9. Tilfredshet med helsetjenestene
9.2. Tilfredshet med psykolog eller psykiater
O debate sobre as questões relacionadas a gênero nasceu na perspectiva de emancipação da mulher e superação das concepções biologicistas e sexistas. Ele nasceu a partir das ambigüidades relacionadas às relações de gênero e dos papéis sociais do homem e da mulher na sociedade e na Igreja.
O conceito de gênero tem várias nuances históricas e casos de particularidades em uma mesma época. Entretanto, o mundo ocidental judaico- cristão e católico, um contexto cultural e religioso que sustenta e reproduz uma concepção binária, hierárquica e patriarcal de sociedade é que “determina” a construção da concepção e dos papéis de gênero, assim como as demais construções e relações sócio-culturais.
Destacamos a diferenciação entre a questão biológica e cultural com as quais se costumam fazer muitas confusões quando se trata do conceito e da identidade de gênero. Bidegain nos ajuda a compreender a distinção entre o biológico e o cultural, necessária pela quantidade de interpretações diferentes e tendenciosas que se têm desenvolvido historicamente. Afirma a autora:
Partimos da constatação de que, embora biologicamente nasçamos macho ou fêmea, a construção da identidade feminina, masculina ou homossexual, ou seja, a construção dos gêneros, é uma construção social e cultural e, portanto, um processo histórico e sujeito a ser historiado (BIDEGAIN, 1996, 22).
Entendido o aspecto social e cultural que a autora expõe do conceito gênero, ou melhor, a diferenciação que faz entre a condição biológica e a histórico-cultural, damos um passo significativo para compreendermos a questão de gênero. A mesma autora amplia suas idéias no que tange à dimensão da historicidade do conceito, o que será importante nesta análise sócio-cultural que pretendemos.
Para Bidegain, numa análise histórica, a categoria gênero:
Envolve o estudo da relação que se estabelece entre eles, relação que é hierarquizada; logo, a categoria de gênero torna-se chave fundamental para compreender a estruturação do poder social, econômico e político, e isto dá embasamento para o estudo histórico da sociedade (BIDEGAIN, 1996, 22).
Outra autora que apresenta estudos sobre o conceito de gênero e busca definir a problemática da identidade de gênero é Grossi (2000). Ela trabalha a questão a partir de várias instâncias: a aquisição da identidade de gênero primária, o aprendizado dos papéis sexuais, o vasto campo da sexualidade e as novas questões referentes à reprodução humana.
Grossi (2000) tem muito em comum, em sua análise, com Bidegain (1996), entretanto, diferenciam-se fundamentalmente em um aspecto que nos parece importante destacar para visualizarmos que não há apenas um ângulo de análise acerca da questão de gênero.
Enquanto Bidegain faz análise histórica, Grossi faz análise sociológica. Contudo, nenhuma nega o caráter cultural da formação de gênero. Por outro lado, convergem no que concerne à quantidade de gêneros. Bidegain (1996, 22), conforme citamos anteriormente, se refere à construção da identidade feminina, masculina e homossexual, e Grossi (2000, 30) reforça a mesma idéia buscando mostrar como as práticas homoeróticas não produzem um terceiro gênero (nem masculino, nem feminino). Ela destaca que também não se trata de distúrbios da
identidade de gênero, repudiando, segundo afirma, pensamentos de alguns psicólogos e educadores.
Esta nova forma de compreender as questões de gênero, segundo Scott (1995, 72), chegou até nós por meio das pesquisadoras norte-americanas. Estas passaram a usar a categoria “gender” para falar das origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas de homens e mulheres107. Grossi (2000) comenta a ênfase colocada pelas norte-americanas na origem social das identidades subjetivas. Na seqüência da mesma obra afirma que, nas sociedades ocidentais, essa ênfase se faz necessária pelo fato de a biologia ter em suas explicações um grande peso ideológico.
Essa autora destaca ainda que é importante estar ciente de que, no Ocidente, o conceito gênero está estreitamente ligado ao conceito de sexualidade, o que gera grandes problemas para a teoria feminista. Constantemente se toma um conceito pelo outro. Faz-se necessário as feministas explicitar objetivamente que sexo está relacionado mais aos aspectos biológicos enquanto gênero diz respeito principalmente aos aspectos sócio-culturais, o que apresentaremos em seguida.
Outra autora que trabalha o conceito de gênero é Heritier apud Grossi (2000). Heritier (1996) apresenta o conceito de gênero e o de papéis de gênero. Tanto um conceito quanto o outro pode nos ajudar neste momento.
Quanto a gênero, afirma Heritier:
O indivíduo não pode ser pensado sozinho: ele existe em relação. Basta que haja relação entre dois indivíduos para que o social já exista e que não seja nunca o simples agregado dos direitos de cada um de seus membros, mas um arbitrário constituído de regras, onde a filiação (social) não seja nunca redutível ao puro biológico (HERITIER, 1996 apud GROSSI, 2000, 34)108.
107 Cf. SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Rev. Educação e Realidade. Porto Alegre:
UFRGS, 1995. pp. 71-99.
Scott nos remete à questão do discurso, da linguagem que produz e sustenta não simplesmente idéias, mas a vida cotidiana como um todo, ressalta:
Por gênero eu me refiro ao discurso sobre as diferenças dos sexos. Ele não remete apenas a idéias, mas também a instituições, a estruturas, a práticas quotidianas e a rituais, ou seja, a tudo aquilo que constitui as relações sociais. O discurso é o instrumento de organização do mundo (SCOTT, 1995, 86).
Entenderemos gênero a partir de um contexto relacional mais amplo, implica as diferenças entre os sexos, as idéias, as instituições e as estruturas, conforme vimos em Scott, texto citado anteriormente.
Grossi (2000) faz referência a uma recente definição da categoria gênero de Scott que acrescenta a dimensão da historicidade; esta de certa forma já se faz presente na citação da autora. Segundo Scott (1995) gênero é uma categoria historicamente determinada, que não apenas se constrói sobre a diferença de sexos, mas, sobretudo, serve para “dar sentido” a essa diferença. Enfim, Grossi (2000, 35) afirma que gênero é uma categoria usada para pensar as relações sociais que envolvem homens e mulheres, relações historicamente determinadas e expressas pelos diferentes discursos sociais sobre a diferença sexual.
À medida que situamos gênero como uma categoria de pensamento relacionada às diferenças sexuais, uma categoria construída e difundida social e historicamente, faz-se necessário afirmar que não é possível aceitá-lo sendo algo definitivo ou imutável, algo fechado, categoria pronta. Pelo contrário, gênero se constrói a cada instante, em cada contexto, isto é, em cada realidade social e cultural específica. Grossi (2000) não só aceita a possibilidade de mudanças, como ressalta a necessidade de modificar cotidianamente o que é esperado dos indivíduos do sexo feminino; segundo ela, o gênero entendido como associado ao sexo
biológico está em permanente mudança e ajuda a reconfigurar as representações sociais de feminino e masculino.
Anteriormente nos referimos a duas contribuições de Grossi (2000): gênero e papéis de gênero. Veremos brevemente que a autora está entendendo os papéis de gênero intrinsecamente relacionados à questão da historicidade e a noção de gênero vigente na sociedade; que os papéis de gênero não vão influenciar diretamente a identidade de gênero. Isto leva-nos a concluir que os papéis de gênero poderão mudar de acordo com as exigências sociais, mas estarão condicionados à noção de gênero vigente.