5. Analysis and hypotheses testing
5.2. Testing the effect of asymmetric-power relationshipon TCE
5.2.1. Requirement of multivariate analysis
5.2.2.1. The measurement model for weaker-held and stronger-held specific
A educação escolar moderna na qualidade de uma das organizações mais importantes para o processo específico de humanização alçou, talvez, um dos mais altos graus na valorização institucional, aclamada por guerras e revoluções liberais que destronaram a aristocracia em favor da burguesia; condecorada a formar o chamado homem moderno, cujo decurso histórico o transformou e o transforma em contemporâneo; definido como o ser humano “apto” a responder hegemonicamente, e, por vezes, contra-hegemonicamente, às demandas (sociais, políticas, econômicas e culturais) requeridas pela sociedade capitalista.
Desse modo, historicamente puderam ser inscritas mudanças na educação escolar, de uma educação definida e difundida para poucos, para uma defendida para “toda a população”, ainda que, em sua história permanecesse por muito tempo, no discurso e distante de ser pública e gratuita para todos. E, nesse percurso de transformações a educação promulgada às
pessoas com deficiência teve a mesma marca, ainda que num volume muito menor, assim, inicialmente aconteceu voltada, muito mais, à elite dominante e depois defendida como um direito de todos.
O modo de produção capitalista provocará decisivas mudanças na própria educação confessional e colocará em posição central o protagonismo do Estado, forjando a idéia da escola pública, universal, gratuita, leiga e obrigatória, cujas tentativas de realização passarão pelas mais diversas vicissitudes. (SAVIANI, 2007a, p.157).
O projeto de escolarização próprio da era moderna, como uma alternativa às poucas práticas (instituídas) pedagógicas medievais, não surgiu de modo desavisado. Antes de expandir-se e consolidar-se, como política oficial dos emergentes estados nacionais, esse modelo já avançava progressivamente, mediante o processo de construção da modernidade, impulsionada por uma Europa reformada, dualizada entre catolicismo e protestantismo.
No arcabouço deste dilema, em se tratando da área educacional, pode ser visto germinar a substituição do modus italicus de ensino pelo modus parisiensis. Tal mudança significou caminhar rumo ao alcance de uma nova organização escolar, a qual desintegrou as áreas de conhecimento, especializando-as e, em paralelo, também fragmentou o tempo de formação escolar, o qual passou a ser realizado e organizado em séries, anos, ciclos etc.
O modelo de organização escolar que, em geral, constitui o atual e hegemônico sistema de ensino, podemos dizer que é o seriado. Sendo que este dá forma e vida aos currículos escolares e, tem a meritocracia como elemento essencial à sua manutenção, consubstanciada por meio de avaliações que abonam o sucesso ou fracasso escolar. Este sistema, com o discurso de democracia e de igualdade, versa o fundamento para justificar, como correto/adequado/justo, as posições sociais e políticas dadas pela nova sociedade emergente e, assim, mantê-las.
Curiosamente, a origem desse sistema de ensino pode ser visto no trabalho educacional empregado pelos jesuítas, ou seja, paradoxalmente, representantes católicos contribuíram para a elaboração e expansão de um modelo de organização didática do ensino escolar que levou a bancarrota o sistema educacional medieval.
Compreendemos que o modus italicus de ensino, consistia num método pedagógico cuja aprendizagem ocorria através de uma relação individual entre preceptor e discípulo, orientado para a realização de um trabalho educativo “artesanal”, do mesmo modo que as escolas do mundo antigo. (ALVES, 2005, p.22). Método esse que representou as primeiras
tentativas (não institucionalizadas) – individuais e reservadas à elite, – de escolarização das pessoas com deficiência.
Para melhor compreender essa forma de ensino, trazemos que o modus italicus de ensino,
Caracterizava-se por não seguir um programa estruturado e nem vincular a assistência dos discípulos a determinada disciplina. Esses podiam passar de uma a outra disciplina sem necessidade de preencher qualquer tipo de pré- requisito. Basicamente esse método implicava a presença de um preceptor que ministrava instrução a um conjunto de discípulos que eram reunidos independentemente das eventuais diferenças de níveis de formação e das idades de cada um. No entanto, já que as diferenças existiam, lançava-se mão de estudantes mais adiantados ou de instrutores para acompanhar os discípulos em fase de iniciação (SAVIANI, 2008, p.52).
Diante das características anunciadas, evidenciamos que no ensino utilizavam, no período, de técnicas empregadas pela produção artesanal, por isso, um mestre arcava com a formação integral de seus discípulos, do começo ao fim, como um todo. Ensinava, portanto, a ler, escrever, contar e responsabilizava-se por sua formação humanística, filosófica, ética, religiosa, física, matemática etc.Desse modo, mesmo que diversos mestres se reunissem em um mesmo espaço, chamado escola, eles continuavam ensinando seus discípulos de modo avulso. Eram artesãos da educação, generalistas e independentes e, não especialistas manufatureiros do ensino.
Portanto, o mundo ocidental não havia inventado, ainda, a divisão didática do trabalho educativo, principal característica da escola moderna, que passou a existir através do modus parisiensis de ensinar; o qual pôs fim ao modus italicus e à escola antiga e medieval, por ser “o germe que impôs uma incipiente forma de divisão do trabalho ao conjunto do trabalho didático” (ALVES, 2005, p.39). Notamos aqui que a educação escolar não acontece desvinculada do modo de produção de bens materiais existente na sociedade e nem da forma de sua organização, de maneira a refleti-los no modo como se produz o conhecimento.
Enfim, o processo de substituição do modus italicus pelo modus parisiensis de ensinar, surgiu da necessidade de superar um ensino individualizado e artesanal, por um coletivo e manufatureiro, ocasionando uma tensão histórica entre esses dois modelos, propiciada pela decomposição do feudalismo. Com as mudanças ocorridas na sociedade eram requeridas modificações também na forma de organizar e realizar o ensino.
Podemos ver na história de constituição e expansão do modus parisiensis, que representava, dentre outros, a disputa por poder, que também se instaurava na educação
escolar. A Igreja Católica, compelida frente ao avanço da reforma protestante e do mercantilismo, em 1534, cria a Companhia de Jesus, liderada pelo Pe. Inácio de Loyola, a qual buscava, por meio da educação, uma forma eficiente de “contra-atacar” os reformistas; momento em que a educação escolar ganha um forte peso político e ideológico, levando-a a não mais organizar-se de modo esporádico ou casuístico. (ALVES, 2005, p.56)
Os fundadores da Companhia de Jesus criam diversas escolas que passam a utilizar-se do modus parisiensis de ensino. O contato com essa forma de ensino ocorreu por meio dos estudos na Universidade de Paris, empregado durante uma reforma realizada por Pedro Crockaert (um escolástico do início do século XVI), que estabeleceu a prática de reunir e distribuir os estudantes de acordo com seus níveis de domínio de estudos. Criam-se diferentes níveis para distintos alunos em suas capacidades e domínio de conhecimento, distribuídos nas “etapas” equivalentes aos mesmos, numa direção à gradual homogeneização dos grupos, das classes escolares.
Com esta nova direção na Universidade de Paris,
Foram, então, organizadas classes homogêneas, e os educadores começaram a se responsabilizar por certas matérias e por certos níveis de escolarização. No exercício do magistério, começam, portanto, a especializar-se. Ao mesmo tempo, como decorrência, as salas de aula passaram a configurar-se com precisão (ALVES, 2005, p.109).
Desde 1548, com a fundação da primeira escola jesuítica, em Messina, localizada na Cecília, Itália, a Companhia de Jesus passou a usar o modus parisiensis de ensinar, o qual ganha forma definitiva na Ratio Studiorum. Documento que institucionalizou a pedagogia dos jesuítas, através de 467 regras que englobavam todas as atividades de ensino e dos profissionais, diretamente ligado ao ensino jesuítico: provinciais, reitores, prefeitos de estudos ou supervisores, professores, disciplinas, provas escritas, prêmios, castigos, bedel (inspetor da disciplina e da ordem), alunos etc. (SAVIANI, 2008).
Assim, os colégios dos jesuítas agruparam os alunos em classes distintas, segundo níveis de capacidade ou adiantamento nos estudos, gerando uma homogeneidade dentro das classes. O método permitia diferentes professores assumir diferentes classes, ministrando disciplinas distintas.
Desse processo, resultou, com o tempo, a fixação de níveis de escolarização, que desencadeou a elaboração de planos ou programas de estudos de alcance horizontal e vertical, extremamente uniformizados e obrigatórios. (ALVES, 2005). Sob o nosso olhar, ao longo do tempo, tal processo acabou também por contribuir com a divisão e identificação dos alunos
considerados “mais fracos” e incapazes de acompanhar os níveis definidos como adequados e esperados, numa homogeneização das classes escolares e possivelmente colaborou para a “identificação” dos alunos ditos deficientes.
A nova didática criou o que atualmente denominamos de escola tradicional. Castigava os faltosos, estimulava a delação, premiava e condecorava aos talentosos que seguiam regularmente os estudos aprofundando-se nas áreas que melhor se saíssem. Ao mesmo tempo, os alunos poderiam receber anos adicionais de estudos e, ao final, defender teses e receber títulos. Uma prática, à época, extremamente nova que buscava revelar e incentivar talentos através do esforço pessoal e, não necessariamente por dons naturais ou divinos (ALVES, 2005). Configurando por outro lado, uma nova forma de compreender o homem, bem como, sua capacidade, podendo ser visto como um ser ativo, detentor de (in) capacidades, “de seu próprio destino”.
Enfim, a partir dos Jesuítas, a escola ganha, paulatinamente, visibilidade, “independência e autonomia”, emergindo uma nova arquitetura escolar, com salas de aula e espaços próprios para a administração. Aos poucos a Igreja passa a ser um apêndice das escolas, invertendo a lógica medieval, sobretudo, a de durante o período da escolástica, com um espaço institucional que reúne sob o “mesmo teto”, seminaristas e leigos, os quais buscavam alcançar formação humanística e estudos superiores.
Portanto, a Ratio Studiorum, pode ser considerada como precursora de uma racionalidade manufatureira pedagógica que criou “[...] uma organização escolar da qual ainda somos herdeiros e cujos desdobramentos redundaram em problemas crônicos como a seletividade, o fracasso escolar e a exclusão (SOUZA L, 2010, p.115-116). Seletividade que afeta diretamente aqueles alunos que de algum modo não conseguem acompanhar este modelo de ensino e de organização escolar, implicando posteriormente a necessidade de uma modalidade de ensino específica aos mesmos.
Compreendemos que
O modus parisiensis contém o germe da organização do ensino que veio a constituir a escola moderna, que supõe edifícios específicos, classes homogêneas, a progressão dos níveis de escolarização constituindo as séries e programas seqüenciais ordenando conhecimentos ministrados por determinado professor (SAVIANI, 2008, p.52).
Os Jesuítas pressionados por um momento histórico específico se lançaram na missão de educar as novas gerações, através de uma didática moderna (mas com um conteúdo medieval) que os colocou na vanguarda de um processo que resultou na produção da escola
moderna – em nível didático. Por isto, o êxito educacional da Companhia de Jesus, para fins de consolidação do mundo moderno é imensurável. Francis Bacon, precursor do empirismo e da moderna pesquisa científica e experimental, considerou o ensino dos jesuítas como o mais avançado em relação à época. (ALVES, 2005, p.57-58).
O fato é que os jesuítas, no início do século XVI, ao expandirem a divisão manufatureira do trabalho didático nas escolas, se anteciparam em quase um século a pedagogia moderna, posteriormente consagrada e sistematizada na obra Didáctica Magna, de João Amós Comênio ou Comenius (1592/1670), publicada em 1627.A citada obra rendeu a Comenius o título de “Pai da Didática Moderna”, a qual foi apresentada como um “Tratado da Arte Universal de Ensinar Tudo a Todos”, por propor um modelo de ensino que contrariava uma organização escolar elitista, privilégio de aristocratas e religiosos do sexo masculino e, fortemente cerceadora de conteúdos e saberes.
Segundo o autor, a Didática Magna, se constituía num processo seguro e excelente de instruir para a vida futura e presente; com economia de tempo, prazer e solidez; podendo ser oferecida em todos os lugares, a todos os gêneros, a nobres e plebeus. O que implicava a utilização de estudos que buscassem a verdade na natureza das coisas mecânicas e não em discursos de autoridades; que pudesse dividir o curso dos estudos em anos, dias, meses e horas. (COMENIUS, 2001).
Considerando a educação como algo necessário, a escola como uma importante instituição e o ensino como uma atividade possível e fácil, criticou o ensino de sua época: faltavam escolas, as existentes não recebiam a todos e ensinavam mal. Afirmou: “não são escolas, são padarias” e, seu violento método as converte em “espantalhos das crianças, ou câmara de tortura da inteligência” (COMENIUS, 2001, p.147).
Para Comenius devia-se ensinar de acordo com o desenvolvimento e capacidade das crianças, nada contra a vontade delas, com delicadeza e doçura, “'sem pancadas”, “sem violência”, “sem desgaste” ou “barulho” (COMENIUS, 2001). Na perspectiva do autor, a escola deveria ser, pois, “uma oficina de homens”, semelhante à educação dada aos artesãos e operários que fixam “[...] aos seus aprendizes um certo tempo (dois anos, três anos, etc., até sete anos, conforme a sua arte é mais sutil ou mais complexa), e, [...] cada um, depois de instruído em tudo o que diz respeito àquela arte de aprendiz, torna-se oficial da sua arte e depois mestre”. (COMENIUS, 2001, p.458).
Comenius em resposta a um mundo que necessitava escolarizar rapidamente a um grande número de pessoas e ensinar coisas úteis “[...] procurou desenvolver um método capaz de ensinar tudo, o mais rápido possível, a um maior número de pessoas, com o menor gasto
possível”. Por isso elaborou um método caracterizado “[...] pela possibilidade de um único professor ensinar menos e os alunos, em maior número aprenderem mais, em menos tempo”. (PILETTI; ROSSATO, 2010, p.19). Poderíamos ver traços do período de produção industrial que germinava naquele período e que requeria mais agilidade na fabricação de produtos e na “formação” de pessoas.
Para tanto, a organização escolar deveria funcionar sob o aspecto de um relógio, ensinando tudo gradualmente, sem saltos, com a distribuição de professores por matérias, e os alunos em classes e, difundindo “[...] meticulosamente o tempo, de modo que a cada ano, mês, dia e hora seja atribuída a sua tarefa especial”; devendo observar “[...] estritamente esse horário e essa distribuição das matérias escolares, de modo que nada seja deixado para trás e nada seja invertido na sua ordem.” (COMENIUS, 2001, p. 225-227)
A partir de Comenius, a relação ensino-aprendizagem de acordo com Gasparin (1998, p.123) volta-se ao desenvolvimento da liberdade, da igualdade e dos “[...] interesses individuais de quem aprende, uma vez que as relações sociais capitalistas emergentes exigiam mão de obra diversificada”, e qualificada. No Capítulo XIX, denominado de Fundamentos para ensinar com vantajosa rapidez, Comenius (2001, p.297-298) afirma:
[...] quanto mais numerosos forem os alunos, tanto maior prazer e utilidade sentirão (para todos os que trabalham constitui um grande conforto ter muitos companheiros de trabalho), uma vez que se estimularão e se ajudarão mutuamente, pois também esta idade sente os estímulos da emulação. [...] Numa palavra, assim como o padeiro, com uma só fornada de massa e aquecendo uma só vez o forno, coze muitos pães, e o forneiro, muitos tijolos, e o tipógrafo, com uma só composição, tira centenas e milhares de cópias de um livro, assim também o professor, com os mesmos exercícios, pode, ao mesmo tempo e de uma só vez, ministrar o ensino a uma multidão de alunos, sem qualquer incômodo. Do mesmo modo que vemos também que um só tronco é suficiente para sustentar e embeber de seiva uma árvore, por mais ramos que ela tenha, e o sol é suficiente para fecundar toda a terra.
Lancillotti (2003, s/p) ao trazer a luz os preceitos educacionais de Comenius aponta que o teórico defendia a possibilidade dos mais lentos serem atendidos em conjunto com os mais ágeis, desde que guiados pelos mesmos exemplos e regras. E complementa que:
Se o mestre artesão, a seu tempo, voltava-se para o atendimento individualizado de seu discípulo, o professor especialista, por sua vez, passou a utilizar ferramentas, como o quadro de giz e o livro didático, que lhe permitiram atender coletivamente a todos os alunos. A escola contemporânea homogeneizou o ensino. Tal qual a manufatura, a oficina de homens forja seu produto em grande quantidade e a partir de padrões de qualidade pré-determinados.
Assim, a educação para pessoas com deficiência, que se encontravam fora da norma, se estabeleceu em separado. Aos que erigiram a escola pareceu preferível não comprometer o funcionamento da máquina perfeita. Consideraram que essa educação poderia ocorrer em outra instância. Propôs- se, então, a criação de um relógio mais lento, para usar de um eufemismo. Como nas relações de produção que se instauravam, era preciso agilizar o processo de ensino, de maneira a ensinar um maior número de alunos, o que afetava diretamente aqueles que não aprendiam no tempo colocado pela “máquina de ensinar”. Assim a atividade docente se configurava para aqueles que seguiam o curso e o tempo do relógio e progressivamente iam sendo discriminados os indivíduos fora do ensino, do mercado.
Assim, como explica Lancillotti (2008, p.100), denota-se o surgimento e a paulatina consolidação da atividade de ensino como, “uma atividade especializada, marcada por conhecimentos particulares tendentes à sistematização dos processos pedagógicos”. Vemos também ao longo de século XVII, com as transformações do processo de ensino, com a ciência moderna, com o fortalecimento do capitalismo, o desenvolvimento da “Escola Moderna, que passaria a apresentar estrutura e programas racionalizados tendo reconhecida sua função civil”. (p.109)
A escola, os professores necessitavam adequar-se a ordem vigente de produção, razão pela qual passam a ser defendidas e incorporadas as premissas das fábricas na educação escolar. Ideias e concepções como as de Comenius, deram bases teóricas para que surgisse, em fins do século XVIII, o chamado ensino mútuo, que perdurou até fins do século XIX, quando foi substituído pelo avanço (aperfeiçoamento didático e organizacional) das escolas seriadas.
O método do ensino mútuo, também conhecido de método inglês de ensino, ensino monitorial ou método lancasteriano, difundia-se com a possibilidade de escolarizar em menos de um ano cerca de mil alunos, de uma única vez, com um só professor e num mesmo espaço educacional.Escolarizava em série ou em massa e incorporava o modus da fábrica, da indústria, que tinha a ajuda direta dos próprios alunos (monitores). De acordo com esse método a escola constituía-se em uma singular e enorme “[...] sala de aula (um barracão ou grande salão) dividida em diversas classes sem biombos ou paredes – classes formadas apenas por bancos ou assentos escolares que, colocados em fileiras, agrupavam lado a lado os alunos, segundo seu nível de adiantamento e escolarização” (PILETTI; ROSSATO, 2010, p.19). A divisão dos mais capazes, ágeis e “espertos”, dos que assim não se mostravam, já era notada e prescindia a nova ordem mercantil, com a qual os trabalhadores – professores necessitavam também se adequar.
Em suma, o método teve uma grande aceitação, considerado à época um sucesso, mostrou-se conveniente a um mundo que se modernizava e se industrializava e que precisava de indivíduos formados e aparelhados para tal, preparados para a nova forma de trabalho. Foi elogiado pelo filósofo Hegel, ganhou o mundo, tendo sido utilizado em países como Suécia, Inglaterra, Rússia, Portugal, chegando até a África, Oceania e América do Sul, no Chile e no Brasil. Em nosso país foi oficialmente adotado como método de ensino, definido na Lei das Escolas de Primeiras Letras, em 1827. (PILETTI; ROSSATO, 2010).
Destarte, esse projeto de ensino, voltado a “pôr ordem ao homem” por meio da educação, com o fim de estabelecer ordem no mundo, transformou-se em “[...] uma arma contra o feudalismo e o pensamento pedagógico escolástico, predominantes até então” (GASPARIN, 1998, p.123). Além disso, houve a definição de um ensino prático e o império do manual didático para o professor e para o aluno em sala de aula, para que não se discuta os clássicos, nem tenha debates prolongados etc., e para que haja disciplina “[...] de modo que obedeçam com prontidão ao menor sinal do professor”. (COMENIUS, 2001, p.237 e Capítulo XIX - Fundamentos para ensinar com vantajosa rapidez). Portanto, a reforma da Universidade de Paris e os colégios dos jesuítas contribuíram diretamente para lançar a escola moderna, em sua atual organização e forma didática.
Todavia, coube à Reforma Protestante, através de Comenius, inspirado em Lutero, conceder ao ensino forma e conteúdo, ao sistematizar a teoria pedagógica que dominou a escola moderna e a produção ideológica da subjetividade humana moderna. Ou seja, um ensino gradual ou por etapas com classes homogêneas, ensino simultâneo (ensinamento coletivo), unificação de métodos e programas de ensino, um só professor por matéria ensinando a centenas de alunos. Assim, estava sendo orquestrada como deveria se organizar a atividade docente, a quem os professores caberiam ensinar e as relações de trabalho a serem estabelecidas, as quais deveriam se enquadrar na sociedade de classes antagônicas que se