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The output gap

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Brasil. Investigações dessa natureza contribuem para análises das culturas escolares, e, mais especificamente, da circulação de ideias pedagógicas. Estas últimas norteiam, a partir de suas diversas representações, as políticas públicas e as práticas docentes, principalmente no que tange ao ensino normal e à instrução primária, auxiliando a construir historicamente tanto a imagem do professor quanto a da própria educação no país. Pois, os discursos pedagógicos que se dispõem materialmente como manuais pedagógicos “organizam e constituem o campo dos saberes pedagógicos representados como necessários à prática docente” (CARVALHO, 2006, p. 1).

Tomados como bens culturais datados e produzidos em circunstâncias marcadas por estratégias políticas, pedagógicas e editoriais determinadas, esses Tratados - gênero tradicionalmente didático - sintetizam teorias sobre um campo de saber específico e as expõem, de forma analítica, por meio de argumentos de autoridade e exemplos (CARVALHO, 2006). A partir deles, seus autores apresentam uma apropriação criativa de teorias que são difundidas estrategicamente para suscitar novas práticas e adequar as velhas ao ideal de educação que se pretende. Para Valdemarin (2010, p. 133):

Os manuais se inserem ora no campo das táticas (utilizam e alteram), ora no campo das estratégias (produzem, mapeiam e impõem), dependendo da situação relacional. Apropriando-se das referências contextuais e conjunturais, o autor elabora um produto didático destinado a provocar mudanças no sistema investido da autoridade proveniente da posição que ocupa nesse mesmo sistema - dirigente e conhecedor do dia a dia escolar - que lhe permite, ao mesmo tempo acompanhar e afiançar a mudança.

Destinados à formação dos professores, esses artefatos são nucleares para investigar a presença de elementos que, em determinados tempos/espaços, fixaram as formas de pensar e de desenvolver o ensino no país. Os manuais pedagógicos adotados como fontes e tomados como objetos de análise deste trabalho atendem e, em grande medida, são decorrentes, principalmente, da solidificação do ideário pedagógico da Escola Nova em voga entre as décadas de 1930 e 1960 no Brasil. De acordo com Valdemarin (2010, p. 131) estes manuais desenvolveram um repertório pedagógico, sugerindo modos de uso do ideário em questão e “operando num sistema prévio de ideias, [produzindo] versões praticáveis da teoria nas condições específicas da escola brasileira daquele tempo”.

Como artefatos de propagação do ideário escolanovista, os manuais pedagógicos transformavam valores, princípios e objetivos em prescrições de práticas pedagógicas, fazendo a intermediação entre o ideário e os seus desdobramentos (leis, decretos, programas de ensino) e a prática do magistério. Funcionavam então, como dispositivos de configuração do campo da pedagogia e de conformação das práticas escolares e, como artifícios para a sedução do professorado. Nas linhas dos manuais, seus autores apresentam uma apropriação criativa estrategicamente difundida criando assim uma rede de relações significativas. “Ao estabelecer modos de emprego, fabricam novos sentidos que combinam modos de pensar com sua utilização” (VALDEMARIN, 2010, p. 130).

As investigações de Marta Maria Chagas de Carvalho demonstram a pertinência dos estudos acerca da disseminação do escolanovismo no Brasil por meio dos impressos. A historiadora brasileira examina as formas pelas quais o impresso funcionou como dispositivo de configuração do campo da pedagogia e como estratégia de conformação das práticas escolares. A produção e a difusão dos discursos impressos se constituem a partir de um lugar de poder cujo objetivo é seduzir e modelar o professor, tomando assim a forma de estratégias. Estas eram empregadas por pioneiros e católicos com o objetivo de servir de instrumento de organização e mobilização do seu professorado, conforme aponta Carvalho (2005), que também destaca a importância estratégica do impresso no embate educacional da época:

E será nessa luta que o impresso desempenhará um papel fundamental. Na forma de livro de estudo para a Escola Normal, de livro de formação integrante de uma Biblioteca Pedagógica, de artigo de revista dirigida ao professor, de instrução regulamentar endereçada às escolas, de artigo de polêmica em jornal de grande circulação etc., o impresso será dispositivo de regulação e modelagem do discurso e da prática pedagógica do professorado (CARVALHO, 2005, p. 2).

Enquanto a sociedade brasileira do início do século XX entrava em disputa por projetos educacionais que sinalizassem o ideal de nação - tomando a educação como o lugar de efetivação da tal modernidade; entre consonâncias e dissonâncias, os manuais pedagógicos são legitimados, e, assumem o lugar de “verdade oficial”, configurando-se como sintetizadores da articulação entre teorias e práticas que visavam à formação de uma nova nação. Ecoando os discursos da substituição do velho pelo novo, os manuais pedagógicos vêm divulgar as recentes descobertas no campo científico-educacional atuando como suportes, dispositivos para a tal transformação, e, nessa vaga renovadora, emergem como protagonistas. Como “Tratados” (CARVALHO, 2006), os manuais pedagógicos levam aos professores primários, o projeto educacional nacionalista.

Carvalho oferece pistas para a compreensão do entrave entre católicos e pioneiros para a dominação do campo educacional, citando o impresso como estratégia utilizada por ambos os grupos, e, ainda ressalta o empenho dos educadores católicos em disseminar o escolanovismo a partir do viés católico. O conceito certeauniano de estratégia é uma ferramenta teórica interessante para analisar os discursos dos educadores na década de 1930 e, de forma especial, para compreender como se configurou e se empreendeu a difusão do ideário educacional católico por meio de uma rede de impressos voltados à formação dos professores primários. Dentro das estratégias católicas por meio dos impressos, destaca-se a produção e circulação de manuais pedagógicos que:

[...] difundiram versões depuradas da nova pedagogia, conformadas ao dogma católico [...] o impresso funcionou como regramento da conduta do professor através de fórmulas e preceitos vazados em léxico escolanovista saturado de sentido religioso. (CARVALHO, 2003, p.103).

2.4.1 Manuais escritos por Backheuser: norteadores de um escolanovismo católico

A posição católica em relação ao movimento escolanovista no Brasil foi reativa no início, mas, passou por um processo de autorreformulação. As críticas duras feitas por educadores ligados ao Centro Dom Vital e à Revista A Ordem foram sendo repensadas e deram espaço para o desenvolvimento de um escolanovismo católico. Assim, na década de 1930, no campo educacional brasileiro, surgiram discursos católicos simpáticos a alguns dos pressupostos trazidos pelo movimento da Escola Nova. Entre os representantes desse movimento destacaram-se dois educadores católicos, Jonathas Serrano e Everardo Backheuser. Além de todas as estratégias elaboradas e executadas por Backheuser, tratadas no subcapítulo 2.3, a partir de agora ajusto o foco nos manuais pedagógicos escritos por esse professor que matizou o escolanovismo com as cores da filosofia católica. O primeiro manual intitulado Técnica da Pedagogia Moderna (Teoria e Prática da Escola Nova) foi publicado em 1934. O segundo, Manual de Pedagogia Moderna (Teoria e Prática) foi publicado em 1942, e surgiu como uma reformulação do primeiro.

Ambos os manuais são tomados aqui como norteadores de um escolanovismo católico que seria uma espécie de terceira via entre o velho representado pela dita escola tradicional e o novo representado pela modernidade trazida pela Escola Nova. A respeito do manual na sua primeira edição, de 1934, o padre Leonel Franca afirma que:

Entre estes dois extremos [tradição e modernidade] o Dr. Backheuser soube, com rara felicidade, manter o equilíbrio ideal do justo meio: acolhimento agradecido de tudo o que nos trazem, numa tradição respeitável, a experiência dos séculos e a colaboração das gerações passadas; aceitação franca sincera e integral de toda contribuição moderna que a sciencia tem posto a serviço da pedagogia. Alliança harmoniosa numa só inteligência do vigor da mocidade com a experiência dos anos maduros. Com estes dotes que constituem o mais precioso tesouro num mestre na arte de educar, o ilustre presidente da Confederação Cattholica Brasileira de Educação veio acrescentar aos seus inumeráveis merecimentos o de haver enriquecido a nossa literatura pedagógica com um dos trabalhos mais informados, sérios e mais completo que possuímos (FRANCA apud BACKHEUSER, 1934, p. 9).

Os capítulos seguintes trazem a descrição técnica dos manuais e, em seguida, a análise do seu conteúdo. Algumas partes serão mais realçadas que outras no intuito de detectar nas suas linhas, indícios da Escola Nova. Interessa compreender como o autor se apropriou de alguns dos princípios desse ideário e como os representou nas páginas dos seus manuais.

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