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O PALMO E A LEI DE 1 8 3 5 . COMO VARIAVA O PALMO NOS DIVERSOS PAÍSES. O PALMINHO DE CARA. FALA-SE DE UM JOVEM QUE PRETENDIA FULMINAR COM FLUIDOS MAGNÉTICOS TODOS OS PALMOS DE CARA DA CIDADE. O P A L M O NA LINGUAGEM POPULAR. O palmo é apontado como uma das unidades mais antigas e uma das mais preferidas pelo povo. A Lei de 1835, no Brasil, fixou o palmo em oito polegadas. Usa-se também, com frequência, o meio palmo.

O palmo, medida incerta e bastante variável, era definido em gerai como a distância da ponta do polegar à ponta do dedo mí- nimo estando a mão bem aberta sobre um plano horizontal.

A unidade denominada cúbito, sem dúvida também uma das mais antigas, admitia o palmo como submúltiplo. O cúbito media sete palmos.

O palmo deveria ser equivalente, como dissemos, a oito pole- gadas ou 22cm. Eis, porém, o valor do palmo em centímetros em cinco países diferentes:

Argentina Chile Espanha Portugal Venezuela 21,65 20,9 21,07 21,09 20

A dita cobra que podia ter uns dez palmos vejam que bruta.1

Na Bíblia encontramos a unidade palmo citada por Ezequiel (40,43):

Os ganchos, de um palmo de comprido, estavam fixa- dos por dentro, ao redor.

Para Eça de Queiroz o palmo seria uma unidade certa, bem determinada:

Era, como disse, um farrapo de linho, rasgado de uma fralda de camisa e do tamanho de um palmo.2

Para a medida da lâmina do facão, é o palmo a unidade pre- ferida pelo gaúcho:

E na cintura, atravessado com entono, um facão de três palmos, de conta3

Encontramos a unidade palmo, sob a forma diminutiva, na expressão "palminho de cara" para indicar jovem graciosa e se- dutora:

Ela tem um palminho de cara que agrada, mas nem vintém de seu ou a ser seu.4

O sedutor "palminho de cara" vamos observar entre as operá- rias de uma fábrica:

Da fábrica, à saída, sempre a vejo Sem malícia e sem desejo,

Um palminho de cara original.5 1. Waldomiro Silveira, Leréia.

2. Eça de Queiroz, As Minas de Salomão.

3. Simões Lopes Neto, Contos Gauchescos e Lendas do Sul. 4. Klora Possolo, Garoto Moderna.

5. Mauro Carmo, Vaga-lume.

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Refere-se o escritor Herman Lima (Tigipió) a certa morena que ostentava o clássico "palminho de cara":

Alta, morena, de um moreno mate aveludado e quente, o palminho de cara mais formoso da redondeza.

Alguns autores abandonaram o "palminho" e adotaram a forma "palmo de cara":

Distante três léguas da "Irara", vivia, com sua mãe, a Joaninha Mundé. Era o palmo de cara mais atraente que possa imaginar.6

Podemos ler em Monteiro Lobato:

Eu tive um companheiro de república, o Matheus, que se viciou em encarar e fulminar com fluidos magnéticos todos os palmos de cara bonitinhos com que se cruzava nas ruas. Uma vez estrepou-se.7

Fala-nos o escritor Guimarães Rosa de um homem meio amalucado, que tinha a mania de alinhar números com uma cara- vana interminável de algarismos. E Guimarães Rosa procura ex- primir a grandeza dos números em palmos:

Botou mais um palmo de numeração, ligeiro, ligeiro8 A altura de uma estrela, no céu, pode ser, segundo esse mesmo autor, avaliada em palmos:

... nem o Setestrêlo, nem as Três Marias — já tinham afundado; mas o Cruzeiro ainda rebrilhava a dois palmos, até que descendo. ..9

No sertão, o palmo exprime, em geral, uma avaliação apro- ximada. Podemos ler no romancista W. Bariani Ortêncio:

6. Pedro Gomes, Na Cidade e na Roça. 7. Monteiro Lobato, A Barca de Gleyre. 8. Guimarães Rosa, Corpo de Baile.

9. Guimarães Rosa, Grande Sertão e Veredas. 6. Pedro Gomes, Na Cidade e na Roça. 7. Monteiro Lobato, A Barca de Gleyre. 8. Guimarães Rosa, Corpo de Baile.

Certo dia levantou-se cedo e foi assuntar o rio: as águas subiram bem um palmo.10

O poeta Tolentino Miraglia empregou conjuntamente uma unidade antiga (palmo) e a unidade oficial (metro) para atender à beleza do verso. Referindo-se ao crescer rápido de um mamoei- ro, escreveu:

Não tinha um palmo em dias de janeiro, Mas hoje ostenta mais de um metro e meio.11

Os poetas apreciam o palmo como unidade e não hesitam em empregá-lo. De Adelmar Tavares cabe-nos destacar esta trova:

Minha filha tem apenas Um palmo de minha mão, — Não cabe dentro do mundo

E cabe em meu coração.

O poeta Eugênio de Castro, no soneto Martim, referindo- se à morte de seu filho pequenino:

Títulos, honras, glórias e façanhas Tudo quanto eu sonhava, cabe tudo Num caixãozinho branco de dois palmos! O meio palmo era empregado com muita frequência:

Canoas que tinham dez palmos de comprimento e dois e meio de largura}2

No romance Caminhos Errados escreveu Aquilino Ribeiro: Não tenho meio palmo de terra, onde cair morto. O meio palmo, nas medidas de terras, exprime uma grandeza mínima, sem valor. Assim escreveu Aluísio Azevedo:

10. Bariani Ortêncio, O Sertão, O Rio e a Terra. 11. T. Miraglia, Uma Vela ao Luar.

12. Augusto de Lima Júnior, História dos Diamantes em Minas.

— Ora, detxe-se disso, homem, e diga lá quanto quer

pelo que lhe propus.

— Já lhe disse o que tinha a dizer.

— Ceda-me, então, ao menos, as dez braças de fundo. — Nem meio palmo}3

Júlio Dantas, na Ceia dos Cardeais, recorre ao meio palmo, em sentido indeterminado:

Inda desembainhei meio palmo de espada, Mas contive-me. "Não. Logo é melhor", disse eu. Certa avaliação em palmo e meio vamos encontrar cm Mário Palmério:

Mas o luxo do padre era a zagaia: palmo e meio de aço alemão, espora reforçada, e de corte dos dois lados14

Êssc padre que pregava a caridade e o amor ao próximo nos sertões de Minas certamente ensinava o Catecismo aos bons ca- tólicos com palmo e meio de zagaia reforçada na mão.

As pequenas medidas não itinerárias eram feitas sempre a palmos. As outras unidades (pé, polegada, braça, jarda etc.) iam, em geral, para o rol das coisas esquecidas.

— Ganhei um palmo de fumo. — Ganhei cinco palmos de chita. — O muro tinha nove palmos de altura.

Em consequência da popularidade do palmo, vamos enco- trá-lo cm várias expressões populares. Vamos citar algumas ex- pressões :

Língua-de-palmo-e-meio — Pessoa intrigante que assaca alei- vosias.

Não enxergar um palmo adiante do nariz — Alusão a uma pessoa bronca, incapaz, sem cultura.

13. A. Azevedo, O Cortiço.

Não tem um palmo de terra — Expressão que significa po- breza, ruína, falta de recursos: Chove chuva! Pode chover que não molha um palmo de terra meu!15

Pagar com língua-de-palmo — Estuda João Ribeiro a origem desse modismo. Parece aludir ao castigo que alguém sofria em consequência de um erro praticado. O enforcado era, em geral, representado com a língua de fora (com uma língua-de-palmo). Ir para a forca equivalia a pagar o crime com língua-de-palmo.16

Mede-palmos — Nome popular de uma lagarta da família dos geometrídeos. É muito característico o modo de caminhar dessa la- garta, modo este determinado pelo número reduzido de patas. Tem ela, apenas, os três pares de patas torácicas usuais e, além disso, só dois pares na extremidade posterior, quando as lagartas normais têm, ao todo, oito pares, O "mede-palmos", juntando as duas ex- tremidades opostas, curva o corpo em arco e logo o distende adiantando a parte anterior; parece, assim, medir o espaço aos palmos, ao que também o nome latino faz alusão.

Palmo-a-palmo — Vagarosamente. Com cuidado. Lenta- mente.

Chego ao pé da colina verdejante Onde alegre vivi na minha infância Descuidoso e feliz, presto e cantante

Palmo-a-palmo correndo a velha estância.17

O palmo é, ainda, encontrado em outra expressão bem co- nhecida: sete palmos, nome que é dado à sepultura.

Aqui fica, meu amigo, o estudo da unidade palmo, feito com cuidado, isto é, palmo-a-palmo.

15. Waldomiro Silveira, ob. cit. 16. João Ribeiro, Frases Feitas.

17. Solimar de Oliveira, Cidade Antiga.

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