2. CONCEPTUAL FRAMEWORK
2.2. THE VEIL OF IGNORANCE
A partir de 1957, o crescimento do número de novos periódicos desportivos atenuou, sendo nessa altura e até ao fim do Estado Novo, sempre inferior a dez novos por ano. Este fator deveu-se à hegemonia conquistada pelos jornais A Bola, Record, Mundo Desportivo a nível nacional e o Norte Desportivo (Porto), A Voz de Coimbra (Coimbra) e Angola
Desportiva (Luanda) a nível regional, que haviam acalmado as suas posições de litígio
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Aproveitando esta situação, estes jornais procuraram consolidar a sua posição. O Record em Dezembro de 1964 passaria a 20 páginas. Recordemos que, quando da sua inauguração em 1949, este jornal tinha apenas oito. No verão seguinte, a Volta a Portugal em Bicicleta ganhou especial atenção, tendo-se publicado a primeira infografia com a descrição das etapas – um aspeto inovador para a imprensa portuguesa de então.
Durante esta altura, e com a conquista de duas Taças de Campeões Europeus pelo Benfica, em 1961 e 1962, e da Taça dos Campeões das Taças pelo Sporting, em 1964, houve uma grande exaltação dos intervenientes que conquistaram esses títulos, ao ponto de os media os distinguirem quase como heróis e, figuras essenciais na edificação das identidades desportivas ao nível da identidade nacional. (Pinheiro, 2010, p. 327 e 328) Esse efeito alastrava aos praticantes de outras modalidades, embora não com tanto peso ou notoriedade como o futebol que, desde os anos 20, se destacava como a modalidade principal aos olhos dos adeptos.
Assim, notava-se um certo sentido patriótico no discurso dos jornalistas, principalmente depois de iniciada a Guerra Colonial. Por exemplo, A Bola revelou sempre uma “preocupação constante com os valores nacionalistas ligados ao futebol, nomeadamente nas páginas de A Bola” (Coelho, 2001, p. 110) pelo que surgiram na generalidade dos periódicos desportivos “formas mais ou menos óbvias de legitimação da manutenção das colónias portuguesas” (Coelho, 2001, p. 111).
Outro fator que marcou este período foi o aparecimento de alguma conturbação entre os periódicos lisboetas e portuenses. Alguns jornalistas da cidade nortenha acusavam os jornais da capital de favorecimento claro ao Sporting, Benfica e até ao Belenenses. (Pinheiro, 2010, p. 359) É de salientar que este período ficou marcado por um número baixo de conquistas por parte do FC Porto, ao nível do futebol que, apesar disso, era o único clube que rivalizava com os clubes lisboetas.
Em relação aos Serviços de Censura, nesta altura, obrigavam o jornal a avisá-los se queriam mudar de diretor, inovar o grafismo, modificar a periodicidade, ou os dias da semana a que saíam, o que provocou problemas com o Mundo Desportivo, visto que a resposta dos serviços do Estado Novo demorava e, por isso, este jornal fez alguns incumprimentos das leis. Já o jornal A Bola, durante a década de 1960, esteve afastado de problemas com a Censura.
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Por outro lado, já em finais de 1959, se discutia a possibilidade de se alargar a carta profissional aos jornalistas desportivos de periódicos não generalistas, que nesta altura eram vistos como uma classe inferior e “uma autêntica escola de jornalismo” (Pinheiro, 2010, p. 334). A situação agravava-se, quando era necessário creditação, para assistir aos eventos desportivos, visto que não lhes era concedida a carta profissional, pelo que, muitas vezes, os jornalistas dos jornais ou revistas desportivas não conseguiam assistir a esses eventos.
No ano de 1965, quando já se adivinhava a possibilidade de Portugal participar na fase final do Campeonato do Mundo, essa preocupação voltou, tendo Fernando Soromenho sido convidado a participar num congresso em Budapeste, na Hungria, onde se insistiu na criação de um órgão associativo em Portugal. (Pinheiro, 2010, p. 335)
Esse debate permitiu e originou que, em Maio de 1955, na Casa de Imprensa em Lisboa, se realizasse uma reunião com vista à criação de um órgão de classe dos jornalistas desportivos. Nesse evento participaram Fernando Soromenho, do Diário de Lisboa, Artur Agostinho, diretor do Record, Vítor Santos, chefe de redação de A Bola, Vasco Resende, do Norte Desportivo e Couto dos Santos do Mundo Desportivo. No entanto, só após o 25 de Abril se daria a carteira profissional aos jornalistas. Nesta altura, só era merecedor de uma carteira profissional quem trabalhasse num jornal publicado diariamente, visto que, só através do labor diário, se podia receber um estatuto oficial perante o Estado. (Sousa, 2008, p. 117)
Em 1966, devido ao Campeonato do Mundo de Futebol, onde participava Portugal pela primeira vez na história, os media direcionaram os seus esforços para o acompanhamento do Mundial de Inglaterra pelo que, todos os principais periódicos desportivos enviaram fotógrafos, jornalistas e redatores.
Já em 1970, a situação política do país agravava-se, enquanto a guerra colonial continuava. Por causa disso, no 25º aniversário de A Bola, em 1970, o jornal apresentava uma posição firme com “rigor, objetividade e isenção”, em relação à instabilidade política vivida no país.
Nos finais da década de 1960 e principalmente na década de 1970, surgiram os primeiros sinais de mudança do discurso jornalístico, já não assente na missão da causa desportiva, mas sim preocupado com as vendas, o lucro e a publicidade, visto que foi nesse período
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que as sociedades comerciais começaram a ser proprietárias das publicações periódicas desportivas. (Pinheiro, 2010, p. 337)
Em 1972, o Record passou a trissemanário e a publicar também às quintas-feiras, dia em que saía também A Bola. Não obstante, nesse ano, A Bola era claramente o periódico com maiores tiragens e, em Julho, foi distribuída pelas suas 14 edições uma tiragem de 1 841 721 (Pinheiro, 2010, p. 339).
No ano seguinte, com o aumento de 50% do preço do papel, os jornais passaram por algumas dificuldades e, no jornal A Bola, o preço de venda do jornal passou a dois escudos e meio e no Record a três escudos e meio.
Na rádio e televisão, as constantes transmissões de jogos que ocorreram já desde os inícios da década de 1960, provocaram críticas a estas duas plataformas, acusadas de negligenciar os outros desportos devido ao futebol, que elevavam a desporto-rei.
Porém, com as transmissões dos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, dos Campeonatos do Mundo de Futebol de 1966 e 1970 e dos Campeonatos Europeus de 1968 e 1972, o desporto constituía um agregar de audiências e adeptos, pelo que os media desportivos começaram a ganhar maior audiência, o que viria a ter repercussões também no aumento das tiragens médias diárias e anuais dos periódicos, principalmente na altura destes eventos de grande relevância e de aglomeração popular.