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Anticipated results, impacts and societal outcomes

A partir desse exemplo, destaca-se a relação entre o desenvolvimento da mídia e a produção de trabalhos sonoros para criança. É fácil compreender que o autor de uma determinada obra − seja ela musical, escrita ou televisiva − deva pensar nos diversos aspectos que caracterizam a mídia para a qual ela se destina, assim como em muitos outros propósitos, no momento de sua produção. Ao refletir sobre esse processo, interessa aqui analisar algumas das forças que atuam na relação do desenvolvimento tecnológico da mídia com a produção de trabalhos dedicados ao público infantil, oferecendo, através das escolhas teóricas que se colocam ao longo do texto, não só uma forma de se compreenderem os movimentos da historiografia do objeto de pesquisa escolhido, mas também uma proposta para o entendimento de determinados aspectos ligados ao ambiente comunicacional de hoje.

Como se viu, a popularização da televisão determinou uma mudança no formato da grande maioria das produções musicais infantis.

Até certo momento, a gravação de mídia sonora para crianças no formato de narração de historias consumia uma parte expressiva dos recursos e da estrutura da cultura de massa. É bem verdade que a gravadora Phonogram não existe mais, mas, naquela época, ela gravava artistas entre os mais renomados do país como Elis Regina, o próprio Chico Buarque e Edu Lobo e até mesmo as trilhas sonoras de novelas da já naquela época a maior rede nacional de televisão. Músicos, produtores e escritores consagrados tinham iniciativas nesse gênero de

produção e podiam contar com as grandes gravadoras para desenvolvê-las. Hoje, esses trabalhos estão à margem da indústria cultural.

Até a década de 1960, a chamada comunicação de massa no Brasil ocorria primordialmente através do rádio, uma mídia sonora, e isso se manteve, mesmo com o advento da televisão, em 1950. Com a popularização da televisão, em termos quantitativos, o rádio foi totalmente suplantado (SODRÉ, 1986: 9). A partir da década de 1970, a televisão começa a apresentar altíssimos índices de audiência o barateamento dos aparelhos, ,a posse da televisão chegou a quase 100% dos domicílios brasileiros. Já no final da década de 1990 sua penetração superaria a do rádio, que é tanto mais antigo quanto mais barato.

quadro 1 − Proporção de domicílios que possuem equipamentos de tecnologia da informação e comunicação (percentual sobre o total de domicílios)

0,09 0,61 5,36 15,93 16,30 17,78 19,30 49,69 67,64 89,61 97,03 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 computador de mão (palmtop etc.) computador portátil (laptop etc.) televisão a cabo antena parabólica console de jogo (video-

game etc.) telefone celular com

acesso à internet computador de mesa (desktop) telefone fixo telefone celular rádio televisão

base total: 10.510 domicílios entrevistados

projeção para cálculo de valores totais: 53,1 milhões de domicílios, segundo estimativa realizada com base na PNAD, 2005

O crescimento do audiovisual − ou sua hegemonia, como dizem alguns autores − não é assunto novo, mas certamente tem uma relação muito próxima com a história da mídia sonora para crianças. Com o desenvolvimento do mercado de consumo, a criança passa a ser gradativamente um elemento de prospecção da comunicação publicitária. É todo um universo de produtos e serviços para crianças que entram na escala da produção massificada e que precisam ser escoados. A segmentação e a especialização para a qual se desenvolveu o conceito de “consumidor” mudou a ótica pela qual o mercado via a criança. Além de um prospect, ou seja, um consumidor potencial, o que se vê é um futuro consumidor que precisa ser formado.

A necessidade de se garantir proteção especial à criança foi enunciada pela Declaração de Genebra, de 1924, sobre os Direitos da Criança. Tardiamente, a legislatura internacional reconhecia a necessidade de uma estrutura jurídica que contemplasse as suas peculiaridades. Muito rapidamente, o mercado veria a necessidade de estratégias específicas voltadas para o público infantil.

1.3.1 O desenvolvimento do mercado global e a cultura

de massa

Na década de 1930, nos Estados Unidos, a criação da cultura de massa15 era uma resposta ao rápido crescimento e à complexificação do mercado global. No Manifesto Comunista, escrito em 1847, Marx e Engels já alertavam para dois importantes pilares do sistema capitalista industrial que sustentaram sua expansão e influenciaram diretamente a cultura dos diversos países do mundo − o desenvolvimento da tecnologia da produção e o progresso dos meios de comunicação.

15 “É no amanhã da II Guerra Mundial que a sociologia americana detecta, reconhece e denomina a

cultura de massa. Ela se desenvolve sob um estilo simples, claro, direto, que visa tornar a mensagem transparente e conferir-lhe uma inteligibilidade imediata. Se inscreve num complexo sociológico constituído pela economia capitalista, a democratização do consumo, a formação e o desenvolvimento de um novo assalariado que constitui uma classe média de colarinho branco, isto é, pessoas que trabalham em firmas, e na progressão dos valores dessa classe média, que já se diferencia da antiga classe média formada por pequenos proprietários, pequenos artesãos e camponeses” (MORIN, 1962: 42).

O crescimento exponencial da produção observado após a revolução industrial está calcado no aperfeiçoamento dos instrumentos de produção. A revolução dos processos produtivos que atingiu a agricultura e a indústria e a revolução nos transportes associada ao crescimento populacional na Inglaterra do século XVIII impulsionaram a atividade comercial, tornando-a cada vez mais lucrativa (HUBERMAN, 1936: 172). Mas o desenvolvimento da tecnologia para produção nunca cessou. O número de empresas que surgia no mercado crescia de forma igualmente rápida. O escoamento da produção industrial precisava de um mercado consumidor que fosse capaz de assimilar uma imensa demanda de produtos e que aumentava exponencialmente ano após ano.

Quando Marx e Engels diziam que, “devido ao rápido aperfeiçoamento dos instrumentos de produção e ao constante progresso dos meios de comunicação, a burguesia arrasta para a torrente de civilização mesmo as nações mais bárbaras”, usavam o termo “comunicação” no sentido de meios e vias de transporte, mas a frase insinua um nexo conceitual que persiste na discussão atual de comunicação: o que tem a ver comunicação com civilização?

Se se entende por civilização a expansão européia, iniciada no Renascimento, de práticas para o domínio da natureza, produção de mercadorias, criação de formas de viver, representações de valor, ciências e artes, resulta inegavelmente que era necessária toda uma serie de processos de mediação para produzir uma realidade para a qual finalmente se viram arrastados povos muito longínquos. Da palavra “arrastar”, podemos inferir uma intenção: a comunicação surge como um fim burguês que arrasta uma abstração personificada − “as nações mais bárbaras” − a uma outra abstração − “a civilização”. Esse exemplo ilustra uma determinada conceituação da comunicação que chamamos de “comunicação intencionada”, que, nessa acepção, serve como meio para uma intenção (PROSS, 1990: 103-105).

1.3.2

O desenvolvimento da técnica

O desenvolvimento dos meios de comunicação atende, de certa forma, à necessidade de uma mediação mais efetiva das intenções de uma nova

burguesia que se fortalece após a II Guerra Mundial e que orienta sua ação no mundo a partir das estratégias da cultura da massa.

Esse significado do termo “comunicação” volta-se principalmente ao estudo das técnicas de transmissão, pressupõe pelo menos dois participantes no processo − o emissor e o receptor − e ainda que ambos desejam superar o mais rapidamente possível o espaço e o tempo com mensagens. O que se transmite interessa em sentido físico. Assim, deve-se melhorar o instrumento de transmissão, posto que, com a facilitação das comunicações, facilita-se a mediação de qualquer intenção. O termo técnico que designa o que é transmitido ou mediado é “informação”. Entretanto, os cientistas que se vêm ocupando do aperfeiçoamento dos sistemas de mediação têm se cado antes a gerar conexões ótimas do que a estudar em que consiste a comunicação (PROSS, 1990: 105-108).

Através da teoria da comunicação, pode-se elucidar parcialmente o contexto em que se deu o desenvolvimento tecnológico da mídia. Ao tratar a informação no seu sentido físico se concentra o pensar a comunicação em função do desenvolvimento da técnica de se transmitir algo daqui para lá.

Por um lado, esse esforço permitiu que a transmissão de informações se ampliasse exponencialmente em quantidade, cobrindo áreas cada vez maiores e muito depressa, e viabilizou o surgimento de aparatos eletrônicos com diversos tipos de linguagem – o disco, o rádio, a televisão e, hoje, a linguagem multimídia, que, além de ser interativa, possibilita até sensações táteis, como no caso de determinados vídeo games e computadores.

Por outro lado, seus incríveis resultados tecnológicos concorreram durante muitos anos para que toda a discussão sobre a comunicação humana se voltasse para o desenvolvimento da mídia e do mercado. Enquanto isso, as discussões que buscavam um aprofundamento sobre os efeitos e os desdobramentos desse desenfreado desenvolvimento na vida das pessoas foram relegadas às prateleiras das bibliotecas universitárias.