3.10 Bay of Biscay and Western Iberia
3.10.2 The major effects of the ecosystem on fisheries
Conforme apresentado no tópico anterior, a observação é considerada o primeiro e mais importante procedimento no início da pesquisa qualitativa. De acordo com Cunha (2007, p. 64), “observar é o ato primeiro de fazer ciência”, pois ela é que permite a identificação do problema e a elaboração das questões de pesquisa. Para a autora, a observação pode ser sistemática e assistemática. O primeiro tipo de observação, além de não prever a participação do pesquisador em nenhum momento da pesquisa, os aspectos a serem observados são pré-selecionados pelo pesquisador. O segundo tipo pode ser participante ou não-participante. Esse último não implica envolvimento do pesquisador com o grupo observado, mantendo-se na postura de espectador.
Na observação participante, o pesquisador não somente participa da comunidade como assume um papel em seu interior. “Esse tipo de observação nos permite transitar entre os olhares de interioridade e alteridade no conhecimento da vida dos sujeitos observados, ou mesmo de aspectos dessa vida” (CUNHA, 2007, p. 65). Outro aspecto importante da observação participante, apontado pela autora, é que esse tipo de procedimento pode ser natural, quando o pesquisador é membro da comunidade, e artificial, quando ele passa a tomar parte na comunidade para investigá-la.
Considerando o contexto desta pesquisa, a observação das aulas foi do tipo participante, embora não fosse essa a proposta inicial. A observação tornou-se participante na medida em que as relações de confiança foram se estabelecendo entre a pesquisadora e os participantes. Isso provavelmente ocorreu devido ao fato da pesquisadora ser brasileira, assim como a professora do grupo. Em momentos de dúvidas na ausência momentânea da professora, os aprendizes sentiam-se confiantes em saná-las com a pesquisadora.
Na definição de Vieira-Abrahão (2006, p. 226), a observação participante é aquela em que o pesquisador “torna-se membro do contexto pesquisado” e, ao mesmo tempo que observa o grupo, observa-se. A autora afirma que a natureza da pesquisa em contexto de aprendizagem implica um pesquisador participante. Com base também na afirmação de Vieira-Abrahão (2006), inferimos novamente que esta pesquisa iniciou-se com a observação não-participante, mas em face do contexto de sala de aula, e o possível fato da pesquisadora ser professora e também falante nativa de português, a interação com os aprendizes e com a professora do grupo se tornou mais próxima.
Essa mesma autora, ao discorrer sobre os tipos de observação, afirma que normalmente esse procedimento é acompanhado, entre outros instrumentos, por notas de campo. Esse instrumento é utilizado nas pesquisas qualitativas, pois são formas de registrar “relatos de informação não-verbal, ambiente físico, estruturas grupais e registro de conversas e interações” (VIEIRA-ABRAHÃO, 2006, p. 226).
Bogdan e Biklen (1994, p. 163) propõem um roteiro para registro das informações em notas de campo, que são divididos em duas modalidades: Descritivas e Reflexivas. Segundo os autores, as notas descritivas devem contemplar os seguintes aspectos:
1. Retrato dos sujeitos: Descrição física e comportamental; aspectos particulares das pessoas; reações diante de determinadas situações.
2. Reconstrução dos diálogos: Inclui o cuidado no registro escrito das falas dos participantes e do pesquisador, separando-as umas das outras e respeitando o que for fala literal do que o pesquisador se lembra de ter escutado. Gestos e expressões também devem ser registrados.
3. Descrição do espaço físico: Implica descrição detalhada do ambiente de pesquisa. 4. Relatos de acontecimentos particulares.
5. Descrição das atividades desenvolvidas em aula; 6. Descrição do comportamento do observador.
Esses itens são sugeridos pelos autores para orientar o pesquisador a registrar os dados objetivamente. A proposta é que o investigador, seguindo essas diretrizes orientadoras, possa ser preciso, considerando as limitações e objetivos da investigação. Sobre isso, os autores afirmam:
Sabendo que o meio nunca pode ser completamente capturado, ele ou ela [pesquisadores] dedicam-se a transmitir o máximo possível para o papel, dentro dos parâmetros dos objectivos de investigação do projecto (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 163).
No que tange à parte reflexiva, as notas devem conter as seguintes informações:
1. Reflexão sobre o método adotado para realização do estudo: nesse tópico os autores sugerem que o pesquisador anote as estratégias e procedimentos estabelecidos para prosseguir com o estudo. Essa também é a parte em que devem ser anotados comentários sobre a relação com os sujeitos; avaliar o que foi realizado e o que ainda deve ser feito.
2. Reflexões sobre conflitos e dilemas éticos, se houver.
3. Reflexões sobre o ponto de vista do observador: Ainda que devam ser evitados, os autores afirmam que os pesquisadores começam os estudos com pressupostos, crenças, ideologias, estereótipos sobre o objeto de estudo, sobre os sujeitos, que podem ser confrontadas com a realidade que emerge durante a observação e produção dos dados. 4. Simples comentários que clarifiquem alguma nota confusa, correção de erros sobre as
informações anotadas, etc.
Nas notas de campo desta pesquisa buscamos seguir as diretrizes sugeridas por Bogdan e Biklen com a finalidade de registrar a maior quantidade de informações do modo mais objetivo possível.
Outro instrumento utilizado nesta pesquisa foi o questionário elaborado com questões abertas e questões fechadas. Conforme discutido no tópico anterior, o questionário é um instrumento bastante importante para a pesquisa em Representações Sociais, principalmente quando acompanhado de entrevista.
Vieira-Abrahão (2006) afirma que o questionário é um instrumento que, embora fácil de aplicar, requer tempo e cuidado consideráveis durante a elaboração. Os
questionários podem conter itens fechados, itens em escala e itens abertos ou, até mesmo a combinação desses elementos. A escolha por um ou mais itens depende dos objetivos do estudo. Segundo a autora, a vantagem desse instrumento é a facilidade de aplicação, o fato de ser possível aplicar a um grande número de participantes e a possibilidade de obtenção de dados quantitativos. No entanto, as nuances das respostas dos respondentes não são possíveis de serem analisadas, mesmo no caso de questões abertas, em que o participante deveria responder com suas palavras.
A descrição do questionário como instrumento de pesquisa, de acordo com Cunha (2007), converge com a definição dada por Vieira-Abrahão. Segundo ela, os questionários podem ser elaborados com questões abertas, fechadas ou relacionadas. As questões fechadas permitem ao pesquisador obter respostas pontuais e objetivas, uma vez que o participante tem opções limitadas de escolha de resposta. As perguntas relacionadas “amarram” uma resposta à outra e podem tanto ser abertas como fechadas. Por exemplo, um respondente precisa ter respondido sim ou não na pergunta anterior para responder a seguinte. Cunha (2007) enfatiza ainda que os questionários, apesar de serem práticos e permitirem obtenção de grande quantidade de informações, podem ser limitados e precisar ser complementados com entrevista.
De acordo com Vieira-Abrahão (2007, p. 222), em pesquisas que têm por objetivo explorar percepções pessoais e opiniões dos participantes, que precisam de respostas mais detalhadas, os questionários são, geralmente, elaborados com itens abertos. Os questionários mistos, como o aplicado nesta pesquisa, têm sido utilizados com a finalidade de levantar informações pessoais, profissionais e “até mesmo crenças”.
Nesta pesquisa utilizamos questionário com questões abertas, fechadas e relacionadas. Associada ao questionário e às notas de campo, utilizamos a entrevista com roteiro semi-estruturado como instrumento de produção de dados. Desse modo, além de complementarmos as informações obtidas utilizando mais de um instrumento de produção de dados, nos certificamos da validade da pesquisa, por meio da triangulação dos dados.
Bogdan e Biklen (1994) definem a entrevista como uma conversa intencional, cuja finalidade é a obtenção de informações sobre o entrevistado e/ou o objeto de estudo. A vantagem da entrevista na pesquisa qualitativa é a possibilidade de produzir dados descritivos na linguagem do participante. Vieira-Abrahão (2006) destaca três tipos de entrevista: estruturadas, semi-estruturadas e livres.
As entrevistas estruturadas assemelham-se ao questionário, pela característica das questões que, segundo a autora, são “especificadas com antecedência e apresentadas na
mesma ordem no momento de interação” (VIEIRA-ABRAHÃO, 2006, p. 223). A entrevista semi-estruturada caracteriza-se por ser mais flexível, apesar da estrutura geral que apresenta. Nesse tipo de entrevista, as questões são orientadoras do trabalho do pesquisador. Por fim, há ainda a entrevista livre, que é baseada em tópicos orientadores da investigação, mas tem características de uma conversa livre. O foco é obter o maior número de informações e ter uma visão ampla do contexto e do objeto de estudo (VIEIRA-ABRAHÃO, 2006).
Essa autora aborda os instrumentos de pesquisa sob a perspectiva da investigação de crenças e defende que a entrevista constitui um instrumento privilegiado, pois é por meio dele que os respondentes têm a oportunidade de elaborar e refletir sobre suas respostas.
Cunha (2007, p. 72) apresenta um elemento que não havia sido mencionado pelos outros autores referidos neste tópico: a emoção. Segundo ela, “a entrevista é um procedimento que permite a obtenção de informações sobre assuntos complexos e, até, emocionalmente carregados”. No momento da entrevista o pesquisador tem a possibilidade de verificar os sentimentos atrelados às opiniões dos entrevistados. Para a investigação em Representações Sociais a possibilidade dessa constatação nos dados tem bastante relevância.
A autora também classifica o instrumento em três tipos: estruturada, semi- estruturada e informal. A definição de entrevista estruturada vai ao encontro da perspectiva de Vieira-Abrahão (2006). A semi-estruturada parte de um roteiro pré-estabelecido, e permite ao entrevistador alterar perguntas ao longo da interação, caso seja necessário. A entrevista informal é assim denominada, pois pode ocorrer sem que o entrevistador marque hora ou dê algum aviso ao entrevistado, e acontece como conversas informais (CUNHA, 2007).
Além dessas mesmas características da entrevista, Bogdan e Biklen (1994, p. 136) fazem outros apontamentos sobre a atuação do entrevistador e a relação com os entrevistados. Eles afirmam que a “boa entrevista caracteriza-se pelo facto de os sujeitos estarem à vontade e falarem livremente sobre seus pontos de vista” e “um bom entrevistador comunica ao sujeito o seu interesse pessoal, estando atento, acenando com a cabeça e utilizando expressões faciais apropriadas”.
Nesta pesquisa utilizamos a entrevista com roteiro semi-estruturado, o que nos permitiu modificar e/ou retirar questões, o que foi necessário em alguns momentos, considerando a história e as experiências do participante em relação à pergunta.
Para produção dos dados para esta pesquisa utilizamos três instrumentos: notas de campo, com base na observação participante; questionário misto, com questões abertas, fechadas e relacionadas, e entrevista com roteiro semi-estruturado. Os três instrumentos foram
elaborados a partir do objetivo da pesquisa, do contexto sócio-histórico dos participantes, e também a partir das falas dos aprendizes durante as aulas ou, até mesmo, nos corredores do Centro Cultural e da Embaixada do Brasil.
No tópico seguinte apresentaremos o Centro Cultural Brasil-África do Sul, contexto de realização desta pesquisa e os procedimentos para a produção dos dados.