Este aspecto trabalha a Função do Advérbio de acordo com Brandão (1888), em sua obra “Syntaxe e construcção da Lingua Portugueza”. Em virtude disso, ressaltaremos a contribuição do seu estudo, do século XIX, para o ensino de Língua Portuguesa.
Brandão (1888. p.15) cita a Função do advérbio na obra Syntaxe e Construcção da Lingua Portugueza quando discorre sobre proposição, pois quanto à natureza de suas partes essenciais, diz que são divididas em “proposição complexa e incomplexa”. Acrescenta que a proposição complexa “[...] é a que tem o sujeito ou attributo acompanhado de acessório, ou verbo modificado por complemento.” Em
relação à proposição incomplexa, explica ser “[..] aquella cujas partes essenciaes
não têm modificação alguma”. É nesse sentido que o autor apresenta o advérbio à proposição, diz Brandão (1888, p.16):
Em vista disso, a proposição torna-se complexa quando tem um advérbio, desde que esse modifique o seu verbo ou atributo. Diante do conceito de advérbio apresentado pelo autor, vale mencionar, também, um fato bastante significativo a esta pesquisa quando Brandão afirma que os advérbios equivalem a complementos.
Quanto ao complemento, conceitua Brandão (1888, p.18) que pode “referir-se a um appellativo, adjectivo qualificativo, verbo, participio ou adverbio, a palavra a que se refere o complemento chama-se antecedente, porque colloca-se ordinariamente antes d’elle”. Acrescenta, também, que o “complemento divide-se em necessario e accidental”. Nesse aspecto, de acordo com o autor, o complemento é necessário, porque é exigido pela significação do verbo, uma vez que o verbo precisa do complemento para dar sentido à proposição. Por sua vez, o complemento é acidental porque não é exigido pela significação do verbo, de modo que a proposição, sem o complemento, tem sentido completo.
Diante dos conceitos de complemento, o autor apresenta-nos os diversos tipos de Complementos Necessários e de Complementos Acidentais. Para que haja uma melhor explicação, como também organização, começaremos pelos Necessários, que são: Complemento Necessário do Apelativo, Complemento Necessário do Adjetivo Qualificativo, Complemento Necessário do Verbo Relativo, Complemento Necessário do Verbo de Ação Transitiva, Complementos Necessários do Verbo Relativo de Ação Transitiva, Complemento Necessário dos Particípios e Complemento Necessário do Advérbio. Desses, não abordaremos o Complemento Necessário do Adjetivo Qualificativo, o Complemento Necessário do Verbo de Ação Transitiva, os Complementos Necessários do Verbo Relativo de Ação Transitiva e o Complemento Necessário dos Particípios, uma vez que não há nenhuma relação deles com o Advérbio, todavia iremos mencionar todos os casos do advérbio como complemento.
Sobre o Complemento Necessário do Apelativo, conceitua Brandão (1888,
pp.18-19) que “variadissimas são as relações em que o complemento necessario
póde estar para com o appellativo, e, por isso, differentes as preposições empregagas em sua ligação”, e exemplifica: «O seu ingresso na academia realisou- se com a maior selemnidade». Assim, na academia é o complemento do substantivo ingresso, que exprime uma circunstância de lugar (onde).
Em relação ao Complemento Necessário do Verbo Relativo, explicita Brandão (1888, p.22) “exprime relações differentes, e é acompanhado de diversas
preposições, sendo as mais frequentes a, de e para”.
Seguido da preposição a, ocorre quando os verbos têm significações que encerram ideia de obediência, direção a um termo. Ex.: Os soldados obedecem às ordens do general. Salienta-se que, nesse caso, não temos o advérbio como complemento, mas o mencionamos para compreendermos melhor os casos das três preposições.
Acompanhado pela preposição de, quando se tem por antecedente algum verbo que exprima ideia de dependência, necessidade, procedência. Ex.: O mostro saiu do rio.
Por último, regido pela preposição para, que acontece quando o verbo tem significação que apresentem uma ideia de préstimo para algum fim, direção para algum termo. Ex.: Vieram para o Brasil.
Brandão (1888, p.31) trata, também, do Complemento Necessário do Advérbio que ocorre de duas formas. A primeira acontece quando afirma que “os adverbios formados de adjectivos qualificativos ou participios passivos e o sufixo mente, costumam empregar-se com os mesmos que estes”. A outra forma ocorre com os advérbios aquém, além, atrás, diante, debaixo, dentro, fora, perto, longe, antes, depois, mais e menos. Em virtude disso, o autor faz considerações relevantes
aos advérbios, partindo de dois exemplos: “Nada lucraram relativamente ao capital
empregado” e “Não tomava resolução alguma independentemente de seus aios”.
Com base nisso, Brandão (1888, p.31) explica que, “no primeiro exemplo, o
adverbio relativamente tem um complemento regido da preposição a, porque o adjectivo relativo, de que é formado, pede também um complemento acompanhado da mesma preposição”. No segundo exemplo, diz que “o adverbio independentemente está empregado com um complemento precedido da preposição de, porque o adjectivo independente é usado também com um complemento regido de de”. Diante disso, o autor chega à conclusão de que os advérbios terminados em mente exigem a preposição, os outros citados anteriormente, também, exigem preposição, porém se encontram ocultas em grande parte.
Diante dessas concepções de Brandão, informações inovadoras nos são apresentadas, pois esses complementos se tornam significativos à proposição,
como por exemplo, na frase Vieram “para o Brasil”, a parte entre aspas, segundo o autor, é necessária para a compreensão da proposição, isso se dá pelo fato de esse complemento ter relação com o verbo, por isso, chamado de Complemento Necessário do Verbo Relativo. Assim, Brandão (1888, p.22) faz uma abordagem relevante quanto à Função do Advérbio, pois o considera Complemento Necessário do Verbo Relativo.
Agora, trataremos dos Complementos Acidentais, são eles: Complemento Acidental do Apelativo e Complemento Acidental do Adjetivo Qualificativo, Verbo e Particípio Passivo.
O Complemento Acidental do Apelativo, conforme Brandão (1888, p.19), exprime:
(BRANDÃO, 1888, p.19).
Quando apresenta ideia de posse, matéria, qualidade, fim ou objeto, é regido pela preposição de. Ex.: Deu-lhe um anel de ouro. O complemento de ouro representa a matéria de que é feito o anel.
Acompanhado pela preposição sem, ocorre a ideia de carência ou falta. Ex.: O exército sem união é despojo. O complemento sem união significa a falta do exército.
Regido pela preposição com, exprime a ideia de junção ou companhia. Ex.: Traze-me uma caneta com pena. Aqui, o complemento com pena refere-se a uma junção da caneta.
Exige-se a preposição em quando se denota estado ou modo. Ex.: Do alto do monte descortinava-se uma casa em ruínas. O complemento em ruínas indica o estado/modo em que a casa se encontra.
Quando indica circulação, é acompanhado das locuções prepositivas ao redor de, em torno de. Ex.: Fizemos um passeio ao redor da praia. O complemento ao redor da praia indica a circulação feita pelo passeio.
Algumas observações são feitas por Brandão (1888, p.20) acerca do Complemento Acidental do Apelativo, dentre elas: 1. É possível converter, em muitos casos, o referido complemento em adjetivo qualificativo ou particípio. Ex.: anel de ouro ou áureo; exército sem união ou desunido; casa em ruína, ruinosa ou arruinada. Assim, esses complementos que são advérbios, segundo o autor, podem ser tornar em adjetivo ou particípio (verbo). 2. O Apelativo pode ter um Complemento Acidental e outro Necessário. Ex.: a inclinação de Pedro às armas. O complemento de Pedro seria o Acidental, às armas, o Necessário. 3. A um nome próprio, une-se, às vezes, um complemento acompanhado da preposição com representando companhia. Ex.: Paulo com seu companheiro. Nesse caso, a preposição com pode se tornar na conjunção e, como: Paulo e seu companheiro.
Ressalta-se, também, o Complemento Acidental do Adjetivo Qualificativo, Verbo e Particípio Passivo, afirma e exemplifica Brandão (1888, p.32) que:
(BRANDÃO, 1888, p.32)
Nesse exemplo, o adjetivo falto, além de ter o Complemento Necessário “de
recurso”, tem o Acidental, “em quadra tão escassa”, que significa circunstância de
tempo; o verbo “realisar”, além de ter o Complemento Necessário “aquelle projecto”,
tem o Acidental, “segundo seu desejo”, que apresenta circunstância de modo, e o
particípio passivo “estudado”, além do Complemento Necessário submetido depois
dele, tem o Acidental, “durante tantos annos”, que exprime circunstância de espaço,
(BRANDÃO, 1888, p.32).
Dessas circunstâncias, as mais usadas são as de tempo e lugar, pois o fato ocorre no tempo e no espaço, depois, seguem as outras: de causa, meio, instrumento, matéria, origem, preço, medida, companhia, oposição, ordem, exclusão e substituição. Salienta-se, como apresentaremos a seguir, que cada circunstância pode ter preposições diferentes.
A circunstância de tempo pode ser: em que, durante o qual, desde que, depois do qual. A circunstância de tempo em que é acompanhada pelas preposições a, de, entre, para, por, sob, sobre. Exemplifica Brandão (1888, p.33):
(BRANDÃO, 1888, p.33).
Por meio dos exemplos, percebe-se que, para a circunstância de tempo, há várias preposições. Brandão (1888, p.34) destaca, também, o espaço de tempo que há entre duas épocas ou acontecimentos que podem ser regidos por dois nomes: o primeiro, pela preposição de, e o segundo, pela preposição a e, às vezes, pela para. Ex.: “De D. João I a D. Manoel, o Venturoso, os portuguezes fizeram grandes
descobertas”. Além disso, pode-se usar a preposição entre ou desde antes do primeiro nome, e a preposição até, antes do segundo. Ex.: “entre D. João I e D.
Manoel ou desde D. João I até D. Manoel”.
A circunstância de lugar pode ser onde, d’onde, por onde, aonde e para onde.
Conforme Brandão (1888, p.35), os exemplos são:
(BRANDÃO, 1888, p.35).
Por meio da citação do autor, destaca-se que, no lugar de ante, sob e sobre, são empregadas, também, as locuções prepositivas “deante, embaixo de ou debaixo de e em cima de”.
A circunstância de causa, segundo Brandão (1888, p.37), pode ser precedida
pelas preposições de e por. Exemplos: “«De bruteza e preguiça, padecem andarem
vestidos geralmente de pelles por cortir»/«Condemnados por culpas».
A circunstância de fim é acompanhada pelas preposições a, em, para ou por. Exemplifica Brandão (1888, p.37):
Esses exemplos apresentam a importância das preposições, para os complementos adverbiais, na proposição.
A circunstância de modo, segundo Brandão (1888, pp.37-38), é seguida de a, com, de, em, por, segundo ou conforme. Exemplos:
(BRANDÃO, 1888, pp.37-38).
Como exemplificado, essa circunstância é precedida ou não pela preposição e diz como algo acontece, aconteceu ou acontecerá.
A circunstância de meio é regida pelas preposições a, com, de e por ou per. Como apresenta Brandão (1888, p.38):
Essa circunstância mostra-nos o meio em que algo ocorre, ocorreu ou ocorrerá. A circunstância de instrumento é acompanhada pelas preposições a e com. Exemplifica Brandão (1888, p.39):
(BRANDÃO, 1888, p.39).
Conforme abordado, essa circunstância tem, apenas, dois tipos de preposição para apresentar o instrumento utilizado na ação praticada.
A circunstância de matéria, de acordo com Brandão (1888, p.39), é regida
pelas preposições com e de. Exemplos: “«Construiu com pedras as paredes do
edificio» / «Fez imagem de ouro»”. O autor, portanto, faz uma advertência quanto
aos tipos de preposição, pois, se a matéria for virtual, as preposições podem ser de, em e sobre, exemplifica:
(BRANDÃO, 1888, p.39).
Tendo vista a preposição sobre, o autor destaca que pode ser substituída pelas locuções a respeito de e acerca de.
A circunstância de origem é precedida pela preposição de. Exemplifica Brandão (1888, p.40): “«Contente com a pena que de tão bellos olhos procedia»”. Essa circunstância mostra-nos de onde veio alguma coisa.
A circunstância de distância e espaço são acompanhadas pelas preposições a, de e por. Exemplifica Brandão (1888, p.40):
(BRANDÃO, 1888, p.40).
Essa circunstância mostra-nos a distância e o espaço em que ocorreram os fatos mencionados.
A circunstância de preço, conforme Brandão (1888, p.40), é regida pelas preposições a e por. Exemplos:
(BRANDÃO, 1888, p.40).
Essa circunstância apresenta-nos o modo como foi pago alguma coisa, e é seguida por poucas preposições.
A circunstância de medida é precedida pelas preposições a e de. Conforme exemplifica Brandão (1888, p.41): “«A dividiram entre si às barcas»/«O qual idolo é de oitenta palmos»”. Assim, o Complemento circunstancial “às barcas” mostra-nos a
medida em que algo foi medido, como também o de oitenta palmos, a medida do ídolo.
A circunstância de companhia é regida pela preposição com. Exemplifica Brandão (1888, p.41): “«O tal negocio foi tão quente que entraram os mouros com elles dentro d’agua»”. O complemento circunstancial com elles apresenta-nos a companhia dos mouros para O tal negocio.
A circunstância de oposição é acompanhada pelas preposições a, contra, em, por e sobre. Exemplifica Brandão (1888, p.41):
(BRANDÃO, 1888, p.41).
Esse Complemento Circunstancial apresenta-nos a oposição de algo ou alguém para com outro elemento mencionado na proposição.
A circunstância de ordem, de acordo com Brandão (1888, p.42), é precedida pelas locuções prepositivas “antes de, adeante de, atraz de, depois de e apóz”. Exemplos:
Esses exemplos apresentam-nos a ordem em que determinado alguém ou algo é colocado na proposição.
A circunstância de exclusão, segundo Brandão (1888, p.42), é precedida por “sem, à excepção de e afóra”. Exemplos:
(BRANDÃO, 1888, p.42).
O Complemento Circunstancial de exclusão mostra-nos a exclusão de alguém ou de algo.
E, por último, a circunstância de substituição que é acompanhada pela
preposição por. Exemplifica Brandão (1888, p.42): “«Por armas têm adargas e
terçados»”. Nesse caso, o Complemento Circunstancial substitui um objeto pelo outro.
Vale mencionar que todas as circunstâncias apresentadas são tipos de Advérbio chamado pelo autor de Complemento Acidental Circunstancial. Denominados, assim, porque, ao contrário do Complemento Necessário, não é significativo para o entendimento da proposição. Quanto a isso, explica Brandão (1888, pp.138-139):
(BRANDÃO, 1888, p.138-139).
Por meio dos exemplos, a ausência desse complemento, ao contrário do Complemento Necessário do Verbo Relativo, não altera a compreensão da proposição por não ter nenhuma relação com o verbo, por isso, chamado de Complemento Acidental Circunstancial.
Em relação ao uso do Complemento Acidental Circunstancial, por um lado,
Brandão (1888, p.139) esclarece que, em cada um desses exemplos, “o
complemento accidental exprime circumstancia differente, e em nenhum d’elles está separado por virgula, por não ser necessário. Por outro lado, adverte que “em alguns casos, porém, difíceis de especificar, costuma-se separar por virgula esta espécie de
complemento, normalmente sendo extenso”, exemplifica Brandão:
(BRANDÃO, 1888, p.139). Com base nisso, o autor esclarece os casos quando o Complemento Acidental Circunstancial vem separado por vírgula e quando é facultativo. No primeiro caso, afirma Brandão (1888, p.139) que acontece “quando denota circumstancia de tempo em que ou de logar onde, regida da preposição em ou a,
que “collocado no principio, separa-se ordinariamente por vírgula”, exemplifica Brandão (1888, p.139-140):
(BRANDÃO, 1888, p.139-140).
Diante dos exemplos, diz Brandão (1888, p.140) que “esta regra não é
constantemente observada” e “sendo, porém, extenso o complemento, deve-se sempre empregar vírgula depois d’elle”. Exemplifica Brandão: “«Em cincoenta paginas de prosa do mesmo manuscripto, descobri o segredo dos versos»”. Além disso, afirma que “posto no meio da proposição e não sendo extenso, é facultativo
collocalo-o ou não entre vírgulas”, exemplifica:
(BRANDÃO, 1888, p.140).
Quanto ao complemento posto no final da oração, adverte Brandão (1888,
(BRANDÃO, 1888, p.140).
Assim, podemos observar que o Complemento Acidental Circunstancial, rara vezes, é separado por vírgula quando é colocado no final da proposição.
É de suma importância mencionar que havia autores contemporâneos que
estavam em continuidade com Brandão. Destacamos, portanto, Ribeiro6 (1915,
p.154) ao afirmar que:
"Os verbos podem ter varios complementos: directo, attributivo, indirecto, circumstancial. [...] O Complemento Circunstancial é o que indica
circumstancia de tempo, modo, logar, etc”. Exemplos: "Logar – Passou pela Italia.
Tempo – Há chuvas no verão. Companhia – Saiu com outros.
Causa – Desmoronou com a chuva. (RIBEIRO, 1915, p.154).
Assim como Brandão (1888), Ribeiro (1915) considera o advérbio como complemento na proposição, denominando-o de Complemento Circunstancial. Ora, essa concepção adverbial não foi apresentada por Brandão apenas, mas também por outros autores de sua época, dentre eles, o ilustre gramático João Ribeiro, privilegiado por viver o período de transição do século XIX para o século XX.
Por fim, foi privilegiado, neste capítulo, o princípio da Imanência, por meio dos três aspectos de análise selecionados nesta pesquisa. Em seguida, focalizaremos o princípio da Adequação, com a obra de estudo Novas Lições de Análise Sintática, de Kury (1999), da segunda metade do século XX.
6 A primeira edição da obra de João Ribeiro ocorreu em 1887, mas usamos a 17ª edição, publicada em 1915.