(Augusto de Campos, 1994, p. 35) No último capítulo de Os filhos do barro, após analisar a tradição moderna da poesia, que se estende do Romantismo até as vanguardas da primeira metade do século XX, Paz (1984, p. 189-190) elabora uma espécie de lista das principais idéias apresentadas no livro: segundo o autor, a modernidade caracteriza-se pela crítica, pela oposição à própria modernidade; o tempo moderno é o tempo da crítica; ao negar o tempo linear, opondo ao tempo da história um “tempo sem tempo da origem, o instante ou o ciclo”, a modernidade nega a si mesma; ao negar-se, afirma-se como modernidade, já que se caracteriza também pela instauração da crítica de si mesma; os movimentos artísticos da modernidade perpetuam-se ao negar o seu precedente.
Já a arte contemporânea15 perde o seu poder de negação, pois a crítica tornou-se modelo, repetição. A negação perde seu teor criativo: “Não quero dizer que vivemos o fim da arte: vivemos o fim da idéia de arte moderna”. Paz (1984, p. 191) retoma a noção de tempo linear da modernidade (caracterizada como uma constante marcha rumo ao futuro, ao progresso), para mostrar que, nos nossos tempos, tal noção está em crise, já que não se considera mais o futuro como possibilidade de maravilhas, e, sim, como horror, como sintoma de dúvida sobre o progresso: “O presente faz a crítica do futuro e começa a desalojá-lo”. Dessa maneira, delineia-se a crise da modernidade, marcada pela espontaneidade em oposição à sistematização, pelo descrédito do futuro. Se ainda se encontra a negação do presente, tal postura não representa o desejo de uma nova sociedade: a destruição do presente indicia apenas o aparecimento de um novo presente e não de um futuro promissor.
Observa-se, então, o enfraquecimento da índole utópica, muito cara ao texto moderno, que se vale de uma natureza crítica e destruidora para transformar as estruturas literárias e lançar o discurso poético ao futuro. Essa crise das utopias – reforçada, logicamente, por uma crise mais ampla, de natureza ideológica, como comprovam a força opressiva e castradora do período ditatorial enfrentado durante duas décadas no Brasil e suas conseqüências – impossibilita o surgimento de vanguardas, forças-símbolo da modernidade. Isso não significa, porém, que todos os traços da modernidade tenham se perdido. Ainda se mantêm vivos, como partes de uma herança irrecusável: a consciência em torno da crise da linguagem, da poesia, da arte; a crise do pensamento discursivo-linear; a simultaneidade; a emancipação em relação à linguagem discursiva e referencial.
Trata-se de uma poesia que não resolve ou supera os rótulos da modernidade – daí a imprecisão do termo pós-moderno –, mas que não se volta mais ao futuro, como afirma Campos (1997, p. 268):
Sem perspectiva utópica, o movimento de vanguarda perde o seu sentido. Nessa acepção, a poesia viável do presente é uma poesia de pós- vanguarda, não porque seja pós-moderna ou antimoderna, mas porque é pós-utópica. Ao projeto totalizador da vanguarda, que, no limite, só a utopia redentora pode sustentar, sucede a pluralização das poéticas
15 Paz escreveu esse ensaio em 1972. Dessa forma, quando se refere à “arte de hoje”, está refletindo
sobre o período de produção a que se refere esta pesquisa. É de espantar, entretanto, a atualidade de suas afirmações.
possíveis. Ao princípio-esperança, voltado para o futuro, sucede o
princípio-realidade, fundamento ancorado no presente.
É exatamente nesse contexto de “agora-pós-tudo”, em que se manifestam certos traços de uma modernidade literária aliados à descrença no futuro, que desponta a voz arrebatadora de Ana Cristina Cesar, ao mesmo tempo herdeira inconteste de uma linhagem moderna de poesia e sensível às transformações de seu tempo, poeta que se aproveitou da tensão entre a transgressão moderna e a pós-utopia para criar uma expressão lírica singular.
Dois aspectos em particular fazem do texto de Ana C. modelo de seu tempo: a problematização do corpo e a crítica do sujeito. Segundo Paz (1984, p. 196-197), a contemporaneidade caracteriza-se pela rebelião do corpo e do desejo, pois, na modernidade, a transformação do corpo em força de trabalho, em fonte de produtividade, tornou o prazer um desperdício. Sendo o corpo, além de território das sensações, espaço também da imaginação, a resposta a tal condenação expandiu- se: “a rebelião do corpo é também a da imaginação”. Interessante observar que essa “rebelião” coloca-se também contra o tempo linear da modernidade, dirigido ao futuro, pois o corpo é o espaço do presente. A aliança das sensações com a imaginação aponta, então, para a revolta do instante contra o futuro: “Pois o corpo não nega somente o futuro: é um caminho para o presente, para esse agora onde a vida e a morte são as duas metades de uma mesma esfera”.
A poesia de Ana C., assim como a produção de vários colegas de sua geração, é a poesia do corpo: esse é o território por onde a poeta pode conceber seu drama, longe da repressão do desejo. Tal marca indica outro aspecto: a dissolução do sujeito. Paz (1984, p. 200) defende que a crítica do tempo da utopia, realizada pelo corpo e pela imaginação, é também a crítica do sujeito: o poeta não é mais um autor, e, sim, um “momento de convergência das diferentes vozes que confluem para o texto. (...) o sujeito é uma cristalização mais ou menos fortuita da linguagem”. A voz do poeta é a voz de ninguém, a voz da outridade.
Ora, essas são as características centrais da poética de Ana Cristina Cesar. Os textos e os comentários apresentados nesta primeira parte já sugerem, em linhas gerais, que Ana C. se vale do pastiche intertextual e da escrita de natureza autobiográfica para elaborar o crítica do sujeito no texto. É necessário, então, mergulhar em sua escritura, a fim de se identificar como se organiza o discurso autobiográfico como método composicional responsável por materializar, na
linguagem, a dissolução do sujeito e a sublevação do corpo, aspectos que assinalam a contemporaneidade de sua obra.