Durante o estudo, optamos por realizar uma Pesquisa-ação (PA)para viabilizar, no desenrolar deste trabalho, o emprego do paradigma qualitativo e da postura êmica, termo adotado inicialmente nos estudos etnográficos. Segundo Watson-Gegeo (1988apudMOURA FILHO 2000, p. 23),a postura êmica consiste em abranger perspectivas e interpretações quanto à conduta, eventos e situações do grupo analisado, a partir da ótica dos próprios membros desse grupo. No caso deste estudo, a pesquisa está contextualizada em um ambiente naturalista, ou seja, a sala de aula como contexto de trabalho e atuação (JOHNSON, 1992).
Esse método de pesquisa foi escolhido devido ao interesse em desenvolver um estudo que promovesse a reflexão, através da análise sobre os dados coletados e por meio de um caso específico de intervenção, promovendo mudança nas práticas de ensino. Desse modo, espera-se a transformação na metodologia utilizada nas aulas e a inclusão de um material didático específico como ferramenta que desenvolva a reflexão crítica e a Competência Comunicativa Intercultural42.
Quando se trata da seleção de metodologia de pesquisa, Reichardt e Cook sugerem que "os investigadores de nenhuma maneira seguem os princípios de um suposto paradigma sem assumir, simultaneamente, métodos e valores dos paradigmas alternativos" (1979,p.232, apud NUNAN, 1992,p.3). Isso significa dizer que a escolha da pesquisa qualitativa, neste caso sob a perspectiva da pesquisa-ação, não exclui o uso de eventuais instrumentos que forneçam dados quantitativos necessários à elucidação de pontos relevantes ao estudo.
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Termo definido por Byram. O autor afirma que a CCI exige, além das competências linguística, socio- linguística e discursiva, certas atitudes, conhecimentos e habilidades, ampliando, assim, o termo Competência Comunicativa.
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Na PA, a participação dos atores é direcionada para mudanças na ação e/ou na reflexão. Nas palavras de Morin (2004, p. 91), a PA pode ser definida como:
“Uma metodologia de pesquisa que utiliza o pensamento sistêmico para modelar um fenômeno complexo ativo em um ambiente igualmente em evolução no intuito de permitir a um ator coletivo intervir para induzir a mudança”.
Tal opção metodológica exige não apenas que o/a investigador/a participe como observador/a, mas que ele se envolva como ator/atriz. Conforme Morin (2004, p. 52) “ele se implica, ele se explica e ele se aplica em uma realização educativa”. O grau máximo de implicação se dá quando o/a pesquisador/a participa (e intervém) na ação que está sendo objeto de estudo e também assume o papel de analista. No ambiente de sala de aula, o/a professor/a - pesquisador/a possui uma oportunidade de reflexão sobre o seu próprio fazer docente. O fato de que o/a professor/a passa a desempenhar o papel duplo de pesquisador/a e ator/atriz no processo, em um paradigma positivista, poderia ser considerado “comprometedor” para a análise. No entanto, na PA, esse fato é considerado como uma contribuição determinante, pois permite ao/á ator/atriz, no papel de analista, recuperar suas intenções e informações, que não estariam disponíveis a um/a observador/a externo/a.
A PA surgiu da necessidade de superar a lacuna entre teoria e prática. Uma das características desse tipo de pesquisa é que através dela se procura intervir na prática, de modo inovador, já no decorrer do próprio processo de pesquisa e não apenas como possível consequência de uma recomendação na etapa final do projeto. A PA consiste em uma metodologia de pesquisa que busca resultados da ação e de investigação ao mesmo tempo. Tem, portanto, alguns componentes que se assemelham à mudança de agência e alguns que se assemelham à pesquisa de campo (DICK, 2000).
A pesquisa experimental convencional desenvolveu certos princípios para orientar a sua conduta. Esses princípios são apropriados para certos tipos de pesquisa, mas eles podem não ser úteis quando o objetivo da pesquisa traz embutido no estudo a busca por uma mudança efetiva. Já a PA tem desenvolvido um conjunto diferente de princípios com algumas diferenças características da maioria dos outros métodos qualitativos. Podemos remontar a origem da pesquisa-ação a Kurt Lewin, em 1940. Ela
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surge da necessidade de planejar intervenções transformadoras no campo das relações de grupo. Thiollent (2000, p.14) define a pesquisa-ação como:
“um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.”
Assim, a PA, além de permitir que o/a pesquisador/a se engaje na situação estudada, transforma-o/a em um/a participante do processo analisado. É necessário ressaltar que a ação é gerada no próprio processo de investigação.
Pesquisa-ação
Cíclica Para que haja a transformação esperada é
necessário o retorno ao ponto inicial.
Participativa As/os participantes estão envolvidas/os como
participantes ativas/os, no processo de pesquisa.
Qualitativa Lida, mais frequentemente, com a linguagem
do que com números.
Reflexiva A reflexão crítica sobre o processo e os
resultados são partes importantes de cada ciclo.
Quadro 3: Características da Pesquisa-ação.
Para alcançar a ação, a PA é sensível. Ela tem de ser capaz de responder às necessidades emergentes da situação e deve ser flexível, o que a diferencia de alguns métodos de pesquisa. A PA é emergente, pois o processo de pesquisa ocorre de forma gradual e a sua natureza cíclica ajuda na capacidade de resposta, o que contribui para o rigor investido em todas as etapas do estudo, já que os ciclos iniciais são usados para ajudar a decidir como conduzir os ciclos posteriores.
A PA envolve, portanto, quatro momentos: 1) o conhecimento da realidade, visando à sua compreensão e à transformação dos problemas vividos pelos grupos
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excluídos; 2) o planejamento com participação coletiva de todos os envolvidos; 3) a ação de cunho educacional e político e 4) a reflexão sobre a ação. Após as etapas citadas, e devido à característica cíclica dessa metodologia de pesquisa, as etapas podem ser refeitas em busca da transformação inicialmente esperada. Thiollent (op. cit., p.16) ressalta que “a pesquisa não se limita a uma forma de ação (risco de ativismo): pretende-se aumentar o conhecimento dos pesquisadores e o conhecimento ou o ‘nível de consciência’ das pessoas e grupos considerados”.
Consideramos ser isto o que torna essa metodologia mais apropriada a este estudo do que outras formas de pesquisa, pois há uma escuta da demanda do grupo e a partir dessa escuta, propõe-se uma ação a ser realizada, tendo em vista os problemas colocados, que exigem soluções de acordo com particularidades dos atores sociais envolvidos. A ação é planejada em processo de negociação constante com as pessoas participantes do estudo e isto é o que se propõe nesta pesquisa, uma vez que o que se pretende é compreender as necessidades primárias das/os alunas/os para que interajam com a sociedade de acolhimento de maneira rápida e eficaz.
3.1.1 Vantagens e Desvantagens da PA
A pesquisa qualitativa nos permite usar uma série de métodos para coletar dados, obtendo de cada um desses diferentes métodos um resultado visto a partir de fontes diversas, de acordo com o interesse do estudo. Na pesquisa-ação, a coleta de informações tem fim de reflexão, análise e melhoria da prática real, com a intenção de trazer mudanças a essa prática. Assim, vários instrumentos podem ser considerados, a fim de atingir a "triangulação" desses dados em busca de uma segurança maior nos resultados.
Além disso, a PA possibilita que a reflexão e a prática aconteçam concomitantemente à luz das teorias estudadas e do contexto em análise. Dessa forma, a mudança ocorre como resultado da ação observada e faz parte do processo da pesquisa, diferentemente de outras metodologias de pesquisa, por meio das quais o/a pesquisador/a se limita a observar e analisar determinadas circunstâncias.
Outro ponto favorável à PA é a efetiva participação dos sujeitos no processo da pesquisa. As/os alunas/os participantes, assim como a professora-pesquisadora, têm voz
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e estão verdadeiramente envolvidos durante todo o percurso. No caso deste estudo em específico, o curso que serve como contexto de pesquisa está sendo construído, melhorado e transformado de acordo com as necessidades das/os alunas/os e com as leituras e pesquisas feitas pelas professoras participantes.
As desvantagens dessa metodologia de pesquisa são inerentes também às outras, pois as/os alunas/os, por saberem que estão participando de um estudo, podem responder e agir de acordo com o que eles pensam que é apropriado, ou seja, o que é socialmente aceitável. Além disso, o fato de que a pesquisa é liderada pelo/a professor/a pode “afetar” o resultado encontrado, em comparação à pesquisa positivista, uma vez que reflete os resultados de uma interação na qual o/a pesquisador/a é também pesquisado/a.
No entanto, em qualquer pesquisa, a presença do/a pesquisador/a vai intervir nos resultados. Não se pode mais acreditar ingenuamente na invisibilidade ou impessoalidade do/a pesquisador/a nas pesquisas de caráter qualitativo. A propósito, não é isso que geralmente se espera da pesquisa qualitativa. Essa visão totalmente positivista de pesquisa científica pura tende a ser refutada pelos pesquisadores das áreas sociais e aplicadas. Por outro lado, é de valor para o/a pesquisador/a - professor/a, conduzir o processo de mudança que ele/ela deseja em sala de aula, uma vez que essa mudança reflete a sua prática e estimula o pensamento crítico das/os alunas/os. Através da pesquisa-ação, as/os participantes podem refletir sobre o processo de aprender e proporem mudanças verdadeiramente eficientes.
A participação efetiva do/a pesquisador/a no estudo é comumente citada por alguns críticos, por acreditarem que ela pode interferir nos resultados da pesquisa tornando-a menos confiável e os dados coletados pouco verídicos. Além disso, no que diz respeito ao problema da validade, existe o questionamento de como o/a professor/a - pesquisador/a pode proceder uma análise interpretativa dos dados sem subjetividade. Finalmente, algumas questões pragmáticas tais como de que maneira o/a professor/a, que é concomitantemente pesquisador/a, lida com problemas acercada resistência à mudança, da falta de apoio e compreensão de outros funcionários e da gestão da escola, entre outros, devem ser levadas em consideração ao se implementar a PA.
A PA se configura como um estudo de nossas próprias práticas ou de práticas colaborativas, ao invés do estudo observador da prática alheia. Por outro lado,
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encontramos algumas objeções à pesquisa-ação, principalmente por parte dos adeptos da pesquisa tradicional. Cohen e Manion (1994) listam algumas:
- O objetivo da pesquisa-ação é situacional e específico, ao passo que a pesquisa científica tradicional vai além da solução de problemas práticos e específicos;
- A amostra da pesquisa-ação geralmente é restrita e não-representativa;
- A pesquisa-ação tem pouco ou nenhum controle sobre variáveis independentes; - Em consequência disso, os resultados da pesquisa-ação não podem ser generalizados, sendo válidos apenas no ambiente restrito em que é feita a pesquisa (relevância local).
Apesar disso, consideramos que os resultados trazidos por este estudo podem ser coadjuvantes em projetos parecidos com contextos semelhantes ao desta pesquisa.
Seguimos apresentando o contexto ou cenário da pesquisa.