A Regra de São Bento dedica um capítulo, o 48º ao trabalho das mãos de cada dia. Sendo a ociosidade inimiga da alma, deveriam ocupar-se os irmãos em trabalhos de mãos, e em certas horas em a lição divina61. Na repartição dos tempos surgem três períodos62:
·Entre a Páscoa e as calendas de Outubro, deveriam trabalhar, desde que saem da Hora de Prima até à quarta hora, e depois da Hora de Noa trabalham até as Vésperas.
·Do princípio de Outubro até o princípio da Quaresma trabalham entre a Terça eté à hora de Noa.
·Na Quaresma deveriam trabalhar entre a Hora da Terça e a hora décima. O tipo de trabalho não vem descriminado, mas é feita uma recomendação em relação aos Monges enfermos e delicados, aos quais deveria ser dado um trabalho que não os deixasse nem ociosos nem sobrecarregados63.
Recomenda-se igualmente que se surgisse a necessidade de se ocuparem os Monges com a recolha das sementes, não se deveriam entristecer, lembrando-se do tempo em que os próprios Monges trabalhavam a terra64.
É bem conhecido o papel dos Mosteiros na tradição literária da Europa medieval, e embora existisse leitura e escrita fora do Mosteiro, era dentro dos seus muros que a maioria dos manuscritos eram escritos, encadernados e iluminados, pelo menos até ao séc. XIII65.
Uma procura permanente de livros liga-se com as celebrações litúrgicas, uma vez que estas vão incluir orações, cânticos, leituras da Sagrada Escritura, e muitas vezes a leitura de sermões ou homilias dos Padres da Igreja, bem como no aniversário 61 Regra do Glorioso Patriarcha Sam Bento, Lisboa, António Ribeiro, 1586, p. 33.
62 Regra do Glorioso Patriarcha Sam Bento, Lisboa, António Ribeiro, 1586, p. 33 a 34. 63 Regra do Glorioso Patriarcha Sam Bento, Lisboa, António Ribeiro, 1586, p. 34. 64 Regra do Glorioso Patriarcha Sam Bento, Lisboa, António Ribeiro, 1586, p. 33v. 65 Avrin, L., Scribes, Script and Books, London, The British Library, 1991, p. 205.
relatos da sua vida ou dos seus milagres66. A estrutura das celebrações difere muito conforme se trata da Missa ou do Ofício Divino, e os livros correspondentes vão ser normalmente distintos67.
Devemos considerar pelo menos dois níveis de encomenda ou produção – os livros comuns, para uso quotidiano, e os livros ricos para utilização festiva, com consequências ao nível dos materiais, da escrita, da decoração, do acabamento, da encadernação, e das dimensões.
No que respeita às dimensões, o caso dos livros de canto parece especialmente significativo, uma vez que os livros que deveriam se colocados sobre a estante grande
in medio chori se vão tornar cada vez maiores, os códices adoptando quatro formatos
principais, quadrado, rectangular, oblongo e em álbum68.
A produção dos livros vai sofrer uma transformação importante no séc. XIV com a invenção da imprensa, e a introdução do papel como suporte.
Apesar disso, a história da caligrafia não vai terminar com a invenção da imprensa, embora a escrita manual passasse a deixar de ser uma necessidade, e comparativamente serem poucos os livros manuscritos e iluminados depois do séc. XVI69.
A caligrafia vai tornar-se então numa actividade cultivada sobretudo para a ostentação, patente na correspondência, na documentação oficial, nos certificados,70 e vai manter-se em livros para a liturgia, nomeadamente os livros de canto para as estantes grandes.
Em Portugal em 1615 o livro de Filipe Nunes A Arte da Pintura, Simetria e Perspectiva71 inclui um capítulo dedicado à pintura de iluminação, por exemplo com referências aos nomes das tintas que servem para a iluminação, o modo se lavarem as tintas, de se mesclarem as cores, como assombrar as cores, o moer do ouro para a iluminação, o assentar ouro em papel ou pergaminho72, etc. Inclui também uma série de seis receitas para tintas pretas para pergaminho73.
A documentação respeitante à Congregação de São Bento de Portugal, entre os sécs. XVII e XIX atesta a presença nos Mosteiros de escolas de escrita, e a produção de manuscritos iluminados, utilizando quer o pergaminho, quer o papel.
Por exemplo num Livro das Obras do Mosteiro de São Martinho de Tibães, no respeitante ao ano de 1656 vem registada uma despesa para tintas do Saltério feito pelo Padre Frei Ilefonso, que o Padre Frei António o Castanhola lhe teria dado em Lisboa74.
66 Martimort, A.G., Les Lectures Liturgiques et leurs livres, Turnhout, Brepols, 1992, note liminaire. 67 Martimort, A.G., Les Lectures Liturgiques et leurs livres, Turnhout, Brepols, 1992, note liminaire. 68 Huglo, M., Les Livres de Chant Liturgique, Turnout, Brepols, 1988, p. 75 a 79.
69 Avrin, L., Scribes, Script and Books, London, The British Library, 1991, p. 198. 70 Avrin, L., Scribes, Script and Books, London, The British Library, 1991, p. 198.
71 Nunes, Ph., Arte da Pintura, Symmetria, e Perspectiva, Lisboa 1615, edição fac-similada, Porto, Ed. Paisaagem,
1982.
72 Nunes, Ph., Arte da Pintura, Symmetria, e Perspectiva, Lisboa 1615, edição fac-similada, Porto, Ed. Paisagem, 1982,
p. 62 a 67.
73 Nunes, Ph., Arte da Pintura, Symmetria, e Perspectiva, Lisboa 1615, edição fac-similada, Porto, Ed. Paisagem, 1982,
p. 73 a 74v.
de São Bento da Vitória do Porto no primeiro quartel do séc. XVIII, será talvez interessante registar a referência a uma oficina de produção de manuscritos neste Mosteiro, incluída por exemplo no estado para Capítulo Geral de 1725, sendo Abade o Padre Pregador Frei Cipriano de São Francisco, onde na rubrica do descargo do Padre Gastador das Obras se inclui uma despesa para aquisição de pergaminhos e mais aparelhos para o Saltério que se fazia para o Coro75, e adiante na rubrica das obras feitas neste triénio o registo da compra de setenta e uma folhas de pergaminho de Castela e outros materiais para princípio do Saltério em que se ia trabalhando76. No estado para Capítulo Geral do mesmo Mosteiro relativo a 1728, na rubrica do descargo do Gastador das Obras figura novamente uma verba respeitante a perga- minhos, tintas e mais materiais para os Saltérios do Coro77, e adiante na rubrica das obras feitas, menciona-se que se fez um Saltério para o Coro, para cuja obra tinham ficado alguns materiais do triénio anterior, e neste triénio se acabara e mandara encadernar com tarjas e pregos de bronze, tendo este Saltério os Hinos, Salmos e Laudes de Domingo e segunda-feira, tendo-se feito igualmente um outro Saltério, que estava praticamente acabado, com os Hinos, Salmos e Laudes das terças, quartas e quintas feiras, ficando a obra feita com toda a perfeição78.