Controle bibliográfico é a forma de registro de todas as informações, contidas nos diversos suportes informacionais, para o acesso à literatura em geral:
Desenvolvimento e manutenção de um sistema adequado de registro de todas as formas de material, publicadas e não publicadas, impressas, audiovisuais ou quaisquer outras que contribuem para o conhecimento humano e para a informação. O controle bibliográfico significa o acesso efetivo à literatura através das bibliografias. Assim, a menção do controle bibliográfico da medicina significa o acesso efetivo às fontes da informação médica, mediante o uso das bibliografias. (CUNHA; CAVALCANTI, 2008, p. 70).
O surgimento do controle bibliográfico é muito antigo, como se pode observar pelo relato de Zandonade (1999, p. 54):
dos mais remotos elementos da organização dos registros gráficos do conhecimento humano, ou seja, desde os primeiros sinais concretos de organização da escrita. Esses produtos gráficos eram constituídos – tanto quanto se conhece das civilizações mesopotâmicas – de registros contábeis e inventariais da administração pública dos povos antigos.
A abordagem teórica e conceitual tratada por Shera (1975 apud MACHADO,
2003, p. 41) “[...] visualiza o processo de controle bibliográfico como parte do da sociedade.”, já que esse controle é inerente à organização dos registros
informacionais do conhecimento humano.
Percorrendo a história, em 1949, ocorreu um pequeno ensaio preparatório da Fifteenth Annual Conference of the Graduate Library School da Universidade de Chicago, que veio a ser realizada de 24 a 29 de julho de 1950, intitulado Prolegomena to Bibliographic Control. Nesse ensaio Egan e Shera (1949) propuseram a adoção do termo “controle bibliográfico” (bibliographic control) para o campo que, até então, nos Estados Unidos da América, à maneira dos pioneiros belgas, Paul Otlet e Henri La Fontaine, em fins do século XIX, haviam chamado de “documentação”, ainda que com um sentido diferente do que na Europa se entendia por esse termo (OTLET, 1934).
O controle bibliográfico, fase do “ciclo de vida da informação”, foi denominado de diferentes formas ao longo de sua história. A adoção do termo “controle bibliográfico”, sem que os seus proponentes tivessem disso se apercebido inicialmente, deu-se quase ao mesmo tempo do aparecimento da obra Cybernetics: or control and communication in the animal and the machine, de Wiener (1951). De início, os dois docentes da Graduate Library School da Universidade de Chicago entenderam que os controles bibliográficos funcionam como mecanismos para orientar a energia intelectual, das informações que são importantes, para uma tarefa específica, com maior agilidade e economia (EGAN; SHERA, 1949, tradução nossa).
No ano seguinte aos Prolegomena, a operação que os autores desse ensaio chamaram, em última análise, de “extração da informação” (extraction of information) foi, pouco mais tarde, formalmente denominada de “recuperação da informação” (information retrieval) por Calvin Northrop Mooers em 1950, mas o novo termo só foi registrado sete anos depois em um artigo de Mooers (1957).
Chicago, por temerem alguns profissionais da informação que o termo “controle” pudesse ter uma conotação de “censura”, seus proponentes não se opuseram à substituição do termo “controle” por “organização”. Desta forma, os trabalhos daquela conferência de 1950 foram publicados sob o título de Bibliographic Organization (SHERA; EGAN, 1950). A partir de então, os dois termos passaram a ser aceitos simultaneamente na literatura da Biblioteconomia e Ciência da Informação (BCI). Algumas eminentes instituições da área de informação, entretanto, como a Library of Congress e a International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA), usam, até o presente, a denominação “controle bibliográfico”.
A primeira definição do termo “controle bibliográfico” foi formalmente definida através de documento emitido conjuntamente pela Library of Congress e pela Unesco (1950 apud WELLISCH, 1980, tradução nossa) como a apropriação dos registros escritos e públicos, fornecido pela bibliografia, apropriação esta que atua para os objetivos da bibliografia. Quando se menciona sobre esse “domínio dos registros escritos e publicados” significa dizer que é ter o controle sobre a produção total do conhecimento informacional registrado a nível mundial.
Esse controle, historicamente falando, começou com a biblioteca de Alexandria. “As bibliotecas podiam almejar reunir tudo que se produzia, como foi o caso da biblioteca de Alexandria, fundada por Ptolomeu I (367/366 ou 364-283/282 a.C.), cujo objetivo era adquirir livros do mundo inteiro.” Campello (2006, p. 9) ainda afirma que antes da invenção da imprensa a produção de livros era limitada e o controle dessa produção era uma atividade simples de se fazer, consistindo de catálogos.
Com o advento da “Ciência da Informação”, na década de 1960, os pioneiros dessa disciplina emergente, para privilegiar o termo “informação” e dar-lhe visibilidade na literatura da área, decidiram eliminar o qualificativo “bibliográfico”, sob a falsa alegação de que esse termo tinha a ver com o “livro”, e, por conseguinte, inadequado para a prioridade do conceito de “informação” sobre o conceito de “livro”. Os pioneiros da Ciência da Informação equivocaram-se ao realizar uma mudança terminológica, sob um pretexto falso, uma vez que o qualificativo “bibliográfico” refere-se a “bibliografia”, e não primariamente a “livro”.
denominação mais recente desta “fase” do “ciclo de vida da informação” – organização da informação – uma vez que a “bibliografia” foi, desde sempre, e
continua sendo até o presente, a técnica através da qual se realiza a organização da informação.
Organização da Informação
A “organização da Informação” é a descrição física dos documentos, das suas características e dos seus objetivos, bem como da descrição temática dos conceitos desses documentos, de forma a tornar esses documentos, ou parte deles, acessíveis mais rápida e eficientemente. Faz-se a descrição física de um documento-fonte registrando-se em um documento-substituto (ou registro bibliográfico) aqueles elementos previamente definidos, que sejam essenciais para a identificação do mesmo documento-fonte. A descrição temática, por outro lado, se faz através das técnicas de indexação, classificação e linguagens documentárias.
É necessário organizar para posteriormente recuperar a informação: “Nós organizamos os materiais porque precisamos recuperá-los.” (TAYLOR, 2009, p. 1). “A recuperação da informação depende do fato de ter sido organizada.” (TAYLOR, 2009, p. 2). “É por isto que acredito que organizamos informação de modo que outros possam encontrá-la, lê-la ou absorvê-la de qualquer outro modo, e usá-la para adicioná-la a seu próprio estoque de conhecimento.” (TAYLOR, 2009, p. 3).
Zandonade (1995, p. 245) menciona a importância da organização das informações do trabalho intelectual (registros de conhecimento), em que a referência bibliográfica tem uma atuação muito importante no sentido de localizar e ordenar esses trabalhos intelectuais.
A organização da informação é realizada, basicamente, através do registro bibliográfico que possui elementos essenciais para a identificação dos documentos.
São duas as formas de representação do documento-substituto, ou seja, do registro constitutivo da célula básica do mecanismo de recuperação da informação. A primeira – registro catalográfico (ficha catalográfica) – identifica cada um dos exemplares de determinado livro ou documento, e o localiza dentro de um acervo organizado, através do catálogo; a segunda forma, por outro lado – registro bibliográfico (referência bibliográfica) – identifica, de forma genérica e mais abreviada, todos os documentos, e especialmente parte deles (preferencialmente artigos de periódicos), sem necessariamente localizá-los numa determinada coleção. Quando dispostos numa listagem, os registros bibliográficos formam uma bibliografia, que se constitui numa “chave interbibliotecária”, especialmente de artigos de periódicos, onde quer que esses periódicos se encontrem.
Fazendo uma analogia, é como se a catalogação fosse a certidão de nascimento da obra (informações mais detalhadas) e a referência bibliográfica a cédula de identidade.
Cunha e Cavalcanti (2008, p. 70), definem catalogação bibliográfica como o:
Processo técnico para registro e descrição de itens tendo em vista a organização de catálogos. Em sentido mais amplo, a catalogação abrange não somente a descrição bibliográfica, mas também a análise temática com seus produtos, entre eles a identificação temática.
Outra definição para a catalogação bibliográfica é:
A DESCRIÇÃO DAS CARACTERÍSTICAS DOS DOCUMENTOS QUE forma as coleções das bibliotecas e bases de dados – processo que na biblioteconomia é denominado catalogação – tem sido a maneira mais tradicional para identificá-los. Conjugado com outros processos biblioteconômicos permite a recuperação precisa dos documentos. (CAMPELLO, 2006, p. 57, grifo do autor).
Com relação aos registros bibliográficos percebe-se que estes atuam como mecanismos para a recuperação da informação. O primeiro mecanismo de recuperação – índice coletivo de periódicos – foi proposto pelo bibliotecário norte- americano, William Frederick Poole, em 1848. Convicto de que a tarefa de elaboração desse índice coletivo de periódicos não poderia ser executada
seus pares, esse pioneiro da indexação de periódicos não conseguiu mais do que a segunda edição de seu “Poole’s Index”. De forma independente ou não, esta ideia foi retomada cinquenta anos mais tarde pelos pioneiros belgas, Paul Otlet e Henry La Fontaine, que criaram, em poucos anos, o Répertoire Bibliographic Universel, um índice coletivo de periódicos científicos, elaborado em fichas catalográficas, classificadas de acordo com a Classificação Decimal Universal, por eles aperfeiçoada e ampliada a partir da Classificação Decimal de Dewey.
O foco desta pesquisa será com relação ao registro bibliográfico, através do estudo da referenciação bibliográfica.