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Estratégicas

A abordagem política do processo decisório surgiu dos estudos nas ciências políticas da década de 1950, envolvendo análises sobre conflitos e coalizões entre tomadores de decisões governamentais (LINDBLOM, 1959). Transpostos para a Teoria Administrativa, aspectos ligados ao comportamento político nas decisões acabaram chamando a atenção para as reações sociais de grupos de indivíduos, ao passo que a racionalidade limitada, por sua vez, acabou focando nas questões cognitivas das pessoas (EISENHARDT e ZBARACKI, 1992).

A base da abordagem política do processo decisório decorre da constatação de que as organizações são coalizões de pessoas competindo por interesses distintos. Pettigrew (1977)

salienta que os processos políticos dentro das organizações envolvem tanto aspectos grupais, devido à divisão das atividades, quanto individuais, com a manutenção do sistema de status – decorrendo na criação de subgrupos com interesses específicos quanto à distribuição dos recursos organizacionais. Por conta disso, a capacidade de influenciar os resultados de decisões organizacionais pode ser considerada uma fonte de poder13 muito reconhecida. Uma vez que as organizações possam ser vistas, de acordo com Morgan (2007), como sistemas de tomadas de decisões, o indivíduo ou grupo que possa agir de modo claro no processo de tomada de decisão tem o poder de exercer uma grande influência nos negócios da organização em que está. Em outras palavras, o processo decisório político pode ser entendido pela resolução de demandas conflituosas de interesses individuais e grupais (PETTIGREW, 1977).

Eisenhardt e Zbaracki (1992) sustentam que, do ponto de vista dos processos decisórios políticos, as pessoas são individualmente racionais, mas não o são coletivamente. Assim, segundo os autores, as pessoas, pelo menos algumas vezes, desenvolvem ações visando manter seu status ou aumentar seu poder de influência na tomada de decisão, de forma que as preferências dos envolvidos mais poderosos acabam vencendo. Por conta disso, sob o viés político, não seria a organização que teria objetivos, mas, sim, as pessoas que a compõe (FERNANDES et al., 2007, p. 56).

Morgan (2007) afirma que, no que tange às relações de poder no processo decisório, há três elementos inter-relacionados: o controle sobre as premissas da decisão, o controle sobre o processo decisório em si e o controle sobre os resultados e objetivos da decisão. Uma das formas mais eficazes de se chegar a uma decisão é permitir que ela seja feita por falta de escolha ou omissão - à semelhança do que pode ocorrer no modelo evasivo, citado por Lyles e Thomas (op. cit.) e Das e Teng (op. cit.). Por conta disso, Morgan (2007) sustenta que muito da atividade política dentro das organizações se baseia no controle de assuntos e premissas que serão discutidas nas decisões, de maneira a influenciar como uma decisão específica será focalizada ou evitando que certos aspectos fundamentais venham à tona. Com base em “manobras políticas”, busca-se evitar que certos assuntos sejam discutidos, podendo-se chegar precisamente aonde se quer. O controle do processo decisório é comumente mais visível do que o controle de suas premissas, pois acaba envolvendo a forma como transcorre a decisão, quem toma parte nela, o tempo envolvido, a forma de comunicação às partes, o tipo e forma de informação utilizada. Quem dispõe de maior poder político poderá exercer influência sobre

#Poder, neste trabalho, é considerado como a habilidade para fazer com que outras pessoas ajam segundo suas próprias preferências, impondo sanções caso não o façam (ARNDT, apud DEAN e SHARFMAN, 1993b).

esses fatores. Desta forma, as regras que devem guiar a tomada de decisão são, assim, variáveis importantes que os membros da organização podem manipular e usar para modificar a opinião das pessoas a favor ou contra uma ação, interferindo no seu resultado.

Dean e Sharfman (1993b) argumentam que os comportamentos político e racional deveriam ser vistos como duas dimensões distintas do processo de decisão. A extensão em que a informação é coletada e analisada é diversa da prática política. Não há decisão que não inclua ambos: o conhecimento para lidar com a complexidade dos problemas, suportado pela perspectiva racional, e o conhecimento para lidar com o potencial político dos resultados.

O comportamento político, assim posto como decorrente do uso de táticas de influência, pode ser classificado, segundo Dean e Sharfman (1993b), em três grupos. O primeiro está relacionado com as atividades que levam à aquisição e uso do poder, visando interesses e aspirações próprias. O segundo envolve táticas de uso de canais importantes para a propagação da informação. O terceiro se vincula às táticas de uso do tempo e ao oportunismo para construir uma base de poder para as ideias. Bataglia (2006) aponta, com base na literatura, várias táticas políticas que podem ser identificadas dentro dos processos decisórios, conforme o Quadro 11.

Táticas Políticas

Amizade Uso de adulação, criação de boa vontade, agir de forma humilde e ser amigável antes de fazer um pedido. Coalizão Conseguir o apoio de outras pessoas na organização para dar respaldo à aspiração.

Cooptação Envolver os atores-chave na decisão para reduzir resistências futuras.

Barganha Decisão em grupo por consenso quando existem interesses próprios.

Asserção

Uso de uma abordagem direta e forte, tal como a exigência de concordância com pedidos, a repetição de lembretes, mandar indivíduos fazerem o que lhes é pedido e indicar que regras exigem obediência.

Criação de senso de urgência

Uso de fatos e dados para criar no grupo senso de importância com relação à aspiração.

Salvaguarda Criar mecanismos de evasão de situações que possam se refletir desfavoravelmente. Autoridade

superior Obter apoio de níveis mais altos na organização para dar respaldo às aspirações e interesses. Sanções Uso de recompensas e punições, como impedir ou prometer um aumento de salário, ameaçar uma avaliação de desempenho insatisfatória ou reter uma promoção.

Quadro 11 - Táticas Políticas Fonte: Bataglia (2006, p. 59)

Por outro lado, segundo Bataglia (2006), a implementação da decisão depende do consenso que, por sua vez, depende da compreensão e do comprometimento do grupo de tomadores de decisão, através da forma de resolução de seus conflitos interpessoais. Num grupo de tomadores de decisão, há objetivos compartilhados e conflituosos no processo decisório estratégico, decorrentes de distintas visões de futuro, posições antagônicas, confronto de ambições e interesses individuais. O poder de influência dos envolvidos, então, é utilizado a fim de buscar que o atendimento de suas intenções pessoais seja considerado na decisão organizacional.

Mintzberg et al. (1976) identificaram que o conflito é um fator dinâmico de influência no processo decisório estratégico, afetando seu tempo de duração. Eisenhardt (1989a), no entanto, se contrapôs a essa ideia, afirmando que a habilidade de resolução do conflito, ao invés do conflito em si, acaba influenciando na duração do processo decisório. Se os tomadores de decisão conseguem resolver o conflito por si mesmos, atuando ativamente na sua resolução (seja através de consenso, seja pela mediação de alguém com maior autoridade), acabarão tornando o processo decisório mais rápido. Por outro lado, se houver uma abordagem passiva dos envolvidos, adiando a resolução do conflito, estes acabarão influenciando na demora do processo decisório, que poderá sofrer os efeitos de eventos externos na escolha a ser feita.

Estudos envolvendo a política nos processos decisórios estratégicos, cujas características são resumidas no Quadro 12, estabelecem as organizações como sistemas políticos que desenvolvem estratégias amplas, porém com implantação gradual (QUINN, 1978), sugerem que a ocorrência de coalizões políticas estão negativamente relacionadas com a performance organizacional (EISENHARDT e BOURGEOIS, 1988), relacionam a rapidez nas decisões estratégicas com o uso intensivo de informações, a resolução rápida de conflitos e a criação de múltiplas alternativas de solução (EISENHARDT, 1989a) e apontam que a influência de preferências pessoais diversas e a negociação intra-grupal determinam a eficácia do comportamento político nas decisões (DEAN e SHARFMAN, 1996).

Características da Abordagem Política de Decisão Estratégica

− Caracteriza-se pela negociação, conjugação de interesses, luta pelo poder e criação de coalizões para resolução de conflitos;

− Os objetivos pessoais são privilegiados na análise de alternativas de escolha, em detrimento dos objetivos globais;

− As disputas de poder e táticas de influência determinam a prevalência nas decisões, devido ao embate de forças políticas no âmbito organizacional;

− O uso de táticas de utilização do tempo, de oportunismo e de domínio de canais de comunicação se refletem nas disputas de poder e persuasão para a determinação das escolhas de decisão prediletas.

Fontes: EISENHARDT e BOURGEOIS, 1988; EISENHARDT, 1989a; EISENHARDT e ZBARACKI, 1992; DEAN e SHARFMAN, 1993b Quadro 12 - Características da Abordagem Política de Decisão Estratégica

Fonte: Elaborado pelo Autor

Por fim, Eisenhardt (2002), com base em estudos anteriores, afirma que a eficácia nas decisões estratégicas deve envolver:

1) O desenvolvimento da intuição coletiva, através de reuniões frequentes e medições em tempo real para aumentar a capacidade de análise da equipe gerencial;

2) O estímulo ao conflito rápido através da reunião de membros com diferentes opiniões sobre um problema, enfatizando múltiplas alternativas para melhorar a qualidade das decisões;

3) Disciplina sobre o timing das decisões estratégicas com a definição de ritmos e consenso qualificado, a fim de evitar escolhas estratégicas impetuosas;

4) Eliminação da política através da instituição de metas comuns e delimitação de territórios, a fim de evitar o conflito interpessoal destrutivo e o desperdício de tempo com os jogos políticos.

Eventualmente, as decisões estratégicas podem apresentar características relacionadas tanto a aspectos racionais quanto políticos, apresentando: a) baixas relações políticas e alta racionalidade; b) altas relações políticas e baixa racionalidade; c) baixas relações políticas e baixa racionalidade; d) altas relações políticas e alta racionalidade (DEAN e SHARFMAN, 1993b). Contudo, de acordo com Eisenhardt e Zbaracki (1992), o fato de aspectos políticos ocorrerem nos processos decisórios estratégicos se deve a desequilíbrios nas relações de poder. Por conta disso, para esses autores, o comportamento político nas decisões acaba por criar animosidade, desperdício de tempo, obstrução dos canais de informação e apresentando reflexos negativos na performance organizacional.