não esta muito (...) graça a Deus, mas o Sr. sabe uma andorinha, não faz verão, é precizo [sic] de algém [sic] para guiar e arranjar alguma coiza [sic] pra gente, sendo o Sr. honradamente o governador de nosso vasto Espírito Santo, eu conto com auxílio para me arranjar qualquer cerviço [sic], nós somos pobre, meu marido é bem mais velho do que eu;
Eu tenho que ajudá-lo não é? Dr. Chiquinho por (...) exemplo um serviço de um “Estabelecimento Escolar” em um “Posto de Saúde”. Enfim o que o Sr. arranjar serei desde já muito grata, em minha família somos eleitores e trabalhamos desesperadamente para o Sr.(...) que o Sr. perdoa-me a audácia de lhe escrever com os próprios punhos, e desculpe-me as faltas por sou quase (...) só tenho o 4° ano primário. (...) espero ser atendida, dê um forte abraço em Dª Zélia. Feliz natal para o Sr. e toda a sua família. Aqui me subescrevo [sic] [...] 233.
Como podemos perceber, problemas de ordem pessoal estavam no cotidiano dessas lideranças, entretanto não é função pública do Estado resolver problemas pessoais, salvo que a demanda seja de responsabilidade da administração pública. Na verdade, o carisma desempenhado por essas lideranças políticas conseguiu transformar as demandas privadas em demandas públicas, ou seja, aquilo que deveria ser tratado de modo impessoal é resolvido de modo estritamente pessoal.
1.7. A QUEDA DA EXPERIÊNCIA POPULISTA NO ESPÍRITO SANTO
Inicialmente, não era objetivo desta dissertação o entendimento dos motivos relacionados à queda da experiência populista no estado do Espírito Santo. No entanto, a partir das pesquisas realizadas no Arquivo Público Estadual e Biblioteca Pública Estadual, foi possível organizar fontes primárias e secundárias que explicassem o fim dessa experiência. Dessa forma, pretendemos apenas pontuar os aspectos relacionados ao Espírito Santo, e as mudanças políticas ocorridas durante e depois do movimento de 1964.
Antes de tudo, é preciso deixar claro que, em nossa visão, a experiência populista é um processo que envolve diversas variáveis. No Espírito Santo, a experiência manifesta-se com o governo de Francisco Lacerda de Aguiar, entre os anos de 1955-1958, porém só se consolida nos anos 1959 a 1966, no segundo governo de Carlos Lindenberg e na segunda gestão de Lacerda de Aguiar. De modo geral, essa experiência foi interceptada pelo movimento militar de 1964, mesmo assim sobreviveu com o governo Lacerda de Aguiar. Mas as situações adversas colocaram este governante no ostracismo político, solidificando a revolução militar no estado do Espírito Santo.
1.7.1- O GOLPE DE 1964 E OS REFLEXOS PARA O ESPÍRITO SANTO
233ESPÍRITO SANTO (Estado). Governador (1963-1966: Lacerda de Aguiar). Secretaria de governo. Correspondências recebidas e expedidas pelo governador do Estado do Espírito Santo. Vitória: Arquivo
O golpe de 1964 representou, para o estado do Espírito Santo, novos rumos políticos. Até esse momento, a experiência populista estava em seu auge, contudo as ambiguidades políticas surgidas a partir dessa experiência levaram o governador do Estado a uma situação complexa. Como foi observado, havia uma heterogeneidade social no campo sociopolítico local, o que justifica a predominância das ambiguidades naquele momento. Convivam, no mesmo espaço político, grupos de interesses identificados com a indústria ou com o café e também emergiu uma massa popular urbana, além da existência das massas populares rurais.
O golpe de 1964 criou uma ruptura nesse espaço político. Lacerda de Aguiar estabeleceu uma situação de controle, apoiando seu poder, principalmente nos setores populares urbanos e rurais, não deixando de lado os setores agrários. Como sabemos os militares repeliam as formas de governo que apresentaram uma forte ligação com as massas populares, como no caso de João Goulart.
A movimentação em torno da derrubada de João Goulart levou os militares a observar estrategicamente o Espírito Santo como uma porta de saída para o mar, caso a revolução delongasse em demasiado. Francisco Lacerda de Aguiar, percebendo a movimentação em torno do golpe, preferiu manter-se a favor do movimento. Esta postura do governante se deve, especialmente, à intervenção direta do governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, que era um dos líderes da revolução. Ademais, o governador do Espírito Santo nunca foi favorável ao governo Goulart. Na verdade, ele não se identificava com aquela linha trabalhista, apesar de conviver com ela habilmente. Sobre os rumos do golpe de 1964, no estado do Espírito Santo, e a postura em relação ao governo Goulart, em entrevista à Revista Espírito Santo Agora, Lacerda de Aguiar explica:
[...] - E o movimento de 1964? - Fui dos primeiros a aderir. O Magalhães Pinto apareceu por aqui a pretexto de inaugurar uma agência bancária e combinou comigo o movimento no estado. Aí nos encontramos num acordo às vésperas da revolução. O Jango também apareceu muito por aqui. Sempre lhe dizia que ele estava errado. Essa questão de tomar terras (reforma agrária) nunca houve. Não pode, está errado né? Eu não era a favor de uma reforma daquele jeito: tomar as coisas dos outros. Era a favor de uma reforma cristã. Uma vez o Jango foi inaugurar uma obra em Bom Jesus e me convidou. Eu fui. Lá o secretário dele me pediu prá fazer um discurso apoiando o que eles estavam fazendo. Eu não queria, mas acabei concordando. Mas fiz um discurso sobre o que eu estava pensando e não sobre o que eles queriam. O secretário de imprensa me disse: “o Sr. Não agradou, governador”, respondi: “é por isso que não queria falar”. No dia seguinte, A Gazeta deu em letras garrafais. Governador do Espírito Santo desentoou. Eles tentaram me enfiar nesse negócio de comunismo porque o Jango vinha muito aqui. Mas eu falei muitas vezes pro Jango – O Brasil precisa de tranqüilidade, não de agitação- falei com ele isso uma porção de vezes, lá na Praia da Costa. Ele me parecia um homem bom, mas a impressão que tinha é que não estava preparado para o governo [...] 234.
E continua:
[...] - Eu tinha feito aquele pacto com o Magalhães. Ele achava que a revolução ia durar 90 dias. Ele não achava que ia ser como foi, achava que o porto de Vitória era estrategicamente importante. Por aqui deviam entrar armas, abastecimento. Eu fiquei receoso quanto ao ponto de vista tático. Aqui não tinha gente pra [sic] tratar do movimento e a polícia era mal aparelhada em termos de combate. Eu sempre pedi munição, mas o governo federal não dava nunca. Ora eu sabia que com cinco minutos de tiroteio acabava a munição do Estado. Falei pro [sic] Magalhães: “a polícia é boa, mas não tem condições”. Ele disse: “Eu deixo em Governador Valadares 5 mil homens, a sua disposição”. Na véspera do movimento chegaram a Vitória, Sílvio Sette, assessor de Magalhães e dois coronéis da polícia militar. Os dois coronéis estavam à paisana. Me disseram baixo: “o negócio é amanhã. Eu ficaria com a missão de ir ao 3° B.C saber da posição do comandante, que era meu amigo, o coronel Nilton Fontana dos Reis. Então eu fui lá de tarde. Conversar, puxar conversa, de vez em quando eu insinuava uma coisa e outra, e quando ele sentiu que o estava sondando me disse: “Fique tranqüilo governador, mesmo que estejamos em lados opostos. O batalhão vai se deslocar para Campos porque o Espírito Santo para nós é sagrado”. Depois de muita conversa ele disse pra [sic] mim que a posição dele dependia do general Kruel. Como já sabia que o General Kruel estava no movimento disse a ele: “Tenho a impressão que vamos ficar do mesmo lado”. As duas horas da manhã me acordaram pra dizer: “O governador Magalhães Pinto acaba de lançar o manifesto” [...] 235.
O golpe de 1964 no Espírito Santo ocorreu sem conflitos armados. De fato, foi uma tomada rápida, sem qualquer resistência bélica e, além disso, com intenso apoio do executivo estadual. As contradições entre o movimento e o governador do Espírito Santo se acirrariam depois. Em 7 de abril de 1964, Francisco Lacerda de Aguiar enviou ao comandante Newton de Oliveira Reis um oficio congratulando as forças armadas:
[...] Ilustre Sr. Cel. Comandante, é do meu desejo, passados os primeiros momentos de inquietação, resultantes do sadio movimento patriótico liderado pelas brilhantes forças armadas do país e por homens de estripe de nossa pátria, todos empenhados na restauração dos seus postulados constitucionais, com o pleno reinado da democracia- agradecer a vossa excelência ilustre senhor coronel comandante pelos patrióticos serviços que o 3° batalhão de caçadores e pessoalmente seu digno e ilustre chefe, prestavam à causa da restauração da ordem, sobretudo em nosso Estado.
Na verdade, senhor comandante, foi aos momentos ainda incertos, graças ao completo entrosamento entre o poder executivo do Estado e o ilustre comandante das forças federais aqui sediadas, que se verificou a unidade de providências eficazes visando o completo êxito do movimento e quando então, constatamos, com imensa alegria a eficiência de sua ação patriótica, energética e serena, sem vacilações e sem tibiezas, numa demonstração insofismável do seu desejo, do seu imenso desejo de bem servir à pátria estremecida.
Das providências então tomadas por nós ambos, resultou o que aí está, a restauração absoluta da ordem no Estado, sem que o direito de quem quer que seja tenha sido ferido nos seus fundamentos legais.
Como ainda perdura essa consonância de sentimentos patrióticos, que só terá o seu término quando no país tudo se normalizar, notadamente com a eleição do candidato das forças armadas à suprema magistratura do País – espero então, com maior ênfase e para exteriorizar os sentimentos de justiça do nosso povo, externar-lhe a imensa gratidão do Espírito Santo [...] 236.
Em geral, não houve grandes grupos políticos oposicionistas ao golpe. Pelo contrário, quase todos ficaram a favor, tanto que o jornal A Gazeta, de 15 de abril de 1964, veiculava a
235Francisco, Chico, Chiquim, Chiquinho. Espírito Santo Agora, Vitória, nº 3, p. 22-37, dez.1972.
236ESPÍRITO SANTO (Estado). Governador (1963-1966: Lacerda de Aguiar). Secretaria de governo. Ofícios expedidos pelo governador do Estado do Espírito Santo. Vitória: Arquivo Público Estadual, 1964, caixa: 662.
seguinte manchete: “[...] Nenhum membro da Assembléia Legislativa do Espírito Santo teve mandato cassado [...]” 237. Por outro lado, também não se percebia a resistência por parte da sociedade civil, embora houvesse casos de manifestações contra o movimento, mas nenhuma delas com grandes proporções bélicas.
Em 16 de abril de 1964, foi noticiada pelo jornal A Gazeta a seguinte manchete: “[...] A população capixaba saudou festivamente a posse do novo presidente da República [...]” 238. Vários segmentos sociais colocaram-se a favor do movimento militar, como a FINDES. Segundo Américo Buaiz: “[...] a revolução de 1964 não prejudicou o Espírito Santo, tendo inclusive escolhido governadores ligados a FINDES [...]” (FINDES, 1998, p. 47). Dessa forma, é fácil entender que havia, por parte dos segmentos sociais mais influentes da sociedade capixaba, uma relação de apoio ao movimento de 1964. Precipuamente do governador do Estado, que declarou:
[...] Nesta hora grave para os destinos da nacionalidade, cumpre-me o dever de, na qualidade de vosso governador e amigo, dirigir-me a todos vós [...]. [...] Após consultar todos os membros do governo e as facções político-partidárias que o compõem e pensando na tranqüilidade e na garantia da coletividade espírito- santense, conclamo o povo do meu estado a que nos mantenhamos unidos, em perfeita paz e harmonia e no mais cordial e franco respeito que sempre existiu na família capixaba [...]. [...] O governo está no firme propósito de assegurar todas as garantias para o estabelecimento das normas constitucionais e preservar, a qualquer custo, a segurança das instituições democráticas, para o que conta com a colaboração das forças militares aqui sediadas, na forma de entendimentos mantidos [...]. [...] Dentro desse propósito, o governo sempre se manteve e se manterá, confiando, para tanto, na solidariedade do povo capixaba, na proteção de Deus e da virgem da Penha (Palácio Anchieta, 1° de abril de 1964. governador do Estado. Francisco Lacerda da Aguiar) [...] 239.
O golpe foi amplamente legitimado pelas autoridades civis, militares, políticas, religiosas etc. Isso é evidenciado na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada no Espírito Santo, em 25 de abril de 1964. Essa marcha contou com a presença das seguintes autoridades: Comandante do 3° Batalhão de Caçadores (Newton Reis), governador do Estado, presidente da Assembleia Legislativa, presidente do Tribunal, Américo Buaiz, Darcy Brasileiro da Silva240, além do amplo contingente da sociedade em geral, como noticiado pelo jornal A Gazeta, de 27 de abril de 1964: “[...] Milhares de pessoas na Marcha da Família [...]” 241. Em
237“Nenhum membro da Assembléia Legislativa do Espírito Santo teve mandato cassado. A Gazeta, Vitória, p.01,
15 abr. 1964”.
238
“População capixaba saudou festivamente a posse do novo Presidente da República. A Gazeta, Vitória, p.01, 16 abr. 1964”.
239ESPÍRITO SANTO (Estado). Governador (1963-1966: Lacerda de Aguiar). Atividades governamentais.
Boletim informativo das atividades administrativas do governo do Estado. Francisco Lacerda de Aguiar. Vitória: Ano I; n° 3, abril, 1964.
240“Marcha da Família com Deus será hoje e terá como ponto culminante a Praça Roosevelt. A Gazeta, Vitória,
p.01, 25 abr. 1964”.
síntese, a marcha teve como objetivo consolidar os anseios do movimento militar no Espírito Santo.
Por causa dessa manifestação em favor do movimento de 1964, o estado do Espírito Santo recebeu, no mesmo ano, a visita do presidente Castelo Branco, a convite do governador Francisco Lacerda de Aguiar. Na ocasião, houve uma comoção da sociedade civil em favor do presidente, recebendo ele o título honoris causa na Universidade Federal do Espírito Santo, e o título de cidadão espírito-santense pela Assembléia Legislativa. Ressaltou o próprio presidente que o Espírito Santo era “um exemplo de ordem e justiça” 242. Já em maio de 1964, o estado recebeu a visita do embaixador americano Lincoln Gordon, que vinha ao Brasil estabelecer as relações de interesse mútuo Brasil-EUA. De acordo com o Jornal A Gazeta, de 23 de maio de 1964, “[...] Gordon viria tratar dos 2 milhões de dólares para o nosso estado [...]”243. Esse dinheiro veio do Programa Aliança para o Progresso do governo Kennedy. Em termos gerais, não havia no estado qualquer grupo ou movimento militar organizado, na realidade a sociedade civil e militar se solidarizou com as forças militares mineiras, lideradas por Magalhães Pinto. Portanto, a decisão de aderir ao golpe por parte do grupo da polícia militar se deu apenas pela pressão que vinha de instâncias superiores das forças armadas. Por outro lado, as visitas de Gordon e de Castelo Branco evidenciam que a ação política favorável ao golpe colocou o estado do Espírito Santo numa posição de destaque na visão dos golpistas, o que lhe deveria garantir alguma prioridade.
Num ofício enviado em 25 de maio de 1964, pelo governador Francisco Lacerda de Aguiar, ao embaixador Lincoln Gordon, ficou evidenciada a posição do governador estadual:
[...] Preclaro Senhor Embaixador,
Para que o Estado do Espírito Santo possa ver concretizado o seu desejo de aplicação do que expõe o “Instituto Nacional de Pesquisas e Planejamento” no bem elaborado plano anexo, torna-se necessária a ajuda preciosa do governo que V. Exª tão brilhantemente representa. Ao passar o problema para as suas mãos, conto que, com o acurado estudo que será feito, seja o assunto, que é realmente de nosso grande interesse, resolvido com habitual clarividência [...] 244.
Não temos informações, ao certo, sobre a posição do PSD, nem sobre as posições de Carlos Lindenberg e Jones dos Santos Neves em relação ao golpe de Estado. Há somente um relato na biografia de Lindenberg que diz:
[...] Carlos não teve participação na Revolução de 64: “Eu estava sem mandato em 1964. Apoiei a revolução, mas como livre atirador. A gente sentia que tinha de ser
242ESPÍRITO SANTO (Estado). Governador (1963-1966: Lacerda de Aguiar). Atividades governamentais.
Boletim informativo das atividades administrativas do governo do Estado. Francisco Lacerda de Aguiar. Vitória: Ano II; n° 4, janeiro, 1965.
243“Lincoln Gordon vem tratar (também) dos US$ 2 milhões para nosso Estado. A Gazeta, p.02, 23 mai. 1964”. 244ESPÍRITO SANTO (Estado). Governador (1963-1966: Lacerda de Aguiar). Secretaria de governo. Ofícios expedidos pelo governador do Estado do Espírito Santo. Vitória: Arquivo Público Estadual, 1964, caixa: 662.
tomada alguma providência por parte das Forças Armadas. Meu irmão sempre foi muito discreto, o marechal Lindenberg. Eu dizia a ele: Eu acho que o Exército devia pedir emprestadas as calças daquelas mulheres de Minas para poder tomar uma atitude. Ele ficava meio zangado comigo e nunca abriu o bico, nunca me contou nada do que estavam tramando. E ele era um dos cabeças, porque nessa época trabalhava com Castelo Branco no Ministério da Guerra e era ele quem fazia as ligações com os grupos; mas nunca abriu a boca para falar nada. Quando estourou a Revolução, ele passou sumido uma porção de tempo, só depois é que reapareceu [...] (ALMEIDA, 2010, p. 442).