Chapter II A place between myths and realities
II.3. Mythical and contemporary giants and their landscapes
mundo do trabalho. No mais, o impresso transmitia uma educação baseada nas boas maneiras, as quais as mulheres deveriam observar para as possíveis adequações em seu cotidiano. Além disso, era necessário aprender a se expressar de forma clara e objetiva, buscar uma boa postura em público, utilizar os adereços adequados a cada ambiente. Em constante autocontrole elas deveriam saber escolher as vestimentas para cada momento, seja para uma ocasião social, no trabalho, na igreja, no lazer, etc. Para cada espaço era indicada uma vestimenta e uma postura apropriada.
No decálogo das mulheres casadas, a discussão está em torno da vida privada, ou seja, do ensino das rotinas diárias do “lar feliz”. Nesta esfera, o Diario de Noticias reafirmava às mulheres a necessidade de manter uma vida ativa no lar, de serem “boas esposas” e mães, preceitos estes necessários para aquelas que almejavam formar uma família. Para tanto, caberia às donas de casa/trabalhadoras saber lidar com as tarefas diárias. Mas, elas não poderiam se esquecer de suas rotinas dentro do lar, seja enquanto educadoras dos filhos, no preparo dos alimentos, limpando, lavando e passando as roupas do marido e filhos no espaço familiar. Por fim, seja no ensino formal, realizado nas escolas e/ou pela educação informal manifestada especialmente por meio da imprensa, a família recebia uma atenção especial. Para isso, ambas as esferas repassavam às mulheres os cuidados que deveriam ser dedicados a suas emoções e sensibilidades, práticas estas que poderiam ser oferecidas pelas atividades artísticas e manuais. A este respeito, Cynthia Greive Veiga esclarece “que as mulheres também deveriam ter uma educação estética, como condição de uma formação integral e útil à família e ao lar”.30
O Diario de Noticias vivia assim uma dualidade na idealização feminina, ora pregava a liberdade às leitoras, ora reforçava que a atuação delas deveria acontecer especialmente na esfera do lar. Se no decálogo das mulheres modernas as leitoras tinham certa autonomia, no das mulheres casadas recomendava-se como fundamental que as companheiras amassem os maridos e permitissem a liberdade deles. Para tanto, ainda deveriam conservar uma boa aparência, evitar palavras ásperas, buscar sempre ser gentis e meigas. Ensinava desta forma, que não eram apenas as qualidades culinárias que iriam segurar o matrimônio e sim a
30 Segundo, Marina Maluf e Maria Lúcia Mott, as mulheres deveriam manter o lar feliz, para tanto, teriam que
organizar seu tempo nas realizações das tarefas cotidianas do lar, organizando, limpando, etc. Cf. MALUF, M, MOTT, M. L. Recônditos do mundo feminino. In: SEVCENKO, N. (Org.). História da vida Privada no Brasil... Op. Cit., p.406-407; VEIGA, C. G. Educação estética para o povo. In: LOPES, E. M. T. et al. (Org.). 500 anos
observação da lista de preceitos que tornaria feliz a vida conjugal. No mais, o impresso transmitia uma educação baseada na boa etiqueta, a qual as mulheres deveriam observar cotidianamente.
Em conformidade com o manual das mulheres casadas, a imagem abaixo ilustra a construção em torno da ideia que vinculava as mulheres como responsáveis pela paz e aconchego do lar.
Ilustração 08: Cotidiano familiar (Fonte - DN, de 1935).31
Nota-se na imagem o retrato do espaço privado. Neste, o pai aparece em destaque. Ele está concentrado na leitura de um jornal, em posição de autoridade. Todo o restante da família gira em torno dele.
Por intermédio da análise do DN, percebe-se que os redatores reforçavam as concepções hegemônicas sobre a educação feminina. Para tanto, ajustavam os valores aceitos socialmente às novas aprendizagens. Mas, fica destacada nas páginas do impresso a valorização da família. Na visão do matutino, ser mãe era estar preparada para cumprir as regras estipuladas e esperadas pela sociedade e pela Igreja, que requeria das mulheres devoção, obediência e dedicação para ensinar a doutrina cristã a sua prole. Logo, os filhos seriam um espelho que refletiria a imagem da mãe. Dar à luz era considerado um ato nobre, pois expressava a forma adequada de vida sexual para aqueles que estavam ligados ao matrimônio. Tratava-se do coroamento da vida das mulheres.
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3.2 – As propagandas e seus ensinamentos
Conforme já foi mencionado, as propagandas publicitárias, além de contribuírem para a renda dos impressos, deveriam fomentar o desejo dos leitores, que se empenhavam por adquirir determinados produtos. Exemplo disso era a coluna Palcos e Telas, do Diario de
Noticias, que mostrava especialmente sinopses dos filmes apresentados nos cinemas, assim
como os espetáculos teatrais locais, regionais e nacionais, além de discutir sobre as artes em geral. Tudo misturado a um sem número de anúncios.
Ilustração 09: Filmes de Hollywood (Fonte – DN, de 1933 e 1937).32
Os filmes de Hollywood ocupavam páginas inteiras do matutino. Na década de 1930, eram constantes os temas que traziam como personagens principais as mulheres, tais como
Quando a mulher quer - com Billie Dove e Chester Morris; A valsa do champagne - com
Glady Swarthout e Fred MacMurray. A este respeito, Jane Soares de Almeida, mostra que:
O cinema atuava nas mentalidades, ditava modas, alterava os costumes e transpunha as fronteiras do mundo provinciano, agindo sorrateiramente nas simbolizações e nas expectativas acerca dos papéis sexuais. Ao desvendar novos espaços femininos, também veiculava comportamentos que os segmentos conservadores da sociedade consideravam nocivos para a boa formação das moças, pois expunha modos de agir e pensar incompatíveis com uma sociedade que se queria o mais moralizada possível. Porém, o seu apelo tornou-se irresistível e as mulheres identificaram-se com as estrelas
32 Ilustração 09: Filmes de Hollywood. a) Quando a mulher quer. In: Diario de Noticias. Ribeirão Preto, 04 de
fevereiro de 1933; b) A valsa do champagne. In: Diario de Noticias. Ribeirão Preto, 17 de junho de 1937. a)
tornadas próximas pelo cinematógrafo e deslumbraram-se com as vidas dos heróis e dos grandes amantes das telas.33
Deste modo, a cinematografia passava a influenciar inúmeras pessoas a partir das ações dos atores, que vestiam e vendiam produtos de consumo, inovando os hábitos de multidões. Com o poder do cinema de alcançar diversas pessoas em curto tempo, as empresas passaram a vincular seus produtos à imagem e/ou ao nome dos artistas. Nesta linha, o creme dental Kolynos transmitia às leitoras os passos para ter um sorriso de cinema.
Ilustração 10: Como ter um sorriso de cinema (Fonte - DN, 1940).34
A propaganda enfatizava que não havia “nada mais fascinante e encantador do que um sorriso revelando dentes claros e brilhantes” e que “naturalmente todos nós desejamos dentes realmente limpos e brilhantes para embellezar nosso sorriso.” Buscava-se formar, então, simpatizantes do “sorriso refrescante Kolynos”. As empresas criavam identidade com determinados símbolos do cinema. Assim, as empresas de propaganda veiculavam que determinados produtos que eram utilizados e aprovados pelas celebridades e, com isto, esperava-se aproximar e legitimar o consumo dos produtos anunciados. Com a vinculação de
33 ALMEIDA, J. S. Mulher e educação... Op. Cit., p.165-166.
34 Ilustração 10: Como ter um sorriso de cinema. In: Diario de Noticias. Ribeirão Preto, 05 de novembro de
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