6. DISCUSSION
6.2 THEORETICAL IMPLICATIONS
Nos tempos que correm, os jovens vivem uma condição social em que as setas do tempo linear se cruzam com o enroscamento do tempo cíclico. Temporalidades ziguezagueantes e velozes, próprias de uma sociedade
dromo…crática, na qual os tempos fortes se cruzam com os fracos e, em ambos, se vivem os chamados contratempos. São muitos destes contratempos que caracterizam a condição juvenil contemporânea (PAIS, 2005, p. 9, grifos do autor).
Há duas razões para postularmos que a juventude é um tempo eminentemente social. Primeiro, porque é nesta fase da vida que o jovem experimenta o tempo como uma dimensão contraditória e significativa na construção da identidade individual. A dinâmica social na qual se inscrevem os diversos grupos juvenis dificulta qualquer tentativa de segmentação, pois os jovens são produto do seu tempo. A juventude é uma experiência temporal caracterizada pela limitação, é “[…] una particular afiliación a la geografia temporal, como una nacionalidad extraña en términos de duración, que convive con las otras naciones temporales bajo la misma jurisdicción, la misma soberanía: el presente”54 (MARGULIS e URRESTI, 2002, p.11).
Segundo, porque, como veremos, o tempo – este elemento medidor e mediador das relações sociais – confunde-se com a própria condição juvenil. Melucci (1997, 2001a) sinaliza que as novas condições temporais são um elemento chave para compreender as relações entre a condição juvenil e a cultura pós-industrial. Este tempo de indeterminação vivido pelo jovem não é tão somente um tempo de expectativas e de projeção, mas é a realidade concreta de um presente estendido ou de um futuro presentificado.
Melucci (2001a) informa que a experiência da idade sempre esteve relacionada com o tempo, mas é a partir da adolescência que ela ganha uma conotação emocional. É no tempo que os jovens ordenam suas escolhas e comportamentos, resultando daí um conjunto de referências para suas ações. É no tempo de vida juvenil que as perguntas sobre quem se é e
54 “[...] uma particular afiliação à geografia temporal, como uma nacionalidade estranha em termos de duração,
que convive com outras nações temporais sob a mesma jurisdição, a mesma soberania: o presente” (MARGULIS e URRESTI, 2002, p.11, tradução nossa).
quem se quer ser dão sentido à idéia de passado-presente-futuro e demarcam os limites entre infância, juventude e idade adulta. Mas é, sem dúvida, no seio da sociedade que isto se conforma.
Nossa sociedade organiza-se numa dimensão espaço-temporal. O tempo da moderna sociedade era um tempo linear, caracterizado pela singularidade e pela continuidade dos acontecimentos. Leccardi (2005) pondera que a perspectiva de um horizonte temporal estendido – um futuro separado do passado e do presente – orientava a ação individual e coletiva. A juventude, então considerada um período de preparação para a vida adulta, era uma etapa de vida na qual vivia-se o presente projetando o futuro. A autora usa a expressão diferimento das recompensas para explicar que todo o processo de socialização moderno tinha em sua base a perspectiva do futuro como espaço para a construção de um projeto de vida. Era a presença de um futuro que permitia ao jovem desenvolver uma grande capacidade de autocontrole, de programar-se e projetar o que faria num tempo vindouro.
Na pós-modernidade, afirma Harvey (2006), a volatilidade e a efemeridade do tempo impede qualquer planejamento de longo prazo e a “[…] compressão do espaço e do tempo tem tido um impacto desorientado e disruptivo sobre as práticas político-econômicas, sobre o equilíbrio do poder de classe, bem como sobre a vida social e cultural” (p.257). Enquanto a sociedade moderna experimentava a dimensão de um futuro aberto, de um tempo apreendido em projetos individuais e coletivos, o futuro da sociedade contemporânea é indeterminado, governado pelo risco. Um cenário de imprevisibilidades, no qual o presente referencia os horizontes temporais.
Como receptora e perceptora da cultura de hoje, a juventude é o grupo diretamente exposto a estes processos de diferenciação, multiplicação e desnaturalização do tempo. Os jovens, duplamente situados no tempo, percebem que o tempo de ser jovem não constitui uma superação da infância, nem termina com a passagem para a idade adulta, mas recai sobre a infinitude do presente e um futuro inexistente. A incerteza e a escolha são o destino inevitável da vida social e individual na sociedade contemporânea. A juventude deixa de ser uma condição meramente biológica, para tornar-se uma condição social, quando os jovens desafiam as pautas simbólicas dominantes de organização temporal e as convertem em matriz de sua experiência cultural e identitária:
Los individuos no son jóvenes porque (o sólo porque) tengan una cierta edad, sino porque siguen unos ciertos estilos de consumo o ciertos códigos de comportamiento y vestimenta. Ahora, la adolescencia se prolonga mucho más allá de sus fronteras biológicas, y las obligaciones para con la vida adulta se posponen hasta después de los veinticinco e incluso de los treinta
años55” (MELUCCI, 2001a, p. 138).
Ao evaporarem as fronteiras entre a infância e o mundo adulto, a juventude torna-se um tempo sem precedentes. Estas condições de abertura e transformação entre juventude e idade adulta não mais sinalizam a existência de trânsito entre elas. Os jovens se vêem imersos em uma situação paradoxal pois, ao mesmo tempo em que se prolonga a condição juvenil, esta carência de signos de transição impede a entrada no mundo adulto. De uma condição provisória que tenderia a desaparecer no decurso do tempo, “[…] os jovens são socialmente solicitados e desafiados a construir formas positivas de relação entre seu tempo de vida e o tempo social” (LECCARDI, 2005, p.47-8). De uma seqüência linear, previsível e sucessiva, o tempo finito da fase juvenil é agora, na sociedade contemporânea, um tempo infinitamente presente.
Attias-Dontuf (1996) pondera que, na condição juvenil contemporânea, os aspectos que inviabilizariam uma análise unívoca da superposição entre a geração e as faixas etárias convertem-se em dimensões fundamentais para a leitura da realidade juvenil. A juventude não se limita a um período da vida porque os jovens de hoje são confrontados à decomposição de um modelo de ciclo da vida ternário, centrado no trabalho. A incerteza, a instabilidade do trabalho reflexiona na própria fase da vida. Os jovens experimentam uma situação historicamente nova, de uma sociedade multigeracional. As situações de dependência familiar, amplificadas pelos problemas econômicos, obrigam a coexistência dos jovens em relação direta com as duas gerações que o antecederam. Entre o futuro incerto e desconhecido da ausência de trabalho e o passado das relações intergeracionais, existe uma fratura na qual os jovens inventam, originalmente, o presente, e pretendem criar as conexões entre o passado e o futuro.
Concomitante aos processos sociais pelos quais a juventude assume um caráter temporal próprio, também as representações sociais acerca da juventude têm contornos mais amplos. Até o final do século XIX e início do século XX, a juventude era uma prerrogativa dos jovens pertencentes aos setores médios e altos da sociedade, porque esta fase da vida era identificada pela construção de trajetórias biográficas bem lineares e reconhecíveis, que se iniciava com a preparação para o trabalho por meio da formação escolar, o exercício de uma atividade profissional remunerada, a constituição da família até a aposentadoria. Os jovens
55 “Os indivíduos não são jovens porque (ou somente porque) têm uma certa idade, senão porque seguem certos
estilos de consumo ou certos códigos de comportamento e vestimenta. Agora, a adolescência se prolonga muito mais além de suas fronteiras biológicas, e as obrigações para com a vida adulta se põem para até depois dos vinte e cinco e inclui os trinta anos” (MELUCCI, 2001a, p. 138, tradução nossa).
das camadas populares eram excluídos deste contexto de transição, pois a entrada no mundo do trabalho dava-se muito precocemente, as chances de concluir a educação básica e superior eram mínimas e, em muitos casos a constituição da família era uma realidade já na adolescência.
Entretanto, na medida em que a juventude perde a característica de transição, estende- se e consolida-se numa condição social, este período de permissividade que se situa entre a maturidade biológica e a maturidade social, este modo particular de estar no mundo – a moratória social a que se referia Erikson (1972) – deixa de ser exclusividade dos jovens dos setores médios e altos da sociedade, alcançando todos os segmentos juvenis.
Ainda que em situações sócio-econômicas e culturais bastante distintas, mesmo que sejam reduzidas suas possibilidades e expectativas de vida, estes indivíduos são jovens porque, factualmente, encontram-se envoltos pelos mesmos enredamentos sociais. Nômades do presente, assinalava Melucci (2001b), ou nativos do presente como dizia Mead (1997), são jovens os indivíduos que compartilham o tempo como um campo de experiências reversíveis e multidirecionais. São jovens porque – concentrados no presente – expressam esta passagem de tempos regulares a tempos alterados. Os nascidos nesta nova ordem mundial capitalista testemunham, explicam e são explicados por seus conflitos com o intemporal, o permanente e o absoluto.
Jóvenes son todos aquellos que gozan de un plus de tiempo, un excedente temporal, que es considerablemente mayor que el de la generaciones mayores coexistentes. Ese capital temporal expresa simultáneamente una doble extensión, la distancia respecto del nacimiento –cronología pura y memoria social incorporada – y la lejanía respecto de la muerte, constituyéndose ambos en ejes temporales estructurantes de toda experiencia subjetiva56 (MARGULIS E URRESTI, 2002, p.10).
Herdeiros de um tempo imaterial e intangível, nem todos os jovens que vivem a moratória possuem os recursos sociais e culturais para exprimir-se. Aqueles que possuem os meios para exercer controle sobre a incerteza conseguem diferenciar-se utilizando de modo favorável a velocidade e a mobilidade temporal. No entanto, os jovens com poucos recursos sofrem por viver um tempo livre não legitimado e que não se confunde com o tempo da moratória social, pois é um tempo de impotência, uma circunstância desafortunada, que lhes empurra para a marginalidade, a delinqüência e a desesperança. Para a maior parte dos jovens,
56 “Jovens são todos aqueles que gozam de um plus de tempo, um excedente temporal, que é consideravelmente
maior que o das gerações maiores coexistentes. Esse capital temporal expressa simultaneamente uma dupla extensão, a distância em respeito ao nascimento – cronologia pura e memória social incorporada – e a distância em relação à morte, constituindo-se ambos eixos temporais estruturantes de toda experiência subjetiva.” (MARGULIS E URRESTI, 2002, p.10, tradução nossa).
a aceleração do tempo é mais um mecanismo de exclusão social. Seu tempo livre é vivido como o tempo da falta de trabalho, da impossibilidade de alargar o período de formação ou mesmo da descrença nas credenciais escolares como perspectiva de ascensão social (MARGULIS E URRESTI, 2002).
Imersos nas tramas de um tempo social que lhes faculta e, paradoxalmente, lhes nega a própria juventude, os jovens desafiam a dimensão dominante do tempo e definem, por suas capacidades performativas, estratégias de sociabilidade e de constituição da identidade individual. Os jovens definem-se por seus múltiplos pertencimentos, pela participação em diferentes contextos, grupos e dimensões da vida social. Exprimem um desejo de experimentar o presente, sem postergar seus ideais a um futuro perfeito e o fazem com uma capacidade espantosa de aceitar a fragmentação e a incerteza do ambiente como um dado a ser transformado. Depositam suas esperanças no presente e é sobre ele que incidem suas ações, ainda que em pequena escala e num contexto social delimitado. Não obstante a centralidade do presente, os jovens que podem, afirma Leccardi (2005), reestruturam suas relação com o tempo biográfico e o tempo social e se empenham em atingir objetivos mais gerais no tocante ao futuro.
Em resposta ao tempo que lhes é oferecido, os jovens tendem a fazer projetos de curto ou curtíssimo prazo, facilmente maleáveis e que incidem sob arcos temporais mínimos. Para Leccardi (2005), este modo sui generis de reagir à aceleração do tempo parece mais uma reação à inquietação que lhes evoca a idéia de futuro. Em outros casos, são mesmo marcados pela concretude e pelo desejo de concluir atividades já iniciadas. Ainda que esta nova condição temporal seja vivida por toda a juventude, para os jovens das camadas populares a tipologia dos projetos curtos talvez seja a única referência possível, uma vez que foram antecipadamente impossibilitados de construir as condições adequadas mediante o quadro de indeterminação do futuro.
A juventude é um tempo social porque, se o presente está na centralidade da vida social contemporânea, os jovens são quem melhor co-respondem a este tempo. Os jovens se inscrevem no presente e o vivem não como desvalorização, como mutilação, mas como a forma mesma do seu próprio tempo. Sua empatia pelos aparatos tecnológicos, realidades virtuais, ciberespaço não é mera habilidade ou interesse difuso. As novas tecnologias digitais são uma forma de interação, conexão e desconexão num mundo sem fronteiras, sem conexões espaço-temporais. Martín-Barbero (2002) chama de cumplicidade expressiva a capacidade de viverem seu cotidiano em relação direta com as tecnologias audiovisuais e informáticas, de estarem sintonizados com esta nova temporalidade, apropriando-se da fragmentação e da
velocidade para expressar suas identidades.