2.4 Equation of State
3.1.1 The Optimal Controlled Hydrogen Heat Exchanger 31
Cabe notar também a importância que a voz possui nas poesias de cordel, assim como possuía na poesia medieval. Independente de sua condição de escrita, essas poesias são narrativas feitas para serem transmitidas pela voz, construídas de maneira a permitir uma boa memorização. Para evitar mal-entendidos, Zumthor procura diferenciar tradição oral de transmissão oral. Enquanto a tradição oral se situa na duração, a transmissão oral está no ato de transmitir. Enquanto o intérprete canta ou recita, sua voz confere a ele sua autoridade, se ele lê, a autoridade vem do livro como objeto visualmente percebido no centro da apresentação. Assim, é necessário compreender a importância da voz no que diz respeito à oralidade. Para o autor, o conjunto de textos dos séculos X, XI e XII, e em medida menor nos séculos XIII e XIV, transitou pela voz em virtude de uma situação histórica fazendo desse transito vocal o único modo possível de realização desses textos162. No que diz respeito à voz, as poesias épicas do Nordeste brasileiro podem ser comparadas com as canções de gestas medievais. Percebemos nessa relação que existem pontos de continuidade, que amarram de alguma maneira as duas tradições, mas também relações correspondem a rupturas entre as duas formas. Vimos que nas gestas medievais a voz do poeta era o centro do evento. A oralidade dessa maneira se associa ao presente da transmissão do texto. As gestas, mesmo ao serem escritas, mantinham sua força enquanto tradição oral. Força vinda da voz, da presença corporal do recitante, ao expor as longas narrativas heróicas guardadas em sua memória. As poesias de cordel também adquirem sua força junto a um grupo por meio da voz. O fato de serem colocadas por escrito e reproduzidas por processos industriais não exclui a importância da voz. Não se constituem a partir de uma tradição oral, mas escrita. Até mesmo o nome cordel, adotado modernamente, remete ao material escrito, pois é uma referência aos
162 ZUMTHOR, 1987. pp. 17 – 22. Há três tipos de oralidade que correspondem a três situações de cultura. Uma primária, que não tem nenhum contato com a escrita, uma oralidade mista, com um desenvolvimento externo e parcial da escrita, e uma oralidade segunda, que se recompõem a partir da escrita. A oralidade mista procede da existência de uma cultura “escrita”, e a oralidade segunda de uma cultura “letrada”. Em uma sociedade que conhece a escrita, o texto poético, na medida em que é transmitido a um público, se realiza seja pela via sensorial oral auditiva, seja por um meio oferecido à percepção visual, ou pelos dois procedimentos conjuntamente.
barbantes nos quais os folhetos seriam pendurados. A transmissão também ocorre por meio da leitura silenciosa dos folhetos, uma característica moderna do modo de apreensão dos textos. Mas, quando uma poesia é declamada, recebe a atenção de uma coletividade e adquire importância fundamental na memória desse grupo. É essa importância que observamos na gravura “Juvenal e o dragão”. Samico guardava em sua memória lembranças das épicas narradas, transmitidas pela voz. Elas permaneciam guardadas em seus lugares mentais, pois marcaram fortemente o campo sensorial do artista, assim como sensibilizaram seus contemporâneos. Nas gestas, em muitos casos a tradição das canções poderia ter sido confiada à memória dos intérpretes, mesmo paralelamente a textos escritos. A transmissão das canções promoveu um enriquecimento, uma renovação constante do texto e da melodia. É dessa multiplicidade e diversidade que provém a sua duração163.
A apreensão de uma poesia de cordel por meio da leitura dispersa no tempo sua recepção pelos leitores, pois cada um tem seu tempo de leitura e o mesmo texto pode ser lido em momentos diferentes, em lugares e épocas distantes. Porém, ao ser transmitida por meio da voz para um grupo, a poesia tende a agregar uma coletividade de indivíduos. A audição das poesias por Samico ocorria junto com outras pessoas de um grupo ao qual pertencia. Assim, o ato de narrar as poesias oralmente para uma platéia faz com que as lembranças comuns reforcem umas as outras, pois era um evento acontecido em um grupo reunido. No espaço do Ocidente medieval, a voz poética esteve presente em diversos lugares integrada ao discurso comum, em função da característica errante dos intérpretes no espaço e no tempo. As vozes cotidianas dispersam as palavras, a voz poética as junta em um instante, o da atuação, efêmero, mas de presença164. A voz poética é memória na medida em que, coletivamente é fonte de saber e, para o indivíduo, uma forma de tomar o saber e enriquecer a si mesmo. As transmissões orais, transportadas pela voz, na qual a poesia tem grande importância, contribuem de modo fundamental no estudo sobre a memória. A memória coletiva se constitui da justaposição das lembranças individuais, e sua duração é garantida graças à multiplicidade de lembranças parciais.
Em uma tradição oral, na qual a memória ocupa um papel fundamental, a voz poética se eleva ao mesmo lugar dos códigos culturais, linguísticos, rituais, morais e políticos de maneira mais incômoda que a escrita. É porque a poesia de audição se agrupa na consciência e no imaginário da comunidade. As recorrências do discurso nas canções de gesta eram
163 ZUMTHOR, 1987. pp. 56 – 57. 164 Ibid., pp. 155 – 156.
facilmente reconhecíveis pela memória coletiva165. Quando Samico ouvia na infância as narrativas heroicas pela voz de um poeta, a relação sensorial com a poesia era a mesma dos medievais. Assim como a relação do artista com as imagens religiosas, no contexto das igrejas. De modo que o artista teve experiências sensoriais tanto com imagens como com textos da mesma maneira que os medievais tiveram. Podemos imaginar um menino, na década de 30, época na qual o rádio ainda estava numa fase incipiente, ouvindo as poesias épicas, imaginando os lugares nos quais as histórias aconteciam, imaginando os personagens e suas ações. Torcendo para Juvenal vencer o dragão e desmascarar o cocheiro pérfido para se casar com a princesa fiel a Deus. É muito provável que o menino se impressionava fortemente com as histórias e esperava ansiosamente por uma próxima audição, da mesma ou de outras histórias. A ausência de uma localização espacial e temporal da história, assim como a relação do tema com a memória coletiva, permite situar a história em qualquer lugar. Se considerarmos que as histórias com sua carga moral se fixaram na memória do artista, é muito provável que suas gravuras sejam a construção de um heroísmo, dos tempos medievais, que se projetou no tempo e no espaço.
A canção de gesta polarizava as impressões, os sentimentos e os pensamentos, preenchia o campo do imaginário, pois acontecia em uma condição propícia a uma audição clara e uma escuta atenta, em um momento de descanso. O cantor adaptava seu discurso a cada audição conforme as circunstâncias, o que determinava o volume e a duração do canto. O lugar e o meio da ação era a voz do cantor, na materialidade de sua amplitude e seu registro166. Contemporaneamente, a voz associada à poesia parece recuar na medida em que aumenta a importância da autoria. Atualmente encontramos com facilidade em bibliotecas ou em feiras de livros ou de artesanato os livretos com poesias, que podem compreender tanto um tema heroico, como no caso da história de Juvenal, como uma ampla variedade de temas que se referem até mesmo a questões contemporâneas, mas sobre os quais não nos debruçaremos nessa pesquisa. Porém, nas feiras, onde são vendidos os folhetos, dificilmente temos a oportunidade de presenciar um poeta a declamar sua poesia. Na sociedade contemporânea, encontramos a oralidade veiculada pela televisão e pelo rádio. Talvez a enorme facilidade encontrada hoje pelos poetas para publicar pequenas edições de uma obra de sua autoria tenha estimulado essa valorização da autoria. Mas acreditamos que a poesia
165 ZUMTHOR, 1987. pp. 172 – 173. 166 Ibid., p. 175.
perde a força que tinha para a sociedade, como tinha a poesia medieval, ao ser cada vez menos veiculada pela voz.