1. Death and method
1.1. The task of philosophy: fundamental ontology
Figueiredo (1998) em seu livro Construção de identidades pós-coloniais na
literatura antilhana apresenta o crioulo como sendo o termo vindo do espanhol criollo “para designar os seus descendentes nascidos nas américas” (FIGUEIREDO, 1998, p.18). Inicialmente o crioulo pode designar um povo, não necessariamente negro, mulato ou branco, mas também uma língua, geralmente nascida no ou do sistema de plantações e, também da mestiçagem com outras línguas. Como língua, o crioulo é uma derivação, uma mistura do contato de línguas nascida de um contexto de urgência de comunicação entre duas ou mais línguas diferentes e cuja a criação é atribuída não apenas aos escravos, mas também aos colonos.
De modo geral, os crioulos de base francesa são línguas jovens “surgidas” desse processo histórico de colonização europeia, dirigidos, sobretudo, pela França, Portugal e Inglaterra. Desse processo, surgiram duas grandes zonas das línguas crioulas francesas nos Departamentos Ultramarinos que Hazaël (2002) define como:
1) A zona americana-caribe com os falantes louisianenses, de Louisiana (EUA) (com o crioulo em vias de desaparecimento), o Haiti, o crioulo das Pequenas Antilhas (com variantes muito próximas de Guadalupe, Martinica, Santa-lúcia, Dominica, anteriormente, Trinidad – hoje com o crioulo praticamente desaparecido), o guianense.
2) A zona do Oceano Índico com os falantes da Reunião, os mauricianos, os seichelenses27 (HAZAËL, 2002, p. 64, tradução nossa).
Segundo a autora, os contrastes entre as duas zonas principais são importantes, mas é necessário ressaltar que no interior de uma mesma zona a intercompreensão pode existir. O fato de falarem crioulo não significa que eles se compreendam bem entre si. Isso se dá por conta das zonas de contato. Um falante de crioulo de base francesa não terá as mesmas referências sócio-históricas e sociolinguística de um falante de crioulo de base inglesa.
De acordo com Hazaël (2002), os crioulos de base francesa são nascidos de diversas zonas de colonização francesa ao longo dos séculos XVII e XVIII e através de uma evolução acelerada das formas regionais e populares do francês utilizado no contexto dos contatos entre populações e, sem dúvida, com a influência dos contatos de línguas, no seu uso estritamente oral como um meio de comunicação. O contraste entre essas duas zonas reside basicamente no fato de que os falantes fazem uso de línguas diferentes. O ato de falarem crioulo, e aqui temos meramente uma coincidência nominal, diz respeito apenas que eles se utilizam de uma língua que sofreu transformações advindas de meios sociais diferentes, cada qual com as suas especificidades. Enquanto uns e outros países ou Departamentos Ultramarinos, sofreram uma imposição linguística clara pelo colonizador “y” ou “x”, outros tiveram sua linguagem construída a partir de um contato mais “brando” gerado, também, pelo contato com outras línguas, mas de maneira menos impositiva. De maneira geral, podemos dizer que as línguas crioulas não possuem uma definição ou uma estruturação hermética nem no plano estrutural da língua nem no plano histórico.
Ferguson (1959) afirma que em diversas comunidades duas ou mais variantes da mesma língua são usadas pelos falantes em diferentes condições e a essa condição ele dá o nome de diglossia. Com esse termo é preciso entender que se trata de uma situação na qual duas línguas dividem de maneira desigual o espaço de uma mesma comunidade linguística, uma em posição dominante e outra na posição de dominada. A língua francesa, de maneira geral, acaba sendo utilizada em quase todos as situações de fala formais ou informais, ao passo que a língua crioula tende a se destacar nas situações informais de fala. De certa maneira, essa relação foge ao que chamamos de uma relação de bilinguismo na qual, segundo Bernabé
27 1) la zone américano-caraïbe avec le louisianais (en voie de disparition), l’haïtien, le créole des Petites
Antilles (avec ses variétés très proches de Guadeloupe, Martinique, Sainte-Lucie, Dominique, autrefois Trinidad – maintenant pratiquement disparu), le guyanais ;
(2005, p.7), existe uma dimensão individual marcada por um “ordenamento hierarquizado das competências linguísticas28”. A partir desse pensamento, Bernabé (2005) propõe a
divisão de dois meios, o sobre-ordenado29, de indivíduos que falam tanto o francês quanto o
crioulo e o meio sob-ordenado, de pessoas que falam apenas o crioulo. No primeiro meio, somente o francês é utilizado como forma de interação, enquanto o crioulo é adquirido de maneira informal, através do contato com o grupo de sob-ordenados, ou seja, os que falam apenas crioulo. No segundo meio, o crioulo é tido como língua materna ao passo que o francês é apreendido apenas na escola. Apesar dessa divisão facilitar o entendimento do processo de desenvolvimento das duas línguas na Martinica, é importante salientar que essa situação está se alterando em função das mudanças sociais e da política de implantação de ensino das duas línguas na ilha.
De forma semelhante, em trabalhos realizados pelo linguista Félix Prudent (1981), foi constatado que a maioria dos antilhanos consideravam a língua crioula como uma língua de baixo prestígio, inferior em relação à língua francesa, isso porque o crioulo nas Antilhas, apesar de ser a língua materna é considerado, a língua das canções de ninar, dos contos de roda que são feitos à noite pelo contador de histórias. Em contrapartida, tinham a preferência pelo uso da língua francesa na vida cotidiana. Isso, de determinada maneira, mostra o caráter político que a língua carrega, ao passo que a escolha do uso da língua se reflete na posição social do falante.
Algo semelhante acontece com o ensino de francês nas escolas da Martinica em que toda promoção social, publicidade e ensino escolar são regidos pelas mesmas leis e preceitos da metrópole, inclusive linguisticamente (CHAMOISEAU, 2011, p. 6). Entretanto, os jovens nas ruas e em casa se comunicam em crioulo, fazendo com que, de certa maneira, pratiquem uma interlíngua e não consigam aprimorar, de fato, nenhuma das duas.