CHAPTER 6 ANALYSIS OF THE FINDINGS
6.1 Analysis of the findings within categories
6.1.4 Responsibility and behaviour
A análise final dos discursos elaborados pelos professores em sala de aula, nos
questionários e nas entrevistas será baseada nas contribuições de Michel Foucault para a análise de discursos. Adotaremos a definição de discurso como um conjunto de enunciados que se apóiem na mesma formação discursiva (FOUCAULT, 2000, p. 132). Segundo este autor, os discursos devem ser analisados segundo uma perspectiva histórica, como uma prática social, produzidos em razão de relações de poder. Michel Foucault, nos três volumes de sua História da
Sexualidade, atribui grande importância ao mútuo condicionamento entre as práticas discursivas
e as práticas não discursivas, o que nós consideramos muito relevante para a temática da pesquisa deste trabalho (FISCHER, 2001).
De acordo com o referido no ponto 2.2, a sala de aula deve ser um lugar onde existem atividades organizadas para ensinar ciências com uma disposição temporal coerente, destacando- se a necessidade de o professor ser capaz de conceber uma narrativa sequencial com várias atividades e com várias ferramentas, mas mantendo sempre um alto grau de referenciabilidade entre esses meios. Por conseguinte, analisar o discurso dos professores sobre o uso de visualizações implica necessariamente falar na relação com as práticas não-discursivas
subjacentes ao uso das visualizações (seleção do tipo de visualização, movimentação de objetos concretos, manipulação de objetos virtuais num software informático, etc.).
Nesta análise teremos de ter em conta como se instaurou o discurso do professor, quais as suas condições de emergência ou de produção e, portanto, quais os domínios não discursivos a que os enunciados remetem.
Ao adotar este referencial teórico e metodológico para analisar os discursos dos professores sobre o uso de visualizações no ensino de Química, como um número limitado de enunciados, tentaremos definir as suas condições de existência, partindo do pressuposto deste filósofo que o enunciado se encontra na transversalidade de frases, proposições e atos de linguagem; trata-se de “uma função que cruza um domínio de estruturas e de unidades possíveis e que faz com que [estas] apareçam, com conteúdos concretos, no tempo e no espaço” (FOUCAULT, 2000, p. 98).
A análise dos discursos dos professores em formação inicial será efetuada então pela análise dos seus enunciados. Para Foucault um enunciado pode caracterizar-se por quatro elementos básicos: um referente, a referência a algo que identificamos (ou seja, um princípio de diferenciação), um sujeito, alguém que afirmou aquilo (no sentido de “posição” a ser ocupada), um campo associado (o enunciado não existe isolado, mas sempre em associação com outros enunciados, do mesmo discurso ou de outros discursos) e finalmente de uma materialidade específica, as formas concretas em que ele aparece (coisas ditas, escritas, gravadas em algum tipo de material, passíveis de reprodução, ativadas através de técnicas, práticas e relações sociais)
Descrever um enunciado é, portanto, dar conta dessas especificidades e simultaneamente procedermos à individualização de uma formação discursiva e, como escreve Foucault, “a análise do enunciado e da formação discursiva são estabelecidas correlativamente”, porque a “lei dos enunciados e o fato de pertencerem à mesma formação discursiva constituem uma única e mesma coisa” (FOUCAULT, 2000, p. 132). Para Foucault estas formações discursivas devem ser vistas sempre dentro de um espaço discursivo ou de um campo discursivo, segundo Foucault uma formação discursiva é:
[...] um feixe complexo de relações que funcionam como regra: ele prescreve o que deve ser correlacionado em uma prática discursiva, para que esta se refira a tal ou qual objeto, para que empregue tal ou tal enunciação, para que utilize tal conceito, para que organize tal ou tal estratégia. Definir em sua individualidade singular um sistema de formação é, assim, caracterizar um discurso ou um grupo de enunciados pela regularidade de uma prática. (ibidem, p. 82).
Considerando o discurso dos futuros professores sobre o uso de visualizações, iremos verificar que os enunciados se inscrevem no interior de algumas formações discursivas (da economia, da pedagogia, da política, etc.) e que obedecem a um conjunto de regras, dadas historicamente, afirmando as verdades de um tempo. Por isso, consideramos muito importante e atrativo introduzir esta perspectiva de Foucault na análise dos discursos destes futuros professores. Embora, seja importante para a pesquisa saber quais as concepções dos professores acerca deste tema tentaremos ir mais além, buscando as regras e as relações de poder que se dão dentro destes discursos. Ancorando-nos no conceito de prática discursiva de Foucault:
[...] um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada época e para uma determinada área
social, econômica, geográfica ou linguística, as condições de exercício da função enunciativa. (ibidem, p. 133)
tentaremos encontrar os enunciados dispersos nos discursos, organizá-los e situá-los em campos discursivos. No entanto, teremos de ressaltar que os enunciados, diferentemente dos atos de fala e mesmo das palavras, frases ou proposições, não estão imediatamente visíveis nem inteiramente ocultos (FISCHER, 2001), teremos de fazer um esforço para interrogar a linguagem, o que efetivamente foi dito, perguntar de que modo a linguagem é produzida e o que determina a existência de cada enunciado. Segundo, Ficher é:
É operar sobre os documentos, desde seu interior, ordenando e identificando elementos, constituindo unidades arquitetônicas, fazendo-os verdadeiros monumentos. É perguntar: porque é que isto é dito aqui deste modo, nesta situação, e não em outro tempo e lugar, de forma diferente? (FISCHER, 2001, p.205).
Neste ponto, também teremos de nos ocupar do sujeito daquele enunciado, que fala e é falado, o sujeito social. Segundo Foucault, ao analisar um discurso, não estamos perante um sujeito, mas sim com um lugar de sua dispersão e de sua descontinuidade, onde se encontra o Outro, o que está imediatamente ligado à heterogeneidade discursiva, já que nos discursos sempre se fala de algum lugar, o qual não permanece idêntico. Foucault multiplica o sujeito, no caso concreto do nosso estudo teremos de questionar “quem fala?”, “qual a sua competência?”, “qual o lugar de onde fala?”, “ em que campo de saber se insere?”. Precisaremos também de descrever o(s) lugare(s) intitucionais de onde estes futuros professores obtêm o seu discurso, “e onde este encontra sua origem legítima e seu ponto de aplicação” (FOUCAULT, 2000, p. 57). Foucault, também refere que:
As posições do sujeito se definem igualmente pela situação que lhe é possível ocupar em relação aos diversos domínios ou grupos de objetos: ele é o sujeito que questiona, [...], é o sujeito que observa, [...], está situado a uma distância ótica cujos limites demarcam a parcela de informação pertinente; utiliza intermediários instrumentais que modificam a escala da informação, [...]. (ibidem, p. 58).
A idéia do sujeito como “efeito discursivo” revela-se aqui, as posições e formas de subjetividade, podem ser lidas como efeitos de um campo enunciativo, como escreve Foucault:
O discurso, assim concebido, não é a manifestação, majestosamente desenvolvida, de um sujeito que pensa, que conhece e que o diz: é, ao contrário, um conjunto em que podem ser determinadas a dispersão do sujeito e a sua descontinuidade em relação a si mesmo. É um espaço de exterioridade em que se desenvolve uma rede de lugares distintos. (FOUCAULT, 2000, p.61).
Tentaremos igualmente ao analisar os discursos destes futuros professores indagar que, outros enunciados estão nas margens destes enunciados, proferidos aqui e agora, ou seja, a ação do interdiscurso; “Não há enunciado que não suponha outros; não há nenhum que não tenha, em torno de si, um campo de coexistências, efeitos de série e de sucessão, uma atribuição de funções e papéis.” (FOUCAULT, 2000, p. 112). Segundo este filósofo, ao analisarmos o discurso destes futuros professores sobre visualizações, iremos encontrar uma multiplicação dos discursos (pedagógico, político, econômico), um campo de relações e de jogos de poder, em que cada formação discursiva ocupa um lugar diferente, dependendo, desses mesmos jogos de poder. Neste ponto, também não nos podemos esquecer do funcionamento intradiscursivo, isto é, a dinâmica dos enunciados dentro da mesma formação que, como iremos verificar no nosso caso, está muito presente nos enunciados proferidos pelos professores. Esta função dialógica, já referida por Bakhtin, está associada ao que Foucault refere, como a necessidade de analisar os enunciados
como objetos vivos, que dependem do momento em que são produzidos, pois se relacionam fortemente com enunciados anteriores produzidos sobre esse objeto.
Uma das razões que nos levou a escolher este referencial teórico e metodológico para a análise dos discursos dos professores deve-se ao fato de Foucault ser um dos pensadores que tratou da teoria e da prática sem colocá-las em campos separados, o que nós consideramos muito importante para a temática do nosso trabalho, como já foi referido. O discurso pedagógico sobre o uso de visualizações no ensino de Química, tem gerado um conjunto de práticas não-discursivas (criação e uso ferramentas visuais, softwares, computadores, projetores, etc.), que por sua vez emergem nos discursos, “ [...] o discurso não tem apenas um sentido ou uma verdade, mas uma história [...]”. (FOUCAULT, 2000, p. 144), é esta relação entre discursivo e não-discursivo que nos interessa falar, esta relação temporal entre teoria e prática. Esta questão da temporalidade indica-nos, não só que, os discursos são produzidos num determinado tempo e lugar, mas também qual é a estreita relação entre as práticas discursivas e não discursivas.
No caso do uso de visualizações no ensino de Química, os discursos destes futuros professores, certamente não existiriam sem as diretrizes do ministério da educação, sem os discursos dos professores da graduação, dos pedagogos, da mídia, etc., mas também não existiria sem a indústria informática, a internet, etc. Segundo Foucault, uma prática discursiva “[...] toma corpo em técnicas e efeitos” (FOUCAULT, 2000, p. 217), e como se trata de uma via de mão dupla, há uma mútua implicação entre o discurso e as práticas não discursivas, ao serem “ditos” os enunciados constituem e por ventura modificam as técnicas e as relações sociais em que eles estão inseridos, e por consequência, o sistema de relações dos enunciados com aquilo que os
Ao analisar o discurso destes professores sobre o uso de ferramentas visuais temos de analisá-lo a partir das práticas a que esse discurso está associado e que campos (pedagogia, psicologia cognitiva, política, etc.) povoam os enunciados, como estes se transformam, e como se transforma o discurso. Qual a história deste discurso, sabemos que o uso de representações estruturais na Química é uma atividade constituída historicamente a partir de meados do século XIX, que se destinava fundamentalmente a processos de comunicação e à criação de heurísticas com o objetivo de previsão de propriedades dos vários entes da Química. De que lugares e de que posições se falavam, nessa época, como se dá a sua introdução no ensino? Quais os momentos de transformação do discurso, desde esse tempo até aos nossos dias? Que rupturas se instauraram? Como as representações visuais aparecem nos nossos dias como objeto de poder e saber?
Aceitando o convite de Foucault, tentaremos vestir o papel de arqueologistas buscando as “unidades arquitetônicas” a partir da dispersão dos enunciados, mostrando como esses enunciados aparecem e como se distribuem no interior de um discurso. Tentaremos descrever os discursos como práticas especificadas no elemento do arquivo, sendo que, para Foucault, o arquivo é: “O sistema geral da formação e da transformação dos enunciados.”(FOUCAULT, 2000, p. 148), ou seja, o conjunto de todos os enunciados, de todas as regras e de todas as coisas (campos de utilização), que são elas próprias objeto de discurso.