significados e interpretações de sujeitos históricos, em suas experiências, e processos vividos num determinado tempo e espaço, no processo de pesquisa, exigiu que se voltasse o olhar para a vida cotidiana, resistências e conformações, tensões, disputas, sentimentos, crenças, memórias, desejos, tradições, diferenças, lutas e sonhos de um grupo específico que, historicamente, foi excluído, no entanto, teve participação efetiva nos acontecimentos históricos. Reconstruir a história que levou a estudar os migrantes canudenses, em São Paulo, foi uma tarefa complexa, portanto, um desafio, em que fui construindo a pesquisa, as fontes, as relações com as fontes, que são pessoas presentes, no desenvolver do trabalho. Antes, porém, eu não havia pensado em estudar os nordestinos; todavia, participo, há mais de 15 anos, de grupos de trabalhadores, jovens e migrantes; trabalhei com parlamentares, pastorais; presenciei discussões, em todo Brasil sobre a realidade brasileira e sobre os diversos sujeitos sociais, tais como mulheres, negros, indígenas, moradores de rua, operários. Discussões realizadas, de acordo com a teologia da libertação, no nordeste e sul do país; acompanhei diversas vezes questões de migrantes e trabalhadores na cidade.
Debruçar-se com uma reflexão aprofundada sobre um grupo específico de migrantes nordestinos, eu não me sentia à vontade para fazê-lo. Alagoanos, baianos, piauienses, todos com quem eu sempre convivi, mas com um olhar “distraído”, talvez com uma visão generalizada, por muito tempo, visto do meu olhar sempre fixo nos operários, nos trabalhadores do setor formal e nos movimentos sociais. Ou ainda, ignorando outras experiências e abordagens, senão, valorizando de modo exclusivo os grupos politicamente organizados na sociedade.
Neste sentido, os migrantes nordestinos pareciam dispersos, embora sempre lutassem por uma vida digna. Diversas gerações já trabalhavam em São Paulo, viviam nas periferias com suas famílias e ajudavam, financeiramente, os demais familiares do Nordeste.
No início dos anos 1990, nas pastorais sociais, faziam-se críticas reflexivas sobre a situação em que se encontravam os nordestinos, apontando o poder econômico como dimensão central das concepções, que valorizavam em suas análises, questões gerais da economia, da política e da sociedade. Tais análises não abarcavam dimensões do dia-a-dia, das limitações, pensamentos e vida simples do cidadão em sua luta diária por seus sonhos e utopias. Por outro lado, esse questionamento aparece em um Jornal italiano, “O Manifesto”, do dia 8/11/ 1973, que traz um artigo da jornalista e política comunista Rossana Rossanda, que retrata esta questão:
A irracionalidade da doença, da solidão, da ilusão e da felicidade, tudo isso são coisas que os movimentos trabalhistas e revolucionários evitam considerar... Difícil, mas maduro, seria admitir que a condição humana suspensa entre a vida
195 Jornal “O Manifesto”, dia 8/11/1973, Roma/Itália. 196 Grifo da pesquisadora.
197 THOMPSON. Ed. A Formação da Classe Operária Inglesa. .Rio de Janeiro, Paz e Terra, Vol. 01,
2001.
198 MURCH. Walter. In um batter d’occhi. Una prospettiva sul montaggio cinematografico nell’ era
digitale. Lindau, terza ristampa, marzo 2005.
e a morte, o resquício indestrutível da individualidade no sofrimento humano, é fronteira obscura que delimita o caminho da emancipação política.195
Estas questões subjetivas permeavam as reflexões, no entanto para colocar na prática esta análise, nos anos de 1980 e 1990 não era possível, por não serem consideradas nas leituras sociais que se faziam, ao contrário eram aspectos menores, detalhes que não influenciavam nas análises de conjunturas realizadas.196
Com o passar do tempo, ao ingressar na PUC/SP, no ano de 1998, trouxe comigo o incentivo de estudar e compreender esses sujeitos sociais no mundo em que vivem, como enfrentam as transformações que se apresentam no cotidiano, as interpretações e narrativas das experiências vividas e não somente a sua organização sindical ou partidária.
Aproximei-se de uma nova forma de pensar a história. Através da professora Heloísa Faria Cruz, que me orientou e incentivou a direcionar meu olhar para uma maneira diferente de ver e fazer história, ou seja, valorizando o cotidiano dos trabalhadores, seus modos de vida, subjetividades, analisando esses sujeitos em seu fazer-se histórico com o propósito de incorporar a experiência humana dos vencidos como parte constitutiva da história, em que os sujeitos deixaram de ser objetos de estudo, para se afirmarem como sujeitos sociais, que se fazem na cultura e pela cultura.
Uma história outra, não dos vencedores, dos personagens em evidência, mas que considera os excluídos, os que vivem à margem como informa Edward Thompson no prefácio de sua obra A Formação da Classe Operária Inglesa A preocupação está em ir além daquela história em que apenas alguns vencedores são lembrados (...) Os becos sem saída, as causas perdidas e os próprios perdedores são esquecidos.197
Nesta trajetória não existe caminho, o caminho se faz ao caminhar e com um pouco mais de vivência em pesquisa, com a experiência do mestrado, ao invés de continuar com aquela “miopia”, assumi outra perspectiva no doutorado que me levou “mergulhar” numa outra reflexão, bem mais ampla e complexa, e por isso, mais profunda e difícil de se enfrentar.
Constitui-se um desafio para aquele que trabalha com a metodologia da História Oral, a construção de uma análise e seu texto final, em que não se veja apenas a formalidade e frieza acadêmica, mas o percurso vivido para realizar a pesquisa, as emoções encontradas no diálogo, dentro do processo, fazendo-se avançar o texto, com um ritmo e uma forma leve, descontraída, de acordo com o que Walter Munch designou “continuidade tridimensional”, ao fazer seu trabalho com montagem de cinema.198
Esta investigação não se faz conclusiva, para se compreender os modos de viver e de ser canudense na cidade de São Paulo, com pluralidade e experiências diversificadas. Torna- se fundamental a continuidade desta para se conhecer os sujeitos sociais na luta por direitos, enquanto canudenses, sabendo-se que este trabalho é um desafio a ser enfrentado.
Ao término desta Tese, algumas considerações são relevantes para a compreensão deste trabalho de pesquisa, no tocante aos objetivos, à verificação da possibilidade de os migrantes canudenses serem incorporados, nos estudos de uma história social e da cidade de São Paulo, constituindo-se como sujeito social, na luta por seus direitos, bem como apresentação de novas perspectivas, com relação aos novos modos de vida. Evidenciar a história social, que tem uma concepção de modo de viver e de lutar como cultura, permite que se possa chegar aos canudenses migrantes, suas experiências e subjetividades.
Esta pesquisa realizada objetivou, de modo geral, discutir sobre as experiências de canudenses, com uma dimensão política, no sentido de vê-los em suas diferentes formas de ser e viver e não como uma unidade homogênea.
O estudo indicou que estudar os canudenses hoje, significa não dar visibilidade especificamente a eles, somente, porém, junto com eles, no diálogo com eles, explicitar as diversas maneiras de viver a cidade, na afirmação de serem sujeitos, significa reconstruir pontos de vista, dimensões de lutas que afirmam o viver, apontando inclusive perspectivas de futuro diferenciadas. Neste sentido não é somente a história deles, eles são sujeitos sociais que são singulares, constroem uma história que é compartilhada porque eles vivem socialmente e trazem à tona visões e experiências outras, dimensões outras.
Especificamente, foi possível compreender os modos de viver dos migrantes canudenses e suas trajetórias de vida, os processos de construção não só dos modos de vida, mas também, a permanente disputa por espaços, territórios, visões de mundo e símbolos, na afirmação de serem migrantes canudenses e sua cultura como resistência, uma visão e prática diferenciada de viver e estar na cidade.
Entendeu-se que tais modos de vida, a disputa por espaços e visões de mundo, causaram de certa forma, um estranhamento, mas possibilitaram um conjunto de narrativas, dentro de uma situação dialógica, entre pesquisador-narrador, que contribuíram para modificar uma concepção de homogeneidade do ser nordestino. E ao mesmo tempo, contribuir para questionar concepções estereotipadas do nordestino, um ser faminto, pedinte, e naquela visão, o mesmo seria conformista, passivo, inferior e sem progresso.
Ao lado desta questão do deslocamento, do desenraizamento, da migração, há um outro aspecto que deve ser considerado: estes migrantes que são nordestinos e são canudenses, são também, de certa forma, nordestinos, e paulistanos, nordestinos-paulistanos, pelo fato de neles se articularem valores de suas culturas, recriações destas, enriquecidas com a vivência na cidade de São Paulo.
forma significa uma auto-afirmação e assim é referenciada uma memória, uma história que é deles. Isto significa que há Histórias... Memórias... Outras histórias... Muitas Memórias.
Diante destas considerações, constatou-se que se abrem outros leques de reflexões, pois o que há na verdade, é uma vontade audaciosa de que as muitas memórias apareçam nas histórias que se escreve, inclusive, com uma consciência mais profunda, sobre o potencial da memória nos processos vividos e narrados. Verificou-se também que esses processos valorizam a memória com a sua multiplicidade, com sua forma fragmentada e dividida, expressa nas narrativas dos sujeitos sociais.
No que se refere à trajetória dos canudenses e àquela visão estereotipada, outros valores foram adquiridos e dialogam com as experiências destes, em seu constituir-se histórico. Um valor, positivado, a partir da década de 1990, com as movimentações do centenário de Canudos, viabilizou a elaboração de uma nova concepção do migrante canudense, na pluralidade e heterogeneidade.
Conclui-se assim, por tudo que foi visto, sob uma nova ótica, ou seja, a Historia Social com a metodologia da História Oral, que o sujeito social é aquele que constrói modos de vida, e se reconstrói, (re) elaborando suas memórias e experiências, no tecido das relações sociais, num campo de conflitos e tensões; por isso deve ser reconhecido por múltiplas vozes em seu fazer-se histórico.
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