 1. Entretanto, existe sempre um erro embutido em qualquer medida, afastando a correlação do valor 1 à medida que for maior o erro cometido ao se medir (PASQUALI, 1997).

Segundo Pasquali (1997), existem três tipos de delineamento (procedimentos experimentais de coleta) e dois modelos de análises estatísticas (correlação e técnica alfa) para estimação da fidedignidade de um instrumento. Os delineamentos podem envolver: 1 – uma amostra de sujeitos, um mesmo teste e uma única ocasião; ou 2 – uma amostra de sujeitos, dois testes e uma única ocasião; ou 3 – uma amostra de sujeitos, um mesmo teste e duas ocasiões.

Entre os índices de fidedignidade, duas técnicas estatísticas são mais utilizadas: a correlação e a técnica alfa. O coeficiente de correlação define o nível de correspondência entre dois eventos. Este pode ser utilizado para avaliar a estabilidade do instrumento com base na aplicação da técnica de teste-reteste. O coeficiente alfa verifica a consistência interna dos itens, analisando a congruência de cada item com o total de itens restantes. O alfa de Cronbach é o coeficiente mais comumente utilizado para análise da consistência interna.

12º Passo (estabelecimento de normas): Determinação de uniformidade nos

procedimentos de uso de um instrumento válido e preciso: condições de testagem, controle do grupo, instruções padronizadas e motivação dos examinandos, interpretação dos resultados obtidos.

Capítulo 1 – Construção das definições conceituais e referentes empíricos dos