Ainda com o escopo de confrontar os dois modelos pedagógicos, Backheuser traz o que considera como as características essenciais ou princípios cardeais da Escola Nova, apresentados como “aspectos”: pedagógico, filosófico, psicológico e político.
Para ele, a Escola Nova seria a executora de uma Educação Integral que teria como instrumentos a iniciativa, a cooperação e o preparo para a vida pela vida, conforme a ilustração abaixo (Figura 21). A ilustração, unida à afirmação a seguir, expressa a sua representação de Escola Nova: “Num ponto ao menos há perfeito e completo acordo entre todos os adeptos da Escola Nova: cumpre que a escola dê educação integral” (BACKHEUSER, 1934, p. 38, grifos do autor). A partir da sua clave, acrescenta à educação integral, a preocupação com a educação religiosa.
Figura 21 - A Escola Nova “em triângulo”
Levando em consideração o aspecto pedagógico, para ele qualquer educação então que não seja integral ou que mesmo sendo não utilize esses três instrumentos não poderá ser classificada como Escola Nova. E não basta cumprir apenas um deles, nem dois. Estes três caminhos são os princípios cardeais da Escola Nova. Por isso esquematiza a sua representação em um triângulo, “de cujos lados partem as forças das quais nasce a educação integral, escopo central dos novos métodos pedagógicos” (BACKHEUSER, 1934, p. 40).
Acerca do aspecto filosófico, afirma que a Pedagogia deve caminhar em função da Filosofia. Porque “esta, é um instrumento; aquela, o artífice que maneja a ferramenta. Má ou boa será a execução, conforme a filosofia que adotar o pedagogo” (BACKHEUSER, 1934, p. 44). Descarta os vieses teórico-filosóficos socialistas e comunistas - entre os teóricos cita Dewey - e individualistas - destaca Rousseau e Spencer, defendendo que somente a filosofia católica proporciona o equilíbrio necessário. Na sua opinião, a perspectiva socialista e comunista enfatiza de forma demasiada a cooperação e o desenvolvimento do instinto social do aluno diminuindo e até aniquilando a sua personalidade. Enquanto que os individualistas hipertrofiam a personalidade infantil e os seus sentimentos, esquecendo-se de cultivar a solidariedade social:
Entre o exagero individualista e o exagero socialista - o ponderado meio termo católico. O princípio cristão de “ama ao próximo como a ti mesmo” é de um clarividente bom senso, só não apreciado por aqueles que não meditam a profundidade do conceito. “Ama ao teu próximo”, sê solidário com ele, coopera com ele, mas não esqueças “a ti próprio”, porque o teu aperfeiçoamento moral deve ser o primeiro cuidado da tua vida (BACKHEUSER, 1934, p. 45).
Desse modo, postula que o pedagogo deve dosar a Escola Nova de forma equilibrada, calcando-a na filosofia católica. A pedagogia nova deve pregar a vida em cooperação ativa, não ser só ativo e nem só ajudar aos outros, a cooperação deve ser ativa e a atividade deve ser realizada em cooperação.
Para pensar a influência da Psicologia na Pedagogia o autor se refere ao que chamou de tipos psicológicos: auditivos, visuais e motores. Na sua concepção o exame destes tipos na Escola Nova, e na antiga, serve para pinçar mais algumas diferenças entre esses dois modelos pedagógicos. O excerto a seguir apresenta indícios da atenção que ele dispensa à Psicologia quando pensa a Pedagogia: “O progresso da pedagogia é função do progresso da psicologia, tanto é verdade que a psicologia é uma das pedras fundamentais da pedagogia” (BACKHEUSER, 1934, p. 46).
Para Backheuser, na escola antiga, o ensino era quase que completamente oral, pois os pedagogos acreditavam sobremaneira nos meios auditivos. Os mestres ensinavam falando, os alunos aprendiam ouvindo e demonstravam a aprendizagem também falando. Assim, a memória auditiva predominava no processo pedagógico, inclusive o meio de verificação de aprendizagem mais usado eram as sabatinas, nesse contexto “aprender de cor” era a consequência esperada.
Com os estudos de Herbart os processos de observação foram popularizados e o tipo visual ganhou evidência. No entanto, para o autor do manual não se pode centralizar apenas nos tipos auditivo e visual, é preciso investir nos tipos motores porque utilizam o movimento e o tato para a percepção dos conhecimentos. No seu entendimento, Kerschensteiner e outros estudiosos valorizaram o trabalho, a atividade que preencheu a lacuna deixada pela ênfase nos tipos psicológicos auditivos e visuais. O escolanovismo católico do manual propõe o equilíbrio entre os diversos sentidos, sem enfatizar demasiadamente um ou outro:
O ensino feito racionalmente sobre base psicológica terá, pois, de considerar: 1) que todo indivíduo embora adquira noções pelo três caminhos sensoriais mais importantes - tato, vista e ouvido -, tem um deles acentuado; 2) que todas as classes escolares são compostas de indivíduos pertencentes a vários desses tipos psicológicos; 3) que as criaturas são, a princípio, predominantemente motoras (primeiro período primário), depois visuais, e afinal auditivas, embora haja casos em que a qualidade essencial conserva-se sempre como a dominante em todas as idades; 4) que o ensino não pode ser feito exclusivamente de modo motor, ou visual, ou auditivo mas concomitantemente atendendo às três pressões psicológicas (BACKHEUSER, 1934, p. 48).
Por fim, em relação ao aspecto político, ele adverte que a Escola Nova foi entendida sob os mais diversos prismas. Para alguns adeptos do escolanovismo, a educação nova é essencialmente nacionalista, uma vez que deve formar o cidadão, com amor à Pátria e consciência dos seus deveres cívicos. Para outros, sobretudo os russos, a escola é internacional. Há ainda os estudiosos para quem a Escola Nova é a escola do trabalho. Dentre esses, alguns supervalorizam o trabalho, vendo neste o caminho político de ascendência das classes trabalhadoras; outros vêem no trabalho o caráter econômico e político, mas não consideram o mais alto propósito da Escola Nova, que teria como finalidade principal o ensino da moral, como pensam os escolanovistas católicos.