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Attilio C. Lima teve, entre seus colegas da ENBA, seus melhores amigos, estabelecendo uma lealdade que perdurou por toda a sua vida, principalmente com Paulo Antunes Ribeiro e Lucas Mayerhofer (Figura 74). Segundo Ackel (2007, p. 23), junto com Attilio C. Lima em 1923 “[...] ingressaram mais seis novos alunos, inclusive seu primo Hélio Corrêa Lima. Também fizeram parte desta turma: Floriano Brilhante, Jaime da Silva Telles, Paulo Sampaio Ferraz, Ricardo José Antunes Júnior e Salvador Duque de Estrada Batalha”. Esse grupo de estudantes juntou-se aos veteranos, Lucio Costa, Armando Perry, Atílio Mastieri Alves, Ernani Dias Correia, Fernando Valentim do Nascimento, Luis Bergerot, Pedro Paulo Bernardes Bastos e Raul Penna Firme, totalizando dezesseis alunos.

Figura 74 - Attilio Corrêa Lima com seus colegas: Paulo Antunes Ribeiro e Lucas Mayerhofer. Fonte: reprodução do acervo particular da família Corrêa Lima.

As turmas do Curso de Arquitetura eram pequenas (Tabela 2). Somente a partir de 1923 “[...] a freqüência [...] havia começado uma curva ascendente, saindo da média da década anterior, que se manteve à razão de doze estudantes por ano, para dar início a uma trajetória que poderíamos considerar de consolidação”. Para Uzeda (2006, p. 345), as razões que impulsionaram essa recuperação “[...] vinculam-se ao surto desenvolvimentista que caracterizou a primeira metade do século XX no Rio de Janeiro, que elegera a renovação do cenário arquitetônico como indício evidente de modernidade”. Enfatizando sua hipótese, a pesquisadora conclui:

A grande urbanização da capital no início do século, seguida pelas duas grandes exposições comemorativas de 1908 e 1922, que expunham a arquitetura dos pavilhões como seu principal produto, havia servido para provar a capacidade de nossos arquitetos, expondo de forma positiva a profissão. (UZEDA, 2006, p.345).

Tabela 2 - Alunos matriculados na ENBA no curso de Arquitetura entre 1915 e 1924.

Fonte: UZEDA (2006).

No ano em que Attilio C. Lima formou-se, em 1926, somente quatro colegas finalizaram o curso, os outros o abandonaram. Segundo Bruno C. Lima, “[...] os melhores amigos que meu pai teve na escola foram exatamente alguns de seus calouros que ingressaram em 1924. Meu

pai comentava que essa turma quase toda de nome Paulo: Paulo Ferreira, Paulo Pires, Paulo Santos, Paulo Candiota e Paulo Antunes Ribeiro”.114

Dos colegas e amigos de Attilio C. Lima, Paulo Ferreira Santos (1904-1988) teve uma atuação relevante não só como arquiteto, mas também como empresário da construção civil. Após concluir o curso na ENBA, em 1926, na chamada "turma dos 5 Paulos", constituiu com seu colega Paulo Pires, no ano seguinte, a Pires & Santos S.A.:

[…] empresa de projetos e construções […] responsável a partir dos anos 30 por uma extensa lista de obras na cidade, dentre as quais o Instituto Militar de Engenharia, a Escola Central do Senai, vários dos edifícios que deram feição à Avenida Presidente Vargas, além de mais de uma centena de casas e edifícios residenciais, hotéis e hospitais, fábricas e clubes. (NOBRE, 2000).115

Segundo Nobre (2000), nos primeiros dez anos de produção da empresa, a Pires & Santos S.A.:

[…] indicava certa indefinição – a dupla projetava variantes hispânica e normanda (residência Matin Kock, 1937), robustos arranha-céus art déco (edifício Pimentel Duarte, 1936), casas de coordenadas geométricas suavemente postiças (residência Ivan Santiago, 1937)”. […] a partir dos anos 50, o mergulho na história por Paulo Santos parece ter introduzido nova fonte projetual no escritório, culminando com a irretocável síntese entre o colonial e o moderno que é a residência Holzmeister, em São Conrado (1955).116

Figura 75 - Residência Holzmeister. Rio de Janeiro 1955. Firma Pires & Santos. Fonte: MINDLIN (2000, p. 101).

114 Em entrevista realizada.

115 Disponível em: http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/92/a-historia-entre-os-modernos-24381-1.aspx. 116 Idem.

Paulo Santos foi o primeiro professor da disciplina Arquitetura do Brasil. A “[…] cadeira foi incorporada ao currículo da faculdade quando o curso de arquitetura da ENBA ganhou autonomia e transformou-se na Faculdade Nacional de Arquitetura” (NOBRE, 2000).117

Colin118 considera-o um dos maiores nomes da história da arquitetura brasileira, citando suas obras e estudos. Foram mais de vinte livros e vários artigos. O autor considera como obra de destaque O barroco e o jesuítico na arquitetura do Brasil (1951), A arquitetura religiosa em Ouro Preto (1951), A Arquitetura da sociedade industrial (1960), A formação de cidades no Brasil colonial (1963) e Quatro séculos de arquitetura (1977), este último, “um marco definitivo da historiografia arquitetônica carioca” (COLIN, 2011).119 Como membro efetivo

do Conselho Consultivo do IPHAN, de 1955 a 1980, Paulo Santos foi relator de 28 processos de tombamento de bens imóveis e de conjuntos arquitetônicos de cidades como Olinda (PE) e Serro (MG).

Outro grande amigo de Attilio C. Lima foi Paulo Antunes Ribeiro (1905-1973), arquiteto representante da vanguarda modernista no Rio de Janeiro, nos anos 1930. Projetou um dos primeiros prédios modernos de escritórios no centro da cidade, a sede do Instituto de Pensão e Aposentadoria dos Servidores do Estado (IPASE), em 1933, anterior aos edifícios ícones da ABI (1933-1936) dos irmãos Roberto e do MES (1936-1947) de Lúcio Costa e equipe. Nos anos 1940, elaborou os projetos para o Edifício Caramuru em Salvador (Figuras 76 e 77), recebendo a menção honrosa na Exposição Internacional de Arquitetura da 1ª Bienal Internacional de São Paulo (1951). Magnavita120 afirmou que a obra121 de Antunes Ribeiro “[…] obteve imediato reconhecimento nacional e internacional”, ressaltando que ela “[...] deve ser considerada o marco referencial e instaurador da arquitetura produzida na cidade, e isto, em decorrências de suas qualidades plásticas e funcionais”. O pesquisador assim descreve o edifício:

117 Disponível em: <http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/92/a-historia-entre-os-modernos-24381-

1.aspx.>.

118 COLIN (2009). Disponível em: <https://coisasdaarquitetura.wordpress.com/2011/04/09/>. Acesso em: dez.

2014.

119 Disponível em: <https://coisasdaarquitetura.wordpress.com/2011/04/09/>. Acesso em: dez. 2014.

120 MAGNAVITA, Pasqualino Romano. Estilo funcional: expressão local do Movimento de Arquitetura

Moderna Salvador- Bahia-Brasil-1946/1951. Disponível em: <http://www.docomomo.org.br/seminario>.

121Está nas publicações de referência internacional em compêndios importantes como l’Architecture

d’aujoud’hui (1952), na revista italiana Domus (1954), na Architectura Review do Reino Unido e no livro Modern Architecture in Brazil de Henrique Mindlin (1956).

[…] trata-se de edifício destinado à sede de uma corporação financeira, constituindo um singular acontecimento na arquitetura de pós-guerra no país por dois elementos marcante da nova arquitetura: a criação de uma nova modalidade de “brise-soleil” [um percepto] e uso de jardim na cobertura, além da flexibilidade conseguida no âmbito de um rigor estrutural.

Figuras 76 e 77- Vista geral do Edifício Caramuru e vista do terraço-jardim. Fonte: MINDLIN (2000, p. 101).

Outra obra importante na capital baiana, da qual Paulo Antunes Ribeiro foi coautor dos projetos arquitetônicos juntamente com o arquiteto Diógenes de Almeida Rebouças (1914- 1994), foi a do Hotel da Bahia122 (Figura 78), alcançando destaque internacional na publicação de Mindlin, Modern Architeture in Brazil (1956). Na referencia à obra, Mindlin (2000, p. 132) ressalta o caráter inovador da arquitetura modernista inserida na paisagem colonial: […] completamente diverso é esse hotel de 180 quartos, acentuadamente moderno, que contrasta de forma impactante com os edifícios históricos e as centenas de velhas igrejas de que tanto se orgulha a capital da Bahia.

122 Ícone da arquitetura moderna baiana, tombado como Bem Cultural do Estado, desde 2010, pelo Instituto do

Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC) da Secretaria Estadual da Cultura (Secult), o Hotel da Bahia foi reformado e reaberto no início de março de 2013.

Figura 78 -Maquete do Hotel da Bahia, Salvador. Fonte: MIDLIN (2000, p. 132).

Lucio Costa (1902-1998) foi da turma anterior à de Attilio Corrêa Lima, formando-se em 1924. Foi através desse contato na ENBA, como colegas, que os dois estudantes, Attilio C. Lima e Lucio, travaram conhecimento e iniciaram suas trocas de experiências e informações que resultaram no convite de Lucio Costa ao amigo Attilio C. Lima, para inaugurar a cadeira de Urbanismo na escola, marcando em definitivo a formação dos arquitetos brasileiros também como urbanistas.

Reconhece-se na formação acadêmica da turma de colegas de Attilio C. Lima uma trajetória profissional coerente com os ensinamentos da ENBA, na qual quase todos estavam comprometidos com a linguagem arquitetônica ideologicamente marcada por um viés identitário expresso pelo Neocolonial. Constituíram uma geração de profissionais situados entre essa linguagem e o ideário do movimento moderno, representando a geração de ruptura.