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SCENARIOS AND UNCERTAINTIES
A metodologia que orientou a análise de dados buscou a descrição e a compreensão do percurso das operações envolvidas no uso das linguagens em Libras e Língua Portuguesa, durante a reescrita e reelaboração textual conjunta, levando em conta as interações verbais entre os participantes surdos e os pesquisadores nas oficinas de português como segunda língua.
A análise norteou-se por pressupostos de Bakhtin/Volochinov (2010, p. 96), os quais admitem que “para o locutor, a forma linguística não tem importância enquanto sinal estável e sempre igual a si mesmo, mas somente enquanto signo sempre variável e flexível”. Ou seja, o importante para o locutor é aquilo que permite que a forma linguística se torne um signo adequado em dado contexto concreto. Assim, novos conceitos só são construídos e passam a ser compreendidos quando percebidos pelo seu caráter de novidade. Dessa forma, a construção de conceitos não se dá em uma perspectiva linear, direta e imediata, uma vez que esta se vincula a fatores individuais, experiências e relações estabelecidas em um processo de interação. De acordo com Bakhtin/Volochinov (2010, p. 34), “compreender um signo consiste em aproximar o signo apreendido de outros signos já conhecidos”, ou seja, “a compreensão é uma resposta a um signo por meio de signos”.
Com a finalidade de perscrutar os caminhos percorridos pelos participantes surdos nas práticas com a língua escrita, o corpus para análise foi recortado a partir de três oficinas consideradas importantes, uma vez que trazem momentos de interlocução que evidenciam o processo reflexivo que permeou o trabalho de leitura e escrita, nos espaços das oficinas. A análise parte da realidade de surdos que trazem de bagagem alguns expedientes e recursos básicos de escrita adquiridos, muitas vezes, precariamente
ao longo de uma escolarização que negligenciou seu universo linguístico e que buscam, ainda, conquistar uma escrita com a marca padrão da língua de seu país. Tal busca leva esses sujeitos a valer-se de alternativas, dentro de seu território linguístico, para a solução de escritas, por meio de ajustes de comunicação, na parceria com outro surdo e na partilha de experiências. A análise dos recortes dos episódios eleitos pode desvelar circunstâncias de reflexões da linguagem por parte dos participantes surdos.
Adotou-se, portanto, uma metodologia qualitativa para a análise dos dados, tendo em vista a descrição e explicitação do contexto de interlocução estabelecido nas oficinas: práticas e formações discursivas. Para tanto, a análise do corpus foi norteada pela perspectiva dialógica bakhtiniana para quem a enunciação é de natureza social e que assume a interação como essencial para os estudos dos fenômenos humanos. Situou-se, portanto, o participante surdo como sujeito capaz de construir, na relação com o outro, conhecimentos sobre a linguagem e sobre sua própria realidade.
Para a análise dos episódios, adotou-se a concepção bakhtiniana de língua a partir da abordagem enunciativo-discursiva que considera a linguagem como atividade que se instaura dialogicamente a partir da interação verbal. Para Bakhtin/Volochinov (2010), a língua não se constitui pelo sistema abstrato das formas linguísticas, nem tão pouco pela enunciação monológica, mas, sobretudo pelo fenômeno social de interação verbal, concretizada por meio das enunciações.
Neste sentido, Rojo (1999, p. 2) assinala que em uma análise que pretenda realçar a “construção do discurso e do conhecimento a partir das trocas linguísticas em sala de aula” se faz necessário ter “como foco o próprio fluxo do discurso na interação”, o que de certa forma “implica adotar uma visão dialética da aprendizagem, mas também uma visão discursiva ou enunciativa da linguagem em curso na sala de aula”. Ao analisar os processos interativos de sala de aula, Rojo (1999) adota a “teoria da aprendizagem vygotskiana (sócio-histórica) que toma a teoria da enunciação de vezo bakhtiniano como uma boa elaboração para as questões da linguagem e do discurso”.
Como vygotskianos, cremos que o “propriamente humano” é tecido a partir da inserção social da criança em instituições (família, escola, etc.), que se materializa em interações sociais interpessoais, e que é próprio do humano apropriá-las “como seu” (internalizá-las) por meio dos discursos alheios internalizados e tornados próprios (ROJO, 1999, p. 2).
Por tal ótica, pode-se afirmar que os discursos em circulação social e apropriados pelos participantes surdos nas oficinas constituíram-se por meio da dialogia e da polifonia, uma vez que é no confronto de vozes e dos sistemas de valores que as diferentes visões se posicionam: contrapondo, assentindo, recusando, aderindo ... tecendo os fios do discurso. Os sujeitos se constituem discursivamente, incorporando distintas vozes sociais que se apresentam em relações diversas entre si. O parâmetro organizador de toda enunciação e de toda expressão situa-se no meio social que envolve o indivíduo, assim a enunciação como tal é produto da interação social (BAKHTIN, 2010).
A situação e o auditório obrigam o discurso interior a realizar-se em uma expressão exterior definida, que se insere diretamente no contexto não verbalizado da vida corrente, e nele se amplia pela ação, pelo gesto ou pela resposta verbal dos outros participantes na situação de comunicação (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2010, p. 129).
A posição aqui adotada toma a língua como uma atividade que se atualiza em determinados contextos, no contraponto dos discursos. É, pois, no trabalho com a língua que se reproduz “o processo dialético entre o que resulta da interação e o que resulta da atividade do sujeito” na atividade de linguagem (FRANCHI, 1987, p. 12). A partir desta concepção pretende-se buscar na análise dos dados as circunstâncias da enunciação, ou seja, investigar a tarefa dispendida pelos participantes surdos em relação à língua.
Do conjunto de 54 encontros foram selecionadas 3 oficinas. A seleção se deu após termos assistido às diversas oficinas procurando identificar pelo menos 3 (uma do início dos encontros, outra do meio e uma do fim) que se fizessem significativas quanto ao caráter interacional, que contassem com a presença de diversos participantes e que revelassem atividades discursivo-enunciativas determinantes para transformações dos enunciados. Para efeito de processo analítico, destacaram-se das oficinas selecionadas (que serão chamadas de oficina 1, oficina 2 e oficina 3) cenas direcionadas por três eixos de análise: interação entre pares surdos e entre estes e educadores ouvintes; aspectos linguísticos e indícios de autoria. Os dados levantados a partir destes eixos permitiram, além do estabelecimento de valores qualitativos do trabalho com a linguagem empreendido pelos participantes surdos, a observação dos deslocamentos destes em relação à reflexão sobre a organização textual, tendo em vista a situação de produção e de interlocução.
Para que a análise das interações discursivas se fizesse substancial para o desvelamento dos processos acima mencionados, buscou-se na tradução da língua de sinais para o português escrito uma visão enunciativa da linguagem. Inúmeras pesquisas voltam-se atualmente ao aprimoramento dos procedimentos de coleta de dados para a análise das interações interdiscursivas, sejam elas em línguas orais ou sinalizadas.
A questão da transcrição de dados linguísticos, de acordo com McCleary, Viotti e Leite (2010, p. 265), é objeto de estudo “de língua em uso desde que as primeiras tecnologias para registro de sons começaram a ser utilizadas por pesquisadores na primeira metade do século XX”. A importância de se manter o registro escrito, simultaneamente aos dados gravados, foi amplamente defendida por pesquisadores até a década de 1990, porém, com o surgimento da tecnologia digital, passou-se a questionar a centralidade da escrita nas análises linguísticas (McCLEARY; VIOTTI; LEITE; 2010). Todavia, os autores admitem que a resposta a tal questionamento exigirá tempo, estudo e esforços de adaptação frente à novas tecnologias, apontando três importantes fatos para a preservação da escrita em relação à transcrição:
i) a transcrição exige do pesquisador uma observação minuciosa e contínua dos dados “crus”, disciplinando o trabalho de análise de tal maneira que o pesquisador passa progressivamente a enxergar aspectos linguísticos que até então lhe passava despercebidos; ii) o processo de transcrever a língua por meio de símbolos discretos e limitados promove uma “redução” ou simplificação dos dados, exigindo uma padronização, independentemente do nível de detalhamento do sistema usado; iii) na divulgação de resultados para a comunidade científica, a escrita (seja ela impressa ou digital) ainda é, de longe, o instrumento mais utilizado em todo o mundo, justamente pela simplificação e padronização que atinge (McCLEARY; VIOTTI; LEITE; 2010, p. 266).
Ao contrário das línguas orais, cuja transcrição é facultada pelo sistema alfabético utilizado para a representação da fala, as línguas sinalizadas não contam com um sistema de escrita amplamente aceito e que sirva de parâmetro para a criação de um sistema de transcrição adaptado a tal modalidade de língua (McCLEARY; VIOTTI; LEITE; 2010). Dessa forma, a despeito de as línguas de sinais serem amplamente pesquisadas, a questão de sua transcrição ainda desafia estudiosos. Para driblar a carência de um sistema de transcrição que possa ser utilizado como ferramenta ortográfica e de análise, McCleary, Viotti e Leite (2010) registram que, de maneira geral, tem-se adotado uma variação de um sistema de glosas, no qual se grafa uma
palavra em maiúsculo para representar o sinal manual de sentido equivalente. Em relação aos sinais não manuais, estes podem, de acordo com os autores, serem representados por códigos sobrescritos e os usos do espaço de sinalização podem ser representados por letras ou números subscritos. Todavia, para o objetivo em foco, a tradução foi suficiente para a análise proposta e para que o leitor pudesse acompanhar o desempenho dos participantes surdos.
Discorrendo sobre a transcrição como forma de representação gráfica dos sons da língua e como modalidade de enunciação, Flores (2006) refere-se aos diferentes sistemas de transcrição que atendem a necessidades específicas, sejam elas, fonéticas, fonológicas, sintáticas, conversacionais, variacionais, entre outras, e às diferentes expectativas daquilo que deve ser preservado na transposição da fala para o transcrito. Assim, “quando se trabalha no escopo da enunciação, necessariamente deve-se tomar uma posição a respeito do sujeito que enuncia” (FLORES, 2006, p. 62). Por tal ponto de vista é necessário, portanto, levar em consideração a intencionalidade do sujeito que enuncia, uma vez que, de acordo com Bakhtin (2010), é a situação que dá forma à enunciação e só a individualização da língua na enunciação concreta é histórica e produtiva.
Em suma, considerando-se que a enunciação é um ato que não pode ser visto desvinculadamente do sujeito que a produz e considerando-se a clivagem estrutural do sujeito, cabe dizer que a transcrição é, neste caso, um ato de enunciação em que o “dado” a ser transcrito tem seu estatuto enunciativo alterado. A transcrição é, por esse viés, uma enunciação sobre outra enunciação. É, portanto, ato submetido à efemeridade da enunciação que, por sua vez, está na dependência da impossibilidade de que tudo se diga, constitutiva da clivagem do sujeito (FLORES, 2006, p. 62).
Em busca de consistência para a passagem de uma instância enunciativa à outra, Flores, (2006, p. 63) recorre à distinção entre dizer e mostrar sugerindo que “a transcrição compõe dois tempos na enunciação que envolve a passagem do mostrar ao dizer: a) sendo, de um lado, da ordem do mostrar, a transcrição da cena e, b) de outro, da ordem do dizer, a transcrição como uma outra enunciação”. O autor conclui que a transcrição como ato enunciativo, “como um mostrar de um dizer” comportando “um outro dizer”, pode ser aplicada na pesquisa de “diferentes corpora”.
Portanto, um trabalho de tradução de língua de sinais para o português escrito bem elaborado e orientado pelo viés enunciativo pode iluminar os caminhos para o entendimento dos fenômenos em análise.
Assim, como este trabalho tem o interesse em refletir sobre as interações interdiscursivas em oficinas de português, como segunda língua, para surdos e analisar as situações discursivas envolvidas no diálogo entre a língua de sinais e o português escrito, preocupou-se em registrar tal interação a partir de uma visão enunciativa da linguagem, na tentativa de preservar os processos sociais e ideológicos ali estabelecidos, sem velar as mais sutis manifestações dos participantes surdos.
Portanto, refletindo sobre as singularidades da língua de sinais, tendo em vista o registro do que foi dito e como foi dito pelos surdos, optamos pela tradução como ato enunciativo tentando desvelar o universo no qual sujeito e situação concreta são fontes para exposição e análise da ação verbal desenrolada nas oficinas. Este trabalho, a partir dos vídeos registrados pelas duas câmeras, foi facultado pela edição dos mesmos e ajustados, com o auxílio do programa de edição Vegas da Sony, de maneira a serem exibidos juntos, para que o tradutor tivesse as duas imagens simultaneamente numa mesma tela.
Para a transposição e apresentação dos dados deste trabalho, foi utilizada uma tabela com 6 colunas: Turno, Quem sinaliza, Tradução, Para quem sinaliza, Observação do Tradutor e Texto escrito produzido pelos participantes surdos.
O turno indica a intervenção dos participantes surdos e educadores ouvintes na conversação organizando os eventos dialógicos. As colunas quem sinaliza e para quem sinaliza têm sua importância à medida que a estrutura da enunciação é determinada pela situação social mais imediata e pelo meio social mais amplo (BAKHTIN/VOLCHINOV, 2010). A situação molda a enunciação, é ela que orienta ou impõe as repercussões das vozes dos participantes surdos e educadores ouvintes direcionando os assentimentos, as solicitações, as orientações, as expressões de dúvidas ou de certezas, de esclarecimento ou de confusão, de insegurança ou de empoderamento. É o conjunto das audições que determina que o discurso interior se realize em determinada expressão exterior (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2010).
A coluna tradução tem o objetivo de levar o leitor a percorrer as pistas enunciativas trilhadas pelos surdos, como primeiro enunciador do texto. As marcas enunciativas aí registradas pela tradução desvelam a participação dos surdos em um
momento individual de utilização da língua, tentando captar a imprevisibilidade e a efemeridade da enunciação.
A coluna Observação do Tradutor registra a movimentação dos educadores e dos participantes surdos, orientando o leitor quanto às trocas de turnos, bem quanto às marcações não manuais como as expressões faciais ou, ainda, gestos trocados entre os participantes (aperto de mão, chamamento de atenção) ou aqueles utilizados como estratégia em busca de figuração de objetos (desenhar no ar). Justifica-se a presença desta coluna, uma vez que tais observações permitem ao leitor a aproximação dos participantes surdos, levando em conta a intencionalidade de quem enuncia. De acordo com McCleary, Viotti e Leite (2010, p. 276) cresceu, nos últimos anos, o interesse científico por aspectos não verbais da comunicação nas mais diversas áreas, além daquelas dedicadas à área de descrição de língua de sinais: “a aquisição de linguagem, a educação, os estudos da gestualidade, a inteligência artificial, a animação gráfica, a interação homem-computador, entre outras”.
Finalmente, considerou-se, neste processo de tradução, a modalidade gesto- visual da Língua de Sinais, tendo em vista a necessidade de esclarecer ao leitor determinadas rotas utilizadas pelos participantes surdos quando de suas enunciações. Assim, por exemplo, quando estes e educadores ouvintes se valeram da datilologia, tais palavras foram grafadas em caixa alta e separadas por hífen e suas as intervenções oralizadas foram registradas em itálico.
Assim, como os episódios eleitos para esta análise têm como objetivo a apresentação de sequências interlocutivas com o intuito de perscrutar o processo de reflexão que envolveu a reescrita e a reelaboração textual coletiva pelos surdos, o texto será considerado em sua dimensão tanto organizacional como em seu funcionamento enunciativo.
Dessa forma, com o objetivo de colocar à mostra e discutir os dados colhidos nas oficinas de Língua Portuguesa para surdos, os três episódios traduzidos serão apresentados em cenas, de modo a exibir os aspectos interdiscursivos constitutivos do decurso das interações, bem como os elementos que nortearam a reescrita coletiva dos participantes surdos.
4.1 Oficina 1– 02 de maio de 2013 - 11.º encontro
Na oficina 1, Denis (P1), Dalton (P2), Wilson (P3), Wesley (P4) e Janaína (P5) tiveram a tarefa de continuar a reescrita conjunta iniciada em oficinas anteriores. Para tanto, exibiu-se, novamente, o trecho do vídeo narrado em Libras pela educadora Luna (E1), para que os participantes surdos pudessem relembrar determinados detalhes e discutir sobre a história que continuariam a reescrever. Após as discussões, projetou-se na tela o trecho escrito já produzido em oficinas anteriores pelos participantes surdos e digitado pelos educadores. Solicitou-se, então, que relessem o texto produzido por eles, e, após esta atividade o educador Djair (E3) orientou-os em relação à tarefa a ser executada: narração em Libras pelos participantes surdos com destino textual escrito por outros participantes surdos, tendo em vista que em alguns momentos mais de um deles se posicionava frente à lousa no momento da reescrita em português.
Com base na atividade acima descrita, era chegado o momento de continuar a reescrita coletiva. A orientação da educadora Milena (E2) partiu da seguinte questão contextualizadora:
- O homem (Simbad, o carregador) entrou pelo portão (do palácio) e avistou altas árvores, flores e uma fonte de água. Em seguida, avistou um grupo de pessoas, quem eram essas pessoas?