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Ao tempo em que o ambiente estava sendo implementado, surgiu a pergunta de como avaliar as inteligências dos alunos interagentes. Para Gardner (1995), tão importante quanto propiciar um ambiente escolar rico para a estimulação das inteligências dos interagentes, é identificar suas potencialidades e dificuldades, para que elas se tornem parte do seu planejamento educacional.

Foi com tal preocupação que desenvolvemos uma ferramenta para medir o perfil intelectual dos interagentes aluno do AVA; entretanto, desenvolver um perfil de inteligências de uma pessoa não é tarefa tão simples. Partimos da compreensão de Gardner (1995) de que a melhor maneira de avaliar as inteligências múltiplas do aprendente é por meio de um exame realista de seu desempenho nos muitos tipos de tarefas, atividades e experiências associadas a cada inteligência.

Com o intuito de desenvolver a ferramenta nos baseamos na abordagem do Projeto Espectro para avaliação de crianças pequenas em idade pré-escolar (GARDNER, 1995). Este, um projeto experienciado numa sala de aula presencial que, tal como o AVA desenvolvido, proporciona que as crianças estejam diariamente cercadas por abundantes e atraentes materiais, evocando, assim, o uso de uma variedade de inteligências; nele, elas têm amplas oportunidades de explorar as várias áreas de aprendizagem, utilizando-se dos materiais e potencializando seu conjunto singular de habilidades e inteligências. A avaliação dos seus perfis intelectuais fica por conta do professor que as observa, identificando e registrando, em um portfólio, seus interesses e talentos advindos da exploração dos jogos e das atividades no ambiente, durante o passar do ano.

Neste trabalho focamos na maneira com a qual a criança interage com os materiais e as ferramentas do AVA para medir o seu perfil intelectual; neste sentido implementamos no ambiente virtual uma funcionalidade para registrar a navegação e a exploração do interagente aluno pelo sistema expressando, assim, seus interesses e motivações e, desta maneira, explícitando suas potencialidades específicas, dificuldades e inclinações cognitivas.

Para a operação da funcionalidade os objetos de aprendizagem (áudio, vídeo, imagem, texto, jogos educativos), e as ferramentas e funcionalidades disponíveis ao interagente aluno, foram classificados e indexados com a combinação de inteligências neles valorizada e estimulada (figura 28).

FIGURA 28 – Classificação dos conteúdos, de acordo com a combinação de inteligências nele valorizada e estimulada.

FONTE: RABELO, H. et al. Uma estratégia para traçar o perfil intelectual do educando no ambiente virtual de aprendizagem Edulivre. In: SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA (SBPC), 2010, Natal. Anais... Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2010.

Na prática, a funcionalidade foi desenvolvida para operar no momento em que o interagente aluno efetua seu login no AVA, passando a ser “observado” pelo sistema. O perfil do aprendente, por sua vez, é atualizado sempre que ele interage com os conteúdos e acessa as ferramentas/ funcionalidades durante sua navegação e exploração. A ferramenta desenvolvida apresenta, portanto, o perfil intelectual do aprendente por meio da descrição de sua utilização do AVA, exibindo-o de forma quantitativa (percentual ou gráfica) para o interagente professor da escola na qual o aluno está cadastrado (figura 29).

FIGURA 29– Perfil de inteligência do interagente aluno disponibilizado pelo sistema

FONTE: RABELO, H. et al. Uma estratégia para traçar o perfil intelectual do educando no ambiente virtual de aprendizagem Edulivre. In: SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA (SBPC), 2010, Natal. Anais... Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2010.

Com a ferramenta de avaliação do perfil intelectual dos aprendentes, o AVA se tornou, assim, um instrumento útil para eliciar o completo reportório das capacidades dos alunos interagentes, produzindo informações úteis para subsequentes sugestões e oportunidades pedagógicas. Do lado prático, os professores se beneficiarão com as informações a respeito das competências cognitivas de seus alunos durante o período em que seu cérebro é especialmente plástico e em que as escolas são mais flexíveis, com vistas a uma intervenção educacional efetiva em prol do desenvolvimento intelectual mais amplo dos mesmos. Munido com todas essas ferramentas e funcionalidades, o professor desloca sua competência no sentido de incentivar a aprendizagem e o pensamento dos aprendentes; sua postura deixa de ser a de um provedor de informações ou transmissor de conhecimentos; doravante, ele os disponibilizará e preparará os alunos para aprender em um espaço rico, aberto, de cooperação e interação, assumindo o papel de motivador das inteligências individuais e coletiva de seus grupos de aprendentes; com a ferramenta de avalição do perfil intelectual do interagente, os docentes deverão perceber a pluralidade de cada aprendente e proporcionar opções de aprendizagens, de acordo com sua idiossincrasia; sua atividade se centrará, portanto, no acompanhamento e na gestão das aprendizagens, por meio do incitamento à troca de saberes, da mediação relacional e simbólica e da pilotagem personalizada dos percursos de aprendizagem no hipertexto digital.

6 CONSIDERAÇÕES

O percurso traçado até aqui, apesar de prazeroso e significativo, não foi fácil. Um terreno acidentado, um itinerário sinuoso e longo, envolveu um grupo grande e diverso, não permitindo que o trajeto fosse trilhado completa e rapidamente; a cada passo (pesquisa-ação), novos caminhos (reflexões) se impunham, discussões eram erigidas e as experiências concretas solicitavam mudanças; nele, procuramos conduzir uma profunda imersão no problema pesquisado, apesar do distanciamento dos grupos, dos ritmos diferenciados e do medo dos desafios, que se lançaram durante sua execução e que caracterizam qualquer iniciativa em uma área ainda pouco estudada; e se no meio dos caminhos havia pedras, elas precisaram ser deslocadas, a fim de que pudéssemos observar o que escondiam.

Como toda expedição científica, tal empreitada não seguiu sem orientação. Uma ambiência comunicacional interativa proporcionada pela pesquisa- ação possibilitou o trabalho colaborativo e interdisciplinar entre os grupos e serviu de guia por entre a diversidade de ambientes trilhados. Contudo, ela não forneceu mapas fechados, de fronteiras rígidas; ao contrário, promoveu possibilidades de caminhos o que exigiu um olhar curioso, atento e cuidadoso. Assim como em Os Lusíadas, do poeta lisboeta Luís de Camões, em que a expedição de Vasco da Gama segue para as Índias e enfrenta as tormentas, as dificuldades e os monstros, sempre com um olhar desbravador, o nosso movimento motivou a ultrapassagem de certos limites territoriais, demarcados pela tradição e desconhecimento; em sendo assim, trilhas alternativas tiveram de ser abertas, com os habitantes dos locais cruzados opinando, questionando com frequência o caminho trilhado, apontando novos e outros, e se juntando ao grupo; todos sem pressa de chegar (se é que existe chegada); por vezes o caminho é mais recompensador do que chegar.

Quase “chegando” ao final desta etapa de minha jornada de busca por conhecimentos que pudessem confirmar a potencialidade do AVA desenvolvido no âmbito do projeto Edlivre para o desenvolvimento de inteligências múltiplas de alunos de 7 a 9 anos de idade, e que, com certeza, não será a última, cabe agora olhar para trás, recordar por onde passamos, observar o que foi recolhido e trazido na bagagem e só então refletir sobre as próximas expedições.