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The winner´s curse

In document GRA 19502 (sider 12-15)

4.1 Asymmetric information theories

4.1.1 The winner´s curse

Toda interação comunicativa representa um processo simultaneamente local e global, mas o que se observa, tradicionalmente, é que existem pesquisadores especializados no estudo pormenorizado da organização social do sistema interacional, que diminuem a importância de conceitos, teorias e argumentações macrossociais, preferindo construir uma ciência do humano autodelimitada a uma perspectiva interacionista; outros, por sua vez, depositam sua confiança em categorias estruturais como população, classe social, status, norma ou instituição e omitem levar em consideração os padrões comunicativos e a dinâmica interpessoal das cadeias de interações rituais pelas quais os agentes sociais, continuamente, constroem seu mundo vivido e negociam suas relações sociais, dando origem e continuidade às propriedades (emergentes) da estrutura social.

Os adeptos de cada paradigma tendem a acreditar que seu fazer científico focaliza as dimensões analíticas que explicam adequadamente todas as outras dimensões. Explica-se, assim, porque a subdivisão das ciências sociais em disciplinas específicas deu origem a campos rivais que se distinguem pela produção de conhecimentos técnicos especializados e a falta de visão global cada vez mais evidente. Feita essa observação, não é de se admirar que seja preciso procurar bastante por trabalhos empíricos que sabem pôr os mundos micro e macro num equilíbrio delicado, enquanto não é muito difícil encontrar estudos pormenorizados sobre os quais se pode dizer que o conhecimento profundo neles apresentado restringe claramente o desenvolvimento de um conhecimento mais amplo. De uma maneira ou outra, ambos os paradigmas preocupam-se com aspectos da competência social e/ou comunicativa, mas separados por diferentes liturgias acadêmicas e procedimentos protocolares de investigação, ignoram-se mutuamente ou, em caso pior, adotam seus quadros teóricos como um objeto de fé e, em seguida, combatem-se em cruzadas e jihads ideológicas contra a suposta apropriação da “verdade” pelo respectivo outro.

Em resumo: há de se admitir que os paradigmas concorrentes que dividem as numerosas teorias especializadas de acordo com categorias como micro vs. macro, ação vs. estrutura, determinismo vs. voluntarismo, objetividade vs. subjetividade ou competência vs. desempenho, com certeza, fornecem convenções facilmente reconhecidas e ocupam um lugar importante no pensamento das

atividades linguageiras e do universo social; mas, ainda assim, é legítimo defender a opinião de que, uma vez estabelecidas, essas dicotomias tendem a obscurecer mais do que esclarecer a complexidade da vida social. De fato, ao estruturar o campo discursivo das ciências humanas, hoje em dia (depois de décadas de um extremismo teórico oscilando entre as visões micro e macro), elas delimitam mais do que facilitam as possibilidades de formular proposições novas. Ora bem, as teorias que se baseiam numa interpretação polarizadora desses conceitos dicotômicos favorecem inevitavelmente certos tipos de enunciação enquanto dificultam ou impedem todos os outros. Desse modo, o emprego “inocente” dessas categorias deixa o status quo da ordem do discurso científico intacto e atrasa o avanço da compreensão teórica em direção a uma visão mais holística que interprete as categorias mencionadas como pontos extremos de um contínuo e não como pólos opostos.

Levando tudo isso em consideração, vê-se que a importância do presente trabalho pode, sinteticamente, ser avaliada por sua relevância em relação a três problemas correlacionados: um, no nível metateórico, que – repousando na relação dinâmica entre a ação individual e as estruturas sociais (micro vs. macro; voluntarismo vs. determinismo) – diz respeito aos pressupostos epistemológicos relacionados com as diferentes linhas de pensamento que percorrem o campo de pesquisa em questão (a produção prática permanente da ordem social nas sequências interacionais e/ou o caráter determinante de algumas circunstâncias macrossociais); outro, no nível teórico, que trata das unidades analíticas a serem estabelecidas nos contextos teóricos relevantes e dos conceitos necessários para a definição, classificação e explicação delas; e um terceiro, no nível empírico, que se refere à descrição e explicação das funções discursivas da moral em eventos discursivos caracterizáveis como fofoca.

Claro que nenhuma questão nunca se resolve de modo perfeito, completo e intocável. Ao contrário, parece-nos que a vida se constitui de uma corrente infinita de questões. Vale dizer, portanto, que o esforço necessário para realizar essa investigação de modo teorica e empiricamente complexo não se justifica apenas pelas contribuições para um tema muito interessante, mas – no contexto brasileiro – pouco explorado, mas também pela importância do tema para aplicações futuras

no ensino e na formação profissional que deveriam incluir discussões sobre as habilidades metacomunicativas que, no inglês, são denominados, tão apropriadamente, com o termo impression management. Acreditamos que muitas dificuldades tanto com a manutenção da individualidade quanto com a integração a um grupo têm sua origem na ausência de uma consciência das estratégias convencionais de representação que organizam nossas identidades no cotidiano. As chances de conquistarmos nosso espaço e o respeito dos outros dependem, em grande parte, do conhecimento da ordem interacional de um grupo social em todas as suas variadas dimensões. Isso significa que as pessoas devem ter a oportunidade de adquirir a capacidade interpretativa necessária ao pleno desenvolvimento da personalidade e da competência cultural. O gênero fofoca, amplamente conhecido e frequentemente usado, é um objeto ideal para demonstrar, de modo inequívoco, como as pessoas criam a ilusão de que, pelo menos no seu cotidiano, tudo que se passa normalmente está na ordem natural das coisas.

Nosso trabalho é relevante na medida em que mostra os caminhos para a classificação e descrição crítica de um gênero oral. Acreditamos que o estudo aprofundado e exaustivo das múltiplas dimensões do nosso objeto fornece subsídios valiosos para uma melhor compreensão do desenrolar e das características de conversas cotidianas. Diante dos problemas da exclusão social no país, é oportuno mencionar também que nosso tema vem ao encontro de um interesse atual da comunidade acadêmica que discute intensamente como a competência cultural e o capital linguístico socialmente rentável contribuem com a formação da identidade e com a manutenção da ordem social. Finalmente, o trabalho representa uma contribuição original ao estudo das práticas discursivas, pois o estudo pormenorizado dos gêneros primários, devido aos problemas operacionais e a falta notória de recursos materiais, ainda é bastante negligenciado no âmbito das ciências humanas brasileiras.

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