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5.2 Cultural obstacles to education. Testing the hypotheses .1 Culture and traditions

5.2.3 Language problem

Percebe-se, então, que embora haja uma tendência da historiografia a afirmar a dívida de Tocqueville para com Guizot no que diz respeito à avaliação da natureza da sociedade moderna, ou seja, ao seu caráter igualitário, é preciso destacar algumas diferenças fundamentais. Assim, precisa ser matizada a afirmação de Craiutu (2003, p. 96) de que a marcha para a igualdade civil que Tocqueville aponta seja um “[...] tema que também tem ampla importância nos escritos históricos de Guizot [...]”.

Pode-se observar que o advento da sociedade moderna corresponde, para Guizot, a um movimento que vai do isolamento das diversas classes (reis, aristocracia, clero, burgueses, colonos etc.) à coesão no “corpo da nação”, enquanto em Tocqueville ocorre o contrário: a hierarquia de Antigo Regime produziria coesão, enquanto a sociedade burguesa seria essencialmente fragmentada. O papel histórico da aristocracia também é subvertido e sua violência substituída pelas benesses que ofereceria e das quais a burguesia, fechada em seus “limites estreitos” seria incapaz.

Percebe-se, então, o valor que confere o autor normando à sociedade aristocrática, coesa e solidária, diante da sociedade democrática burguesa,

fragmentada e individualista. Não se pode derivar disso que Tocqueville desejasse um retorno da nobreza de Antigo Regime ao poder, uma vez que ficou clara a irreversibilidade providencial do fato democrático. Nisso, Tocqueville se aproxima muito da visão de Royer-Collard, para quem a sociedade democrática, inaugurada pela Revolução, era essencialmente fragmentada. Mesmo assim, seria preciso destacar que o conceito tocquevilliano de revolução democrática se aplica à realidade de todo o universo cristão, e não apenas à França – um de seus pontos polêmicos é justamente tornar a Revolução francesa apenas um episódio de algo que a sobrepuja. Além disso, como se verá em maior detalhe nos capítulos que se seguem, Tocqueville enxergava a possibilidade de uma sociedade democrática bem regulada, ou seja, capaz de equacionar igualdade e liberdade.

Assim, a afirmação de Johnson (1963, p. 84) de que “[...] ambos foram oponentes do processo de igualização que chamaram de democracia [...]” não se sustenta. Pelo contrário, colocada dessa forma, a afirmação mais confunde do que esclarece. Em Guizot, é preciso diferenciar entre o processo histórico de igualização e a democracia como potência niveladora. Em 1828, o primeiro era identificado à marcha da civilização, fundamental para a criação da nação burguesa. Nesse sentido, Guizot não se opõe a ele de modo algum. Ao contrário, ele aparece, como se viu, como o “[...] traço essencial que distingue a Europa moderna da Europa primitiva [...]” (HCE, p. 168). Trata-se, portanto, menos de condenar o processo de igualização que de lhe assegurar um fim. É esse o sentido da insistência de Guizot no caráter definitivo da sociedade moderna e o motivo pelo qual, em 1837, identifica a democracia a uma potência niveladora, “um grito de guerra”, que é preciso deter, porque não é capaz de instituir nenhuma ordem política. Aos olhos de Guizot, a sociedade moderna é legitimamente pós-revolucionária, a história encontrou nela a sua culminação.

Esses sentidos estão confundidos na afirmação de Johnson, que se torna mais complicada ao atribuir a Tocqueville a mesma rejeição de Guizot à democracia. É inegável que, desde 1835, Tocqueville identifica a democracia à potência niveladora responsável pelo processo histórico de erradicação das hierarquias. Contudo, o “terror religioso” que Tocqueville diz ter sentido à visão dessa revolução irresistível se deve à falta de regulação, ao abandono da

democracia a seus “instintos selvagens”, enfim, à incapacidade que encontra nos governantes franceses de assumir a frente desse movimento, conduzindo-o.

Por fim, a análise mais precisa da influência de Guizot sobre Tocqueville com relação à questão da democracia com que tive contato foi a de Ralph Hancock. Ao invés de focar nos tópicos tradicionais, ou seja, democracia como estado social e transição da sociedade aristocrática para a democrática, Hancock buscou essa influência nas duas componentes da civilização descritas por Guizot. Assim, a sua análise recaiu sobre o que Tocqueville aprendeu da “[...] ênfase de Guizot nos ‘dois tipos de fatos’ que a análise histórica deve dispor lado a lado, os fatos externo e interno, o desenvolvimento das relações sociais e o desenvolvimento da mente” (HANCOCK, 2001, p. 215). Essa análise me chamou a atenção porque Hancock demonstra que há grande distância entre a segurança de Guizot quanto à conciliação fatal dos dois fatos e o rompimento das leis da analogia moral que atemoriza Tocqueville. Para Hancock (2001, p. 215), “[...] a lição a ser aprendida com a Revolução francesa é muito mais problemática para a história do progresso para Tocqueville que para Guizot”. Restringindo-me aos fatos externos, isso foi precisamente o que quis mostrar: a distância que separa a confiança no sucesso da “nação burguesa” do temor frente a um mundo fragmentado onde “nada se encadeia”. Para Tocqueville, a história não acabou, a sociedade moderna é sociedade em revolução.

Em 1861, no discurso de recepção do sucessor de Tocqueville na Academia Francesa, Guizot afirmaria ter dificuldade de compreender como a vida política pôde afastá-lo de Tocqueville, com quem tinha, afinal, tantas afinidades. Assim,

O que desejava, o que buscava para nossa pátria o Sr. de Tocqueville, eu o desejava, eu o buscava como ele; nós tínhamos, não hesito em dizer, pelas liberdades públicas e pelas instituições que as fundam, o mesmo amor, inspirado por ideias e sentimentos por fim muito semelhantes e contido mais ou menos nos mesmos limites (GUIZOT 1861, p. 118).

Embora Craiutu acredite que essas afirmações sejam (2003, p. 93) “[...] muito mais que um reconhecimento circunstancial ou retórico aos méritos de um amigo falecido [...]”, acredito que sejam pouco mais do que isso. Além das diferenças apontadas na maneira como encaravam a sociedade moderna,

demonstrarei nos capítulos que se seguem que Tocqueville e Guizot tinham discordâncias profundas quanto ao significado das liberdades públicas e às instituições que podem sustentá-las.

CAPÍTULO 3: A REALEZA MODERNA E A NOVA