Para terminar este capítulo introdutório, convém ainda fornecer, ao nosso leitor, uma visão geral sobre a organização desse trabalho para que ele possa acompanhar, com mais facilidade, o desenrolar da nossa argumentação. Como
forma de atingir os objetivos propostos e de responder às perguntas que surgiram no decorrer dessa pesquisa, a tese apresenta-se dividida em onze capítulos. Uma vez que o conhecimento de estudos e de abordagens relativo à (re)produção discursiva da moral não pode simplesmente ser pressuposto, é oportuno iniciar o segundo capítulo com algumas considerações sobre os conceitos-chave de ética, moral e moralidade, que ocupam os pensadores desde a Antiguidade, e apresentar, em seguida, as teorias principais sobre o papel da moral na integração da sociedade. Mais concretamente, mostramos como as explicações funcionalistas e neomarxistas se assemelham na estratégia de explicar as forças coesivas na sociedade pela internalização de normas e valores socioculturais. Contrastando radicalmente com essas posições teóricas tradicionais, as abordagens da sociologia de conhecimento e da teoria dos sistemas sociais não compreendem a moral como uma realidade interna, um conjunto fixo de regras e normas interiorizadas, mas como uma prática social ou um processo comunicativo que se caracteriza por estruturas, formas e conteúdos próprios. Assim sendo, a sociologia de conhecimento focaliza os repertórios discursivos dos membros de uma sociedade e analisa como eles usam a moral concretamente em eventos discursivos (como fofocas) para realizar avaliações sociais dos seus semelhantes. A teoria dos sistemas sociais pergunta, além disso, qual é o papel da comunicação moralizante numa sociedade moderna funcionalmente diferenciada, chegando à conclusão de que a moral é um meio comunicativo simbolicamente generalizado que diminui a contingência do mundo e, desse modo, aumenta a probabilidade do êxito da comunicação.
O terceiro capítulo, então, expõe resumidamente o desenvolvimento histórico de um quadro epistemológico que se estende do positivismo ao construtivismo para apresentar, em seguida, algumas considerações metateóricas sobre os dois grandes paradigmas científicos que, nas últimas décadas, vêm se ocupando de uma explicação científica da constituição da ordem social. Também, focalizaremos, nesse capítulo, os aspectos mais interessantes da problemática micro vs. macro, que motivou a nossa pesquisa. Enfim, apresentaremos a possibilidade de usar o discurso em geral e a noção do gênero comunicativo em particular como elo entre o agir individual e as estruturas sociais.
O quarto capítulo fornece uma visão geral sobre as diferentes teorias interpretativas utilizadas para abordar as interações entre participantes da cena social cotidiana. Inicia-se esse capítulo com algumas observações sobre o papel fundamental que a linguagem e o senso comum têm na vida social das pessoas e na reprodução e manutenção da ordem social vigente. Em seguida, discutimos alguns dos problemas terminológicos mais persistentes nas pesquisas qualitativas das interações conversacionais. Mais concretamente, consideramos oportuno lançar uma luz sobre duas formas de comunicação verbal que, tradicionalmente, destacam- se entre as práticas sociais interativas que envolvem a fala como modalidade de uso da língua, nomeadamente: o diálogo e a conversação, que representam os conceitos-chave de abordagens mais prescritivas (cf. BURKE, 1993) ou mais descritivas, respectivamente, das atividades linguageiras humanas. Além disso, determinamos a diferença essencial, num primeiro momento, entre as categorias de discurso e de texto e, num segundo, entre a oralidade como um conjunto de práticas sociais (que se distinguem das práticas de letramento) e a fala como uma modalidade de uso da língua (que se distingue da escrita). Finalmente, estabelecemos as categorias de contexto e de linguagem como duas dimensões fundamentais do discurso, que – como argumentamos – determinam o gênero e o registro de um enunciado. Introduzidos os conceitos básicos que podem servir de substrato e dar carne aos esqueletos teóricos esboçados no capítulo metateórico e em nossas considerações epistemológicas, é oportuno focalizar, nas secções da segunda parte desse capítulo, essas abordagens descritivas que, no passado, desenvolveram as ferramentas conceituais e metodológicas mais ricas para produzir conhecimentos sobre a conversação como uma atividade cotidiana espontânea pela qual as pessoas realizam rotineiramente seus propósitos (microperspectiva). Particularmente, explicamos, em linhas gerais, as propostas da análise da conversação, da etnografia da comunicação, da teoria da contextualização, da etnometodologia e do interacionismo simbólico.
No quinto capítulo voltamos nossa atenção para as diferentes abordagens acolhidas sucessivamente num grande “guarda-chuva” chamado de análise do discurso. Esclarecemos os pressupostos metodológicos e fenomenológicos desse empreendimento científico tão diversificado e identificamos alguns objetos de pesquisa que foram focalizados, recentemente, com uma
frequência maior. Entre eles, encontram-se também os chamados gêneros discursivos, textuais ou comunicativos cuja conceituação é central para o desenvolvimento da nossa argumentação. Como no capítulo anterior, ocupamo-nos das conversações cotidianas, mas desta vez sob o aspecto da semântica mais global do discurso cotidiano. Em outras palavras: nesse capítulo, vemos as atividades conversacionais predominantemente como uma prática sociocultural- mente contextualizada que contribui na construção discursiva da nossa realidade (macroperspectiva). Com esse intuito, discutimos, então, a dimensão ideológica da linguagem e apresentamos, em linhas gerais, os princípios teóricos e metodológicos da linguística sistêmico-funcional e da análise crítica do discurso. Ao apresentar, nos capítulos quatro e cinco, as disciplinas sociológicas e linguístico-discursivas mais relevantes para os propósitos da nossa pesquisa, lançamos os alicerces para um exame empírico de instanciações concretas de padrões interacionais e discursivos, desse modo, para uma compreensão melhor da produção discursiva da moral no gênero fofoca.
O sexto capítulo, então, esclarece, numa digressão longa, os conceitos e pressupostos principais da teoria dos sistemas sociais de Niklas Luhmann (1984 e 1997) e familiariza o leitor um pouco com o estilo argumentativo labiríntico que esse autor adota para explicar a complexidade sempre crescente das sociedades modernas. Justifica-se essa introdução a ideias básicas pertinentes à perspectiva sistêmica de Luhmann pelo simples fato de que sua teoria é ainda terra incógnita para a maior parte dos pesquisadores linguistas e sociólogos no Brasil. (Na área do direito e, recentemente, da ciência de comunicação, a situação é um pouquinho diferente). Por mais lamentável que essa situação seja – dez anos depois da morte do sociólogo alemão talvez mais criativo desde Max Weber e diante da extraordinária importância do seu oeuvre de mais que quatorze mil páginas – ela não é, de maneira alguma, uma exceção ou, até mesmo, um “escândalo acadêmico”. Muito pelo contrário, as dificuldades na tradução da terminologia hermética de Luhmann e o seu estilo nada fácil de exprimir ideias muito complexas provocaram semelhante recepção retardada, por exemplo, nos paises anglófonos e castelhanofalantes. Nas tradições científicas existentes nesses idiomas, os problemas intrínsecos aos textos de Luhmann foram superados apenas aos poucos, sobretudo com a publicação de glossários e introduções coadjuvantes que facilitam
o estudo da teoria sistêmica luhmanniana e a adoção de um quadro de referência sistêmico nas pesquisas empíricas das mais diversas áreas.
É impossível dar, num único capítulo, uma visão geral sobre o que é chamado, desde os anos sessenta do século recém-passado, de “novo pensamento sistêmico” (BERTALANFFY, 1975, 1982; MATURANA & VARELA, 1997, 2004) e, muito menos ainda, sobre todos os domínios da vida social os quais Luhmann analisou pormenorizadamente e de forma muito original. Logo, contentamo-nos, naturalmente, com esses aspectos e ideias centrais cuja compreensão é necessária para poder explorar os pontos de convergência extremamente profícuos que detectamos entre a abordagem funcional-estruturalista de Luhmann e as abordagens interpretativas, especialmente, no âmbito da análise da conversação e do interacionismo simbólico.
No sétimo capítulo, então, fazemos uma incursão pela literatura (sociológica e antropológica) relevante para o estudo do mexerico, dando uma visão geral especialmente sobre as abordagens funcionais e estratégicas desse gênero, a teoria evolucionária da fofoca e a questão da correlação entre o preconceito social e a fofoca. Ao discutir resumidamente os conhecimentos obtidos à luz das teorias já desenvolvidas, ganharemos um suporte imprescindível para a explicação e discussão dos resultados empíricos obtidos em nossa própria análise de dados. Além disso, acreditamos que essa revisão da literatura secundária sobre o mexerico não situa apenas o presente trabalho num vasto campo de pesquisa, mas será proveitosa também como base teórica e referência bibliográfica para futuros trabalhos acadêmicos que queiram explorar ainda outros aspectos dessa história sem fim. É de se esperar que essa utilidade seja percebida como tal, particularmente, na pesquisa em língua portuguesa, na qual estudos sobre a fofoca (ainda) são muito escassos.
O oitavo capítulo legitima, primeiramente a abordagem interdisciplinar da pesquisa e explica a lógica da pesquisa empírico-qualitativa da cena social cotidiana. Defendemos uma visão construtivista do mundo, que parte do princípio superior que os dados averiguados pelo pesquisador não independem dele, mas são produzidos pelas suas teorias e pelos seus instrumentos metodológicos e tiramos,
dessa visão, um propósito prático do nosso trabalho que é promover uma consciência crítica quanto ao papel da linguagem nas práticas sociais cotidianas. Em seguida, explicamos os principais passos metodológicos do nosso trabalho com a fofoca. Nesse passo, é importante também incorporar considerações éticas e legais sobre a coleta de dados conversacionais. O capitulo termina, então, com explicações pormenorizadas sobre o arquivamento e a transcrição dos dados, assim como sobre os princípios da análise interpretativa de dados.
Os últimos três capítulos dedicam-se inteiramente a um estudo de caso que demonstra exemplarmente a fertilidade da abordagem transdisciplinar e multimetodológica desenvolvida nos capítulos anteriores. Desse modo, apresentamos os resultados da nossa análise de dados enriquecidos com as observações relevantes feitas na pesquisa de campo. De uma maneira geral, o presente trabalho está mais voltado para ilustrar a coerência dos argumentos teórico-epistemológicos referidos que propriamente para a análise exaustiva de um grande corpus de dados. Portanto, no nono e no décimo capítulos, utilizamos as ferramentas conceituais e os procedimentos metodológicos das teorias mais ortodoxas apresentadas no quarto e quinto capítulo (isto é: a análise da conversação, a etnografia da comunicação, o interacionismo simbólico, linguística sistêmico-funcional etc.) para desenvolver uma abordagem qualitativa que demonstra de que modo os interactantes produzem sentido nos episódios conversacionais em análise e, além disso, exprimem suja subjetividade, sua percepção de probabilidade, obrigação e comprometimento; suas atitudes e avaliações.
Para demonstrar um típico protocolo metodológico qualitativo, analisamos alguns episódios interacionais com instanciações do gênero fofoca, os quais foram gravados em situações autênticas de interações conversacionais e transcritos com a ajuda do editor de partituras EXMARaLDA (SCHMIDT, 2001 e 2004). Por outras palavras: lançamos mão da heurística das abordagens sociodiscursivas mencionadas para mostrar, através de exemplos selecionados, como a fofoca pode operar num contexto específico em nossa vida cotidiana (nível micro), fazendo seu jogo com identidades e papéis discursivos e sociais e contribuindo para a
reprodução de crenças e valores que normalizam a realidade social dos agentes sociais.
No décimo primeiro capítulo, aplicamos, então, a caixa de ferramentas da teoria sistêmica para demonstrar empiricamente a necessidade de que a ordem interacional e o sistema da sociedade sejam estudados a partir de uma perspectiva de maior complexidade. Visando a esse propósito geral, explicamos as funções que o mexerico assume com relação à reprodução parcial da moral da sociedade (nível macro ou contexto sociocultural). Discutimos, nesta seção, particularmente a questão da autodeterminação do sistema interacional e dos mecanismos pelos quais ocorre a reprodução interativa de aspectos contextuais. Nisso, focalizamos também o papel que o gênero comunicativo pode assumir na coordenação de interações em comunicações que se caracterizam pela flexibilidade e espontaneidade das suas operações.
Nas considerações finais, então, resumimos os resultados obtidos no decorrer da nossa pesquisa, assim como as questões ainda abertas. Tirando as devidas conclusões do nosso estudo inovador para o contexto brasileiro, ressaltamos a importância do estudo de gêneros orais e da aplicação da teoria dos sistemas em pesquisas sociodiscursivas e trabalhos interdisciplinares sobre o uso da linguagem em contextos específicos. Finalmente, lançaremos alguns desafios para futuras pesquisas os quais se colocam naturalmente em consequência do nosso trabalho necessariamente inacabado.
Em resumo: o presente trabalho pretende inscrever-se numa ciência do humano que visa superar o fracionamento artificial das ciências humanas e sociais e contribuir com uma cultura científica transdisciplinar ou, pelo menos, pluralista que busca compreender a vida social dentro da sua complexidade. Consideraremos nossa tarefa cumprida se o leitor tiver prazer numa leitura crítica da nossa proposta e chegar à conclusão de que um estudo compreensivo do gênero fofoca deve basear-se, necessariamente, numa pluralidade de referências teóricas e disciplinares e explorar linhas muito diferentes de pesquisa.