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The perceived role of ICT use in instruction

6 Discussion of the Findings

6.2 The perceived role of ICT use in instruction

Desde que se generalizaram os métodos de datação direta da arte rupestre que os investigadores responderam de forma distinta aos resultados advindos da aplicação daqueles, variando, consequentemente, a avaliação que fazem sobre a validade da comparação estilística.

Uma corrente mais radical nega de forma absoluta a comparação estilística como ferramenta de aproximação cronológica, confiando apenas nos métodos de datação absoluta. Entre os paladinos desta corrente, destaca-se R. G. Bednarik. O radicalismo desta corrente não admite mesmo a cronologia paleolítica de sítios consensualmente aceites como tal, como sejam os do Côa, de Siega Verde, de Creswell Cregs ou mesmo de Lascaux (v.g. Bednarik, 2014). Os grandes problemas desta corrente foram em grande parte colocados a nu aquando do debate sobre a cronologia do Côa: a excessiva confiança em métodos ainda embrionários (na melhor das hipóteses), ou uma confiança cega nos resultados daí advindos, não admitindo uma análise crítica dos mesmos. A esta mesma análise crítica procedeu, por exemplo,

                                                                                                                         

62 Embora não tenha sido o único. Entre outras propostas destaque-se a de Jordá (v.g. 1964), que não

R. Dorn, demonstrando assim como os mesmos resultados de datações AMS que eram brandidos por Watchmann e Bednarik como mais um argumento para sustentar a cronologia recente da arte do Côa, poderiam afinal demonstrar a antiguidade da mesma (Dorn,1997). Mas o radicalismo da corrente é particularmente evidente porquanto até resultados inquestionáveis de escavações são descartados se estes colocam em causa as certezas dos seus seguidores. Tal aconteceu, por exemplo, com as escavações do Fariseu (v.g. Abreu & Bednarik, 2000). É deveras impressionante como em artigo de 2014(!), R. Bednarik volta com os mesmos argumentos de 2000 a criticar as escavações daquele sítio, correspondendo o trabalho de Aubry e colaboradores de 2002(!) ao trabalho mais recente que cita relativamente à Arqueologia do Côa63. Não podia ser de outra maneira, ou teria o autor que se haver com os resultados de datações TL, OSL e 14C do sítio, com os desenhos de materiais exumados, com as evidências de fases de sedimentação e de erosão no vale, e com outros dados de cuja inexistência Bednarik se queixa, ou que explicam as dúvidas que poderia ter sobre a cronologia do vale e das suas gravuras. Esta corrente radical é, como seria de esperar, marginal na comunidade científica, sendo por vezes difícil perceber se os seus trabalhos não ultrapassam já os limites daquilo que ainda poderemos caraterizar como Ciência.

Uma segunda corrente tem em conta os resultados advindos das datações diretas, mas continua a valorizar a comparação estilística, designadamente o trabalho de Leroi-Gourhan (v.g. Moure & González, 2000; Züchner, 2003; Alcolea & Balbín, 2007b). Estes autores relevam o facto da maior parte das datações diretas acabarem por confirmar a proposta de Leroi-Gourhan, sendo em menor número as que a contrariam (v.g. González & San Miguel, 2001, 189-199; Alcolea & Balbín, 2007b). Estes autores não ignoram a existência de alguns sítios cujas datas parecem deitar por terra os sistemas clássicos de classificação cronológica (como Chauvet, de que trataremos adiante), mas defendem que algumas datas que foram lidas como argumentos contra a proposta de Leroi-Gourhan, são afinal evidências da sua validade. Veja-se, a título de exemplo, as leitura divergentes que Alcolea & Balbín (2007b, 445) e Lorblanchet (1993, 70) fazem das mesmas datas de Altamira.

Os seguidores desta corrente não contestam, no entanto, a necessidade de

                                                                                                                         

63 Bastará ao leitor passar os olhos pela bibliografa do nosso trabalho para verificar o que Aubry e os

seus diversos colaboradores foram publicando sobre o Fariseu desde 2002 até 2014, para avaliar a má- fé (ou simples ignorância) de Bednarik.

modificações na proposta de Leroi-Gourhan. Se atrás apodámos de “radical” a revisão a que a proposta de Leroi-Gourhan, segundo alguns, deve ser sujeita, tal deve-se ao facto de que é consensual a necessidade de “mexidas” nesse esquema. Balbín, por exemplo, admite que as recentes datações de U/Th da Cantábria (Pike et al., 2012) obrigam a recuar a cronologia de algumas obras parietais (Balbín, 2014, 161). Contudo, como o autor refere, a estas obras faltam a elaboração, modelação e detalhe presentes, por exemplo na série negra de Chauvet. Ora, são precisamente as datações desta série, caraterizada pelo uso de procedimentos técnicos altamente complexos (designadamente o modelado das figuras ou o chiaro-oscuro que se observa em algumas delas), que parecem colocar mais em causa o esquema crono-estilístico de Leroi-Gourhan (v.g. Balbín, 2014, 160-161).

Contudo, as datações desta gruta são colocadas em causa quer por investigadores que sempre defenderam o esquema de Leroi-Gourhan (como Alcolea e Balbín), quer por outros que sempre se bateram pela insuficiência da análise estilística, como P. Bahn (v.g. Bahn, 1993). Na base destas críticas encontram-se, explícita ou implicitamente, as caraterísticas formais daquela série negra.

Se críticos da comparação estilística não se deixam, ainda assim, entusiasmar pelas datas de Chauvet, outros investigadores que nunca puseram em causa o procedimento (e não põem) aceitam-nas perfeitamente. Estes investigadores integrarão uma terceira corrente que não coloca em causa o método da comparação estilística, mas que tem em conta as novas datações, designadamente de Chauvet. Jean Clottes será um bom exemplo, desta corrente (v.g. Clottes, 1993; 2001, 213-214), assim como G. Sauvet (v.g. Sauvet, 2004). Para a maioria dos investigadores que integramos nesta corrente, no momento atual só se poderá distinguir uma ruptura clara na evolução da arte paleolítica da Europa ocidental, ruptura essa que se terá dado no Magdalenense. Nesse sentido, a única organização possível da arte paleolítica da Europa ocidental é entre a arte magdalenense e a arte imediatamente anterior, dificilmente distinguível entre si (v.g. Petrognani, 2013; Sauvet & Wlodarczyk, 2000- 2001).

Não deixa de ser curioso que este corte profundo entre uma arte magdalenense e uma outra anterior é também a cesura maior identificada pelos investigadores que defendem ainda a validade global do esquema crono-estilístico de Leroi-Gourhan (González & San Miguel, 2001, 198-199; Alcolea & Balbín, 2007b, 458). De facto, da leitura crítica da bibliografia atual em torno da cronologia da arte paleolítica o que

se releva em termos de resultados práticos é, mais que uma oposição entre “estilistas” e “pós-estilistas”, uma oposição entre os que aceitam as datas recuadas da série negra de Chauvet e os que não as aceitam. Por outro lado, nenhum dos “campos” descura a importância da identificação de recorrências formais no conjunto dos grafismos paleolíticos para o estabelecimento da cronologias dos mesmos, ou, dito de outra maneira, da importância do “estilo” das figuras. E se tal palavra não é pronunciada (ou, neste caso, escrita), tal reforça ainda mais a importância da mesma. Afinal, “Changing the name of a concept itself supports its use by showing that even if it is no

longer fashionable because of over-usage, it still cannot be dispensed with” (Clottes,

1993, 19).

E de facto, os “estudos estilísticos” estão na ordem do dia, proliferando na bibliografia atual as análises estatísticas em torno das caraterísticas formais de conjuntos diversos de grafismos paleolíticos (v.g. Petrognani, 2009; 2013; Bourrillon, 2009; Rivero, 2009; Bourdier, 2010; Gárate, 2010; Corchón et al., 2012a; Ruiz, 2014; Vázquez, 2014). A nosso ver, esta proliferação deve-se essencialmente a diversos fatores: um destes, de natureza muito prática, prende-se com a multiplicação de pacotes informáticos dedicados a estas operações estatísticas, pacotes estes cada vez mais acessíveis (muitos deles são mesmo freeware) e mais intuitivos; outro factor tem que ver com a possibilidade que estas operações estatísticas têm de ultrapassar uma das grandes contrariedades da análise estilística tradicional, a saber — a da valorização isolada de alguns critérios formais como definidores estilísticos. Este problema foi detetado, como referimos já, por Laming-Emperaire e por Leroi- Gourhan, mas nunca foi verdadeiramente ultrapassado. Por um lado, determinadas caraterísticas formais continuam a ser valorizadas (veja-se, por exemplo, a importância do M ventral dos cavalos no esquema de Leroi-Gourhan), mas sobretudo tem-se a impressão que se pretendeu valorizar o conjunto das caraterísticas formais das figuras sem, no entanto, descriminar cada uma destas caraterísticas nem o peso que teriam para a definição de um dado estilo, distinguindo-se estes essencialmente por gradação (a suavização da curva cérvico-dorsal ou a aproximação das proporções ao real, por exemplo) que mediante a alteração de caraterísticas claramente definidas. Ora, a utilização complementar dos dois métodos de análise estatística a que recorreremos permite obviar estas limitações. Esses dois métodos correspondem, à Análise de Correspondências Múltiplas e à Classificação Hierárquica Ascendente, descritas no capítulo anterior.

Obviamente que a classificação daqui decorrente poderá não ter qualquer significação cronológica. As classes definidas por estes métodos poderão por exemplo ter que ver com a funcionalidade dos elementos que as compõem64 ou denunciar a existência de contactos entre determinadas regiões durante um dado intervalo de tempo65. Caberá ao investigador interpretar os resultados, recorrendo aos tradicionais métodos de investigação arqueológica: ter em conta a posição de alguns dos elementos que compõem cada classe na sequência estratigráfica de escavações onde estes porventura possam ter ocorrido; procurar paralelos para esses elementos em contextos arqueológicos bem definidos; verificar se alguns dos paralelos encontrados não se encontram diretamente datados e, nesse caso, proceder a uma análise crítica dessas datações, etc. No fundo, estas opções pouco ou nada diferem dos métodos utilizados por Leroi-Gourhan para construir a sua sequência crono-estilística. E, de facto, pensamos que os métodos de classificação poderão ser vistos como um contributo decisivo para a análise estilística e não tanto como uma alternativa a essa mesma análise (Francis, 2001).

Em conclusão, parece-nos que hoje o debate aceso que se verificava há vinte anos entre “estilistas” e “pós-estilistas” arrefeceu grandemente. Se é verdade, que aqui e ali ainda se ouvem algumas vozes mais radicais, as diferenças entre ambos os campos parecem ter que ver mais com uma questão de expectativas. De facto, e como vimos acima, se para uns os diferentes resultados das datações dos bisontes do teto de Altamira e do bisonte “policromo” de Castillo são razões suficientes para que a análise estilística seja colocada em causa, para outros são evidência de que esta análise é válida, uma vez que não só as datas de Altamira são estatisticamente semelhantes como, do ponto de vista cultural e no tempo longo, se podem considerar contemporâneas das do bisonte de Castillo.

É talvez por isso que em termos de inferências globais não se observa grandes diferenças de fundo entre “estilistas” e pós-estilistas”, observando-se uma certa “universalização” de algumas ideias, como a que defende que atualmente, apenas são identificáveis com clareza duas fases na(s) sequência(s) gráfica(s) paleolítica(s) europeia(s): uma pré-magdalenense e uma magdalenense (v.g. Sauvet & Wlodarczyk, 2000-2001; González & San Miguel, 2001, 198-199; Alcolea & Balbín, 2007b, 458; Petrognani, 2013).

                                                                                                                         

64 Veja-se o estudo de Smits (1993) no Lesoto.

A afinação e precisão dessa(s) sequência(s) é assim um dos problemas maiores da atual investigação. Quanto a nós, ela não se poderá dar sem o estudo aprofundado das caraterísticas formais dos grafismos paleolíticos, designadamente mediante ferramentas estatísticas. Atualmente, estes estudos não procuram apenas responder a questões diretamente cronológicas. De facto, a análise estatística das caraterísticas formais dos grafismos paleolíticos poderá revelar quer a existência de tradições locais, quer evidências de contactos entre as diversas regiões do Ocidente gráfico do Paleolítico superior (v.g. Fortea et al., 2004). Sem mais delongas, apresentemos os resultados a que chegámos.