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1.3 Tidligere studier

1.3.1 Tidligere arbeidsgiverundersøkelser

Uma respeitável tradição de filósofos, incluindo Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Francisco de Vitória e Hugo Grotius, dedicou-se, ao longo de séculos, à distinção entre guerra justa e injusta, legítima e ilegítima. Atualmente, porém, a “guerra” é considerada um ilícito internacional, não subsistindo o direito do Estado a guerrear, o chamado “jus ad bellum”. Ela, porém, “subsiste a título de ‘legítima defesa’. Nesse sentido, a violência não foi excluída pelo Direito Internacional”. O uso da força ainda é permitido também nas guerras de libertação, nas revolucionárias e nas situações aprovadas pelo Conselho de Segurança e pelos organismos regionais (MIALHE, 2007, p. 157-159).

De fato, desde 1945, a Carta das Nações Unidas excluiu a guerra como um meio de solução de controvérsias. O artigo 2(4), considerado o pilar do documento54, veda o uso da força

52 O termo é utilizado para mero esclarecimento do tema, sem qualquer conotação negativa. Em verdade, há vasta literatura reconhecendo a diferenciação entre as atuais empresas militares privadas e os mercenários contemporâneos, cf. DREWS, 2007, MANCINI et alli, 2011, e SINGER, 2008.

53 A estimativa é feita a partir do fato de que o Código Internacional de Conduta Para Provedores de Serviços de Segurança Privada, tentativa de autorregulação do mercado a qual envolve países e organizações da sociedade civil, liderados pela Suíça, tinha setecentas empresas signatárias em 2013 (SIGNATORY, 2013).

54Eis a redação da Carta: “Artigo 2. A Organização e seus Membros, para a realização dos propósitos mencionados no Artigo 1, agirão de acordo com os seguintes Princípios: 1. A Organização é baseada no princípio da igualdade de todos os seus Membros. 2. Todos os Membros, a fim de assegurarem para todos em geral os direitos e vantagens resultantes de sua qualidade de Membros, deverão cumprir de boa fé as obrigações por eles assumidas de acordo com a presente Carta. 3. Todos os Membros deverão resolver suas controvérsias internacionais por meios pacíficos, de

34 ou sua ameaça pelos Estados, recebendo exceções em certas circunstâncias. De acordo com os professores ingleses Ian Brownlie e James Crawford (2012, p. 747), a interpretação da expressão “ameaça ou o uso da força”, contida no mencionado dispositivo, não é uníssona, porém a mais aceita é que “força” corresponde à força armada, empregada direta ou indiretamente – como, por exemplo, a contratação de mercenários55–, excluindo, portanto, a coação econômica ou política. “Ameaça”, por outro lado, não tem encontrado definição corrente, talvez porque seja conveniente à prática dos Estados fazer manobras ou outras demonstrações de poderio militar como uma forma de dissuasão – preferível, conforme afirmam os mencionados lentes, à sua alternativa, qual seja, o uso da força.

A mais importante exceção à proibição do uso da força está contida no artigo 51 da Carta da ONU56, referente à legítima defesa contra um “ataque armado” – termo controverso, por refletir, em 1945, a recente experiência de ataques convencionais da Segunda Guerra Mundial; é irrelevante, contudo, se o ataque é cometido por forças regulares de um Estado estrangeiro ou por grupos irregulares apoiados por ele. Ademais, a resposta à agressão deve ser necessária e proporcional, ou seja, o uso da força deve ser realmente a única opção do Estado agredido, que não pode exercer essa prerrogativa de forma punitiva ou retaliatória (BROWNLIE, CRAWFORD, 2012, p. 748-749). A legítima defesa coletiva, também incorporada no artigo 51, envolve arranjos securitários em que um Estado “A”, declarando que sofreu um ataque armado do Estado “B”, solicita o auxílio de um Estado “C”, que não necessariamente precisa ter também modo que não sejam ameaçadas a paz, a segurança e a justiça internacionais. 4. Todos os Membros deverão evitar em suas relações internacionais a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a dependência política de qualquer Estado, ou qualquer outra ação incompatível com os Propósitos das Nações Unidas. 5. Todos os Membros darão às Nações toda assistência em qualquer ação a que elas recorrerem de acordo com a presente Carta e se absterão de dar auxílio a qual Estado contra o qual as Nações Unidas agirem de modo preventivo ou coercitivo. 6. A Organização fará com que os Estados que não são Membros das Nações Unidas ajam de acordo com esses Princípios em tudo quanto for necessário à manutenção da paz e da segurança internacionais. 7. Nenhum dispositivo da presente Carta autorizará as Nações Unidas a intervirem em assuntos que dependam essencialmente da jurisdição de qualquer Estado ou obrigará os Membros a submeterem tais assuntos a uma solução, nos termos da presente Carta; este princípio, porém, não prejudicará a aplicação das medidas coercitivas constantes do Capitulo VII”. (BRASIL, 1945)

55 O texto original em inglês dos professores Brownlie e Crawford (2012, p. 747) também fala em “mercenaries”, não fazendo referência às empresas militares privadas.

56Eis a redação do dispositivo: “Artigo 51. Nada na presente Carta prejudicará o direito inerente de legítima defesa individual ou coletiva no caso de ocorrer um ataque armado contra um Membro das Nações Unidas, até que o Conselho de Segurança tenha tomado as medidas necessárias para a manutenção da paz e da segurança internacionais. As medidas tomadas pelos Membros no exercício desse direito de legítima defesa serão comunicadas imediatamente ao Conselho de Segurança e não deverão, de modo algum, atingir a autoridade e a responsabilidade que a presente Carta atribui ao Conselho para levar a efeito, em qualquer tempo, a ação que julgar necessária à manutenção ou ao restabelecimento da paz e da segurança internacionais” (BRASIL, 1945).

35 sofrido a agressão. Essa estrutura, já aceita na prática internacional antes de 1945, foi muito utilizada durante a Guerra Fria e foi expressamente brandida no âmbito da resposta do Conselho de Segurança à invasão do Kuwait pelo Iraque, em 1990 (BROWNLIE, CRAWFORD, 2012, p. 750).

Três outras situações de uso da força são observadas na prática dos Estados57, embora não estejam, a rigor, autorizadas pela Carta da ONU. Na “intervenção humanitária”, um Estado “A” abusa de sua soberania e trata sua população de forma cruel, legitimando que um Estado “B” intervenha militarmente. O “resgate de nacionais”, por outro lado, refere-se à situação em que um Estado “C” se permite usar a força no território do Estado “D”, para resgatar nacionais seus que estejam ameaçados; tal foi a justificativa usada pela Rússia em sua invasão à Geórgia, em 2008. Embora a intervenção humanitária e o resgate de nacionais não sejam recebidos com entusiasmo pela doutrina especializada, a “responsabilidade de proteger” tem alcançado grande sucesso em fóruns acadêmicos e políticos, referindo-se à obrigação da comunidade internacional em invadir o território de um Estado cujo Governo tenha falhado em sua obrigação de preservar seus próprios cidadãos de abusos de direitos humanos ou de crimes internacionais. Essa doutrina, em verdade, é uma reformulação da intervenção humanitária – tão antiga quanto a ocupação de Cuba pelos Estados Unidos, em 1898, no contexto da Guerra Hispano-Americana –, mas não dispensa a autorização58 do Conselho de Segurança (BROWNLIE, CRAWFORD, 2012, p. 752-756).

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A praxe estatal é comumente apontada para a identificação do costume internacional, que é fonte do direito: “Numa sociedade formada por entes soberanos, onde o concurso das vontades para a produção do direito convencional não está sempre presente, o lugar ocupado pelas normas que surgem das práticas e convicções sociais é de grande magnitude e relevância. O costume é o que se poderia chamar de fonte primeira do direito internacional. [...] Segundo a doutrina unânime, seus dois elementos são a prática generalizada e a aceitação, ou crença, de que essa prática constitui direito. [...] Em princípio, a prática, desacompanhada de opinio juris, não constitui costume. Tampouco há costume sem que haja prática, mesmo quando se tem a opinio juris” (NASSER, 2006, p. 70-71). 58 Exceto em legítima defesa, a autorização do Conselho de Segurança é imprescindível para a legalidade do uso da força no direito internacional, conforme os artigos 39 e 42 da Carta da ONU: “Artigo 39. O Conselho de Segurança determinará a existência de qualquer ameaça à paz, ruptura da paz ou ato de agressão, e fará recomendações ou decidirá que medidas deverão ser tomadas de acordo com os Artigos 41 e 42, a fim de manter ou restabelecer a paz e a segurança internacionais. Artigo 40. A fim de evitar que a situação se agrave, o Conselho de Segurança poderá, antes de fazer as recomendações ou decidir a respeito das medidas previstas no Artigo 39, convidar as partes interessadas a que aceitem as medidas provisórias que lhe pareçam necessárias ou aconselháveis. Tais medidas provisórias não prejudicarão os direitos ou pretensões , nem a situação das partes interessadas. O Conselho de Segurança tomará devida nota do não cumprimento dessas medidas. Artigo 41. O Conselho de Segurança decidirá sobre as medidas que, sem envolver o emprego de forças armadas, deverão ser tomadas para tornar efetivas suas decisões e poderá convidar os Membros das Nações Unidas a aplicarem tais medidas. Estas poderão incluir a interrupção completa ou parcial das relações econômicas, dos meios de comunicação ferroviários, marítimos, aéreos, postais, telegráficos, radiofônicos, ou de outra qualquer espécie e o rompimento das relações diplomáticas. Artigo 42. No caso de o Conselho de Segurança considerar que as medidas previstas no Artigo 41 seriam ou demonstraram que são inadequadas, poderá levar a efeito, por meio de forças aéreas, navais ou terrestres, a ação que julgar

36 Os constrangimentos ao uso da força nas relações internacionais, previstos na Carta da ONU de 1945, foram elaborados no ápice da ordem vestefaliana, porém, como afirma McFate (2014, p. 93), essas tradições, focadas nos Estados, dificilmente se aplicam à forma como os atores do século XXI se engajam em seus conflitos. Os conflitos contemporâneos – que o citado autor americano classifica como “neomedievais”, por renovarem características do pretérito período histórico – não têm começo, meio e fim bem definido, tampouco contam com declarações formais de guerra59, batalhas decisivas específicas a determinar o vencedor ou tratados de paz que simbolizem o término das agressões. “Ao contrário, elas tendem a persistir em uma perpetuidade nebulosa e podem envolver gerações em um conflito de baixa intensidade, mas interminável” (MCFATE, 2014, p. 93, tradução nossa60

).