Attilio Corrêa Lima nasceu em Roma no dia 8 de abril de 1901, durante o período em que seu pai estava na Itália em Prêmio de Viagem, sendo registrado cidadão brasileiro no consulado do Brasil. Sua infância foi marcada por viagens entre o Brasil e a Europa, uma vez que seu pai acompanhava as fundições de suas esculturas realizadas no exterior. Após cinco anos morando na Europa, a família Corrêa Lima retornou ao Brasil em 1906, quando Attilio C. Lima iniciou seus estudos no Colégio Paula Freitas no Rio de Janeiro.
Por quase dois anos, entre 1908 e 1910, a família permaneceu em Paris, quando José Octávio C. Lima realizava o monumento ao Almirante Barroso. Durante esse período, Attilio C. Lima estudou em uma escola francesa.
Figura 36 - Attilio Corrêa Lima com seus pais. Fonte: reprodução do acervo particular da família Corrêa Lima.
A infância e adolescência de Attilio C. Lima ocorreram durante o período da Primeira República (1889-1930), também conhecido como “República Velha” ou “República dos Coronéis”, na qual se deu o desenvolvimento do setor cafeeiro, como também a imigração estrangeira e a influência positivista no Brasil.
A capital do país, a cidade do Rio de Janeiro, onde a família Corrêa Lima estabeleceu-se, morando por muitos anos na área central, é uma região que sofreu grandes transformações decorrentes das reformas empreendidas por Pereira Passos, envolvendo a remodelação do porto, abertura de avenidas e intervenções para o embelezamento da cidade.80 Segundo Schapochniko (2006, p. 439), citando Novais (1998), os melhoramentos urbanos:
[...] pretendiam extirpar aqueles traços que destoavam do projeto de transformar a capital da República numa “Europa possível”. A condenação dos hábitos e costumes ligados pela memória quer à velha sociedade imperial quer às tradições populares deveria dar lugar a um novo padrão de sociabilidade burguês emoldurado num cenário suntuoso. "O mármore dos novos palacetes representava simultaneamente uma lápide dos velhos tempos e uma placa votiva ao futuro da nova civilização".
A sociedade brasileira reproduziu essas mudanças de comportamento com o estabelecimento “[...] de novas relações fundadas na consagração do individualismo e do arrivismo [...]”, processo espelhado pela “[...] alteração nas origens da riqueza e do poder, com a ascensão de profissionais ligados às atividades liberais, burocráticas e empresariais, e a descentralização política na ordem republicana que preservou o poder das oligarquias estaduais”, representadas naquele momento por “políticos profissionais” (SCHAPOCHNIKO, 2006, p. 439).
Durante este período a vida social altera-se, implicando mudanças no âmbito dos costumes familiar, “[...] a recepção deixava de estar circunscrita ao grupo de amigos da casa ou dos laços de consangüinidade, agregando indivíduos estranhos à vida doméstica, cujo mérito pessoal e domínio das regras de etiqueta viabilizaram sua assimilação e circulação nos salões da elite”. Ressalta-se ainda que “[...] a divulgação desses rituais e etiquetas que remetiam à dissolução gradativa dos liames tradicionais e à valorização das virtudes individuais, do
80 Francisco Pereira Passos (1836-1913) teve sua origem numa importante família do interior do Rio de Janeiro e
sua formação inicial se deu em São João Marcos (mesma cidade da avó paterna de Attilio Corrêa Lima), no auge do ciclo do café. O contraste entre a vida no interior escravagista do Rio de Janeiro e a moderna Europa, onde foi estudar ainda jovem, certamente influenciou não apenas suas visões políticas, mas sua própria concepção de cidadania. Suas contribuições para o país vão além do “Bota Abaixo” efetuado no Rio de Janeiro durante seu mandato como prefeito, no qual esteve à frente de projetos como a estrada de ferro do Corcovado, a reconstrução do Palácio Monroe, o Obelisco na Avenida Central, a Avenida Atlântica, o túnel do Leme com acesso para Copacabana, o mercado Municipal na Praça XV e a Escola Nacional de Belas Artes.
talento e do capital cultural teve ampla reverberação nas colunas sociais e artigos publicados nos jornais e magazines do período” (SCHAPOCHNIKO, 2006, p. 440).
As transformações do espaço urbano da cidade carioca inspirada na Paris de Haussmann proporcionaram um cenário que Schapochniko (2006, p. 440) descreve detalhadamente como:
[...] homens trajando paletó de casimira clara e usando chapéu de palha, acompanhados de senhoras finamente vestidas com toaletes de nítida inspiração parisiense, desfrutavam os tempos eufóricos da Belle Époque. Deslumbravam-se diante do novo aparato que incluía equipamentos e objetos de consumo identificados com as marcas do progresso e da modernidade. Telefones, automóveis, elevadores, cinematógrafos, fonógrafos, bondes, iluminação elétrica, vacinas, logo se converteram em motivo de regozijo e até mesmo de reverência solene.
Dois eventos marcaram a capital do país e evidenciaram-na nos noticiários nacionais e internacionais: a Exposição Comemorativa de 1908 e a Exposição Internacional do Centenário da Independência de 1922.
A Exposição Comemorativa de 1908 celebrou o centenário do Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas (Figura 37), tendo como principal objetivo mostrar a nova capital da República urbanizada e saneada pelo prefeito Francisco Pereira Passos e pelo cientista Oswaldo Cruz às diversas autoridades nacionais e estrangeiras que a visitaram. A exposição foi considerada uma das primeiras interações econômicas e culturais do Brasil, com um mundo cada vez mais urbano e cosmopolita, além de comemorar o próprio comércio e desenvolvimento do país. Para Pereira (2010, p. 7):
[...] ela marca também uma inflexão ao propiciar a realização de um inventário do país não para ser exibido para fora de suas fronteiras, mas para os próprios brasileiros. É a partir desse "Brasil em exposição" que o país passa a ser visto de dentro e uma visão “interna” também começa a ganhar forma e, mais do que isso, a definir com mais clareza políticas conseqüentes para o país e suas cidades e regiões.
Figura 37- Pavilhão Minas Gerais (à esquerda) e Pavilhão São Paulo (à direita) da Exposição do Centenário de Abertura dos Portos. Foto: Augusto Malta.
Fonte:http://image.slidesharecdn.com.
O Rio de Janeiro do início do século XX, capital cultural do país, ditou a moda Belle Époque para as outras capitais brasileiras, disseminando hábitos afrancesados. A cidade carioca destacou-se pelas construções e projetos ecléticos representados nos pavilhões da Exposição Comemorativa de 1908, exibindo uma conexão com o que acontecia na Europa do início do século.
Borges (2010, p. 177) relata que, para cada pavilhão inaugurado,
[...] a imprensa noticiava a chegada do presidente da República e de sua comitiva. Nas páginas dos jornais e revistas cariocas eram montadas composições fotográficas com "flagrantes" do cotidiano das autoridades nacionais e internacionais no parque da Exposição. Internamente, fotógrafos de diferentes lugares instalavam seus aparelhos para personalizarem a participação dos visitantes. A cada domingo, fotografias assinadas por Augusto Malta (o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro).
Por outro lado, Borges (2010, p. 172) aponta o contraste nessa “identidade nacional” construída e a realidade da capital do país:
[...] no plano interno, frescas eram as lembranças negativas da história que incluía a guerra de Canudos, o “Bota Abaixo de Pereira Passos”, as críticas internacionais à situação dos imigrantes europeus no Brasil. Desanimador era o alto índice de mortes semanais provocado pelas epidemias que a equipe de Oswaldo Cruz não conseguia debelar; precárias eram as vias de comunicação que dificultavam a consolidação do mercado interno nacional. Vivas eram as clivagens entre e intra-elites regionais, acirradas em grande parte pela política protecionista do governo federal que favorecia o setor cafeeiro; enormes eram as desigualdades sociais nesse país de longa herança escravagista.
As Figuras 38 e 39 mostram nitidamente a sociedade do Rio de Janeiro do início do século XX. De um lado uma classe abastada representada por moças bem-vestidas e elegantes, frequentando um dos cafés da Exposição de 1908, em contraste, de outro lado, com a vivência dos moradores da favela do morro de Santo Antônio.
Figura 38 - Moças elegantes sentadas em um dos cafés da Exposição de 1908. Foto: Augusto Malta.
Figura 39 - Favela do Morro de Santo Antônio. Foto: Augusto Malta. Fonte: http://extra.globo.com/
Quase quinze anos depois da Exposição de 1908, foi realizada a Exposição Internacional do Centenário da Independência em 1922, ocupando uma extensa área decorrente de aterramentos e intervenções diversas na área central do Rio de Janeiro. Idealizada, inicialmente, como mais uma exposição nacional, se tornou, porém, um evento internacional, com a participação de diversos países, como Portugal, França, Argentina, Estados Unidos, Inglaterra, México, Bélgica, Itália, entre outros. Nessa grande área destinada à Exposição, foram construídos duas portas monumentais e um grande número de palácios e pavilhões, tanto nacionais quanto estrangeiros.
O “estilo colonial brasileiro” foi adotado de forma obrigatória na maioria dos pavilhões brasileiros, como descrito por Pinheiro (2011, p. 103), que enumera e identifica as obras e seus autores:
[...] a Porta Principal da Exposição, de Edgar Vianna e Mário Fertin; o Portão Norte, de Rafael Galvão; o Pavilhão das Pequenas Indústrias, de Nestor Figueiredo e Suan Juan; o Palácio das Indústrias, de Archimedes Memória e Francisco Cuchet; o Pavilhão de Caça e Pesca, de Armando de Oliveira; e o Pavilhão de Viação e Agricultura, de Morales de los Rios Filho.
Quase todos os profissionais envolvidos na elaboração dos projetos e nas construções dos Pavilhões da Exposição de 1922 eram professores da ENBA, comprometidos com a estética nacionalista do neocolonial ou com os cânones da arquitetura neoclássica.
O Palácio das Grandes Indústrias (Figuras 40, 41, 42 e 43), idealizado por Archimedes Memória e Francisco Cuchet, segundo Alencar (2010, p. 66), “[...] tem como principal característica projetual o fato de ter sido uma remodelação de três edificações coloniais:81 a Casa do Trem – instalação militar construída sobre a Fortaleza de Santiago (1762-1822) –, o Arsenal de guerra (1603) e o Forte do Calabouço (1693)”. Recorrendo a uma linguagem palaciana, as três construções foram unificadas a partir de uma fachada projetada, dando unidade ao conjunto.
Para completar a unidade estilística neocolonial, foi acrescentado um grande volume único em telhado colonial:
[...] decorado com beirais de telhas esmaltadas e frisos de azulejos, numa referência aos palacetes portugueses do século XVII. O frontão principal ganhou uma sacada muxarabi, característica da arquitetura civil brasileira do século XVIII. E os coroamentos das extremidades se associavam à arquitetura religiosa barroca brasileira do século XVIII. (ALENCAR, 2010, p. 66).
Segundo Pinheiro (2011, p. 103),
[...] a imprensa noticiou na época a suposta restauração do edifício, destacando que “os arquitetos tiveram a preocupação constante de utilizar nossos produtos nacionais, não só nos modelares dos estuques, como nos azulejos dos frisos, que lembram os antigos e são ricos de composição e ornamentação”.
No entanto, para Pinheiro (2011, p. 103), “[...] o termo ‘restauração’ foi empregado no sentido definido por Viollet-le-Duc, de restabelecer o edifício em um estado completo que pode não ter existido nunca num dado momento”.
Figuras 40, 41, 42 e 43 - Detalhes do edifício do Museu Histórico Nacional após as intervenções realizadas para a Exposição do Centenário da Independência do Brasil em 1922, que abrigou o Pavilhão das Grandes
Indústrias. Projeto: Memória & Cuchet. Fonte: http://azulejosantigosrj.blogspot.com.br/
O Pavilhão do Palácio das Festas (Figura 44), também projetado pelo escritório Memória e Cuchet, apresentava outra vertente eclética: “[...] em linhas do classicismo francês, de acordo com o Livro de Ouro de 1922, era a construção monumental, das mais faustosas e deslumbrantes do certamen [...] ideada e construída em estilo Luiz XVI moderno” (ALENCAR, 2010, p.72).
Figura 44 - Pavilhão Palácio das Festas da Exposição do Centenário da Independência do Brasil de 1922. Projeto: Memória & Cuchet.
Fonte: ALENCAR.
Foi neste cenário de contrastes que a família Corrêa Lima circulou e viveu entre viagens à Europa e as grandes transformações urbanísticas, sociais, culturais, políticas e econômicas da cidade do Rio de Janeiro. Este foi exatamente o período em que José Octávio Corrêa Lima executou e recebeu inúmeras encomendas de esculturas, bustos e artes funerárias, uma vez que trabalhava em parceria com arquitetos renomados da época, o que proporcionou a Attilio C. Lima estudar nas melhores escolas da capital do país. Diferente da vida simples da infância de José O. Corrêa Lima, seu filho pôde receber uma formação cultural e escolar refinada desde muito cedo. O pai escultor, apoiado pelo pai mascate, modificou a trajetória social do seu descendente e com certeza determinou uma herança cultural esmeradamente transmitida. Bruno Corrêa Lima relatou que: “[...] meu pai sempre estudou em colégio interno, ele não gostava, mas meus avós frequentemente viajavam para Europa e não podiam interromper o aprendizado do filho”.82
O primeiro colégio que Attilio C. Lima estudou no Brasil, o Colégio Paula Freitas (Figura 45), foi uma instituição de ensino tradicional, fundada em 1892, pelo engenheiro Alfredo de
Paula Freitas,83 uma personalidade marcante na sociedade carioca entre o final do reinado de Dom Pedro II e os primeiros anos da República. Em 1900, teve reconhecida a excelência do seu ensino, ao ser igualado pelo governo republicano ao Colégio Pedro II, significando que os alunos, aprovados em exames específicos prestados perante juntas examinadoras fiscalizadas por representante do Governo, tinham acesso assegurado às Escolas Superiores e ao curso de bacharelado oferecido pelo próprio Colégio. As descrições sobre o colégio destacam que:
O Colégio Paula Freitas, instalado em prédio tradicional que pertenceu ao Barão do Rosário, uma ampla área, [...] foi modelo de eficiência, modernidade e cidadania, conciliando o trato intelectual com o vigor físico e os deveres cívicos, ao estimular atividades literárias, a ginástica e a manutenção de um Batalhão Escolar em parceria com o Exército Brasileiro. Além de bem equipados laboratórios de física e química, biblioteca, salas de desenho e datilografia, e de um Grêmio Literário que coordenava a publicação de vários jornais internos pelos alunos, o Colégio possuía um pátio coberto para ginástica e quadras esportivas.84
Figura 45- Colégio Paula Freitas (1892). Prédio tradicional que pertenceu ao Barão do Rosário, numa ampla área na Rua Hadoock Lobo no bairro da Tijuca, RJ.
Fonte: http://familiapaulafreitas.blogspot.com.br/.
83 Alfredo de Paula Freitas (1855-1931) graduou-se como Bacharel em Ciências Físicas e Matemáticas em 1877
e formou-se Engenheiro Civil em 1878 pela Escola Politécnica do Largo de são Francisco, no Rio de Janeiro. Em 1885 foi nomeado pelo governo imperial delegado da Inspetoria Geral de Instrução Primária e Secundária, cargo que exerceu pro Bono por cinco anos. Em 1888, aos 33 anos de idade, foi classificado em 1° lugar em concurso para professor catedrático da Escola Politécnica, onde lecionou por 34 anos. Disponível em: <http://familiapaulafreitas.blogspot.com.br/2015/05/origens-e-legados.html>. Acesso em: 10/03/2015.
84 Disponível em: http://familiapaulafreitas.blogspot.com.br/2015/05/origens-e-legados.html. Acesso em:
Aos onze anos, em 1912, Attilio C. Lima conclui seus estudos primários, recebendo o título de “auxiliar de disciplina”, conforme o documento datado e assinado pelo diretor e engenheiro Alfredo de Paula Freitas (Figura 46).
Filho único, Attilio C. Lima, apesar de estudar sempre em colégios internos, no tempo que tinha livre, finais de semanas e férias, estava constantemente no ateliê do pai, conforme explanado por Bruno C. Lima: “[...] desde muito cedo meu pai participou da vida profissional do meu avô”.85 Por algumas vezes foi modelo para suas esculturas, como se pode comprovar
nas imagens do busto aos três anos, sua mão reproduzida aos nove anos e outro busto aos sete (Figuras 47, 48 e 49). Além de circular no ambiente de trabalho do pai escultor, o menino Attilio C. Lima conviveu com outros artistas da época, pintores e poetas, compartilhando da rede de amigos e políticos influentes da qual José Octávio fazia parte.
85 Em entrevista realizada.
Figura 46 - Certificado de Auxiliar de Disciplina Colégio Paula Freitas (1912).
Figuras 47, 48, 49 - Busto aos três anos, mão aos nove anos e busto aos sete anos de Attilio C. Lima executados pelo pai.
As crianças inseridas numa sociedade urbano-industrial são preparadas, segundo Veiga (2009, p. 3),
[...] para exercer a função de pessoa adulta, o que incide em alta dose de contenção das pulsões e afetos. Este processo de educação se faz na combinação entre a existência de um equipamento biológico que permite o autocontrole, e a dinâmica da sociedade de que é parte, pois os modelos de autocontrole se fazem nas relações entre as pessoas.
Norbert Elias (1998) destaca as rápidas mudanças ocorridas nas relações entre pais e filhos durante o século XX, e descreve sobre o descobrimento da infância ao analisar a tese de Phillipe Áries, enfatizando o caráter de longa duração e de continuidade desse processo de “descobrimento”:
Talvez pudéssemos denominar como a necessidade que tem as crianças de viver sua própria vida, uma maneira de viver que em muitos sentidos é distinta do modo de vida dos adultos, não obstante sua interdependência com eles. Descobrir as crianças significa em última instância dar-se conta de sua relativa autonomia. Em outras palavras, deve-se descobrir que as crianças não são simplesmente adultos pequenos. Se vão fazendo adultos individualmente ao largo de um processo civilizador social que varia de acordo com o estado de desenvolvimento dos respectivos modelos sociais de civilização. A reflexão mais profunda acerca das necessidades características das crianças é, no fundo, o reconhecimento a seu direito de ser compreendido e apreciado em seu caráter próprio. Este também é um direito humano. (ELIAS, 1999, p. 410).
Elias (1999, p. 412) adverte que, “[...] como relação de dominação caracterizada por uma distribuição das oportunidades entre pais e filhos decididamente desigual, as condutas que exigia dos implicados eram relativamente simples e claras”. Consequentemente, a atitude dos pais de controlar, mandar e organizar fazia parte das normas sociais, e aos filhos restava obedecer, relação essa que por muito tempo foi considerada adequada e desejável. Só a partir do século XX é “[...] que os filhos passaram a participar mais das decisões familiares” (VEIGA, 2009, p. 3).
Attilio C. Lima foi essa criança do início do século XX, inserido em uma sociedade marcada por grandes transformações sociais e de costumes, pois teve o privilégio de circular nas grandes capitais do mundo enquanto acompanhava seus pais em viagens de trabalho. Ele pôde construir, através dessas trocas, laços estreitos de afetividade com seu pai, que se consolidaram e se fortaleceram durante a adolescência e a vida adulta.
Attilio C. Lima ingressou aos doze anos no Gimnazio Anglo-Brasileiro (Anglo- Brazilian School), uma escola inglesa, onde ficou como aluno interno de 1913 até 1918. A primeira unidade da escola foi aberta em São Paulo, na Avenida Paulista, para os filhos de ingleses ocupados nas construções de estradas de ferro no distrito. Em 1911 havia 310 rapazes no colégio em São Paulo, ao passo que, no Rio de Janeiro, o edifício foi construído em um parque muito arborizado “[...] com uma área de cerca de 2 milhas quadradas e frente ao longo do litoral além de Ipanema. Neste parque, fica a chamada Chácara do Vidigal86e se ergue o pico dos Dois Irmãos, um dos marcos mais salientes do Sul da afamada baía do Rio.”87
Figura 50 - Attilio C. Lima aos 11 anos. Fonte: Acervo da família Corrêa Lima.
86
Em 1930 foi vendido para a congregação religiosa Filhas de Jesus, que instalou o Colégio Stella Maris.
87 BIBLIOTECA NM. Histórias e lendas de Santos. Santos em 1913. Impressões do Brasil no século
Os professores do Anglo-Brasileiro eram, em sua maioria, europeus e o programa de estudos incluía uma atenção especial ao ensino de línguas modernas e preparava os rapazes para entrar em qualquer universidade inglesa. O bem-estar físico dos estudantes era tomado em grande consideração. Uma parte do dia destinava-se à prática de esportes, alguns atletas formaram-se nesse colégio. Em ginástica e exercícios militares, o brilhantismo dos alunos do Colégio Anglo-Brasileiro era conhecido, e por ocasião de exercícios públicos havia sempre uma concorrência numerosa e entusiasta. Além das disciplinas teóricas, os alunos dedicavam-se também aos estudos de horticultura.
Há registros na Biblioteca Nacional sobre o Colégio Anglo-Brasileiro, folhetos de propaganda, divulgação e as disciplinas ministradas (Figura 47).
As disciplinas estudadas pelos alunos, durante os seis anos do Curso Ginasial, eram as seguintes: no primeiro ano – Aritmética, Geografia, Português, Francês e Desenho; no