A MENOR IMPORTÂNCIA AO MILHÃO. O MILHÃO TOR- NOU-SE UM NÚMERO BANAL E INEXPRESSIVO. É PRECISO, PORTANTO, QUE O POVO CONHEÇA O MILHÃO. E PARA CONHECER BEM O MILHÃO É NECES- SÁRIO RETRATÁ-LO. COMO FAZER O RETRATO DO MILHÃO? IDEIA CURIOSA DE UM NATURALISTA INGLÊS. POR FALTA DESSE RETRATO MUITA GENTE FAZ IDEIA FALSA DO MILHÃO.
Richard Wallas, naturalista, inglês, é autor de um plano que êle considera altamente educativo para o povo: Proporcionar aos curiosos o autêntico "retrato'' de um milhão, isto é, uma figura que fornecesse ao observador uma idéia exata c perfeita do milhão.
Eis a sugestão de Wallas: cm toda cidade escolheríamos um edifício público (um grande museu, uma biblioteca ou mesmo um teatro) c na parede principal desse edifício colocaríamos 100 quadros brancos, cada um dos quais conteria 10.000 pequenos discos negros.
Diante dessa parede, a uma distância de seis metros (no mí- nimo), seriam colocadas confortáveis poltronas onde os visitantes, comodamente sentados, poderiam observar, num só golpe de vista, os cem quadros, ou melhor, os cem "dez mil" discos negros.
Teriam, ali, os curiosos, diante de seus olhos, o perfeito re- trato, em preto e branco, do banalíssimo milhão. Em outras
palavras, todos poderiam admirar o "Sr. Milhão cm tamanho natural".
A Física, a Astronomia, a Estatística, e até os Cálculos Orça- mentados usam comumente não só o milhão, como milhares de milhares de milhões e, no entanto, há muita gente que não conhe- ce o milhão c que, afinal, não faz a menor ideia dêsse número.
Um prestigioso banqueiro fala, com a maior naturalidade, cm um milhão de cruzeiros. Que seja, pois, êsse banqueiro convidado a ver o respeitabilíssimo milhão retratado para que êlc possa formar uma ideia mais justa de seus haveres, c não se preocupar tanto em restringir o salário de seus empregados.
Para acentuar mais a impressão c deslumbrar o observador mais otimista, teríamos o cuidado de destacar (num dos quadros centrais) cm côr azul, dentro de um círculo vermelho, 3.500 diseos.
È o número aproximado de estrelas visíveis, a olho nu, na semi-esfera celeste!
O observador ficaria surpreendido ao verificar que a multidão de estrelas visíveis é um conjunto insignificante e desprezível cm relação ao mar imenso de pontos que formam o retraio do respei- tável milhão.
Por causa da falta dêsse retrato há muita gente que não faz a menor ideia do milhão. Contam os milhões sem conhecer o milhão.
Eis um exemplo de Augusto dos Anjos,1 poeta paraibano: Que resta das cabeças que pensaram?!
E afundando nos sonhos mais nefastos. Ao pegar um milhão de miolos gastos,
Todos os meus cabelos se arrepiaram.
Entre os poemas de Adauto G. de Araújo é interessante des- tacar os seguintes versos:
A metrópole tem milhões de olhos Faiscando desvairados pelas ruas.
O milhão perde, em geral, a sua significação numérica, deixa de ser um cardinal determinado, quando citado em linguagem 1. Eu e Outras Poesias.
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literária. Sem cogitar da grandeza do milhão, escreveu a artista Gilda de Abreu em seu livro Cigarra:
Adeus minha querida, receba um milhão de abraços e beijos da mais feliz das mulheres.
Quanto tempo levará Gilda de Abreu para dar um milhão de beijos e abraços na sua querida amiga? Observa o calculista que dando um beijo e um abraço por segundo (dia e noite sem parar um instante), a brilhante romancista levaria, nessa agradável tarefa, 22 dias e 7 horas, aproximadamente!
É de surpreender a facilidade com que os poetas recorrem ao milhão.
Citemos um exemplo bastante curioso.
Em seu livro Canções Poemas2 escreveu José Thadeu, poeta carioca, filiado à corrente modernista:
As noites passo sem dormir pensando no meu, no teu, no nosso grande amor. passo-as em claro, passo-as compondo milhões de rimas em teu louvor!
Declara o poeta que passa noites, cm claro, compondo milhões de rimas em louvor de sua amada.
Admitamos que fossem, apenas, dois milhões de rimas (o poeta fala em milhões de rimas). Se o José Thadeu gastasse, apenas, um minuto para compor uma rima, teria que passar 9 anos, 9 meses e 18 dias em claro para compor aquele par de milhões de rimas. 9 anos 9 meses e 18 dias escrevendo, dia e noite, sem parar.
Em sentido indeterminado aparece, em linguagem literária, o ordinal milionésimo. Copiemos duas linhas de António Callado Assunção de Salviano:
Claro, sem dúvida. Acho tudo isso muito estranho — repetia Júlio pela milionésima vez. . .
Mário Lamenza, cm seu livro Provérbios, cita o seguinte adágio: "De grão em grão também se chega ao milhão."
2. Rio de Janeiro, 1949
Não gostava Machado de Assis, cm seus escritos, de re- correr ao milhão: Achava que o milhão era unia palavra feia. Para exprimir um número muito grande, empregava a forma milhares de milhares ou, ainda, milhares de milhares de milhares. Vamos transcrever pequeno trecho do romance Esaú e Jacó: Quem não viu aquilo não viu nada. Cascatas de ideias, de invenções, de concessões rolavam todos os dias, sonoras, e vistosas para se fazerem contos de réis, centenas de contos, milhares, milhares de milhares de milhares de contos de réis. Em relação ao milhão, ensina João Ribeiro, cm Curiosidades Verbais, obra de indiscutível valor pelos surpreendentes ensina- mentos que encerra:
Milhão é aumentativo de criação moderna. Os portu- gueses prejeriam, outrora, dizer "um conto por milhão". Ainda hoje o "conto", especializado para moeda, equivale a "um milhão de réis". Em outro tempo, até o século XVIII, podia Manoel Bernardes escrever que a Biblioteca da Ale- xandria continha mais de um conto de livros.
E havia, na Administração Portuguesa, a Casa dos Contos, que era o que é hoje o Tesouro, mais ou menos.
0 fato é que muita gente fala em milhão, imagina um milhão de coisas, sem pensar nessa imensidade que o milhão representa na sucessão infindável dos números. E o bilhão? Ora, do bilhão nem é bom falar. Do bilhão, até hoje, ninguém imaginou retrato algum. £ preciso não esquecer que o bilhão equivale a um milhão de milhões.
No Brasil e em outros países os grandes números são po- pularmente denominados:
milhão = 1.000 X 1.000 bilhão = 1.000 X 1.000.000 trilhão = 1.000 X 1.000.000.000 quatrilhão = 1.000 X 1.000.000.000.000 etc, seguindo-se a chamada regra dos
3N zeros = (N - l)lhão
106 109 1012 1015
Entretanto já foi normalizada internacionalmente a chamada regra dos
6N zeros = Nlhão
que é usada em toda a Europa e é aprovada legalmente no Brasil. Segundo esta regra, o valor dos termos em causa é tal que:
milhão — 1.000.000 X 1 = 106
bilhão = 1.000.000 X 1.000.000 = 1012 trilhão = 1.000.000 X 1.000.000.000.000 = 1018 e assim por diante.
Assim sendo, é recomendado que, em trabalhos técnicos e científicos, seja evitado o uso de palavras ambíguas, cujo sentido varia, dentro da língua portuguesa, conforme sejam empregadas no Brasil ou cm Portugal. Usar então o fator decimal 109 ou o prefixo "giga" (em lugar do "nosso" bilhão), o fator 1012 ou o prefixo "tera" (cm lugar do "nosso" trilhão), etc.
Asseguram vários historiadores que a palavra milhão é de origem italiana. Designou, a princípio, certa medida concreta para o ouro, mas o matemático italiano Lucas Pacioli (1445-1514) teve a idéia de empregá-la como um simples número natural equi- valente a mil vezes o número mil.
Sabemos, porém, que as palavras bilhão e trilhão, jamais ci- tadas por Pacioli, são bem antigas em Matemática.
Encontra-se na Biblioteca Nacional de Paris um manuscrito intitulado La Tryparty en Ia Science des Nombres, de 1484, onde se acham as palavras millions, tryllions. . . novyllions etc. Esse manuscrito só foi publicado em 1880 por B, Concompagni; o seu autor é Nicolas Chuquet. Na mesma Biblioteca de Paris, há um exemplar de uma Aritmética, de Estienne de Ia Roche dict Villefranche (sic) impressa em Lion em 1520, onde se encontram as palavras million, billion, trillion, quadrillion, sixlion, septilion, octillion, nonillion.
Segundo Antenor Nascentes (Dicionário Etimológico) o mi- lhão passou do italiano para o francês million, e do francês passou para o nosso idioma.
CURIOSIDADES Noiva em testamento
O célebre e genial matemático norueguês Niels-Henrik Abel (1802-1829) passou os últimos meses de sua vida em Frolancl, na residência de rica família inglesa. Sua noiva, Crelly Kemp, exercia, nessa casa, as funções de governante.
Abatido pela tuberculose, sentiu Abel que .pouco tempo lhe res- tava de vida. Escreveu, então, a seu amigo Franz Keilhan e pediu-lhe que casasse com sua noiva logo que êle fechasse os olhos para o mundo.
Ela não é bonita — escreveu Abel ao amigo — seus cabelos são avermelhados e o seu rosto é semeado de sardas. Asseguro, porém, que é uma mulher admirável.
Keilhan atendeu ao pedido de Abel e depois da morte dêste casou-se com a jovem Creliy Kemp. Casou-se com a noiva dei- xada em testamento e foi muito feliz nesse casamento.
O círculo e a igualdade
O círculo, que é o símbolo da Eternidade, apresentou-se muitas vezes como o símbolo da igualdade.
Os antigos, para não demonstrarem preferência a alguém em de- trimento de outrem, quando relacionavam um grupo de amigos escreviam os nomes destes em círculo, de sorte que, não lhes atribuindo uma ordem fixa, nenhum podia rejubilar-se por ser o primeiro, melindrar-se por ser o segundo ou queixar-se por ser o último em sua estima.
Ficavam todos satisfeitos e a honra igualmente partilhada. A instituição dos cavaleiros da Távola Redonda era fundada sobre o princípio de igualdade e a mesa, nesse caso, era um sím-
bolo.
Nos congressos a mesa destinada aos embaixadores é ordinaria- mente redonda, a fim de evitar, tanto quanto possível, certas dis- tinções que poderiam ferir suscetibilidades.
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