5 Results
6.1 The results in context of existing literature
Quando já nos preparávamos para realizar a segunda investigação sobre a qual versa este relato, ainda cheia de incertezas de como teríamos acesso ao grupo a ser estudado, em “um belo dia” que, mais uma vez, “não sabemos como aconteceu”, recebemos um telefonema de outro grafiteiro, GORPO, também sujeito da nossa primeira pesquisa, informando-nos sobre a criação do NH2C, e convidando-nos para participar das reuniões que se realizariam nos domingos à tarde, no CUCA (Centro Universitário de Cultura e Arte). Segundo esse grafiteiro, o principal objetivo da criação do Núcleo era a congregação de hip hoppers das distintas zonas urbanas, para que o discurso e as práticas culturais do Movimento fossem unívocos.
Sentimo-nos surpresa, e ao mesmo tempo feliz, porque seria essa a chance de manter contato com grafiteiros/as e pichadores/as das diversas zonas e crews da cidade de Campina Grande que convergiriam para tais reuniões.
Aceitamos o convite, e nossa primeira preocupação foi a de como seríamos recebida pelo grupo. Planejamos todas as estratégias que utilizaríamos para nos inserir no campo de pesquisa: o que falar, como nos comportar. Preparamos toda a “encenação”, sobre a qual Goffman (1975, p. 233) discorre, inclusive escolhendo o traje mais descontraído que deveríamos estar usando na ocasião, a fim de não destoar muito do padrão utilizado pelos hip
hoppers.
“Imagine-se entrando pela primeira vez na aldeia, sozinho ou acompanhado de seu guia branco” (MALINOWSKI, 1998, P. 19). Chegando ao local da primeira reunião, no dia 30 de maio de 2007, às 15h e 30 min., cumprimentamos o grupo que, na ocasião era composto de quatorze jovens – dos quais três eram do sexo feminino –, comunicamos que havíamos sido convidada por GORPO – um dos pioneiros do grafite em Campina37, e portanto, outra autoridade nesse campo.
Apresentamo-nos aos presentes, dizendo que objetivos nos levavam a estar ali com eles, semanalmente, além de perguntar se alguém do grupo se opunha a que participássemos dessas reuniões, ao que ninguém declarou oposição.
Eles estavam reunidos em um reduzido espaço físico correspondente a uma pequena sala – secretaria do CUCA, cedida pela direção desse órgão estadual – com poucas cadeiras, o que obrigava os presentes a ficar de pé ou a sentar na marquise de alvenaria que serve de
balcão para atendimento do público. Para nós, como sinal de cordialidade, foi cedida uma cadeira que antes estava ocupada por um b-boy38. A reunião durou cerca de duas horas, tendo
sido discutidos diversos assuntos pertinentes aos objetivos do Núcleo. Durante esse tempo, a maioria do grupo fumou ininterruptamente, o que me incomodou muito, mas tentando manter o “controle de impressão” (BERREMAN, 1980, p. 140), e em respeito ao espaço e à opção deles, conseguimos “fingir” uma certa naturalidade. A impressão que tivemos foi a de que o uso do cigarro remete a uma autoafirmação dos/das adolescentes no que diz respeito à liberdade de escolha, como uma representação do “status adulto”.
Embora tenhamos percebido que alguns dos hip hoppers nos olharam obliquamente, sentimo-nos que a maioria se esforçou para encenar uma relação amistosa, tendo o dirigente do NH2C dito que éramos muito bem vinda ao grupo e que já tinha conhecimento do trabalho desenvolvido por nós sobre o grafite. Nesse instante, sentimos um alívio por termos visto que a aceitação foi a sinalização deles para o primeiro passo da construção de uma relação de proximidade que determinaria a realização da pesquisa.
Assim, por saber que essa construção é, também, uma parte fundamental da investigação, empenhamo-nos para não faltar a nenhum dos encontros, a fim de que o grupo pudesse perceber tanto nosso compromisso científico, quanto nosso interesse pelo hip hop. Passado um ano de convivência, consideramos que a relação pesquisadora/pesquisados/as sofreu significativas mudanças, uma vez que a observação participante garantiu que assumíssemos um lugar naquele mundo. Com o tempo, o grupo começou a requerer de nós certas funções, como por exemplo, a elaboração de ofícios para órgãos oficiais, a correção de textos produzidos por eles, a produção de mensagens para folders de divulgação do NH2C, a participação como entrevistada, em vídeo sobre o Núcleo, dentre outras.
Exemplificando, após um bom período de convivência, fomos procurada por GORPO, para prefaciar uma publicação contendo fotos de seus grafites, texto que transcrevemos a seguir:
GRAFFITHAYRONI
Spray, criatividade, ação, imagem-arte: graffiti. Graffiti: sinônimo, THAYRONI.
Signos distintos, mas profundamente intertextuais. Duas faces de uma mesma moeda.
Variáveis de uma mesma equação. Pensar um sem o outro, impossível. Pretensão inútil separar corpo e alma.
Pretensão inútil exilar do côncavo, o convexo.
Cidade, muro, traço, cor, poesia: GRAFFITHAYRONI.
Encantei-me pelo graffiti à primeira vista. Quando conheci Thayroni
Araújo Arruda, o encantamento se aguçou. Através da sua spray-arte, eu
que pensava em apenas coletar dados para minha pesquisa de mestrado, fui presenteada com lentes novas para ler os muros e para enxergar a dinâmica que motiva essa expressão urbana da contemporaneidade. Entendi, então, que o graffiti não pode se limitar a um dado analítico e que sua dimensão artística precisa ser evidenciada.
E para falar da arte, falar do artista é fundamental. Mas não é fácil falar sobre Thayroni. Melhor seria fazer um graffiti (quem dera!) e, tão bem quanto ele, exprimir em imagem a imagem que tenho dele. As imagens, sim, dizem muito mais do que as palavras pretendem. Estas às vezes nos traem e nem sempre representam a essência do que queremos dizer. Mas como “ainda” não sei grafitar, o jeito é escrever.
Graffiti, para mim, é poesia. Sob a tag GORPO, está o poeta
Thayroni. Em suas mãos, o muro que sempre teve como função hifenizar, isolar, transmuta-se para servir de ponte para o diálogo com a sociedade. Pena que nem todos lhe dêem ouvidos, pena que muitos estejam anestesiados. Mas “que ouçam os que têm ouvidos de ouvir”, “que vejam os que têm olhos de ver”...
Compondo o repertório imagético do espaço urbano, invadido pelo entrecruzamento de linguagens e imagens que dialogam num ritual de constante ressignificação, o graffiti de Thayroni marca presença, tatuando os frios muros da cidade com cores e tons de crítica e poesia. Seu trabalho representa uma nova poética na cena urbana cuja expressividade flui do bico do spray. Seus traços e cores transformam paredes mortas em painéis artísticos, ao ar livre, com paisagens de contestação, criatividade e conscientização, redimensionando a condição de um simples muro, tornando-o espaço de expressão da arte.
E como a arte precisa ser sentida, busquemos sentir a grandeza de Thayroni, na grandeza do graffiti que ele produz, na grandeza do
FOTO 19 – Foto copiada do orkut de GORPO
http://www.orkut.com.br/Main#AlbumZoom?uid=7208282472710661659&pid=1209773143378&aid =1$pid=1209773143378
Por eles terem sido informados, por nós, sobre o lugar de onde falávamos, sobre a posição que ocupávamos no grupo, foi fácil delimitarem tarefas pertinentes a nossa localização nesse universo. Tal espaço cedido a nós evidenciou que jamais poderíamos estar numa posição de ausência, uma vez que esses são momentos de interface, nos quais o desempenho de funções implica em papéis, o que é relevante para a pesquisa. Sentimos que o grupo se utilizava do nosso papel de pesquisadora/professora para que, através dessa atuação junto a eles, pudéssemos contribuir para a legitimação dele perante a sociedade, favorecendo a uma mudança discursiva que se estenderia para a esfera social.
No blog do NH2C – http://nh2crepresenta.blogspot.com/ –, o texto sobre o II Encontro
Hip Hop Campina, do qual participamos, traz uma referência a esta pesquisadora, conforme poderemos observar a seguir:
O II Encontro Hip Hop Campina foi realizado em Dezembro de 2008 e teve a participação de várias crews da cidade. DJ Joh comandou os toca discos, tivemos a participação de Grandão MC e Daniel Mordkai, e uma batalha de Mcs onde Snoopy ganhou com sua rima e flow bem apurados. Também participaram da batalha Indigente MC, Pleiade, Chacal , Cibaleno, Big over e Zeca. Na dança os grupo Guereiros do Ritmo, Power move e vários outros mostarram responsa nas batalhas de B-boy estilo individual e estilo dupla. O apoio da Vidrobox, Da Laboremus e de JC Rocha material de contrução foi de extrema importancia para um evento que teve a presença de 248 pessoas
dos quatro cantos da cidade de Campina Grande. A Millys também apoiou com a presença do Skatista Profissional Jason e de prêmios. No grafite O virna, Mala, Sponja, Bruno, Lorena , Zeca, Thyrone, Cego, Julian, Tonta, Lua, Izabel, Mega, Son e mais uma pá de irmãozzzinhos que fortalecem o Hip Hop em Campina.
Obrigado a todos que contribuiram e trabalharam para realização desse evento, Tácito, Adriana, Paulo, Daniel Mordkai, Fabiano da Laboremus, Wener da Vidrobox, Jason da Isrrael, Manuel, Caio, Sponja, Son, Vínicius, Jair do MST, Andreza, Mc Grandão, Deti, Ivis, Dona Moema, Angelina
(nossa madrinha) e todos que fizeram de coração acontecer essa parada!!!
(grifo nosso)
Outro exemplo disso é que, em um projeto – Ação Hip Hop Campina –, aprovado pelo FIC/PB (Fundo de Incentivo à Cultura Augusto dos Anjos), no final do ano de 2008, o Núcleo solicitou que nosso nome integrasse a lista de membros responsáveis pela efetivação das atividades, o que, na visão do grupo, daria um maior respaldo e sinalizaria para o credenciamento dessa proposta. “Nesse tipo de pesquisa, recomenda-se ao etnógrafo que de vez nem quando deixe de lado máquina fotográfica, lápis e caderno, e participe pessoalmente do que está acontecendo” (MALINOWSKI, 1998, p. 31). Esse projeto foi aprovado para ser executado em 2009, embora não tenhamos conhecimento de quando se deu sua efetivação.
A necessidade de legitimação se dá porque a popularização do movimento hip hop, no Brasil, se vinculou à ótica midiática que o apresentou à sociedade, associando-o ao comportamento dos grupos jovens de cultura de rua, como “agentes da desordem e da violência”, veiculando essa imagem pela divulgação dos “arrastões” no noticiário e nos cadernos policiais (HERSCHMANN, 2000, p. 18). Aqui cabe ressaltar que nos empenhamos para não anuir com essa visão que rima adolescência com violência, embora até possamos, pelos resultados da investigação, encontrar elementos que a comprovem.
Essa relação conflituosa do hip hop, com a sociedade e com o Estado, é um aspecto fundamental para a interpretação da dinâmica e dos tensionamentos recíprocos que se estabelecem no processo interativo tanto dentro do grupo quanto fora dele. Esse e outros aspectos serão pontuados no próximo item.
3.4 Repertórios e implícitos na interação do NH2C: “o espaço de controle e disputas que