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The social position of the urban non-ferrous metalworkers

Este Capítulo não poderia ficar completo sem uma passagem pelos comportamentos sexuais reportados pelos jovens portugueses, já que uma compreensão dos usos sexualizados dos novos media só fará sentido na medida em que o corpo e os actos corporais façam parte dessa relação de mediação, ao mesmo nível que as questões culturais e contextuais – em última análise, não é possível separar ambos os elementos.

De acordo com a equipa por detrás do estudo HBSC de 2010 (Matos, Simões, et

al., 2011; Matos, Reis, et al., 2011), apenas 16,9% dos jovens inquiridos já tinha tido

relações sexuais; os rapazes tendem a começar mais cedo que as raparigas, e a responderem mais “sim” a esta pergunta, havendo também uma maior predominância por parte das raparigas no uso de métodos contraceptivos na sua primeira relação sexual. Dos jovens que frequentam o 8º ano e o 10º ano, apenas 52% disseram que “Quando têm relações sexuais… decidem os dois”; 34,8% deu a resposta “É o rapaz a tomar a iniciativa”. Também de entre estes jovens, apenas 61,6% se declarou sentir-se “à vontade” para recusar ter relações sexuais sem usar preservativo, se o par não quiser, um número mais baixo do que o dos que disseram sentirem-se “à vontade” para recusar fazer sexo por não querer (68,5%).

Há ainda que notar um elemento específico quando se comparam os resultados deste último estudo com os anteriores: o número de jovens que afirma já ter iniciado a sua vida sexual tem vindo a descer nos últimos anos (de 23,7% em 2002 para 21,8% em 2010). É preciso entrar em linha de conta com um indicador que parece contradizer as tendências macrossociais comuns46, quando pensamos no que é o discurso sobre a

sexualização da sociedade ocidental contemporânea (c.f Capítulo I.5 e II.1). A nova

edição do estudo (Matos et al., 2014; Matos, Simões, Camacho, Reis, & Equipa

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A idade média de início da actividade sexual para homens entre os 55 e os 65 anos é de 17,3 anos, descendo para 16,5 para os jovens entre 18 e 24 anos; para mulheres nas mesmas faixas etárias, a descida é dos 21,2 anos para os 17,2 anos (Policarpo, 2011, p. 72) ou 17,3 (Ferreira, 2011, p. 278). Pedro Moura Ferreira comenta, sobre estes dados, que se tem vindo a assistir a uma “convergência das relações entre homens e mulheres”, mantendo-se “quer na iniciação mais precoce quer na idade média de iniciação, um diferencial intersexual, com a vantagem ainda a pertencer ao masculino” (Ferreira, 2010b, p. 245), que concentra a iniciação da actividade sexual numa faixa etária menor, comparando com a geração dos 55-65 anos, onde valores muito mais precoces ou muito mais tardios de iniciação da actividade sexual, especialmente no caso dos rapazes, eram mais frequentes.

Aventura Social, 2015) mantém a situação de descida no que diz respeito ao início da vida sexual: se se considerarem apenas os alunos de 8º e 10º ano, só 16,1% disseram ter iniciado a vida sexual e, se a esses se juntarem os alunos de 6º ano, o valor desce para 12,8%; mantém-se a tendência para mais rapazes do que raparigas afirmarem já ter iniciado a sua vida sexual. Ainda assim, mais de 75% dos jovens do 8º ano e do 10º disseram já ter tido ou estar actualmente num relacionamento amoroso.

De entre os jovens que já tiveram relações sexuais, apenas 70,5% disseram ter usado preservativo na sua primeira relação sexual, valor semelhante aos que disseram ter usado na mais recente relação sexual. Quando lhes foi pedido que reflectissem sobre a primeira vez que tiveram relações sexuais, só 44,4% dos jovens disse que “queria que acontecesse naquela altura”, ao passo que 5,2% disseram que “não [queriam] realmente ter tido relações sexuais” (2014, p. 187). Comparar estes dados com os do estudo Saúde

e Sexualidade, onde 78,9% dos rapazes e 82,5% das raparigas (18-24 anos) disseram ter

usado preservativo (Ferreira, 2010b, p. 282), aponta para uma diminuição recente no uso de preservativos aquando da primeira relação sexual. Um outro fenómeno, associado ao início da actividade sexual conjunta, a ter em conta é a diminuição do uso da prostituição (no caso dos rapazes) como forma de resolver o ‘problema’ da virgindade masculina (Ferreira, 2010b; C. P. Vieira, 2012).

Mas não são apenas as não-acções que têm este valor – Heilborn (in Ferreira, 2011, p. 293) assinala que “«o sexo anal é a chave da ideologia da masculinidade»” dentro de um contexto heterossexual. Isto porque, no contexto de uma análise comparativa de práticas sexuais47 entre jovens portugueses, brasileiros e franceses, se percebeu que, quanto mais semelhantes por género eram os números das actividades reportadas, mais diminuía a prática de sexo anal – pretendendo-se ligar assim determinadas práticas corporais sexuais a elementos de reprodução de uma ordem de género desigual, e do acima referido duplo padrão sexual.

No caso do sexo oral, um maior nível de instrução, menor prática de religião e maior número de parceiros parecem promover o aumento da sua prática, embora boa parte destes elementos só tenham efeitos estatísticos significativos para as mulheres, como, de resto, com outras práticas (Ferreira, 2011, p. 281). Vale a pena também notar

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Com o coito como elemento de entrada para a contagem, fizeram-se perguntas sobre masturbação com parceiro, fellatio, cunnilingus, a não-prática de sexo oral, e sexo anal, bem como a variedade de parceiros sexuais e o tempo decorrido desde a primeira relação sexual (Ferreira, 2011, p. 278).

que a auto-masturbação, sendo uma prática generalizada nos homens, tem nas mulheres uma expressão muitíssimo menor, sendo que a variável que mais se correlaciona é o da não-iniciação sexual (2011, p. 287). O sexo anal, antes referido, também parece destacar-se no campo das correlações: os elementos mais culturais (nível de ensino, religiosidade) parecem pouco afectar a variação desta prática – antes, é o número de parceiros sexuais e a longevidade da actividade sexual o que mais importa: “o desenvolvimento do percurso sexual parece uma condição para a tomada de decisão em relação a esta técnica corporal” (2011, p. 289). O autor conclui (2011, p. 293) que, em Portugal, “as variáveis estruturais continuam a exercer efeitos significativos na formação da sexualidade juvenil”, em especial no que toca à variável educação e religiosidade.

Um outro estudo, de 2007, Saúde e Sexualidade, inquiriu uma amostra estatisticamente representativa da população de Portugal Continental com 18 ou mais anos sobre os seus hábitos, práticas e posturas sexuais, cujos resultados foram publicados no volume Sexualidades em Portugal (Ferreira & Cabral, 2010). No que diz respeito à frequência das práticas sexuais, e contrariando parcialmente uma explicação meramente biológica sobre a evolução da prática de sexo ao longo da vida, não são os membros do escalão etário mais jovem quem tem mais sexo; por outro lado, é interessante notar uma inversão da dinâmica de género que seria expectável: 7,4% das mulheres entre os 18 e os 24 anos disseram fazer sexo todos os dias ou quase, e 44% algumas vezes por semana, contra 6,8% dos rapazes na mesma faixa etária e 41,8%, respectivamente. Ao mesmo tempo, são as mulheres que se encontram mais representadas na categoria da ausência de sexo nesta faixa etária (7,8% contra 5,2%) (Ferreira, 2010a, p. 37).

São também eles quem apresenta maior número de parceiros sexuais nesta faixa etária: 38,8% dos rapazes tiveram entre um a dois parceiros sexuais, ao passo que esse mesmo número de parceiros corresponde à resposta de 65,7% das raparigas. Quando se limita o âmbito da resposta ao último ano, o padrão clarifica-se ainda mais: 26,5% dos rapazes dizem ter tido três ou mais parceiros, contra 8,2% das raparigas. Não obstante, quando inquiridos sobre a sua situação actual, 32,3% das raparigas disseram estar numa situação de multiparceiros (em série ou simultânea), contra 24,4% dos rapazes – mas esta diferença inverte-se no escalão etário seguinte (Ferreira, 2010c).

Outro ponto auscultado pelo estudo tem que ver com as práticas entre pessoas do mesmo sexo. Novamente, atendendo apenas à faixa dos 18-24 anos, 8,1% das raparigas disseram já ter tido contacto sexual com pessoas do mesmo sexo ao longo da sua vida, comparando com 3,4% dos rapazes (Aboim, 2010, p. 164). Estes números, em articulação com os apresentados antes, devem levar a um questionamento sobre as alterações nas diferenças de género respeitantes aos scripts sexuais seguidos pelos jovens em Portugal, e também sobre o possível apagamento das pessoas LGB de vários estudos, que não tomam em consideração a orientação sexual como uma variável principal a ter em conta.

Estes comportamentos existem num contexto de transformação de valores e, como abordado no Capítulo I, sob a influência de expectativas individualistas e do consequente alargamento das opções afectivas e relacionais, mas também um aumento da sua transiência (Pais, 2012, pp. 36, 37). Porém, e como alerta Machado Pais, estas transformações, passíveis de serem pensadas à luz das recentes (ainda) transformações políticas e sociais por que Portugal passou, não foram súbitas. Se a geração dos avós destes jovens sacralizava ainda a virgindade enquanto marca de pureza feminina, (e a via como marca de falhanço masculino), a geração dos pais (dos anos 60/70) já marcava a importância do prazer sexual; actualmente as dinâmicas dos jovens pareçam estar ligadas a uma multiplicação de diferentes e subtis marcadores relacionais (o “andar”, a “curte”, a diferença entre o “gostar” e o “amar”). Se essas dinâmicas são relativamente recentes, já não o são as reinscrições constantes do duplo padrão sexual, das raparigas vistas como predadoras ou vadias quando expressam a sua vontade sexual e dos rapazes como heróis ou como agindo apenas segundo impulsos sexuais ‘naturais’ pelos quais não são responsabilizáveis (C. P. Vieira, 2012, p. 184).

Hoje, as relações entre pais e jovens são, como já foi referido acima, mais horizontais, mas as lacunas deixadas pelas políticas educativas conservadoras e repressivas do Estado Novo resultam numa postura face ao tópico da Educação Sexual repartido por entre menos tabus ou atitudes mais liberais face aos filhos, e uma fuga constante a conversas estruturadas sobre sexualidade, ao longo da vida dos jovens, por parte dos pais. Porém, também os jovens trabalham através desses “silêncios cúmplices”, em que os filhos “fingem ignorar o fingimento dos pais” acerca do que os próprios jovens sabem (Pais, 2012, p. 48; C. P. Vieira, 2012), e onde fazer perguntas pode ser visto, pelos pais, como uma forma de provocação juvenil (Pais, 2012, p. 136).

Nos casos em que as conversas existem, parecem ser algo tensas para os jovens, que temem dizer algo que possa atrair atenções indesejadas sobre as suas práticas; por outro lado, a própria falta de literacia dos pais torna algumas das conversas bem- intencionadas numa situação de risco potencial (e.g.: o conselho dado aos rapazes de andar sempre com um preservativo na carteira o que, na verdade, aumenta a probabilidade que o mesmo se degrade e rompa), e reintroduzem dinâmicas profundamente genderizadas (e.g.: pílula para raparigas, preservativo para rapazes, deslocando o ónus da responsabilidade da gravidez para cima delas) (C. P. Vieira, 2012).

Este universo relacional, amoroso e sexual tem também uma componente económica: num mundo individualizado mas que, ao mesmo tempo, está também profundamente investido em relações de pares (de certa forma normalizadas, como visto no Capítulo I, pela massificação da escolaridade obrigatória enquanto sistema criador de uma sociabilidade específica, organizada etariamente), há uma preocupação com a integração numa determinada cultura juvenil e também de marcar a própria individualidade – ambas feitas frequentemente através da cultura de consumo material e/ou mediático, ambas investindo o corpo como base de expressão e também de auto e hetero-avaliação (Pais, 2012, pp. 123–126; Ponte, 2012b, p. 140). Ter gadgets que permitem participar nesta cultura juvenil (de smartphones a computadores, webcams e ligação à internet em casa) ajuda a que os jovens legitimem “o seu domínio dentro de um importante ambiente da modernidade, que é a tecnologia” (E. Rocha & Pereira, 2012, p. 95).

Ao mesmo tempo, o grupo de pares serve também como um ponto de referência do que os jovens sabem, não sabem e procuram descobrir sobre sexo, sexualidade, os seus corpos e relacionamentos amorosos. (Pais, 2012; C. P. Vieira, 2012).

Ainda assim, marcas de desigualdade estrutural – como o sexismo e a homofobia – continuam a manifestar-se na forma como jovens são educados e se relacionam entre si. A ligação entre heterossexualidade e normalidade é ainda replicada e a ligação entre homossexualidade e falta de masculinidade reafirmada, ao mesmo tempo que os jovens criticam a falta de liberdade e igualdade em se abordar assuntos de orientação sexual (C. P. Vieira, 2012, p. 203). Ao mesmo tempo, alguns jovens contemplam a possibilidade de que alguém (heterossexual) possa eventualmente mudar de orientação para homossexual (ou bissexual), mas não o oposto. Num aparente paradoxo, a

heterossexualidade normativa é vista como sendo frágil, precisando de ser reiterada para impedir uma queda sem retorno ao mundo hedonista do prazer entre pessoas do mesmo sexo – um risco relevante para a masculinidade normativa mas, no caso de envolver mulheres, uma potencialidade para o gaze masculino.

Apesar deste panorama, a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou a adopção, são já realidades legais em Portugal, ao contrário de vários outros países. Existe já investigação variada feita sobre o desenvolvimento e as especificidades do activismo LGBT em Portugal (Arend, Crescêncio, Kroeger, & Santos, 2012; Cascais, 2006; Oliveira, 2013; A. C. Santos, 2013), como tendo já obtido vitórias importantes, mas também como tendo problemas na gestão do seu próprio ímpeto, e na manutenção do engajamento das pessoas que o constituem, e sobre as agendas políticas que são articuladas, sobre quem estas incluem ou excluem (nomeadamente, existem sérias lacunas ao nível de legislação que combata discriminação contra pessoas trans) (Colling, 2015) e que estratégias são utilizadas para atingir esses fins.

É preciso, ainda assim, repescar alguns dos problemas identificados acima (cf. Capítulo II.2) no que diz respeito às limitações teóricas dos estudos apresentados. Embora a perspectiva de género esteja presente e seja possível pensá-la através dos dados apresentados, a forma como as variáveis são apresentadas, a leitura feita e as próprias perguntas formuladas partem de um pressuposto que é eminentemente heterossexista (Matos et alii (2011, p. 21) referem que 4% da sua amostra é bissexual ou homossexual/lésbica, mas essa discriminação de dados não é mais mobilizada na análise; Ferreira (2011, p. 279) afirma que “as relações com pessoas do mesmo sexo foram excluídas da análise, na medida em que, tendo especificidades próprias em termos da articulação entre género e sexualidade, devem ser objecto de uma análise independente”, ao mesmo tempo que trata o coito heterossexual como critério de inclusão no estudo). Novamente, a não-heterossexualidade e as sexualidades não- genitais ou não-diádicas parecem estar longe do panorama investigativo português, votadas a uma espécie de silêncio que só raramente é quebrado: Verónica Policarpo (2011, p. 75) refere, sem avançar dados concretos, que

“é principalmente na Internet que ecoam as vozes que dão expressão a novas formas de viver a sexualidade. […] O anonimato da sociedade em rede torna também possível a expressão de outras identidades sexuais, alternativas à moral dominante, como é o caso do BDSM48, […] dos swingers49 e dos poliamorosos50” [notas de rodapé minhas].

Face a este panorama, não basta procurar conhecer as práticas sexuais dos jovens portugueses, em busca de uma qualquer verdade do sexo (Foucault, 1994) – antes, é preciso compreender como é que entendem as práticas que levam a cabo; em que condições as levam a cabo; com que dinâmicas de poder genderizado têm que lidar, e como negoceiam essas dinâmicas; qual sentem ser o seu papel e os seus objectivos enquanto seres sexualizados; de que forma as suas experiências sexuais (com e sem os

media) se cruzam e confluem em alterações na sua noção de self; que papel de

(in)disciplina têm os vários media sobre as suas práticas corporais; entre outros elementos de reflexão que, qualitativamente, procurarão uma compreensão mais aprofundada e individual dos desequilíbrios estruturais, investigativos e subjectivos acima nomeados.