Chapter 4: The Implementation
4.2 Threshold Variables
O ambiente mundial que decorre do período conturbado de inicio do século XX vai afirmar a hegemonia de dois modelos que passaram a servir de referência para as diversas nações do mundo. De um lado, a versão do “futuro radioso prometido pelo comunismo”, de outro, a versão do “futuro apaziguado e próspero prometido pela sociedade industrial capitalista” (MORIN e KERN, 1995). Esses dois modelos traziam como referência à idéia de desenvolvimento65 em substituição à desgastada idéia de progresso.
O “socialismo real” implementado na Rússia a partir da “Revolução de Outubro” de 1917, de certa forma, traduzia uma expectativa alimentada há séculos pelos socialistas utópicos66, pelo movimento operário e sindical e pelo socialismo científico. Por mais que se tenha clareza que as expectativas socialistas recaíssem mais para a Inglaterra, França e Alemanha, com seus processos de industrialização já consolidados e com um “capitalismo maduro”, o socialismo tornou-se realidade na Rússia Czarista. Uma sociedade predominantemente agrária e com um incipiente movimento operário e sindical. Porém as condições reais da história praticamente “puseram no colo” dos bolcheviques o poder político em 1917. “Na verdade, quando chegou a hora, mais que tomado, o poder foi colhido” (HOBSBAWM, 1995, p. 68).
Da tomada do poder à implantação do socialismo seguiu-se um longo e árduo caminho, nem sempre conduzido pelos pressupostos das teorias clássicas que inspiraram o movimento socialista. Acima das divergências teóricas, é possível encontrar uma “base comum”, a respeito de uma proposta socialista:
65 Atribui-se ao discurso de posse (para o seu segundo mandato) do Presidente Norte-Americano Harry S.
Truman, proferido em 20 de janeiro de 1949, uma verdadeira virada no conceito de desenvolvimento utilizado até então. Ele inaugura a “era do desenvolvimento” (SACHS, 2000), ou seja, uma nova fase da humanidade, no imediato pós 2ª Guerra, onde os diversos países do mundo teriam a possibilidade de alcançar o estágio em que se encontravam as modernas sociedades industriais. Para isso bastava que seguissem seus exemplos. Assim se refere Truman em seu discurso: “É preciso que nos dediquemos a um programa ousado e moderno que torne nossos avanços científicos e nosso progresso industrial disponíveis para o crescimento e para o progresso das áreas subdesenvolvidas. O antigo imperialismo – a exploração para lucro estrangeiro – não tem lugar em nossos planos. O que imaginamos é um programa de desenvolvimento baseado nos conceitos de uma distribuição justa e democrática” (TRUMAN apud ESTEVA, 2000, p. 59-60). A partir dessa idéia se expande um verdadeiro “mito do desenvolvimento” (FURTADO, 1983) em nome do qual todas as sociedades humanas deveriam abdicar de seus ideais para seguir o modelo das sociedades industriais modernas.
A base comum das múltiplas variantes do socialismo pode ser identificada na transformação substancial do ordenamento jurídico e econômico fundado na propriedade privada dos meios de produção e troca, numa organização social na qual: a) o direito de propriedade seja fortemente limitado; b) os principais recursos econômicos estejam sob o controle das classes trabalhadoras; c) a sua gestão tenha por objetivo promover a igualdade social (e não somente jurídica ou política), através da intervenção dos poderes públicos (BOBBIO, MATTEUCCI e PASQUINO 1998, p. 1.196-7).
A partir da morte de Lênin e da ascensão de Stalin ao poder na Rússia, o socialismo adquiriu uma feição centrada no Partido Comunista e no seu modelo de organização, numa rígida “planificação” da economia e na crença de que ele significava a possibilidade de melhorar as condições de vida de uma grande massa de camponeses e operários pobres. Para além dos problemas internos, “o socialismo real” fomentou um ideário libertário, de mudanças sociais, que se expandiu pelo mundo, inspirando levantes, revoltas, revoluções e independências pela maior parte do mundo. A versão soviética do marxismo assumiu a hegemonia do movimento revolucionário mundial (HOBSBAWM, 1995, p.72).
A experiência do socialismo real implantada na Europa Oriental e que ser expandiu para o mundo não conseguiu romper com o sistema geral de “sociometabolismo do capital”, mantendo intactos os elementos básicos constitutivos da “divisão social hierárquica do trabalho” e acreditando no socialismo num só país. Com isso, reduziu os objetivos do socialismo à manutenção de uns poucos serviços de seguridade social e à minimização do desemprego (MÉSZÁROS, 2002).
Essa experiência de socialismo real contribuiu pouco para fazer avançar a reflexão sobre as políticas sociais (COIMBRA, 1994). Esse fato pode estar ligado à não existência de uma perspectiva marxista unitária sobre o assunto. Em nenhuma passagem da obra do próprio Marx ele apresenta uma teorização explícita e sistemática sobre a política social. Isso pode estar ligado ao fato de que na época em que Marx escreveu, nenhuma das modernas instituições de política social havia sido criada. Esta pode ser uma razão, porém não a única, pois “na verdade, o principal motivo para isso foi a própria concepção que ele tinha da sociedade capitalista, vista como uma forma de organização social essencialmente oposta à idéia mesma de bem-estar” (COIMBRA, 1994, p. 86-7).
Na visão de Marx, o bem-estar social é concebido como uma norma relacional baseada nos valores da solidariedade e da cooperação que se manifestariam no
reconhecimento universal das necessidades humanas e na conseqüente repartição da produção social de acordo com o critério de necessidade. A sociedade capitalista, em seu modo de organizar as relações, com base na propriedade privada e na herança, na produção para o lucro, na exploração do trabalho, na distribuição do produto social através dos mecanismos impessoais de mercado e nas relações interpessoais mediadas pelo dinheiro, nega as necessidades humanas e a solidariedade social. Por isso, somente com a abolição do capitalismo e sua substituição pelo socialismo, seria possível alcançar o bem-estar (COIMBRA, 1994).
Essa maneira de ver a política social está presente em diversas obras de Marx, especialmente nos textos dirigidos ao debate político e ao ativismo ideológico, tais como o “Manifesto do Partido Comunista”, “Trabalho assalariado e capital” e “Crítica ao programa de Gotha”. Transparece neles uma “visão militante” da política social capitalista, negando sua possibilidade e ironizando seus defensores. Visão que transparece na análise dos problemas da educação, da habitação popular, da saúde pública e da assistência social. Marx, e mesmo Engels, cultivavam uma atitude de profunda descrença quanto à possibilidade de que o estado burguês fosse capaz de reconhecer quaisquer necessidades das classes trabalhadoras e responder a elas através de políticas sociais (COIMBRA, 1994).
Na análise da principal obra de Marx, “O Capital”, principalmente nas passagens que analisam o processo de regulamentação da jornada de trabalho na Inglaterra, observa-se a existência de uma visão um pouco diferente a respeito das possibilidades do estado burguês reconhecer as necessidades dos trabalhadores e responder a elas através de políticas sociais. Marx admite que, mesmo sendo o capitalismo um modo de produção que se opunha frontalmente à elevação das condições de vida do trabalhador, algumas melhorias podiam ser realizadas em seu interior. Da mesma forma, era possível que o Estado legislasse em favor dos trabalhadores, freando a “ganância” dos empresários. Mas isso não ocorreria sem a luta política dos trabalhadores. Essas conquistas acabavam sendo limitadas e restritas, pois não atingiam a totalidade dos trabalhadores e suas famílias e, geralmente, encontravam resistências nos parlamentos para serem regulamentadas (COIMBRA, 1994).
A trajetória do pensamento marxista, entre a morte de Marx e a década de 1970, demonstra que suas idéias a respeito da política social, por um lado foram preservadas e, por outro, foram modificadas. Preservadas no sentido de seguir a tese de que as políticas sociais
tinham alcance limitado nas sociedades capitalistas e, portanto, não mereciam uma atenção mais detalhada nos estudos. A maioria dos autores marxistas a ignorava completamente. Por outro lado, “raros textos marxistas” procuravam demonstrar que a política social podia ser considerada essencialmente funcional para o capitalismo, com ele convivendo em união harmoniosa.
Ao ser assim reconceituada, a política social passava a ser entendida pelos marxistas como útil e funcional para o capitalismo, quer se considerasse o processo de acumulação, quer se pensasse no Estado capitalista em si mesmo. Para o processo de acumulação, a política social seria funcional de dois ângulos diferentes: do lado da produção, ao rebaixar custos de reprodução e elevar a produtividade do trabalho; do lado da circulação, por permitir que os níveis de demanda agregada se mantivessem elevados, mesmo em épocas de crise, tanto pelas transferências governamentais de renda a grupos como os desempregados e os aposentados, quanto pelo estímulo ao setor produtivo fornecido pelas compras do governo necessárias à operação dos programas sociais. Sua funcionalidade não cessaria aí, no entanto, pois elas também seriam diretamente úteis para o próprio estado, que através dela ganhava a adesão e a docilidade dos trabalhadores. Estes, iludidos pelas vantagens de curto prazo representadas por ela, abririam mão de seu potencial revolucionário, sendo cooptados e se integrando ao sistema (COIMBRA, 1994, p. 90-1).
Essa visão da política social como algo essencialmente funcional ao capitalismo generalizou-se rapidamente no interior do marxismo e, portanto, algo que não merecia atenção na proposta socialista. Acreditava-se que o socialismo, em sua própria lógica de organização e funcionamento dava conta dos problemas sociais, não necessitando de mecanismos típicos da experiência capitalista de cooptação dos trabalhadores.
A partir do momento em que a burguesia começou a atacar as instituições da política social nos países centrais do capitalismo, culpando-as pela crise e pregando seu desmonte, a compreensão dominante de políticas sociais no interior do pensamento marxista passa a ser revista, dando origem a um novo conjunto de estudos67. Para uns, era necessário defender as políticas sociais do ataque que elas sofriam da direita. Para outros, era preciso ir além, buscando novos modelos teóricos e informações empíricas mais exatas a fim de tratar a questão em sua real complexidade e fazer avançar os estudos marxistas a respeito das políticas sociais (COIMBRA, 1994).
Analisando a trajetória das nações que optaram pelo modelo capitalista de desenvolvimento, percebe-se que, por mais variadas que tenham sido, basearam-se na
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Entre os quais se pode citar os de Claus Offe, Cristine Buci-Glucksman, Gosta Espig-Anderson, Goran Therborn, Ian Goug, Laura Balbo, Sam Bowles e Herbert Gintis (COIMBRA, 1994).
necessidade de planejamento da economia e da sociedade para livrar-se das crises e catástrofes do livre jogo das forças do mercado (HOBSBAWM, 1995). Buscaram construir uma proposta de desenvolvimento fundada em uma nova compreensão da relação entre mercado, Estado e sociedade, na direção da regulação, do controle e do compromisso negociado (Estado Social68); em uma nova compreensão da interpretação do estágio em que se encontravam as diferentes sociedades e qual deveria ser a trajetória a ser seguida para alcançar o desenvolvimento (Teoria de Rostow69); e na adoção de um processo de modernização da sociedade e dos comportamentos individuais (ideologia da modernização).
Os acontecimentos das primeiras décadas do século vinte demonstraram as fragilidades de uma economia de livre mercado e praticamente forçaram a produção de alguns consensos básicos sem os quais a sociedade mundial poderia ser constantemente ameaçada por profundas crises econômicas e políticas, conflitos militares e, até mesmo, gerar a emergência de movimentos extremistas. Os compromissos estabelecidos após a Segunda Guerra Mundial só foram possíveis devido a esse aprendizado gerado nas situações extremas que se produziram nas primeiras décadas do século vinte (LIPIETZ, 1991; HOBSBAWM, 1995; HARVEY, 1992).
O crescimento fenomenal da expansão de pós-guerra dependeu de uma série de compromissos e reposicionamentos por parte dos principais atores dos processos de desenvolvimento capitalista. O Estado teve de assumir novos (Keynesianos) papéis e construir novos poderes institucionais; o capital corporativo teve de ajustar as velas em certos aspectos para seguir com mais suavidade a trilha da lucratividade segura; e o trabalho organizado teve de assumir novos papéis e funções relativos ao desempenho nos mercados de trabalho e nos processos de produção. O equilíbrio de poder, tenso mas mesmo assim firme, que prevalecia entre o trabalho organizado, o grande capital corporativo e a nação-estado, e que formou a base de poder de uma expansão de pós-guerra, não foi alcançado por acaso – resultou de anos de luta (HARVEY, 1992, p. 125)
68 Adotando uma expressão utilizada por Couto (2004) para caracterizar as diversas experiências de Estado
(liberal, corporativista e conservadora e social democrata) que se desenvolveram no mundo a partir das idéias econômicas Keynesianas, da discussão dos direitos sociais e da nova discussão da relação entre Estado, sociedade e mercado que se desenvolveu no contexto do pós-guerra.
69 Walt Whitman Rostow. Um economista norte-americano, nascido na Rússia, que propõe uma nova teoria para
compreender a trajetória das diferentes sociedades. Sua proposta é apresentada como uma clara contraposição à teoria dos Modos de Produção, proposta por Karl Marx. A teoria de Rostow funda-se na tese do desenvolvimento por etapas. Essa compreensão é explicitada na seqüência do texto.
Na construção da possibilidade dessa série de compromissos é vital a reflexão teórica feita pelo economista inglês John Maynard Keynes70. Sua proposta teórica encontrou aceitação diante da realidade da época.
O carisma das propostas de Keynes surgiu porque o seu modelo oferecia algo que o mundo estava ávido em obter: dava, simultaneamente, uma explicação para a ineficácia da política monetária convencional como remédio para a depressão, uma interpretação não monetária para as crises cíclicas, e uma política alternativa para expandir o emprego e o produto (CONTADOR, 1992, p. 16).
Em seu texto, “O fim do Laissez-faire”71, após demonstrar o que deveria ser criticado e o que deveria ser defendido na economia de mercado, Keynes chega a uma proposta de “agenda” do que seria “urgente e desejável fazer no futuro próximo”, demonstrando, através de três exemplos, a necessidade de deixar claro a “separação dos serviços que são tecnicamente sociais dos que são tecnicamente individuais”. Destaca que não se trata de o Estado atuar nas atividades que os indivíduos já realizam, mas naquelas que estão fora do âmbito individual e que ninguém realiza se o Estado não as fizer (KEYNES, 1984).
No primeiro exemplo, Keynes demonstra que grande parte dos problemas econômicos vividos pela sociedade da época são frutos do “risco, da incerteza e da ignorância”. As grandes desigualdades de riqueza, o desemprego dos trabalhadores, a decepção das expectativas do empresariado e a redução da eficiência e da produção estão ligadas à situação de incerteza e ignorância, onde uns poucos se aproveitam e os grandes negócios tornam-se uma loteria. A “cura reside fora das atividades dos indivíduos”, pois, para alguns deles, pode até ser de interesse o “agravamento da doença”.
Keynes aponta como saída para esses problemas, o controle deliberado da moeda e do crédito por uma instituição central. Da mesma forma, a coleta e disseminação, em grande
70 John Maynard Keynes (1883-1946), filho de um renomado economista inglês, foi professor de economia em
Cambridge e colaborou em diversas missões do governo britânico, entre elas a Conferência de Paz de Versalhes. A oposição à política econômica do governo britânico lhe valeu certa marginalização nos meios oficiais, até que as graves conseqüências da grande depressão de 1929 despertaram o interesse dos políticos e economistas por suas idéias. Desde alguns anos, Keynes criticava severamente a economia clássica, especialmente a suposta existência de mecanismos "infalíveis" de auto-regulação, que permitiriam ao sistema econômico recuperar o equilíbrio em todas as circunstâncias. Keynes afirmava que os investimentos públicos e privados determinavam diretamente a elevação e a redução dos níveis de renda e emprego. Em contraposição à tese da escola clássica, segundo a qual o Estado deveria manter-se, tanto quanto possível, à margem da atividade econômica, Keynes propunha que o Estado se transformasse em motor do desenvolvimento (MERQUIOR, 1998; NOVA ENCICLOPÉDIA BARSA, 1999).
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Publicado como um panfleto pelo Hogarth Press, em 1926, sob o título “The End of Laissez-faire”. Reproduzido em português, como cap. 6, em SZMRECSANYI, 1984.
escala, dos dados relativos à situação dos negócios e de todos os fatos econômicos. Essas medidas seriam capazes de envolver a sociedade no discernimento e no controle, através de algum órgão adequado de ação, de muitas das complexas dificuldades do mundo dos negócios, mesmo mantendo desimpedidas a iniciativa e a empresas particulares. Mesmo que fossem insuficientes, essas medidas seriam capazes de fornecer melhor conhecimento do que se tem para dar o próximo passo (KEYNES, 1984, p. 123-4).
No segundo exemplo, Keynes aborda a questão da poupança e do investimento. Refere à necessidade de um “ato coordenado de apreciação inteligente” a respeito da escala desejável em que a comunidade como um todo deva poupar, a escala em que esta poupança deva ir para o exterior sob a forma de investimentos externos e se a organização do mercado de capitais está distribuindo a poupança através dos canais produtivos mais racionais. Estas questões não podem ser deixadas ao sabor da apreciação particular e dos lucros privados (KEYNES, 1984, p. 124).
No terceiro exemplo, Keynes evidencia a preocupação com a questão populacional. Advoga a necessidade de que cada país tenha claro o tamanho adequado de sua população, de acordo com seus recursos naturais, suas capacidades econômicas e a qualidade de vida que desejar para seus habitantes. Tendo estabelecido esse tamanho, possa fixar as normas e dar os passos necessários para fazê-las funcionar (KEYNES, 1984, p. 124).
Keynes deixa claro que essas propostas são direcionadas para os possíveis aperfeiçoamentos na técnica do capitalismo moderno por meio da ação coletiva. Da mesma forma, refere que elas não têm nada de seriamente incompatível com a característica essencial do capitalismo, que é a dependência de uma intensa atração dos instintos de ganho e de amor ao dinheiro dos indivíduos como principal força motivadora dos mecanismos econômicos. O capitalismo, “sabiamente administrado”, pode se tornar mais eficiente para atingir objetivos econômicos do que qualquer sistema alternativo conhecido. O problema é criar uma “organização social tão eficiente quanto possível, sem ofender nossas noções de um modo satisfatório de vida” (KEYNES, 1984, p. 126).
A reflexão feita por Keynes foi essencial para tornar “factível a existência do Estado Social” (PISÓN, 1998). Quer pela análise minuciosa que realizou a respeito da crise vivida pelo capitalismo no início do século XX, quer pela proposta que formulou para a
transformação do sistema econômico, assentando as bases para a materialização do Estado social.
Su conclusión fue bien clara: que el mercado carecia de mecanismos de autorregulación que evitaran los desajustes y las crisis y que, por tanto, la respuesta a estas situaciones debía venir de fuera del mismo, isto es, del Estado. Keynes propuso así que el Estado debía corregir los fallos del sistema econômico para favorecer el crescimiento econômico com vistas a uma más igualitária distribución de la riqueza y de los ingresos. Trataba de harmonizar así la pervivencia del sistema econômico com los viejos edeales de la justicia social (PISÓN, 1998, p. 40).
O Estado deveria assumir a função de regular os conflitos e estabelecer os consensos capazes de “promover a redistribuição da riqueza e a estabilização das expectativas dos trabalhadores e das classes médias e fazer de tal promoção uma alavanca de desenvolvimento do próprio capitalismo” (GENRO, 1999, p. 101-2). De acordo com Keynes, era necessário aliar a eficiência econômica à liberdade individual, com devida atenção à justiça social (ARANHA e MARTINS, 1994, p. 260), superando, com isso, os problemas apresentados pelo liberalismo e atendendo as pressões dos trabalhadores por direitos sociais e à necessidade da burguesia em garantir o processo de acumulação via Estados democráticos.
A proposta de intervenção do Estado, apresentada por Keynes, estava fundada em dois instrumentos básicos. O primeiro, é um eficaz e sutil sistema de tributação das rendas dos indivíduos e das empresas. O segundo, é a transferência desses recursos, quer em benefício dos setores econômicos cuja importância o exija (por motivos econômicos ou sociais), quer em benefício de grupos sociais. O Estado assume uma função de orientação na gestão dos recursos globais do sistema (BOBBIO, MATTEUCCI e PASQUINO, 1998). Ao gerir esses instrumentos, o Estado adquire um caráter regulador e intervencionista, cada vez mais envolvido com a garantia, a administração e o financiamento do seguro social e de atividades a fim.
Além do aporte decisivo da teoria de Keynes, também foi importante para propagar a idéia do Estado Social a produção teórica dos representantes do pensamento socialista, especialmente as teorias revisionistas do marxismo (a social democracia e o austromarxismo72), e as experiências práticas de seguridade social (PISÓN, 1998). Os
72 Referindo-se a pensadores como Bauer, Adler, Renner e outros que, a partir da Áustria, traziam a proposta de
rever a função do Estado para além de um instrumento exclusivo das classes dominantes, convertendo-o em