2.4 Equation of State
2.4.1 Multiparameter Equation of State
O discurso lírico e a narração cantada não particularizam o tema. No discurso lírico, o sujeito na primeira pessoa, transcende o indivíduo adquirindo um alto nível de generalidade. Na narração cantada, o sujeito na terceira pessoa tende a constituir a narrativa em ações. O poema fixa o sujeito, que mesmo ficticiamente é emprestado a uma história. A epopeia é a forma mais característica da narrativa cantada, mas não a única. Havia textos em língua vulgar ligados estreitamente aos rituais eclesiásticos. Nas narrativas cantadas, havia uma coincidência entre narração e ensinamento. Como as narrativas visuais das imagens medievais, havia narrativas cantadas com uma função didática e algumas com funções litúrgicas. Eram canções de santo, cuja tradição esteve presente na prática litúrgica dos séculos X e XI. Zumthor cita “la Chanson de saint Alexis”, na qual o santo é tratado como sujeito impessoal da narrativa, como acontecia antes com o ancestral morto, tornado divino e assimilado aos poderes sobrenaturais, de uma vida que pertence ao passado. A narração vincula a esperança de um retorno ao conteúdo moral da narrativa159. As canções de gesta não tinham uma função litúrgica, nem as poesias de cordel, mas ambas têm uma função didática moral. E se suas condições de transmissão não envolvem um ritual eclesiástico, dizem respeito a um ritual social. Um ritual que não ocorre a partir das regras escritas, como nos
158 Disponível em: <http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/leandro_pesquisa.html>. Acesso em: 10 mai. 2011. 159 ZUMTHOR, 1972. pp. 311 – 319.
mosteiros, mas de situações vivenciadas pelas pessoas, seja pelo poeta que se prepara para narrar a história, como para o público, que ouve com atenção e admiração um poeta que guarda longas narrativas na memória. Mas atentamos principalmente para o conteúdo moral da poesia laica, tanto das gestas como das poesias de cordel, que se fundamenta na moral cristã. É um conteúdo que corresponde à procura da religiosidade da sociedade laica. A “história de Juvenal e o dragão” adquire uma função didática ao vincular a moral cristã na narrativa e reflete a preocupação da sociedade que, assim como os medievais, procura uma vida religiosa guiada pelas virtudes como caminho para a salvação de suas almas. O tema da luta contra o dragão para libertar a princesa na história de Juvenal, que corresponde ao tema de são Jorge, remete à oposição entre o bem e o mal, encontrada na hagiografia do santo e ambas tem o mesmo sentido moral. As histórias se opõem na medida em que o santo era um nobre, um guerreiro, enquanto Juvenal é filho de um camponês pobre, mas que por meio de suas virtudes, e em nome de Deus, adquire reconhecimento e respeito da sociedade e busca seu caminho para a salvação.
Diferente dos santos aristocratas, Juvenal é um herói com o qual os ouvintes podem se identificar, alguém que, além da sua coragem, tem apenas seus cachorros, que por serem mágicos remetem os acontecimentos a um plano metafísico, de crença no sagrado. De uma maneira generalizada, segundo Zumthor, o tema das canções de gesta, em oposição às canções de santo, é o heroísmo. O herói surge do reconhecimento da sociedade de seu poder de ação. Que não procede mais de uma dinâmica externa, mágica ou divina, mas de uma fonte que reflete a imagem do homem. O herói existe no canto, mas também na memória coletiva, da qual participam poeta e público. Em geral se apóiam em uma distinção entre o bem e o mal, uma conotação religiosa com frequência transforma essa oposição em cristãos e pagãos. O sujeito generalizado compreende uma coletividade dispersa geograficamente, o sujeito é a própria coletividade representada por figuras imperiais como Carlos Magno. Nas gestas, a ação real adquire um modelo moral, mesmo que o sentido proposto pelo feito vivido subsista no discurso, ocorre no plano de uma alegoria latente160. A relação com o sagrado na história de Juvenal não se faz pelo aspecto ritualístico nem por uma presença do transcendente no herói, mas por uma fonte externa a ele. Juvenal é dotado de virtudes humanas, nas quais os membros do grupo podem se espelhar. A conotação religiosa é bastante evidente, diversos trechos da narrativa fazem uma referência direta à fé em Deus, indica uma forte religiosidade dos poetas, mas principalmente do grupo ao qual essa poesia se dirige. Pois a poesia não é
uma fonte externa dessa coletividade, mas uma manifestação cultural dela, e dessa maneira um reflexo de seu pensamento, de sua identidade. Por isso, mesmo sem ser um personagem sagrado, como um santo ou um imperador, o herói na história de Juvenal tem fé em Deus, é uma das virtudes que leva à salvação. Assim como o destino infeliz do dragão e do cocheiro foi devido à sua associação com o mal.
Segundo Zumthor, no período de maior extensão do sistema alegórico na Idade Média, podiam ser distintas quatro variedades de personificação. A primeira faz de um elemento abstrato, como fé ou justiça, um tema de ações humanas; a segunda, que coloca esse elemento abstrato em um contexto ambíguo, o faz cumprir uma função que pode ser de um ser humano ou de uma coisa concreta; a terceira faz da abstração uma coisa concreta e a quarta que, juntando uma qualificação moral a um elemento concreto, confere uma personalidade. Em todos os casos, a alegoria funciona de maneira idêntica, como uma glosa integrada ao texto. O objeto da alegoria é despojado do que tem de único e pessoal. A alegoria extrai um sentido indiscutível de um fragmento do real. Desde o final da Antiguidade, a alegoria, em latim, foi utilizada. Em língua vulgar, aparece desde o início do século XII. A partir dos anos 1190-1200, apresentou um grande desenvolvimento e penetrou no campo do discurso poético. Até o século XIV, compreendeu a poesia lírica e o teatro. No começo do século XIII, a alegoria se constituiu em função de uma oposição simples, como entre o bem e o mal: cada elemento, personificado, se torna um atuante da narrativa que se organiza em ações e qualificações simetricamente opostas161. Os personagens da “História de Juvenal e o dragão”, mesmo pertencendo a uma época moderna, parecem se constituir alegoricamente em elementos opostos, como o bem e o mal. Os elementos, como em boa parte da poesia medieval, personificam virtudes ou vícios. Juvenal se constitui no oposto do cocheiro que transportava a princesa até o dragão. Juvenal tem fé na princesa, que por sua vez se mantém fiel ao herói. Seu oponente, além do dragão, é o cocheiro traidor que tenta enganar a todos, mas é desmascarado no final. A luta contra o dragão atualiza o tema hagiográfico. Quem sabe poderíamos expandir essas referências geográficas a outras regiões, até mesmo imaginárias. Mas preferimos nos ater ao contexto espacial vivido por Samico, ou mesmo pelos poetas. O
161 ZUMTHOR, 1972. pp. 126 – 132. O autor procura diferenciar alegoria, símbolo e interpretação figurada. A alegoria constitui um discurso cujos elementos são facilmente reconhecidos, e que os relacione a outra realidade bem definida situada além do espectador. Na alegoria, um sentido moral evidente e monovalente está incluído no sentido literal, o símbolo possui uma relação obscura e polivalente dos patamares semânticos, opera uma
transferência do particular ao particular, a alegoria faz uma transferência do particular ao geral. A alegoria transforma um nome comum em um nome que envia a um sujeito de ações reais. A narração alegórica tem uma dignidade moral que orienta a decodificação. A interpretação figurada não comporta ficção, mas a crença em um plano de realidade superior.
herói, Juvenal, pode ser qualquer um, desde que seja virtuoso, que tenha a qualificação moral para isso. É um elemento que participa da memória coletiva de um grupo. Juvenal personifica virtudes como heroísmo ou fé, e o combate contra o dragão é uma ação que se constitui como uma representação de uma idéia abstrata, a luta do bem contra o mal.