O termo Qualidade de Vida (QV) vem sendo empregado ao longo de décadas no Brasil e no mundo, em alguns momentos associado ao estado de saúde, em outros referente às condições ou estilo de vida. (VIDO; FERNANDES, 2007).
A qualidade de vida tem conceito amplo e complexo que envolve um vasto leque de variáveis, incluindo questões sociais e ambientais. É uma temática abstrata e subjetiva, com diferentes enfoques, sem uma definição concreta, despertando o interesse de pesquisadores da enfermagem e outras áreas. (NOBREGA, 2009; VIDO; FERNANDES, 2007).
Há relatos de que a ideia de QV e saúde existe desde o nascimento da medicina social, no século XVIII e XIX. Na literatura médica, surgiu pela primeira vez nos anos de 1930, mas somente após a década de 80 teve crescimento significativo, provavelmente influenciado pelo novo paradigma da produção social da saúde, retratando o maior interesse dos pesquisadores por essa área de conhecimento nesse período. (MINAYO; HARTZ; BUSS, 2000; SEILD; ZANNON, 2004).
Assim, a qualidade de vida corresponde a elementos de referência para noções relativas de conforto, bem-estar e realização individual e coletiva. Na sociedade moderna o
desemprego, exclusão social e violência são determinantes da negação da qualidade de vida do indivíduo. (MINAYO; HARTZ; BUSS, 2000).
No entanto, apesar das diversas discussões sobre a temática, estudiosos ainda não chegaram a um consenso uniforme de definição para qualidade de vida. Essa indefinição atribui-se ao fato de tratar-se de um conceito evasivo e abstrato, subjetivo, complexo, indiretamente medido e que admite inúmeras tendências, levando, portanto, a distintas definições. (VIDO; FERNANDES, 2007).
Para avaliarmos a qualidade de vida dos servidores da UFRN que vivem com condições crônicas, e o impacto destas no processo de trabalho dos mesmos, buscamos compreender primeiramente os significados e definições do termo “qualidade de vida relacionada à saúde” (QVRS).
Há autores que buscam compreender o conceito de qualidade de vida, diferenciando do estado de saúde nos aspectos da saúde mental, funções físicas e funções sociais. No estado de saúde, o fator mais importante é a capacidade física. Enquanto que na qualidade de vida tornam-se importantes os indicadores da eficácia do impacto físico, de bem-estar psicológico e social. (PIMENTA et al., 2008; ROCHA, 2000; SEIDL; ZANNON, 2004).
Já outros estudiosos consideram a qualidade de vida no somatório de fatores decorrentes da interação entre sociedade e ambiente, resultado da forma como o indivíduo produz e se reproduz socialmente, atingindo a vida no que concerne às suas necessidades biológicas e psíquicas, nos níveis orgânicos, psicológicos, sociais, comportamentais, materiais e estruturais. (LOUREIRO; FARO; CHAVES, 1997).
Diante dessa indefinição conceitual, a OMS, através do grupo de estudos sobre qualidade de vida, realizou estudo multicêntrico, o qual estabeleceu um consenso entre pesquisadores sobre a definição de qualidade de vida, entendida como a percepção de cada indivíduo sobre sua posição na vida, inserido num contexto cultural e de sistema de valores nos quais vive, em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações. (THE WHOQOL GROUP, 1995).
Vido e Fernandes (2007) ressaltaram em seu estudo que, apesar das melhorias das condições de vida dos países da América Latina, ainda é evidente a permanência de profundas desigualdades nas condições de vida e saúde entre países subdesenvolvidos, em determinadas regiões e grupos sociais, desencadeando consequentemente comprometimento e desigualdades na qualidade de vida.
A relação entre condições de vida, saúde e qualidade de vida aponta para o novo paradigma da determinação social do processo saúde/doença. Nos últimos anos, conferências mundiais e regionais têm debatido e ampliado o sentido do conceito de promoção da saúde, o qual constitui a estratégia-chave da discussão da qualidade de vida. Esse conceito foi definido, baseado na concepção atual dos determinantes da saúde: 1) o estilo de vida; 2) os avanços da biologia humana; 3) o ambiente físico e social; e 4) serviços de saúde. (MYNAIO; HARTZ; BUSS, 2000; SEILD; ZANNON, 2004).
Buss (2000) comprovou a existência da relação entre boa saúde e qualidade de vida, e de condições inadequadas e doença, enfatizando que a saúde favorece a qualidade de vida e a doença dificulta os aspectos da vida humana, as relações sociais e de trabalho.
No âmbito da saúde coletiva e das políticas públicas, há um interesse crescente pela avaliação da qualidade de vida, buscando dar subsídios à promoção da saúde na definição de prioridades, no racionamento de recursos, em intervenções ou na avaliação de políticas públicas, implantação de novas políticas e práticas de intervenção. (CAMPOS; NETO, 2008; SEILD; ZANNON, 2004).
Esse novo modelo de atenção à saúde tem como eixo principal a promoção da saúde, partindo do conceito ampliado de saúde, com foco no processo social, objetivando a defesa da vida e o desenvolvimento humano, superando o modelo de intervenção e passando para práticas intersetoriais e conhecimentos interdisciplinares. (BUSS, 2000; CAMPOS; NETO, 2008).
O estudo realizado por Silva e Siqueira (2002) relacionou a condição crônica com a incapacidade para o trabalho em 100% das aposentadorias por invalidez na UFRN. As principais condições crônicas encontradas desencadeadoras da incapacidade laboral e comprometimento da qualidade de vida foram: cardiopatia grave, neoplasia maligna, transtornos mentais e comportamentais com e sem alienação, cegueira, paralisia irreversível, doença do sistema osteomuscular, AIDS e doença profissional.
A presença de incapacidade parece ser um fator determinante na autoavaliação de saúde, pois ter pelo menos uma incapacidade para as atividades básicas de vida diária reduz a disposição de considerar a sua saúde como boa em até 23,8%, conforme verificado na pesquisa do Projeto SABE, da OPAS. (LEBRÃO; DUARTE, 2003).
No entanto, Carr e Higginson (2001) chamam a atenção para o “paradoxo da incapacidade”, onde indivíduos com claras disfunções ou problemas de saúde não
necessariamente apresentem baixos escores nos questionários de avaliação da qualidade de vida. Isso deixa evidente a necessidade de um foco individual na avaliação da qualidade de vida.
A questão sobre qualidade de vida vem assumindo importância, sobre vários aspectos, nos últimos anos, particularmente a respeito da avaliação ou mensuração, quer individualmente quer coletivamente.
Os avanços terapêuticos e tecnológicos aumentaram bastante a sobrevida das pessoas com condições crônicas. No entanto, permanecem complicações ou sequelas com as quais os indivíduos sobrevivem por vários anos. O fato de sobreviver, às vezes por longos períodos de tempo, não significa dizer que “vivem bem”, pois quase sempre apresentam limitações para prática de atividades da vida diária. (LAURENTI, 2003).
Avaliar a qualidade de vida do servidor em condições crônicas torna-se importante, pois subsidiará as políticas de promoção à saúde, o tratamento e controle da doença, contribuindo para o aumento da sobrevida dessa parcela de servidores, o que pode ainda não significar a promoção da qualidade de suas vidas.
Qualidade de vida é uma temática de interesse em estudos com pessoas vivendo com condições crônicas de saúde. Por acreditar que toda doença é multidimensional, e afeta potencialmente todos os aspectos da vida pessoal e familiar, a escolha de um instrumento holístico é de extrema importância.
Para mensuração da qualidade de vida, existem vários instrumentos já validados mundialmente, classificados em genéricos ou específicos. Os genéricos são utilizados para pessoas doentes ou sadias, servem para avaliar e comparar a QV de grupos específicos entre si, ou entre pessoas em condições crônicas e aquelas consideradas saudáveis. Já os específicos avaliam de forma individual e específica determinados aspectos da qualidade de vida. (CAMPOS; NETO, 2008; CASTRO et al., 2003; MENDONÇA, 2006; PIMENTA et al., 2008).
Em relação ao campo de aplicação, o uso do questionário de base populacional é mais apropriado para estudos epidemiológicos, planejamento e avaliação do sistema de saúde. Os mais frequentemente utilizados no mundo são: Sickness Impact Profile, Nottingham Health Profile, McMaster Health Index Questionnaire, Rand Health Insurance Study, The Medical Outcomes Study 36-Item Short Form Health Survey (SF-36), Avaliação da
Qualidade de Vida da Organização Mundial da Saúde (WHOQOL-100 e WHOQOL-bref). (CAMPOS; NETO, 2008; MENDONÇA, 2006; NOBREGA, 2009).
Nas pesquisas brasileiras podemos destacar o Medical Outcome Study 36-Item Short Form (SF-36), traduzido e validado para o português, em estudo realizado com um grupo de pacientes com artrite reumatoide por Cicconelli et al. (1999), e que tem sido largamente utilizado. O SF- 36 é um questionário genérico de avaliação de qualidade de vida, multidimensional, composto por 36 questões enfocando oito domínios distintos. (CASTRO et al., 2003; PIMENTA et al., 2008; ZATTA et al., 2009).
Alguns autores relatam a relação entre QV e a influência sofrida pela impossibilidade de satisfação das necessidades individuais. Com basenisso, estudos realizados evidenciaram que a QV afeta a saúde, e, consequentemente, influencia fortemente o conceito que as pessoas formulam da sua própria qualidade de vida. (DANTAS; GÓIS; SILVA, 2005; GÔMEZ, 2004; PEREIRA et al., 2003).
Nóbrega (2009) realizou um estudo transversal para analisar a qualidade de vida de pacientes com úlcera venosa (UV), atendidos no ambulatório de um hospital em Natal/RN, e utilizou o instrumento WHOQOL-bref e WHOQOL-old. Constatou que a QV de pessoas com UV foi considerada insatisfatória quando comparada com o tempo de lesão atual superior a cinco anos.
Pimenta et al. (2008) avaliou a qualidade de vida de 87 aposentados residentes em Belo Horizonte, com aplicação do questionário SF-36 validado. Os resultados mostraram que as pessoas que mantiveram alguma atividade diária após a aposentadoria, seja prática de atividade física ou outro trabalho, apresentaram melhor qualidade de vida. Também concluiu que o SF-36 é um instrumento adequado, rápido e fácil para ser aplicado ao idoso.
O estudo de Campolina, Dini e Ciconelli (2011) buscou avaliar o impacto da doença crônica na qualidade de vida de idosos da comunidade, no Município de São Paulo, utilizando o instrumento genérico SF-36. Os dados revelaram que o aumento do número de morbidades e o aumento da idade influenciam negativamente de modo significativo nos vários domínios da qualidade de vida do idoso.
Mendonça (2006) aplicou o questionário WHOQOL-bref num grupo de 62 pacientes com insuficiência renal crônica em hemodiálise, e em 58 pacientes pós-transplantados, do Estado do Rio Grande do Norte, e evidenciou que todos os indivíduos do grupo de pós-
transplantados obtiveram maiores escores de qualidade de vida quando comparados ao grupo em hemodiálise.
Avaliar a qualidade de vida de pessoas com doenças crônicas tem sido objeto de investigação na área da saúde, considerada um importante fator na avaliação dos resultados de diferentes procedimentos terapêuticos e para determinar o impacto do cuidado de saúde quando a cura não é possível. Estão sendo investigados não apenas os aspectos relacionados à redução dos sintomas e prolongamento da vida, mas também à sobrevida do doente e a como a qualidade de vida se apresenta para ele próprio e para a sociedade. (DANTAS; GÓIS; SILVA, 2005).
Tendo em vista a variabilidade do conceito de qualidade de vida e sua subjetividade, para que se possa melhor orientar as políticas de saúde da UFRN é imprescindível conhecer os aspectos subjetivos e objetivos da QV dos servidores em condição crônica de saúde, nos componentes físico, social e emocional, relacionados ao bem-estar, à felicidade, à realização pessoal e outros comportamentos que indicam qualidade de vida.
Na busca pela qualidade de vida dos servidores em condição crônica, não basta os tratamentos sofisticados, são necessários o resgate e a valorização do paciente como pessoa, com sua forma individual de pensar e agir. Nessa perspectiva, a Enfermagem constitui o elemento principal para promoção da QV, pois desempenha no seu cotidiano as ações de promoção e proteção à saúde, estando mais próxima dos aspectos relevantes dos servidores, como condições materiais, sociais, políticas, culturais e da subjetividade do cliente. (CESARINO; CASAGRANDE, 1998).