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O suplício das Mães da Praça de Maio começou a partir de 1976, período ditatorial argentino, denominado «Processo de Reorganização Nacional». «El Proceso», como é normalmente chamado, foi um período de terrorismo de Estado, onde houve uma constante violação de direitos humanos, desaparição e morte de milhares de pessoas, além da apropriação ilegal de recém-nascidos e crimes de lesa humanidade.

Em 30 de novembro de 1976 o jovem Néstor Villaflor foi sequestrado com sua noiva sem avisos ou um motivo claro. A sua mãe, Azucena Villaflor, até então uma modesta dona de casa, passou a frequentar hospitais, delegacias e todos os locais em que seu filho pudesse estar. Tendo descoberto que seu filho havia sido levado pela polícia ditatorial, Azucena fez tudo em seu poder para liberar Néstor Villaflor: colheu assinaturas de todos os seus conhecidos, juntou todos os antecedentes de seu filho para entregar as autoridades e contratou um advogado, porém não obteve sucesso.

A busca, porém, rendeu alguns frutos. Azucena conheceu outras mães que se encontravam na mesma situação e, em busca de respostas e de uma audiência com o então presidente Jorge Rafael Videla, as senhoras se reuniram no dia 30 de abril de 1977 na Praça de Maio, em Buenos Aires, na frente da Casa Rosada, sede da presidência argentina. Inicialmente, as mães decidiram se reunir aos sábados, porém decidiram que haveria mais movimento na quinta-feira.

Participaram da primeira reunião Azucena Villaflor de Vicenti, Berta Braverman, Haydée García Buelas, María Adela Gard de Antokoletz, Julia Gard, María Mercedes Gard y Cándida Gard, Delicia González, Pepa García de Noia, Mirta Baravalle, Kety Neuhaus, Raquel Arcushin, Antonia Cisneros e duas moças que não deram seus nomes. As reuniões seguintes receberam mais manifestantes, como Hebe de Bonafini.

À época, o alegado pelo governo ditatorial e pela imprensa é que não havia desaparecidos, então um grupo de mães em busca de seus filhos era visto como ilegal. Um dia, policiais se dirigiram às mães de pé na praça e falaram que elas não poderiam ficar paradas em grupo, pois as reuniões de três ou mais pessoas estavam proibidas. Assim, as mulheres passaram a caminhar ao redor da Pirâmide de Maio. Para se

reconhecerem, passaram a usar um pano em suas cabeças. As mães ser reuniam em todas as marchas religiosas e populares possíveis.

Há que se mencionar as diversas formas de desaparecimento ocasionadas pelo governo ditatorial argentino. Há, por exemplo, uma estimativa de que 500 bebês foram retirados dos seus pais e entregues para famílias adotivas, como uma forma de punição de pessoas consideradas «subversivas».

Em 8 de dezembro de 1977, duas mulheres do grupo foram sequestradas, como uma forma de repressão à atitude das mães de maio. Após discussões, decidiu-se manter o grupo. Dois dias depois, três fundadoras do grupo, Mary Ponce, Esther Balestrino de Careaga e Azucena Villaflor, além de duas freiras e sete ativistas foram sequestrados e desapareceram. Os corpos de Azucena Villaflor e de seu filho Néstor, cujo desaparecimento motivou o grupo, nunca foram encontrados.

Em 1978 foi organizada a Copa do Mundo de Futebol na Argentina, período em que as mães da praça de maio puderam ter visibilidade e apoio internacional. A televisão holandesa optou por passar a marcha das mães da praça de maio ao invés do Mundial de Futebol, finalmente mostrando para o mundo a situação das mães argentinas e também as auxiliando indiretamente, tendo em vista que as pessoas holandesas começaram a enviar auxílio para as manifestantes. Os valores recebidos auxiliaram, por exemplo, a arranjar um lugar onde as mães pudessem se reunir. Afirma CASTELLI110:

As Madres de Plaza de Mayo ficaram internacionalmente conhecidas por suas intervenções distintas em meio ao espaço público e diante do governo repressor, alcançaram notoriedade e respeito, tornaram-se ameaça a ordem vigente e protagonizaram a primeira manifestação pública contra a ditadura militar.

Após a redemocratização da Argentina, as mães seguiram buscando respostas e protestando contra o governo que, inicialmente, não tinha interesse para punir todos os culpados pelos delitos gravíssimos contra os direitos humanos. A Comisión Nacional

sobre la Desaparición de Personas, por exemplo, divulgou, em 1984, que somente 8.961 pessoas haviam sido desaparecidas durante a ditadura. As mães protestaram afirmando

110 CASTELLI, Natasha Dias. Conhecendo As Mães Da Praça De Maio: Ensaio Do Perfil Da Associação.

que, pelos dados que elas possuíam, o numero de desaparecidos era em torno de 30 mil. Atualmente, o número defendido pela Secretaria de Direitos Humanos é 13 mil pessoas.

No ano de 1985, os esforços das mães de maio resultaram na condenação do presidente Videla à prisão perpétua, porém dois anos depois foi promulgada uma lei de Obediência Devida, que «perdoou» os delitos de Videla e outros militares condenados.

Foi somente em 2006, durante o governo de Néstor Kirchner, que as mães da praça de maio viram serem levados seriamente a julgamento os militares acusados e investigados os desaparecimentos durante a ditadura. O mencionado presidente declarou a nulidade das leis de Ponto Final e Obediência Devida, seguido da promulgação pela Corte Suprema do País da imprescritibilidade dos crimes de lesa humanidade, da consideração aos indultos como inconstitucionais pela Câmara de Cassação Penal e, finalmente, a instituição do dia 24 de março como Dia Nacional da Memória pela Verdade e a Justiça. Atualmente, existem 1.589 imputados entre militares e civis envolvidos em crimes durante o período; destes, 753 estão sendo processados e 82 condenados.

Até o presente dia, seguem-se exames de DNA para encontrar as crianças roubadas de lares durante a ditadura. Cerca de 120 pessoas já foram reunidas com suas famílias após denúncias anônimas e investigações.

Nem todas as mães tinham uma perceção ou envolvimento político. Muitas delas foram trazidas para a situação pela perseguição e desaparecimento de seus filhos. Caso isso nunca houvesse acontecido, elas permaneceriam seguindo suas vidas como donas-de-casa e mães. Em uma Carta111 de 1977, as mães deixam claro seu objetivo

apolítico:

No queremos ser instrumentadas ni utilizadas con ninguna finalidad política o ideológica. Lo único que nos une es el dolor de nuestros hijos desaparecidos. Somos únicamente madres de desaparecidos que recorremos angustiosamente los despachos oficiales en procura de ayuda y que nos hemos encontrado, sin organización previa ni posterior alguna, en la Plaza de Mayo.

Atualmente, as mães de maio protestam por diversos temas além da busca pelos desaparecidos políticos, como a disputa das Ilhas Malvinas, o fim do terrorismo e

111 Carta al señor Ministro del Interior, 26 de deciembre de 1977, en Archivo de la Asociación Madres de

Plaza de Mayo. Em CASTELLI, Natasha Dias. Conhecendo As Mães Da Praça De Maio: Ensaio Do Perfil Da Associação. XI Encontro Estadual De História. ANPUHRS: Rio Grande, 2012.

das guerras. Além disso, elas também criaram a Universidade Popular Madres de Plaza de Mayo. Pelo seu trabalho humanitário mundialmente reconhecido, as mães da Praça de Maio ganharam o Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento em 1992.

Ainda hoje, todas as quintas-feiras, às 15h30, as mães realizam manifestações na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, buscando não só manter o desaparecimento de seus filhos vivo na memória de todos os argentinos, mas também fazer apelos a outras causas internacionalmente importantes.