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8.2 Results and analysis of workshops

8.2.1 The participants

Malabry …), de 19334.

No Plano de Urbanização de Águeda, David Moreira da Silva, aplicou todos ensinamentos adquiridos numa clara linha da cidade-jardim. No plano de urbanização da Vila de Águeda, lemos as propostas de crescimento e de transformação da vila de modo a possibilitar o seu funcionamento, conciliando as vantagens da cidade e do campo: ruas, espaços verdes, o esquema clássico da organização do espaço em traçados rectilíneos a par de outros orgânicos, numa clara adaptação à topografia, a disposição de habitações unifamiliares, a imposição do verde privado, a criação de espaços cívicos e as grandes vias de ligação com o exterior. Como Margarida Lobo referiu este plano é ainda importante porque […] constitui um dos casos raros […]

em que a população participa no processo de elaboração do plano […]5.

No Ante-Plano de Urbanização de Guimarães, aditamento de 1953 ao Anteplano de 1949, como filosofia de base, os arquitectos partiram de um conjunto de directivas já expressas na tese apresentada por David Moreira da Silva, em Paris6 e das influências de De Gröer7, em que as premissas indispensáveis à organização da cidade foram: a valorização do desenho da cidade e dos diferentes elementos que compõem a paisagem urbana; a organização e vontade humanas; o respeito pela cidade histórica; a casa individual de baixa altimetria e seus espaços verdes privados, a habitação disposta ao longo de traçados numa clara oposição às propostas da cidade de Le Corbusier, nomeadamente ao imóvel colectivo gigante e ao desprezo pela cidade antiga. Como se pode observar neste ante-plano de urbanização, os arquitectos propõem a expansão da cidade para norte, oriente, ocidente e sul, estruturando o seu futuro crescimento a partir do núcleo urbano existente, propondo uma organização através de vias de influência clássica (norte), eixos rectilíneos e praças, ou, pelo contrário, na zona sul os traçados orgânicos. Na parte oriental de Guimarães, a oriente da pata de ganso (1925, Plano de Luís de Pina) – incluiu-se um equipamento escolar, o liceu, para 1000 alunos, utilizando materiais da região, a proposta de traçados urbanos rectilíneos e curvos com pequenos impasses em praças em U (capela, igreja, escola) ao longo dos quais se encontram dispostas casas unifamiliares de um ou dois pisos, evitando-se a construção em altura e respeitando sempre o centro histórico e a sua proximidade ao Castelo. Preocuparam-se também de um modo particular com a zona a ocidente entre as antigas estradas de Braga e Famalicão, colocando perto da Avenida Conde de Margaride dois importantes equipamentos que na opinião de Bernardo Ferrão são

novidades absolutas em Guimarães: uma central de camionagem e um estádio Municipal8, 4 PAQUOT, Thierry – “A Cidade-jardim de Ebenezer Howard”. Revista de Urbanismo nº 343, Julho -Agosto de

2005. In Pimenta negra.blogspot. com/2005/12/cidade-jardim-de-ebenezer-howard.html. IMS/AJMS – dossiê com informação de congressos e revistas sobre as cidades francesas na região de Paris.

5 LÔBO, Margarida Sousa – Planos de Urbanização. A Época de Duarte Pacheco. Porto: DGOTDU- FAUP, 1995. 6 MOREIRA DA SILVA, David – Les Villes Qui Meurent Sans Se Dépeupler. Thése présentée à L’Institut D’Urbanisme

de L’Universitè de Paris, le 24 Février 1939.

7 ADGOTDU: De Gröer Plano de Urbanização de Coimbra. DMS colaborou neste Plano.

8 FERRÃO, Bernardo – A Ampliação e Renovação Moderno – Monumental da Cidade (1926-1974). In Guimarães

expansão para ocidente manteve a mesma estrutura de organização do espaço urbano, com a proposta de uma certa monumentalização de espaços destinados a equipamentos vários em unidades de vizinhança (Instituto do Bom Pastor, igreja, escolas). Como De Gröer, propõem a casa unifamiliar individual ou geminada, de um ou dois pisos, o espaço verde privado a par das áreas urbanas verdes, a localização dos edifícios públicos. Neste plano, deram uma atenção particular às pré-existências e à topografia do terreno, executando grandes vias de circulação sinuosas, eixos importantes de ligação às estradas nacionais do Porto, Braga, Fafe, Famalicão, estabelecendo uma envolvente pelo poente e outra pelo norte da cidade, com a vantagem de separar o trânsito de longo curso que atravessava a cidade, cuja execução foi realizada a par dos aproveitamentos de troços pré-existentes.

Numa escala menor, a proposta de um projecto de uma aldeia com casas de renda barata, perto de Matosinhos numa época de saturação habitacional e de más condições de habitabilidade. Com a preocupação de resolverem o alojamento das classes mais desfavorecidas do concelho, realizaram um projecto para Gondim, onde demonstram as mesmas preocupações: os traçados orgânicos adaptados à topografia e a arruamentos pré-existentes ou não e facilitadores das novas exigências de circulação automóvel (circunstância que revolucionou o urbanismo e arquitectura), novos traçados, espaços públicos de convívio e equipamentos próximos das zonas habitacionais, feitas com economia de meios, segurança, salubridade, dignidade e diversidade tipológica – numa dignificação da habitação de famílias desfavorecidas.

A obra de urbanismo deste atelier reflecte as aprendizagens académicas dos dois arquitectos, a aplicação dos pressupostos da cidade-jardim, muito em voga na Europa, as aprendizagens feitas pela constante actualização de informação a par das imposições do mercado e da conjuntura política portuguesa – a realidade nacional do

Estado Novo na habitação social, a casa portuguesa tendência nacionalista – fascizante, monumental ou ruralizante9, num impulso que o regime dera pela lei nº 23052 de 1933 à criação de casas económicas […] casa salubre, independente, como um ninho lar da

família operária […] mais tarde em 1945, surgiram os bairros de casas de famílias pobres10. A obra reflecte ainda a política de criação dos primeiros planos de urbanização, da iniciativa de Duarte Pacheco enquanto Ministro das Obras Públicas numa clara intenção de renovação das políticas urbanísticas pela efectiva criação de uma imagem

urbana com que o regime se identificasse11.

Num segundo momento, a actividade de parceria dos dois arquitectos no atelier, a de continuidade – obras terminadas por genro e filha do arquitecto José Marques da Silva – particularmente o caso do edifico sede da Sociedade Martins Sarmento. Aqueles arquitectos dirigiram e concluíram obras iniciadas ou intervencionadas por Marques 9 TOSTÕES, Ana – Século XX – Panorama cultural. In BECKER, Annette; TOSTÕES, Ana; WANG, Wilfried –

Arquitectura do Século XX. Portugal. Catálogo das Exposições Deutsches Architektur – Museum, Frankfurt am Main

(1998), Centro Cultural de Belém, Lisboa (1998), pp. 205/ 218.

10 FERRÃO, ob. cit, p.167. 11 LÔBO, Margarida, op. Cit.

o edifício do prédio da rua Barjona de Freitas, em Barcelos; o edifício da Sociedade Martins Sarmento, do Mercado Municipal e Igreja da Penha em Guimarães e no, segundo caso, a Igreja de S. Torcato, nesta última cidade, […] espaços continuamente

repensados, acrescentados, modificados em demoras a que se prendem questões de índole profissional, pessoal, urbanística e financeira12.

Figura 3 – Sociedade Martins Sarmento, fachadas lateral/

norte e principal/este.

Figura 4 – Sociedade Martins Sarmento, fachada posterior/

oeste.

Figura 5 – Sociedade Martins Sarmento, escadaria nobre.

Na rua Paio Galvão, um edifício importante da cidade, o da Sociedade Martins Sarmento, espaço definido por um invólucro revivalista, impõe-se pela sua monumen- talidade e as suas paredes supõem fechamento, silêncio e intimidam um pouco, mas, é um

edifício forte que esconjura o tempo e tranquiliza13. Numa época de intensa actividade do atelier, os dois arquitectos assumiram graciosamente, a participação na direcção de obras e conclusão do edifício do mestre, cuja concepção e directrizes respeitaram e optimizaram, de 1947 a finais da década de 60. Da análise documental se constatou a longa colaboração e um enorme empenhamento na consecução da obra de Marques da Silva. Respeitando o seu projecto, genro e filha materializaram a maior parte do edifício sede: a fachada lateral Norte (figura 3), na década de 50 e a fachada posterior (figura 4) e a lateral/sul, na década de 60. No entanto, deram um cunho pessoal no aproveitamento e criação de espaço útil, nos acessos como foi o caso da escadaria nobre (figura 5) e ligações às estruturas existentes, nos acabamentos através de outras soluções e materiais de revestimento e no mobiliário.

Abordamos, agora, o nosso último ponto, duas edificações na cidade do Porto, três programas de tempos e grafias diferentes: o Palácio do Comércio e o complexo da Sociedade Cooperativa de Produção dos Operários e Pedreiros Portuenses/Torre Miradouro.

Quisemos colocar aqui lado a lado dois projectos pensados para o quarteirão definido pelas ruas de Sá da Bandeira, Fernandes Tomás, Bolhão e Firmeza, encomendados pela Firma Ferreira & Irmãos, inicialmente ao arquitecto Viana de Lima, em 1943, e posteriormente ao atelier dos dois arquitectos. Da análise dos dois edifícios para um 12 PIRES, Maria do Carmo Marques – David Moreira da Silva e Maria José Marques da Silva Martins: a concretização de

projectos e de aprendizagens. In Catálogo da Exposição José Marques da Silva em Guimarães. Guimarães: Sociedade

Martins Sarmento, 2007.

Vieira de Almeida, o da autoria de Viana de Lima numa linguagem Corbusiana (fenes- tração, na leitura horizontal da fachada, no piso térreo recuado comparativamente ao resto do volume), de dois blocos paralelos unidos, nos seus lados mais pequenos por um sistema de acessos, escadas colocadas frente a frente, resultando um edifício de

surpreendente modernidade15 e aberto ao exterior. O projecto inicial do edifício actual- mente existente, portanto preferido, data de 1946, e resulta num volume impositivo e fechado ao exterior de um edifício misto de habitação e comércio, numa linguagem

artes déco, com fachada movimentada pelos avanços das suas colunatas que marcam

um registo vertical e do recuo das fachadas abertas, por vãos repetitivos e pontuados com pequenos motivos decorativos geometrizantes. Uma fachada coroada por pérgolas,

lettering e uma escultura de Henrique Moreira16, ao sabor artes déco. De acordo com o entendimento da cidade, os arquitectos referem na sua memória descritiva e justi- ficativa ter sido o edifício […] concebido de modo a poder contribuir, em elevado grau,

para a plena valorização estética e funcional do núcleo central citadino […] pelos nobres e ricos materiais com que deverá a vir ser construído, não deixará de ser, para os vindouros, um bem marcante, expressivo e dignificador Padrão da Nossa época […]17. Destinado a comércio e habitação, tenta optimizar o aproveitamento rentável do espaço interior e, se comparado com a disposição espacial do edifício concebido por Viana de Lima lida nas plantas do r/ch, verificamos que neste segundo projecto existe um maior número de dispositivos espaciais adaptados a diversas funções: garagem subterrânea com entrada pela rua do Bolhão, grande café e restaurante, inúmeros estabelecimentos comerciais – escritório, armazéns, inúmeras moradias, de paredes exteriores de pedra, fachadas revestidas a placagem de granito polido e a granito lavrado a pico fino, estrutura de betão armado [de] granito duro e forte […] feito à imagem da cidade, cidade eterna os

seus muros, os seus palácios, os seus monumentos18. À escolha deste segundo projecto não terão sido alheios a vontade do cliente Delfim Ferreira, conceituado homem de negócios, a economia de meios, o respeito pelos materiais da cidade, num projecto que traduz uma imagem desejada de referência.

Nas imagens anteriores, um importante complexo eminentemente social foi sendo paulatinamente construído nas ruas Heróis de Chaves (futura D. João IV) e da Ale- gria. O requerente José Moreira da Silva um dos fundadores da SCPOPP, requeria a construção de um conjunto composto por dormitórios, vestiários, enfermaria, gabinete médico, sala de aula, biblioteca, refeitório armazéns, sala de sessões, escritório, oficinas, WC. As suas preocupações foram enunciadas no pedido de aprovação que fez à Câmara Municipal do Porto, e que se passam a citar […] São por demais conhecidos 14 Catálogo – Viana de Lima arquitecto 1913-1991. Porto: Árvore – Centro de Actividades Artísticas, 1996. 15 Idem

16 IMS/DMSMJMS – referenciada a escultura A vitória da Indústria de Henrique Moreira, num caderno de apontamentos

pessoais de David Moreira da Silva.

17 AHCMP- Livro de Licenças de Obras.

18 SOUSA, Francisco de Almeida e – “Obras para a Eternidade. A Cooperativa de Produção dos Pedreiros Portuenses”.

vindos dos arrabaldes, trabalham nesta cidade e aqui permanecem durante a semana, empregados principalmente na construção civil19. O projecto de 37 foi assumido pelo engenheiro J. Bástian, embora surja, num dos desenhos uma assinatura de David Moreira da Silva a par da deste engenheiro. A sua construção prolonga-se e surgem aditamentos assinados pelos dois arquitectos do atelier, entre 1949 e 1950.

Figura 6 – Sociedade Cooperativa de Produção dos Operários e Pedreiros Portuenses/Torre Miradouro,

fachada posterior.

Figura 7 – Torre Miradouro, fachada principal, Ruas da Alegria e D.: João IV.

A Torre Miradouro projectada por David Moreira da Silva e por Maria José Marques da Silva Martins, iniciada em 1963 e terminada em 1969, corresponde a numa nova concepção de edificação a dos Edifícios-Torre ou torres urbanas20, integrado no anterior conjunto, num claro contexto de renovação da cidade. Constitui um edifício que se impõe pela verticalidade a que não é estranha sua localização num ponto topograficamente elevado21, entre as Ruas de D. João IV e da Alegria, em fachadas coloridas pelos materiais utilizados (granitos, azulejos) como se de um mostruário da Cooperativa se tratasse. Programa misto de Habitação, uma Estalagem tão necessária à cidade e um restaurante miradouro, […] edifício cuja coerência formal se atinge à custa do material de revestimento

– azulejo – […] bem como à repetição exaustiva da caracterização dos vãos […]22.

Esta comunicação pretendeu ser uma primeira abordagem/olhar sobre a vasta obra deste atelier de David Moreira da Silva e de Maria José Marques da Silva Martins, marcado pelas diversas formações e opções dos dois arquitectos que materializaram cenários através do planeamento urbano e da construção de espaços públicos e privados integrados/sujeitos às diversas conjunturas nacionais.

19 AHCMP, Livro de Licenças de Obras de 1937.

20 LOUSA, António Portovedro – “Edifícios –Torre (1963-73)”. In Guia de arquitectura moderna. Porto 1901-2001.

Porto: Ordem dos Arquitectos/ Civilização, 2001.

21 Idem. 22 Idem ibidem.

Maria Leonor Barbosa SOARES

Consciente que descrever é compreender, como ensina Paul Ricoeur1, considerei essencial, como ponto de partida para o estudo do tema Salomé na obra de José Rodrigues, conhecer e analisar o maior número possível de representações de Salomé e de João Baptista realizadas em desenho, pintura, gravura e escultura2 ao longo da História e pelo maior número possível de artistas.

Este primeiro exercício – que deu origem a quadros descritivos e comparativos – levou à identificação de tendências de abordagem e de leitura, em contexto. Permitiu estabelecer relações entre os momentos históricos e o tipo de interpretação proposta, bem como o nível de conexão entre a interpretação plástica e as fontes escritas, tendo em conta aspectos como os olhares sobre as personagens (dados sobre a personalidade, detalhes da acção), o entendimento dos textos bíblicos (qual a selecção dos episódios e importância relativa, seja o banquete de Herodes, a dança, a morte de João Baptista ou a própria Salomé tratada isoladamente), o nível de fidelidade ao relato bíblico ou a independência do autor.

Articulado com este exercício, foi feito um primeiro ensaio de identificação das particularidades das obras de José Rodrigues nas várias técnicas, análise iniciada pelas séries em desenho3 procurando o sentido do seu tratamento do tema, do reconhecimento do que constitui uma visão pessoal e do que tem correspondência em obras de outros autores.

Tornou-se, então, necessário, pensar as razões da vitalidade, em finais do século XX, deste tema. Tendo em conta que, como em qualquer outro momento histórico, todas as interpretações que no momento presente se possam fazer solicitam das personagens um 1 “Descrição é compreensão” in RICOEUR, Paul – Philosophie de la Volonté: Le Volontaire et l’Involontaire. S/l : Éditions

Montaigne, 1963, p. 8.

2 Foi um instrumento utilíssimo nesta pesquisa o Catálogo Salomé dans les collections françaises. Saint-Denis, Tourcoing,

Albi, Auxerre: Musée d’Art et d’Histoire de la Ville de Saint-Denis/ Musée des Beaux-Arts de Tourcoing/ Musée Toulouse Lautrec d’Albi,/ Musée d’Auxerre, 1988. Agradeço ao Dr. Manuel Engrácia Antunes o gesto amigo de me dar a conhecer o catálogo e de mo emprestar.

3 Com um primeiro momento ligado a um texto de Eugénio de Andrade, como o próprio escritor explicou no Catálogo

aqui abarcar, tentaremos apenas delinear os princípios que nortearam a interpretação em curso.

Versões em que Herodíades é protagonista, vivendo uma paixão obsessiva por João, como a de Heinrich Heine no poema Atta Troll4 ou como a de Francesco del Cairo na pintura Herodíades com a cabeça de S. João Baptista ou, outras, em que a morte de João não foi de todo desejada por uma Salomé ingénua e apaixonada apanhada num enredo que não dominou, como a de Júlio Machado Vaz5, são contribuições infindavelmente estimulantes para a compreensão das relações entre os seres humanos. Por outras razões, não são menos significativas, as imagens em que se propõe uma Salomé apática e emudecida, ou apenas decorativa, melancólica, enigmática ou sedutora.

A narração-representação reveste-se sempre de qualidades e de características com um particular significado (actualizado ou, por vezes, inovador) no momento. Espera-se do sentido proposto determinado efeito no observador, tendo em conta o contexto de delimitação da sua sensibilidade.

A partir de indicações constantes nos vários textos do Catálogo Salomé dans les

collections françaises6, foram analisadas obras com datações sequenciais e, através do cruzamento das informações recolhidas, foi possível compreender e verificar as conclusões aí propostas:

A primeira representação de Salomé data do séc. VI7, uma miniatura num fragmento de um Evangeliário grego constante na Bibliothèque National em Paris. A cena escolhida foi o banquete de aniversário de Herodes Antipas;

De acordo com Daniela Devynck, em representações medievais de Salomé dançando, que existem já com datações anteriores ao ano 1000, aparece valorizada a marcação do movimento das ancas ou a torção ligeira do corpo e, desde o século XII ao século XV, preferencialmente se apresenta uma jovem a fazer difíceis exercícios de acrobacia, com acompanhamento musical, dentro dos registos da tradição grega, bizantina ou 4 Heinrich Heine, Atta Troll, 1841. Na interpretação de Heine, Herodíades beija João decapitado, apaixonadamente.

Ver excerto do poema, em Alemão, em http://home.c2i.net/w-206240/attatrol.htm ou a tradução em inglês em http://members.aol.com/abelard2/troll6.htm da qual retiro o seguinte trecho:

“[...]In her hands she bears forever That sad platter, with the head of John the Baptist, which she kisses; Yes, she’ll kiss the head with fervor.

For, at one time, she loved John – It’s not found within the Bible, Yet the people keep the saga Of Herodias’ bloody loving – [...]”

5 In Salomé. Matosinhos: Contemporânea Editora, 1997, edição com reproduções de 15 desenhos de José Rodrigues

da série João Baptista e Salomé e texto de Júlio Machado Vaz.

6 Ver referência na nota 2.

ponte8.

b) A representação de Salomé surge no contexto das referências à história da vida de S. João Baptista desde a Alta Idade média até ao séc. XV9;

c) Apenas a partir do século XV parece construir-se um retrato mais complexo definindo-se, progressivamente, o carácter provocador e sedutor de Salomé;

d) Embora desde o século XVI com enquadramento individualizado, só no século XIX se liberta da tendência descritiva preponderante em função da inscrição numa selecção de acontecimentos relativos a S. João Baptista. Adquire, então, autonomia como personagem, revelando progressivamente facetas diversas e até antinómicas: indiferente, passiva ou motivada e determinada, frágil ou dominadora, inocente ou tentadora, obediente ou traiçoeira…;

e) No século XIX, Salomé é objecto do interesse pela interpretação psicológica e para-psicológica dos indivíduos e acontecimentos10. Salomé surge então complexa, sofisticada, provocando sentimentos contraditórios (do fascínio à repulsa). Com Aubrey Beardsley, estamos perante algumas das representações que sintetizam maiores tensões. Mas os paradoxos são também abordados segundo outro esquema em que é acentuada a inocência na sua aparência – a candura de Salomé adolescente justaposta à insensibilidade e indiferença perante a cabeça de João Baptista (como acontece, por exemplo, na obra de Jean Benner em que a expressão afável e serena com que a jovem Salomé se dirige ao observador é completamente desadequada a alguém que transporta

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