Que significado tem a alegria na vida? O que é o amor e por que ele em qualquer grau evolução, desde a forma sexual até à mais elevada,a do misticismo, é prazer? Que relação há entre as duas formas? Pode esta pergunta levar-nos à descoberta do seu denominador comum, se é que este existe? Será o amor talvez o grande motor da vida? E, em grau evolutivo mais ou menos elevado,trata-se sempre do mesmo Amor? E como evolve e ao que tende esse Amor universal que alcança a Deus? E como pode ele permanecer em prazer quando ainda se nos apresenta como renúncia a qualquer alegria terrena, como dor e negação da vida animal normal? Como pode ele permanecer criação e sublimação, ainda quando humanamente pareça destruição e insucesso?
Respondamos a estas interrogações. É indiscutível que a vida procure a alegria. Por que? Porque ela foi criada para isto,indicando a alegria onde esta o bem. O bem é caracterizado pelo nível da alegria, o mal pelo indício da dor. Alegrias momentâneas e fictícias poderão induzir-nos a erros, mas se elas
mascaram o mal, logo descobrem a dor de que são feitas. Alegria existe em tudo o que evolui, que
caminha para Deus, que é o supremo bem. A vida é feita para evoluir, ainda que o faça através da dor, para uma alegria cada vez maior. Todas as vezes que seguimos a Lei de Deus, semeamos a alegria, ainda quando dela nos separe um abismo de provas e de dores. Todas as vezes que agimos contra a Lei de Deus, semeamos para nós mesmos a dor, ainda que dela estejamos separados por um mar de vantagens e de prazeres. Assim, há o prazer da mesa que nos diz que se deve nutrir o corpo porque ele deve viver. Um pouco mais acima está o prazer sexual,que nos diz que é necessária a reprodução, porque a espécie deve viver. Mas há ainda, muito mais acima, o gozo do trabalho e do pensamento que criam, o gozo do espírito e da ascese, para indicar-nos que se deve progredir, porque o homem não necessita apenas de viver e multiplicar-se, mas também de evoluir. A cada fim a ser atingido, a Lei propõe um gozo adequado. Cada coisa em seu lugar,segundo uma hierarquia funcional, que guia as nossas ações. Mas observemos ainda. Se o homem possui uma consciência relativa, racional, refletida, transitória, limitada e adaptada aos escopos da vida e á evolução, é um fato que o universo funciona regido por um outro pensamento que o homem mal conhece, lei absoluta, eterna, iluminada, divina. A mente humana de fato não guia o universo, que sabe muito bem funcionar por si mesmo. Ao contrário, a mente do universo guia o homem, sem que este o sinta e está de tal forma inculcada em cada ser, esta é tão onisciente e onipresente, que sem ela nada viveria. É um fato que a mais simples das células do nosso corpo sabe executar, á nossa revelia, tais milagres de bioquímica, que nós não apenas somos incapazes de reproduzir, mas nem ao menos conseguimos conhecer e compreender. Uma pequena célula é mais sábia do que o maior dos cientistas. Essa consciência do universo aparece no homem sob forma instintiva, não refletida, intuitiva, não racional. A consciência humana está ligada aos sentidos e constitui um sistema, um esquema lógico, uma forma mental em que o homem se encontra encerrado. É o seu corpo mental Ora quando, por maturação evolutiva, o eu consegue ultrapassar esses confins, penetrando, ainda que por pouco, a consciência universal, isto é, enquanto constituir superação, distensão e expansão em uma vida maior, constitui também alegria. Esta,repetimos, é índice de bem e de ascensão. Tudo na vida é uma contínua luta entre a necessidade de conservação, a que preside o instinto do egoísmo, e a necessidade de expansão, a que preside o instinto altruísta do amor. Poder libertar-se da acanhada consciência individual, para entrar no imenso consciente universal, que para o homem se encontra no inconsciente, poder senti-lo e atingi-lo, representa tocar o sobre-humano, avizinhando-se de Deus. Correspondendo isto aos mais elevados fins da Lei, que é o de progredir para o Alto, constitui também a maior alegria do ser.
Isto só se consegue por meio do Amor. Mas compreendamos bem, amor com A maiúsculo, o amor universal, que caminha da forma sexual a mística, até atingir Deus. Não é o racional cálculo egoísta, mas é o abandono cego a Deus, a submissão a vida, que nos abrem as portas a esses contatos com o infinito e as alegrias que dele deriva. O fundo do supremo gozo místico como de qualquer amante terreno, reside em deixar-se absorver além de qualquer lógica de interesse individual, está em submergir-se no abismo divino, por mais irracional que possa parecer um tal naufrágio do egoísmo. Mas por que motivo, se é o eu que preside à conservação, é tão doce renegá-lo e por que é tão agradável à mente humana perder-se na contradição, no irracional? Em todo grau de amor, será tanto maior o gozo, quanto maior for a renúncia ao egoísmo. Eis que no fundo de todo amor, do sexual ao místico, existe o mesmo motivo de renúncia. A razão está no fato de que a alegria é dada pelo evolver, subindo para Deus, que é amor, e isto não se pode obter senão pelas vias do amor, que, se de um lado é jubilosa expansão altruísta, de outro e também o
barreiras do egoísmo, a lei de Deus nos aprova e no-lo diz, compensando-nos com uma alegria íntima. Isto é verdade para qualquer nível, o do amor sexual como o do amor místico. Então o eu se perde e a vida triunfa. O eu acredita então morrer mas na verdade renasce na sua expansão, nos filhos ou no espirito, pois que Deus dá a quem dá, e nega a quem nega. Ao sacrifício e ao gozo segue-se a criação, multiplicação material ou espiritual, que é manifestação de Deus. O princípio é único. Eis o denominador
comum dos dois fenômenos entre si tão distantes: Amor. Em um como em outro caso,a alegria é dada
pela mesma expansão, ainda que em forma e graus diversos, da mesma adesão a lei divina de amor, que é base da vida. Então fala, além da consciência humana a divina consciência universal e, sem que o homem o saiba, ela se constitui na sua própria consciência, indo além da razão,do cálculo egoísta e aos interesses da sua conservação, e mesmo se opõe a estes. Essa superação, esse abandono a um inconsciente instintivo, em que opera uma outra consciência mais elevada que nos escapa, esse extravasamento além dos confins do egoísmo, para viver no todo e para o todo, representa o sacrifício que está conexo ao amor com o qual cria em qualquer nível e sem o qual não existe nem verdadeiro amor, nem gênese. É isto que
provoca o delíquio da alma. Eis também por que motivos encontramos nos dois fenômenos, no da sexualidade e do misticismo, os mesmos elementos, ou seja, amor, sacrifício e gozo.
Enquanto o egoísmo contrai e disseca, o amor dilata e cria. O primeiro, se impelido além da função conservadora, inverte-se em forma destruidora. Assim se compreende como o Amor determina a inversão dos valores estabelecidos pelo egoísmo, e como o amante possa esquecer a si mesmo em favor do ente amado e o místico possa viver de renúncia. Então a perda se torna ganho, ordenar se transforma em obedecer e o inconsciente triunfa. A vida passa a uma fase evolutiva mais alta e a lei de conservação do eu se sacrifica para que vença a lei do ensimesmamento em um outro ser. Deus é unidade e tudo que irmana e unifica conduz a Ele e d'Ele se aproxima. Dado que o amor é prazer, o homem pode abusar dele, eliminando o sacrifício que o eleva e o torna criador; e faz dele um estéril instrumento de gozo. Não resta então senão ruína, um amor egoísta e ainda como alegria, amor mutilado, infecundo e traidor dos fins da vida. E no entanto, entre todas as culpas, as que menos se distanciam de Deus são as culpas de amor, já que o Amor é sempre a Sua lei suprema. As piores são as do egoísmo, do ódio, da destruição. Dante coloca os luxuriosos sempre distantes de Lúcifer, que constitui o centro do ódio e do mal e que é a negação de Deus ou seja, do amor, para colocá-los junto às portas do inferno e no ponto mais alto do purgatório, na saída deste, próximo ao Paraíso.
Tudo isto nos permite melhor definir as relações entre sexualidade e misticismo. Se, dada a unidade da vida, não se pode desconhecer uma necessária semelhança entre estas suas manifestações, isto nada impede a superioridade espiritual do fenômeno místico,que assim nos aparece bem diversa de uma sim- ples sublimação dos instintos sexuais, bem diversa de uma espécie de sucedâneo determinado por derivação compensadora, como quiseram que o fosse os psicanalistas freudianos. Não obstante a grande distância entre as duas formas, o seu elemento comum e fundamental — o amor, faz com que em ambos os casos se encontre o sentimento do pudor. Cuidemos o seu significado. Este estado próprio do ato
sexual estado que significa proteção do mesmo e de modo nenhum consciência de pecado, encontra-se
também no artista no momento da concepção, em quem quer que cumpra com consciência um ato nobre e altruísta e, por conseguinte, sobretudo no místico,nos seus contatos espirituais. O pudor se manifesta na vida todas as vezes que se desempenhe um ato importante que é defeso, quase sacro, aos olhares dos profanos. Isto nos conduz ao seguinte: quanto mais se sente a fé que se carrega viva, menos se é levado a exibi-la, mais repugnando as exterioridades, e vice-versa. É raro que gostemos de pôr à mostra o mais precioso tesouro, e quando o exibimos isto significa, geralmente,que pouco o amamos. É sobretudo no caso do verdadeiro misticismo que a natureza procura pudicamente proteger, ocultando-lhes as manifestações aos normais involuídos, destruidores, e o misterioso processo da gênese do super-homem
do espírito. Então é a vida que protege o indivíduo que se lhe entrega, porque o eu abandona as próprias defesas e, esquecido de si, permanece inerme. Tanto no fenômeno sexual, como no místico, a consciência refletida fica em suspenso para perder-se na consciência cósmica com o qual se funde. A individualização do ser se anula na fusão com o objeto do próprio amor, seja ele criatura ou Criador A vida permanece arrebatada por esse fato, tanto mais quanto mais ausente estiver a vontade individualista e egoísta do eu. O amor, em qualquer nível, é uma exultação da vida cósmica porque representa o cumprimento da sua primeira lei. Deus é amor e cria no amor, em qualquer nível, desde o amor da carne, quando compreendido com pureza, elevando-se sempre, até ao amor do espírito. O próprio cristianismo fez do primeiro um sacramento colocando-o na base da família, com missão social.
O amor é o estado sublime em que aparece e age a divina vontade que está em todas as coisas,como onisciente e secreta alma do cosmo Então ela se substitui ao eu e à sua razão e, à sua revelia,manobra-o para os próprios fins, submete-o ao seu comando, absorvendo-o na sua oceânica potência. O eu, sentindo o extravio, percebe o perigo que envolve a sua segurança de indivíduo ao entregar-se sem refletir e desejaria calcular, defender-se, retirar-se. Mas o fruimento de um supremo gozo o fascina e o arrasta para o sorvedouro, em que é tão doce deixar-se naufragar, que o egoísmo se esfrangalha desfeito pelo amor. Então, quer no amante terreno, quer no místico amante sobre-humano, um fato se apodera do ser,que não pode mais resistir e é assim arrebatado. Desta forma assim como o enamorado da criatura terrena afronta qualquer risco e sacrifício por ela, assim também o enamorado de Deus, tresloucadamente ousa a inversão evangélica dos valores humanos na renúncia
E
assim o místico, que não cria na carne mas no espírito, funde-se, sem reservas, na vontade de Deus. A divina potência criadora se manifesta neste impulso evolutivo do amor que nos constringe a esfrangalhar com perigo da nossa própria segurança as barreiras do egoísmo feitas para a proteção do eu. Este luta e se defende a fim de permanecer no campo seguro da sua pequena consciência racional. Mas a um certo ponto, o inconsciente instintivo e irracional, anelando os próprios fins, que o indivíduo ignora, e metas superiores bem diversas, emergindo com imensa sabedoria e. potência da profundidade do cosmo, para revelar o pensamento e a vontade de Deus, se arroja sobre a criatura e a arrebata. Esta se debate ignara e desorientada, desejaria resistir, mas não sabe como, cede por fim, triunfando mais acima, no sacrifício de si mesma que é a derrota do seu egoísmo. Essa derrota do eu egoísta dá nascedouro a uma vida nova, que é um dom que Deus concede a quem obedece ao Amor.Esta é a hora criadora, em que a vida triunfa sobre a morte e o bem sobre o mal, a hora em que o indivíduo mortal se torna imortal e a vida se santifica, posta em contato com Deus. Hora sublime esta de Amor, em que a natureza,tão parcimoniosa, se torna pródiga, porque então ela se sente tanto mais rica, porque se abre nela a potência geradora de Deus. Então a vida se exalta no triunfo da sua maior festa, os
sentidos comumente usados para a luta embotam-se como em um transe, a luz perturba e a palavra
emudece. Nisto se assemelham tanto as manifestações sexuais, como os estados de inspiração artística, os mediúnicos e es místicos. Parece que e fenômeno de transe verifica-se todas as vezes que ocorra uma transmutação, mais ou menos acentuada, da consciência racional à cósmica, isto é, toda vez que se saia de si mesmo para confundir-se, entregando-se, no que há de maior, ao que está acima de si. Nota dominante é a de desinteresse, a abnegação, a renúncia de si mesmo, a expansão do humano ao divino. Assim se compreende como as mais elevadas atividades do ser se cumprem além da vontade da consciência, por instinto e intuição. Atingem-se então planos de consciência superindividual e super-racional, como é a divina consciência cósmica. Se em verdade isto contrasta com o egoísmo que nos defende e, por isso, parece trair-nos, se nos parece um perigoso abandono, é, no entanto, a maior e mais irresistível alegria da vida. Então a consciência normal permanece atrás, impotente para medir com a sua exígua unidade, e deve curvar-se ao que não compreende. E é assim que se vence na derrota e se torna rico na miséria,
poderoso na obediência e douto na loucura, porque o centro da vida se deslocou, alterando com o ponto de vista todas as perspectivas enquanto que a consciência dá um salto em direção a Deus.
Eis, pois, porque Amor é alegria Isto é verdade em qualquer nível, mas será tanto mais, quanto mais elevado ele for. Porque ele é superação de egoísmo separatista, é fraterna unificação cem o todo através da unificação com o próprio semelhante, é a essência daquela evolução que nos aproxima de Deus. Amor,
alegria suprema do ser, porém continuamente negada e contrastada pela dor que se origina do
esfrangalhamento do nosso egoísmo. O universo está divinamente invadido e transbordante dessa alegria pela qual todos anseiam. Ela está sempre pronta a nos alcançar com a mesma ânsia com que nós queremos alcançá-la. Mas este é exatamente o grande drama da vida: uma barreira de dor nos separa dela e esta mesma barreira é dada pelo despedaçamento de nosso egoísmo. Daqui a trágica ilusão do mundo e o seu erro na procura da alegria. A verdadeira felicidade não está no prazer, mas além da dor, que é neces- sário atravessar e superar. Este é o significado da inversão evangélica dos valores do mundo, da conseqüente e fatal necessidade de que a redenção de Cristo só poderá ser cumprida através da dor. Para se transpor o fatal linde além do qual está a felicidade, é necessário inverter o egoísmo, desfazê-lo no amor, dilatá-lo e expandi-lo no altruísmo pelas criaturas, até Deus. Isto pode parecer uma perda, mas não o é, pois que não é destruição, mas sim dilatação e evolução do egoísmo. O universo, que é egocêntrico
em Deus, é, segundo um mesmo e único esquema, fundamentalmente egoísta em qualquer das suas
formas e criaturas. Esta é a lei pela qual tudo se conserva e se protege. Quando o egoísmo evolve nós o chamamos altruísmo,mas aquele nada mais fez que dilatar o seu círculo. O egoísmo permanece sempre. Só que agora ele é um egoísmo mais amplo que se dilatou até abraçar um maior número de seres. É a evolução que leva o egoísmo a expandir-se em seu egoísmo relativamente mais extenso e que em relação ao primeiro chama-se altruísmo. Esta expansão toma o nome de amor e ela nos faz subir. Evolver é, pois, dilatar o nesse eu, progressivamente, cada vez mais próximo de Deus. Quanto mais nos avizinhamos d'Ele, tanto maior será a unidade coletiva em cujo seio saberemos harmonizar-nos, tanto mais vasto e profundo será o irmanamento que saberemos realizar. É necessário, em suma, sacrificar o eu ao Amor, não importando e que isto possa custar-nos. E sempre nos custa! Mas só são verdadeiras as alegrias determinadas pela fadiga da ascensão. As comodidades de descida constituem uma miragem... E é lógico que e seja. Deus,que é justo,não pode conceder felicidade não merecida. O homem desejaria a via mais fácil. Mas, queira ou não, não existe outro caminho que a vereda estreita e difícil, para alcançar a verdadeira alegria.
Hoje o mundo prefere as vias do ódio às do amor. E isto se dá pelos bens materiais. Odiai, odiai, mas sereis infelizes, porque o ódio é dor. Sem amor, por mais rica que seja a vida, ela é estúpida, sem objetivo, destituída de sentido. Não há bem estar material que nos possa compensar da dor que e ódio nos acarreta. Não é com o ódio, mas com amor que se cria o bem estar. Na terra não nos resta senão o amor venal, prostituído pele interesse. Esse fato nos torna desesperados, porque o amor não é apenas uma necessidade da carne, mas é sobretudo uma exigência do espírito. Hoje procura-se matar este,sufocar-lhe o grito no prazer da carne. Mas e homem, ainda que involuído, não é apenas o bruto, a libido satisfeita não basta para saciá-lo. Além da carne está a alma que clama pelo amor. E a alma, que não se sacia apenas com e prazer, que pede mais e que se debate quando não lho damos. Ela se ergue do leito de prazer, cheia de náusea e de asco e chora anelando pelo Alto. É sede de Amor, isto é, de qualquer coisa de santo e de sacro, daquela conjunção mística que é a única centelha que vibra entre as almas. É a necessidade do
divino que nos falta e que é necessário à vida. O materialismo acreditou poder libertar-se de fastidiosos e supérfluos liames e pretendeu nos arredar das fontes da vida O mundo, hoje saturado de ódio, procura afogar o tormento dessa sua insatisfação no prazer. Mas isto é ilusão, porque sem e verdadeiro amor não pode haver alegria.