4 Madrassas and No Militancy
4.3 The ”tanzeem approach”
A entrevista com o atual Secretário de Saúde de Maracanaú aconteceu no seu gabinete na própria Secretária de Saúde. Foi uma conversa, na realidade muito descontraída, em caráter bastante informal. Apesar de sua atuação no momento está ligada à saúde, quase sempre esteve ligado ao campo da educação.
Para introito de conversa, pedimos a Torcápio para contar-nos sobre sua relação com o ICM. E, imediatamente, disse: Futebol. Seguiu narrando que hoje tudo que ele fala com a equipe de saúde da Prefeitura de Maracanaú relaciona metaforicamente a um time de futebol. Para o Secretário de Saúde, o futebol é um exemplo de um grupo que tem de trabalhar unido independente de gostar ou não. “Na hora do campo tem que ter essa coesão. Se um do time não tiver com harmonia e entrosamento, o resultado fica mais difícil”.
Desde garoto jogava peladas nos campos de futebol de Maracanaú. Buscava campos para praticar a sua principal paixão na época que era o futebol. E foi por meio desse esporte que teve os seus primeiros contatos com o ICM, que, segundo ele, considera a primeira escola de tempo integral do Estado do Ceará, pois oferecia música, trabalho, educação e futebol. E nas andanças pelo Maracanaú atrás de futebol, encontrou o campo de futebol do ICM, que fica localizado ao lado da antiga enfermaria da escola, conforme podemos ver na imagem abaixo.
Imagem 41 – Campo de futebol da escola na atualidade
Fonte: Roberto da Silva Júnior
Segundo o Dr. Torcápio, esse campo de futebol era o melhor para se jogar em Maracanaú em seus tempos de infância. O que havia no centro de Maracanaú era cheio de pedras e havia apenas um pouco de grama.
Eu tive contato nessa escola e com esse time de futebol por meio dos torneios que nós disputávamos. Formava-se o time infanto-juvenil na década de 1960. Eu com mais ou menos 15 anos, nós fazíamos o nosso time; existia o time do Boa Vista; o time do Coqueiral e o time da escola de menores. E aconteciam torneio no município envolvendo esses times. E o time da escola de menores era o melhor!
Segundo o Dr. Torcápio o que fazia o time daqueles meninos ser tão bom era o entrosamento entre eles, pois afinal de contas, eles não apenas jogam juntos como também moravam juntos. Eles eram muito unidos.
Imagem 42 – Time de futebol da escola
Fonte: Arquivo pessoal da professora Dulce Alves Almeida
Alguns jogadores da escola chegaram a se destacar e a jogar profissionalmente no futebol cearense. Dentre esses, lembrou-se de Wellington, Edvar e Elias, este último, um jogador de ataque; um ponta-de-lança; artilheiro e craque. Além de jogador de futebol, artilheiro e craque do time, tocava também saxofone. Lembrou-se também de um jogador chamado “bodinho”, que segundo nos contou era impressionante com o seu domínio de bola em campo. “Era-se incapaz de tirar a bola do pé dele. Bem que eu já o alcancei jogando já adulto, com vinte e poucos anos jogando. Além desses, recordo-me de Deusimar, Jiló, Zé Gomes e Ananias, que era um quarto zagueiro, que era um craque!”
Nos seus fins de semana, especialmente, no domingo, seu lazer era jogar futebol no Boa Vista, Coqueiral, conhecido como novo Fluminense, e na Escola de Menores. Seu time ia jogar, coordenado pelo Winston, que conhecemos anteriormente. O time andava cerca de quatro quilômetros, porque morava no Centro de Maracanaú, porque o time era bom demais. O que mais lhe impressionava no time do ICM era o goleiro. Normalmente, quem mais chama a atenção em time é o atacante, mas, no ICM, era diferente, quem chamava a atenção, segundo Dr. Torcápio, era o goleiro do time, conhecido pelo apelido de “bebê”.
Até hoje a gente ainda comenta sobre isso. O goleiro do time deles chamava atenção pela frieza. Além de ser frio jogando. Muito tranquilo, ele ironizava os adversários, segurando a bola e chacoalhando na frente dos adversários,
para desequilibrá-los e fazê-los perder o foco. Você sabe que goleiro é o jogador mais complicado do time, pois ele defende tudo e quando toma um frango, desfaz-se tudo que fez. E o diabo que o bebê tinha isso. Defendi tudo e, de repente, tomava um frango / ele pegava todas as bolas e no final engolia um frango. Mas eu gostava muito dele.
Além disso, na própria escola, chamava-lhe a atenção a destreza e a habilidade dos meninos que tocavam na banda de música. Contou-nos que ele era tão fanático por saxofone que chegou a pegar em sua casa um funil de geladeira para simular que estava tocando o saxofone. No entanto, lamenta-se de nunca ter tido a oportunidade de tocar saxofone.
Eu gostaria de ter aprendido a tocar um instrumento musical. Não por frustração. Por jogar bola eu conseguir jogar. Mas aquele instrumento que eles tocavam tão bem. E eles, às vezes em uma dessas festinhas, a gente via eles tocarem, ou no Colégio Gustavo Barroso, nas pracinhas ou nas retretas, e dizia para mim mesmo: puxa vida! Esses caras além de serem craques na bola ele se garantem na música também. Para mim o camarada passava a ser ídolo duas vezes. Jogar futebol bem e ter a destreza de tocar um instrumento musical, que para mim era difícil demais. Mas eles conseguiam isso porque eles estudavam para isso. A escola deu essa oportunidade para eles apreenderem a tocar um instrumento de sopro.
Falando das amizades que fez na escola, lembrou-se de “Sessenta”, ex-aluno da escola, que era um dos fãs do seu futebol, quando jogou na seleção de Maracanaú. Costumava lhe elogiar dizendo que Torcápio era um dos melhores volantes que ele já tinha visto jogar, por ser muito aguerrido, dominar e tocar bem a bola.
Continuou dizendo que o ICM deixou o legado de gestão educacional. Para ele o que mais pode fazer a diferença em instituição social é a forma de gerenciá-la. Na ótica de Dr. Torcápio, o modelo de liderança foi relevante para o sucesso daquela instituição. Quem administrou o ICM teve o mérito de não a deixar cair. Quando esses líderes saíram, a escola começou a declinar na sua proposta de educação. Segundo nosso interlocutor, o sucesso dessas lideranças devia-se ao fato de eles serem fulltime na escola, ou seja, estavam lá pela manhã, tarde e noite. Era um modelo de gestão de tempo integral.
Dr. Torcápio disse-nos ainda que um amigo seu, na época em que a escola passou para a FEBEMCE, Prof. Dr. José Nailton Bezerra Evangelista, atual diretor geral da Faculdade de Veterinária da Universidade Estadual do Ceará, tentou recrudescer a escola, por dois anos, por meio de trabalhos de zootecnia com os meninos, mas não conseguiu grande êxito, pois, segundo Dr. Torcápio, não houve apoio governamental adequado para tal empreitada, com na época que a escola era administrada pelos religiosos padre Giovanni Saboia e Padre Vale.
A gestão desses padres coincidiu com a Ditadura Militar. E na opinião do Dr. Torcápio, houve aspectos do regime militar que corroboraram para se fortalecer e a administração dos padres. De acordo com as lembranças de nosso colocutor, os padres participavam de tudo quando os meninos participavam das apresentações. Eles estavam sempre à frente. Inclusive foram homens que fizeram história na vida política de Maracanaú. Segundo Dr. Torcápio o Maracanaú tinha força política dos padres locais com a UDN, coligado ao Paulo Sarasate, governador do Estado. A escola tinha apoio e força e não era para menos, segundo Dr. Torcápio. Era uma escola que precisava de força, apoio e dinheiro, pois era um investimento alto com almoço, alojamento, instrumentos musicais para alunos. Tudo tem custo. Tudo o que você estiver fazendo tem de estar com uma calculadora nas mãos para fazer o orçamento. É o chamado custo- benefício. Precisamos definir o que é que queremos, podemos e fazemos. Então os trabalhos com os padres tinham mais recursos.
Além do campo grande, o Dr. Torcápio também destacou o campinho dentro da escola, conforme podemos ver na imagem abaixo. Para o Secretário de Saúde, esse campo era o mais aconchegante. Ao invés de ser onze, era nove com o goleiro, que jogavam nesse. Nele, juntavam-se mais pessoas para torcera pelo time da escola.
Os alunos ficavam dentro do seu próprio alojamento torcendo pelo time da casa ou debaixo das árvores. Era um espaço mais aconchegante; dava uma logística maior porque o estádio não tinha arquibancada. Eram aqueles banquinhos de madeira de carnaúba.
Imagem 43 – Campo de Futebol Pequeno
Devido a essa convivência na escola, Dr. Torcápio reconheceu que a escola exerceu influência na sua vida, explicando da seguinte forma:
Eu sempre digo para meus filhos que não é que você tem adversário ou inimigos, mas a concorrência pesa para você. Então, desde então, meu time de futebol tinha de ser o melhor. E meu calo era o time da escola de menores que jogavam muito bem. Havia outros times bons em Maracanaú, mas não eram tão competentes como o da escola de menores. Então isso já fazia uma diferença porque eu além de jogar contra o time dos menores, já havia os meninos que estavam crescendo se tornando homens e eu vendo jogar. Então eu tinha os menores que eram meus adversários e tinha os grandes egressos da escola que eu dizia que eu para chegar lá ia ser muito difícil. Teve essa influência muito forte para a gente procurar melhorar; para se ter mais qualidade.
Para mostrar os efeitos da escola na sua vida profissional, admitiu que na sua rotina de trabalho na Secretaria de Saúde, procura avaliar os serviços prestados à população de Maracanaú, seja no acolhimento, atendimento, buscando fazer o melhor. Disse-nos que recebeu essa influência dos meninos do ICM. “Mexia comigo a maneira como aqueles meninos eram aplaudidos. Rapaz, quando o time entrava em campo, eles eram saldados pela torcida da mesma forma que os jogadores profissionais da atualidade. Os meninos do time eram reverenciados. Isso mexe”, disse Dr. Torcápio. E complementou com orgulho, que se considerava que tinha de alguma forma chegado ao nível deles, pois chegou a ser jogador profissional de futebol. Orgulha-se de ter tido sua carteira profissional assinada entre os anos de 1972 e 1973 com duzentos cruzeiros pela seleção de Maracanaú37.
Nós jogávamos intermunicipal. Nós da seleção chegamos a jogar contra os meninos da escola de menores. Antes de mim, a seleção de Maracanaú chegou a ter mais jogadores do Carneiro de Mendonça. Era o que pesava mais na seleção de Maracanaú. Agregava jogadores do Boa Vista, Coqueiral e do Instituto Carneiro de Mendonça. Mas, posso lhe dizer que eram os jogadores que vinham do Carneiro de Mendonça que se destacavam mais na seleção. Pesava mais. Eles formavam o timaço de Maracanaú.
No auge de sua trajetória como jogador de futebol, foi vice-campeão cearense pela seleção de Maracanaú em 1972, tendo perdido, na ocasião da final, para a seleção do município de Pentecoste-CE no Estádio Municipal Presidente Vargas. Contou-nos que, para a seleção maracanauense participar da competição, foi necessário, na época, que a Prefeitura de Maranguape assinasse um termo de aceitação, visto que Maracanaú ainda não era emancipado
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politicamente. Devido a esses aspectos políticos, havia uma grande rivalidade entre as seleções de Maranguape e Maracanaú.
Procurando fazer uma comparação entre a educação praticada no ICM e as escolas de hoje, Dr. Torcápio explanou que se ele pudesse determinar o padrão das escolas de hoje, a escola de menores seria um modelo ideal. Faria uma escola que, se não tivesse um campo de futebol, mas pelo menos uma praça de esporte; uma escola onde se pudesse ensinar aos alunos uma profissão ou que pelo menos colocasse um encaminhamento para o seu futuro; gostaria de uma escola onde ensinasse música. Tudo isso o ICM ofertava para seus alunos.
Tenho a impressão que os alunos adorariam. Seria uma coisa diferenciada porque era uma coisa lúdica. A vantagem da escola de menores é que era uma escola lúdica e agradável, onde alunos moravam nela. Enquanto que hoje temos uma escola de tempo integral, a escola de menores era uma escola em que os alunos moravam nela.
Por tudo isso, Dr. Torcápio não concorda com a maneira equivocada de estigmatizar a o ICM como sendo um lugar de tortura e práticas educativas que depreciasse o desenvolvimento pleno dos meninos matriculados. O que, para ele existia era disciplina e organização. Segundo ele, a escola tinha disciplina dentro do contexto de sua existência, que ocorreu dos anos 1930 aos anos 1970. Além disso, afirmou que nunca viu a comunidade local rejeitar e ter medo das pessoas que estudavam nela. Pelo contrário, lembra-se de que a comunidade era louca pela escola. A comunidade queria de alguma forma participar das atividades da escola.
O meu amigo dentista William, estava lá por causa do futebol, que era coisa incomum. Ele estudava e quando era no outro turno estava lá dentro, perturbando os inspetores para deixarem jogar bola lá dentro. Havia toda uma atração da comunidade local pelos alunos da escola de menores.
Chegando ao final da entrevista, o professor e médico veterinário, disse que não conseguia ver nada negativo sobre a escola. Via apenas coisas boas. Asseverou que seus pais nunca lhe impuseram nenhuma restrição em ir jogar futebol na escola, pois além de ser a sua paixão, nunca correu nenhum risco em se deslocar para a escola. Disse que, inclusive, costumava ir de bicicleta com seus amigos, até mesmo à noite para a escola, pois na época não era perigoso.
Ao final da entrevista, pediu para deixar uma frase para os leitores dessa tese: “a escola de menores era uma escola de alegria, música, arte e futebol”.