Mirian Nogueira Tavares Sílvia Vieira
CIAC-Centro de investigação em Artes e Comunicação Universidade do Algarve
RESUMO
Na maioria dos filmes de Licínio Azevedo, os protagonistas são mulheres; corajosas, audazes e determinadas, é nelas que o cineasta foca o seu olhar. Merecem particu- lar atenção neste texto as prostitutas, nos filmes Paragem Noturna (2002), A Última Prostituta (1999) e Virgem Margarida (2012); as viúvas, em Desobediência (2002) e
Roofless (2008) e ainda as adolescentes em As Pitas (1998).
PALAVRAS-CHAVE: cinema moçambicano, Licínio Azevedo, mulher moçambicana, prostitutas, viúvas.
ABSTRACT
In most of Licínio Azevedo’s movies, the protagonists are women; brave, bold and determined, it is in them that the filmmaker focuses his gaze. This article places a spe- cial focus on the following characters: the prostitutes of Night Stop (2002), The Last
Prostitute (1999) and Virgin Margarida (2012); the widows in Disobedience (2002)
and Roofless (2008), and teenagers in The Pitas (1998).
KEYWORDS: mozambican cinema, Licínio Azevedo, mozambican women, prostitutes, widows.
“A Terceira Margem” (Azevedo, 2015) é assim que Licínio Azevedo se refere ao lado mágico e espiritual que descobre em Moçambique quando, a convite de Ruy Guer- ra, em 1978, se estabelece em Maputo para integrar o Instituto Nacional de Cinema.
Jornalista de formação1, já tinha percorrido a América Latina em busca de repor-
tagens para o Folha da Manhã2. O seu primeiro contacto com o continente africano é
feito na Guiné-Bissau, em 1976 quando, durante dois anos, dá formação a jornalistas e escreve artigos para o jornal Nô Pintcha. Mas é em Moçambique, país em que vive desde os 27 anos e que lhe deu a nacionalidade, que Licínio Azevedo inicia a sua car- reira como realizador, apaixonado pelas suas gentes e costumes.
A inspiração para as histórias dos seus filmes encontra-a na leitura de jornais, na secção crime, nos fait-divers (Vieira, 2010). A abordagem crítica e comprometida da realidade moçambicana permite a Licínio de Azevedo apresentar em imagens as mulheres como símbolo de sobrevivência e de luta. Ao longo deste artigo analisaremos de que forma o realizador dá voz às mulheres moçambicanas nos filmes Paragem Nocturna (2002), A Última Prostituta (1999), Virgem Margarida (2012), Desobediência (2002), Roofless (2008) e As Pitas (1998).
AS PROSTITUTAS
Licínio Azevedo constrói nos seus filmes diferentes olhares sobre as origens e o quotidiano das mulheres que se prostituem, o que, segundo o cineasta, é uma influ- ência dos filmes de Fellini (Vieira, 2015). No documentário Paragem Nocturna (2002) Licínio Azevedo dá-nos a conhecer o dia-a-dia das prostitutas Suja, Antónia, Lili, Cinda, Rosa, Margarida, Odete e Claudina. No café Monte Mamuli, paragem de camionistas malawianos, zimbabwianos e moçambicanos, elas riem, bebem e conversam. Vítimas de abandono e de violência, optaram por prostituir-se para sustentar as famílias. Licínio Azevedo filma o seu lado alegre e jovial mas também mostra que, apesar de estarem conscientes dos riscos de contrair HIV/AIDS e outras doenças, algumas arriscam em não se protegerem a troco de mais dinheiro.
Também no documentário A Última Prostituta (1999), inspirado numa fotografia tirada pelo fotógrafo Ricardo Rangel em 1975, cinco mulheres falam da sua experiência nos campos de reeducação, depois de serem levadas no dia 7 de Novembro de 1974, durante a Operação Limpeza levada a cabo pelas forças portuguesas do governo de transição e pela Frente de Libertação de Moçambique. Nesse dia, “grupos de militares bloquearam a então Rua Araújo e outras ruas, becos e praças do centro de Lourenço Marques, […] com o propósito de deter “agitadores e marginais”, afetando sobretudo as trabalhadores do sexo que atuavam na região”(Thomaz, 2008:178). O documentário abre com um plano de pormenor do rosto de uma mulher. A montagem desenrola-se alternadamente entre quatro momentos; no primeiro, várias prostitutas contam a sua
1 Recebeu o prémio brasileiro de jornalismo Vladimir Herzog em 1980. 2 Jornal brasileiro publicado em Porto Alegre, entre 1969 e 1980.
história num quarto enquanto arranjam o cabelo e se maquilham; no segundo o fotó- grafo Ricardo Rangel mostra e comenta as fotografias que tirou em 1975 na rua Araújo; no terceiro o realizador filma em grandes planos fixos o testemunho de prostitutas e no quarto Licínio Azevedo recorre a duas atrizes e filma o encontro entre uma das pros- tituta e Margarida, uma virgem que foi por engano para um campo de reeducação. A montagem alternada destas filmagens confere alguma rigidez ao documentário, mas inova ao fundir ficção e realidade, característica que vai manter na maior parte dos seus filmes, ora filmando documentários como se fosse ficção ora o contrário.
O realizador retorna a este tema em 2012, com a ficção Virgem Margarida. Neste filme assistimos às angústias de uma rapariga de 16 anos, Margarida, que, indo pela primeira vez à cidade de Maputo com a tia para comprar o enxoval para o casamento, se perde dela na rua Araújo, e, sem Bilhete de Identidade, é levada por engano para um campo de reeducação. Neste filme “a personagem principal não é a Margarida. São prostitutas com características muito fortes. Sem esquecer a comandante Maria João, a militar responsável, que representa a oposição “ (Azevedo, 2015). Podemos destacar nesta história Rosa, a prostituta franca e destemida, que não tem vergonha do que é, e reivindica melhores condições de vida dentro do campo. Rosa personifica a mais ex- cluída das mulheres, mas apresenta-se também como símbolo de sobrevivência e de luta. Merece também particular atenção no filme a personagem Maria João. Mulher/ soldado, ela representa o tema da independência das mulheres pela força dos seus po- sicionamentos políticos quando grita no filme; “o meu nome é Maria João, comandante Maria João, sou mulher mas também posso ser homem”, ela que também diz “mulhe- res da má vida […] vão aprender a comportar-se como mulheres […] quando se trans- formarem serão libertadas para poder servir o país […] viva as mulheres novas!” Mas é de salientar que, no filme, as prostitutas ou a comandante mostram também diferentes perspetivas de uma luta diária em que as mulheres trabalham, mas são também irmãs, mães, esposas, amantes e amigas.
Constatamos através da visualização e análise destes filmes que Licínio Azevedo nunca dá uma visão trágica da vida ou do destino das prostitutas, pelo contrário, nos seus filmes há histórias de vida difíceis, mas há também sempre risos e uma mensagem de esperança. Não encara as prostitutas como mulheres fracas, nem as apresenta ape- nas como vítimas, mas olha sobretudo para elas de uma forma humana encontrando nos seus gestos e atitudes sofrimento mas também alegria.
AS VIÚVAS
Sobretudo nas zonas do interior rural, profundamente conservador e tradicional, as viúvas, na sua condição de mulheres sem marido, vivenciam por vezes situações de exclusão do seio da família do marido após a sua morte, o que lhes retira parte da rede de proteção. Esta situação está expressa em dois filmes de Licínio Azevedo,
diência;
Na leitura de jornais. Era a história de um homem que se suicidara alegando que a esposa era desobediente. […] Fiz a pesquisa entrevistando todos os en- volvidos no drama e descobri outro guião. A família do morto culpava a viú- va para poder se apossar dos bens do casal; a palhota, uns poucos cabritos e galinhas e, sobretudo, ficar com os seus cinco filhos, ainda crianças mas já de grande ajuda nas machambas familiares. (Azevedo, 2015).
Através dos relatos do curandeiro da aldeia, o realizador descobre que o morto dormira com a mulher do seu irmão gémeo, “Um tabu foi quebrado. As tradições locais interditam um homem de fazer amor com a mulher do seu irmão gémeo. O suicida fê- -lo e foi isso que causou a sua morte.” (Azevedo, 2015). Para a realização deste filme, Licínio Azevedo convence os familiares e o curandeiro a interpretarem o seu próprio papel. O suicida tinha um irmão gémeo que fez um duplo papel; o dele próprio e o do irmão que se suicidara, Rosa, a viúva, retrata-se a ela própria (Azevedo, 2015). E mes- mo o curandeiro organiza nova sessão espiritual aquando das filmagens para julgar a viúva. Para Licínio Azevedo “tudo correu como se fosse a primeira consulta, a transfi- guração do curandeiro, a presença do espírito, as reações dos familiares.” (Azevedo, 2015). É de salientar neste contexto que a relação dos moçambicanos com os espíritos e os antepassados é fundamental quando analisamos a obra de Licínio de Azevedo. Luís Carlos Patraquim vê nesse retrato de moçambique «um casamento perfeito» entre «o lado fantástico, algo onírico, brasileiro» e a África de onde esse lado veio originalmente (Coelho, 2008:8).
Desobediência é um filme de difícil classificação. Apresentado em 2003, como
documentário no Festival Internacional de Programas Audiovisuais (FIPA) em Biarritz, foi mudado pela organização para a categoria de ficção tendo ganho inclusivamente o Troféu de Prata do Festival. É de facto um documentário dramatizado baseado numa história real, isto é, um docudrama. Mas mesmo esta definição levanta algumas ques- tões, pois são as personagens reais que se interpretam a si mesmas e as situações são revividas, ou vivificadas e não apenas encenadas. Esta ambiguidade entre real e ficção é, sem dúvida, uma das marcas registadas deste realizador que, neste filme, trabalhou sem guião, deixando que as personagens, que conheciam bem o seu papel, reinterpre- tassem algo que viveram efetivamente. Licínio Azevedo salienta que não escreveu nada para Desobediência (Coelho, 2008:8), mas ao reencenar a história real, transforma-a em ficção e através da sua câmara e da escolha dos planos, aquela notícia de jornal transforma-se num filme.
No filme Roofless (2008), o cineasta mostra a luta travada pela jovem viúva Cecília Xavier Cumanio, para criar os seus filhos sozinha face à tradicional opressão praticada sobre as viúvas em Moçambique. Quando o marido de Cecília morre num acidente na África do Sul, o sogro responsabiliza-a pela sua morte e expulsa-a da propriedade que pertencia ao casal. A viúva passa a trabalhar numa plantação de açúcar para sustentar a
família e proteger os seus filhos, e é aí que conhece Maria Aduzinda de Almeida, a Presi- dente da Association of Women Abandoned by the Sugar Industry, que muda a sua vida ao encorajá-la a levar a família do falecido marido a tribunal para reaver a sua proprie- dade. Produzido pela UNICEF, este documentário é exemplo da preocupação de Licínio Azevedo em escolher temas relacionados com a realidade cultural mas também política de Moçambique, demonstrando um constante engajamento com o rumo do país.
ADOLESCENTES
No filme As Pitas, também de Licínio, o universo juvenil é apresentado, tendo como pano de fundo a cidade, Tete. As jovens falam de amores e desamores, veem TV e vestem- -se como raparigas ocidentais. É o espaço envolvente e a recorrência a um tabu ocidental, a feitiçaria, que dão ao filme uma cor e um tom locais (Tavares; Vieira, 2015: 7).
As primeiras imagens mostram uma adolescente, vestida de calças de ganga, t- -shirt e uns modernos sapatos cor de laranja de plataforma a caminhar orgulhosamente de cadernos na mão para a escola. Cruza-se no caminho com uma mulher vestida de capulana e lenço na cabeça, a menina está de frente, a mulher de costas. Embora haja à primeira vista oposição e tensão nesta imagem, em que uma parece significar o passado e a outra o futuro, pensamos no entanto, pela forma como é filmada e pela reflexão fei- ta em torno do universo fílmico do realizador, que este início espelha uma característica transversal à obra de Licínio de Azevedo, a fluência e sensibilidade com que aborda os temas da tradição e modernidade num país de fortes contrastes culturais e sociais pois o realizador questiona, constata e infere, mas sem dramas, sem ruturas com o passado. As adolescentes, ao contrário das viúvas e das prostitutas, não sofrem nenhuma opressão visível, mas sentem na pele a tensão presente num país em mudança, entre o velho e o novo, entre a tradição e a modernidade, entre a crença e os programas de televisão. O realizador não pretende, no entanto, criar linhas de rotura entre esses dois “países” que se confrontam quotidianamente, sobretudo nas cidades grandes, mas re- vela, de forma quase documental, como vivem os jovens, neste caso, as jovens mulhe- res, num espaço em mutação.
CONCLUSÃO
Licínio Azevedo é, sem dúvida, um realizador que coloca as mulheres no centro da sua narrativa fílmica, focando-se na solidariedade feminina e abordando, de forma intimista os temas que perpassam a questão das mulheres em Moçambique. O seu olhar é dirigido às mulheres comuns que mostram coragem nas suas lutas diárias, mulheres que ninguém conhece mas que são as grandes responsáveis pela tessitura das relações sociais do país.
A próxima longa-metragem do realizador, Comboio de Sal e Açúcar, uma copro- dução entre a UKbar Filmes e a Ébano Multimédia, com lançamento previsto para
2016, também é uma história de mulheres. O filme adapta o livro Comboio de Sal e
Açúcar, escrito por Licínio Azevedo em 1998: uma história de amor e de guerra, em
que, para sobreviver, um grupo de mulheres comprava sal no litoral e atravessava setecentos quilómetros até ao Maláui para o trocar por açúcar.
Consideramos que a produção cinematográfica de Licínio constitui um patrimó- nio cultural riquíssimo, que permite inferir acerca da realidade moçambicana ao mes- mo tempo em que cria narrativas originais, contadas de forma muito particular por este realizador moçambicano nascido no Brasil. A sua obra funciona ainda como uma poderosa forma de sensibilização das consciências, pois a proximidade que o cineas- ta estabelece com as personagens que povoam os seus filmes, o trabalho de campo realizado e a incursão sistemática no domínio do real, conduzem os espectadores dos seus filmes a pensar (em) Moçambique.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AZEVEDO, Licínio (2015). Moçambique Cinematográfico: Conferência proferida no 6º Simpósio de Cinemas em Português. Coimbra.
COELHO, Alexandra Lucas (2008). “Licínio Azevedo – O contador de Moçambique” in
Moçambique docs.pt#07. Lisboa: Leonor Areal, Sérgio Tréfaut, p.8.
TAVARES, Mirian; VIEIRA, Sílvia (2015). Cartografias do desejo: a cidade como espa-
ço do outro. http://www.proximofuturo.gulbenkian.pt/sites/default/files/ficheiros/ CIAC_FEV.pdf (Setembro de 2015).
THOMAZ, Omar Ribeiro (2015).“Escravos sem dono”: a experiência social dos campos
de trabalho em Moçambique no período socialista. http://www.revistas.usp.br/ra/ar- ticle/viewFile/27305/29077 (Outubro, 2015).
VIEIRA, Sílvia (2010). Entrevista a Licínio Azevedo. Maputo. VIEIRA, Sílvia (2015). Entrevista a Licínio Azevedo. Coimbra.
FILMOGRAFIA As Pitas (56´, 1998) A Última Prostituta (48´, 1999) Desobediência (92´, 2002) Paragem Nocturna (52´, 2002) Roofless (16´, 2008) Virgem Margarida (110´, 2012)