2. Literature review
2.6 The Norwegian integration policy
Para mostrar que a argumentação serve para explicar o uso da língua, Carel (1997:23) refuta a concepção tradicional da retórica de que a argumentação no discurso é um procedimento e, por isso mesmo, passível de demonstração, cujo objetivo é estabelecer a verdade a partir da palavra portanto. Carel entende por “demonstração” enunciados isolados concebidos como verdadeiros e aceitáveis pelo locutor por duas razões: 1) os argumentos (A) são independentes da conclusão (C) e 2) essa conclusão é validada pelos argumentos precedentes, justificados por eles. Assim, há transmissão de sentido do argumento (A) para a conclusão (C) a partir de portanto. Em sua pesquisa, Carel estabelece que a descrição do uso de portanto não tem relação alguma com seu uso matemático e que a argumentação não é uma função descritiva da língua, nem uma justificativa para se chegar à conclusão.
Dispõe-se, então, da lei geral que liga A a C, isto é, a causa ao seu efeito: A→C. Partindo do enunciado proposto
Faz bom tempo: João deve estar contente
aprecia-se que o segmento faz bom tempo é definido tendo como base situações climáticas da realidade como temperatura, velocidade do vento, grau de umidade, entre outros. E são essas características capazes de despertar em João o sentimento de estar contente, daí a ideia de que a alegria de João está condicionada pela condições do tempo, um enunciado ligado, então, a uma lei físico-psicológica do mundo.
Utilizando-se de outro exemplo, refutando a condição de verdade e falsidade, Carel (1997:25) apresenta enunciados com as expressões pouco e um pouco:
Ele comeu pouco: assim, ele não vai melhorar (estou inquieta) Ele comeu um pouco: ele deve melhorar (estou contente)
Em uma situação factual, ambos os argumentos representam quantidade de comida insuficiente, conforme indica a lógica. No entanto, no sentido intralinguístico se percebe a distinção de sentido devido à orientação argumentativa das palavras:
Desenvolvendo essa ideia de que o sentido está no intralinguístico, Carel (1997) mostra que o posto também condiciona as palavras, orientando argumentativamente sua continuação, cabendo ao pressuposto reforçar aquilo que está dito:
Pedro parou de fumar: ele certamente vai jantar na área de não fumantes Pedro parou de fumar: ele vai economizar
A linguista francesa afirma ainda que palavras como parar, continuar, pouco, um pouco trazem consigo potenciais argumentativos e são elas que apontam para o sentido. O mesmo fenômeno linguístico acontece com as expressões quase e mal:
Pedro está quase acabando o trabalho: João não vai precisar esperá-lo por muito tempo
Pedro mal acabou o trabalho: João vai esperá-lo por um tempo
Com esses exemplos, evidencia-se o que Ducrot (2009) afirmara em seu artigo sobre Argumentação Linguística e Argumentação Retórica: é o próprio sentido do argumento que direciona para determinada conclusão, lembrando que de forma alguma se tem uma passagem de um estado para outro. É a orientação argumentativa que mostra quais continuações são permitidas ou não. Tendo esclarecido que a argumentação não é composta por dois segmentos semanticamente independentes, Carel (1997:31) os define como encadeamentos argumentativos, conforme os exemplos:
um pouco → continuação positiva
visto que as orientações argumentativas são diferentes
quase → continuação positiva mal → continuação negativa
visto que as orientações argumentativas são diferentes
Pedro é rico: ele deve ser feliz. Pedro encontrou Maria: ele deve ser feliz
Conforme Carel elucida, nesses exemplos, a referência de felicidade de um enunciado para outro é distinta, uma vez que no primeiro a razão da felicidade está relacionada à riqueza, enquanto na segunda ao fato de ser amado. Tem-se, então, uma relação entre o argumento e o sentido da conclusão.
Para mostrar o fato de que a conclusão determina o sentido do argumento, Carel apresenta os seguintes enunciados:
É tarde: o trem deve estar aí É tarde: o trem não deve estar aí
Nota-se que no primeiro enunciado o sentido proposto é o de que o trem chegou, uma vez que já é tarde, demonstrando que o tempo traz as coisas. Já no segundo enunciado, o trem partiu, significando que o tempo as leva. Vemos, então, que temos encadeamentos representativos de dois blocos semânticos distintos: A DC B e A DC neg B. Assim, o sentido de um segmento apenas pode ser completado pela presença de outro. Não se torna necessário nenhum tipo de interpretação, pois as próprias palavras demonstram qual caminho deve ser seguido. O enunciado É tarde: o trem deve estar aí é um encadeamento em portanto (DC) que exprime um bloco semântico, cujo sentido é chegar. Carel afirma ainda que os encadeamentos formados por portanto abordam o léxico de seus blocos em relação aos argumentos e às conclusões. De forma alguma se tem noção de verdade, pois os dois segmentos são semantizados conjuntamente, não há conteúdos isolados, pré-existentes ao encadeamento.
Outra característica dos encadeamentos em portanto é que eles exprimem um certo tipo de positividade ou de negatividade, uma qualidade que remete a um bloco
rico felicidade encontro felicidade
A orientação do argumento leva a determinada conclusão
semântico. Em É tarde: o trem deve estar aí e É cedo: o trem não deve estar aí se têm dois aspectos de um mesmo bloco semântico que exprimem a ideia de que as coisas chegam com o tempo, mas apresentam qualidades distintas, pois exprimem sentidos contrários. Esses sentidos contrários exprimem encadeamentos contrários. Veremos, no capítulo 5, que essas qualidades distintas pertencentes a um mesmo bloco podem ser compreendidas como a reciprocidade entre os aspectos. Sabemos que esses sentidos diferentes advêm da orientação argumentativa e da relação entre um segmento e outro.
Para explicar os encadeamentos em no entanto, Carel se utiliza do mesmo procedimento apresentado nos encadeamentos em portanto: encadeamentos em no entanto são enunciados argumentativos que têm uma certa qualidade e exprimem regras (bloco +qualidade), assim sendo A PT neg C e A DC C pertencem a um mesmo bloco, apresentando qualidades distintas ou semelhantes:
É tarde no entanto o trem não está aí É tarde portanto o trem deve estar aí.
Pedro é rico portanto ele é feliz
Pedro é rico, no entanto ele não é feliz
Ele comeu um pouco no entanto não vai melhorar Ele comeu um pouco portanto vai melhorar
Com esses enunciados, Carel ratifica como é estreita a relação entre DC e PT, reformulando conceitos fundamentados em Aristóteles: para o filósofo grego, a regra é constituída pela lei do mundo, para Carel é uma conjunção linguística entre bloco e qualidade. Explicando melhor, a linguista afirma que a relação que A PT neg C exerce em A DC C não é de um contraexemplo, como afirma Aristóteles, mas de exceção às regras: A DC C é um aspecto tópico de regularidade e A PT neg C um aspecto tópico de exceção. A retórica clássica toma A portanto C como uma afirmação implícita da regra e A no entanto não-C como uma transgressão dessa mesma regra, tendo o locutor atitudes distintas. Para Carel, os locutores adotam o mesmo ponto de vista, considerando a regra do qual eles se servem. Logo, os encadeamentos em portanto e em no entanto convocam blocos, regras, aspectos tópicos, construindo encadeamentos argumentativos. Cabe a esses encadeamentos em DC e PT desenvolver, por meio de
seus aspectos, as formas de representação já cristalizadas nas palavras e semantizá-las intralinguisticamente, descartando qualquer forma de categorização ou de pensamento.
Podemos destacar nessas reflexões apontadas por Marion Carel que sua inovação foi conceber a argumentação não só a partir de encadeamentos normativos, mas também de encadeamentos transgressivos, evidenciando a semelhança e a diferença como constitutivas da linguagem. Transpondo essa noção para a ANL, especificamente para a TBS, temos a semelhança representada por DC e a diferença representada por PT. Sublinhamos ainda que já se encontrava esboçada nesse artigo L’argumentation dans le discours:argumenter n’est pas justifier a relação conversa do primeiro bloco semântico: A DC C e A PT neg C, mas percebemos ainda a constância de alguns aspectos relacionados à lógica aristotélica e sua terminologia, como o aspecto tópico de norma e o aspecto tópico de transgressão. Percebemos que a constância do sentido intralinguístico, ideia central da Teoria da Argumentação na Língua, fez com que os teóricos criadores dessa teoria se distanciassem da lógica, elaborando uma teoria linguística propriamente semântico-argumentativa. Em seu artigo O que é argumentar?, Carel mostra o amadurecimento dessa perspectiva.
Primeiramente, para tentar definir argumentação, Carel (2001) recorre ao enunciado É perto portanto Pedro foi de bicicleta. Se considerarmos os enunciados É perto portanto Pedro utilizou um objeto de ferro e É perto portanto Pedro sentou-se em um objeto azul tem-se dois traços objetivos da bicicleta, não cabendo nenhuma atitude ao locutor em relação ao objeto. O que é essencial nesse enunciado é o percurso a ser traçado e não as características físicas da bicicleta. A relação entre perto e a necessidade de pegar a bicicleta é responsável por fornecer sentido e mostrar a atitude do locutor, por exemplo: É perto, portanto Pedro foi de bicicleta à escola. Podemos obter também um outro tipo de encadeamento advindo dos mesmos segmentos É perto PT Pedro não foi de bicicleta. Temos aqui, como vimos na página anterior, uma argumentação normativa e uma argumentação transgressiva que representam o mesmo bloco. Enquanto no encadeamento em portanto a pouca distância favorece o deslocamento, no encadeamento em no entanto a pouca distância descreve uma transgressão, uma vez que Pedro deveria ter ido.
Conforme Carel (2001:77), essa alternativa de utilizar a argumentação normativa e a argumentação transgressiva demonstra a profundidade de tal fenômeno linguístico, e
esse fator não se deve somente ao uso de portanto, mas à função estabelecida pelo conector mas, que orienta para determinado sentido. Nos enunciados Faz bom tempo, mas estou cansado e Estou cansado, mas faz bom tempo temos uma mudança significativa de sentido, mas ambos apresentam os mesmos princípios: um cansaço desfavorável para o passeio e o bom tempo favorável para o passeio. A diferença de sentido está no posicionamento do locutor: Faz bom tempo, mas estou cansado mostra que a impossibilidade de passeio devido ao cansaço é mais importante do que o convite ao passeio, enquanto Estou cansado, mas faz bom tempo mostra que o locutor pode fazer o passeio, independentemente de seu cansaço.
Utilizando uma estrutura linguística mais complexa, temos X mas também Y: Defenderei os interesses dos que votaram em mim, mas também dos que não votaram em mim.
Detalhando semanticamente o enunciado, Carel afirma que em um primeiro segmento tem-se X votou em mim DC defendo os interesses de X, sendo o seu recíproco X não votou em mim DC não defendo os interesses de X. No entanto, o recíproco abre para sentidos não previstos, visto que o mas mostra que mesmo aqueles que não votaram no candidato vencedor terão seus interesses defendidos. A essa característica peculiar de mas, Carel (2001) chama de discurso permutado, uma vez que a descrição tradicional de mas não dá conta do sentido proposto. Vemos, no entanto, que se configura aqui a relação transposta entre um segmento e outro, que será percebido pela estudiosa em 2005 com a Teoria dos Blocos Semânticos:
X votou em Y DC Y defendeu X (X DC Y) neg X votou em Y PT Y defendeu X (NEG X PT Y)
Nesse artigo, Carel demonstra que a argumentação se constitui de dois segmentos representados no uso dos encadeamentos normativos e dos encadeamentos transgressivos, determinando seu sentido. Logo, para a autora, a noção de inferência ou de progressão informativa não se mantém, porque os segmentos estão relacionados, valorados.
Notamos que tanto Carel quanto Ducrot reconhecem que a língua e seu uso não apresentam caráter lógico vinculado à realidade. Sabemos que as hipóteses externas da
ANL ancoradas em Platão, Saussure e Benveniste fizeram com que as hipóteses internas se modificassem, pois as HEs são imutáveis e as HIs passíveis de mudança. Os dois últimos capítulos desse estudo Teoria dos Topoi: uma teoria anti-logicista e Teoria dos Topoi e Teoria da Argumentação na Língua vão mostrar como ocorreu a transição da Teoria dos Topoi para a Teoria dos Blocos Semânticos devido às hipóteses externas, evidenciando que a ANL nunca foi uma teoria da lógica, mas uma teoria do sentido na língua.
Referindo-nos especificamente ao capítulo 4 denominado Teoria dos Topoi: uma teoria anti-logicista, podemos notar que a Teoria dos Topoi se diferencia da lógica de Aristóteles e seus seguidores, pois ela atribui o conceito de lógica à linguagem, tentando se afastar daquela lógica que considera a realidade para constituir sentido. Veremos no decorrer do capítulo 4 que essa lógica na linguagem se torna um ponto de vista diferente daquele proposto pela lógica tradicional, evidenciando a possibilidade de semantização através das palavras.
Figura 38: Argumentação Linguística de Carel
Fonte: Figura elaborada pela autora
A argumentação linguística de Marion Carel está ancorada na relação e é a partir da orientação argumentativa que nota-se esse caráter relacional por meio das possibilidades ou impossibilidades de continuação do enunciado. Seguindo os passos de Ducrot, Carel refuta a noção de argumentação proposta por Aristóteles e concebe a argumentação por meio do linguístico.
Figura 39: Argumentação Linguística de Carel – parte II
Fonte: Figura elaborada pela autora
Nesta figura, vemos que a argumentação linguística está na relação e essa relação é representada por encadeamentos argumentativos em portanto (DC) e em no entanto (PT), isentos de acepção matemática, de descrição linguística e de justificativa por meio da passagem do argumento para a conclusão. É a partir da relação entre os segmentos que o enunciado adquire sentido.